Onde trato do vazio de traduções no Brasil…

No artigo de hoje em Opção Cultural (Goiânia), trato do desprezo que as editoras e os tradutores dão no Brasil a dois escritores católicos dos EUA – Flannery O´Connor e Hart Crane. Confiram, clicando no link.Destarte 02 MAI 2018

Com os olhos do sonho alheio*

CREIO que tinha nove anos, quando isso ocorreu, mas até hoje não consigo esquecer-me. Era hora de ir para a cama, em casa de meu tio, onde passava uns dias de férias. Fechar os olhos para dormir naquele noite causou-me horror. Era uma casa antiga a de meu tio, com esses tetos de madeira amarronzada, onde carunchos pareciam passear livres durante todo o tempo; de dia, não apareciam, sequer a especialistas em telhados e estuques e forros antigos, nunca se faziam notados.

Meu primo havia me dito que no forro vivia uma espécie de abelha noturna, essas que zumbiam e saíam a passear, mal o sol se deitava no horizonte e a noite anunciasse o fechamento de uma cortina mental feita de puro ébano…

O fato é que – não sei que história antiga minha avó contara aquela noite, antes de dormir -, o certo é que tremi só de me encolher no leito estreito que me emprestaram por esses dias – uma cama-de-campanha, que além de tudo rangia ao menor movimento que eu fizesse. Com tal intensidade me impressionei com tudo, que sei dizer-lhe que a noite se tornou lúgubre; como se o repouso fosse negado ao que fechava os olhos para dormir e uma porta se abrisse devagarzinho, girando sob o pivô da entrada do sono, abria-se rangendo vagarosa para dar lugar ao horror de uma viagem a um país sepulcral.

Sem grito algum, mas com um nó na garganta senti-me como alguém que vê um ladrão mas não consegue anunciar a ninguém que o vê; um sonho recorrente de quem tenta conciliar o sono e desejasse gritar sem ter nenhum êxito em espantar seu terror. Era sempre o sonho que precedia ao terror noturno e a vergonha de um lençol molhado na manhã seguinte…

Hoje sei que é por dentro dos olhos que se dorme, dizem os especialistas, mas pressupõe-se que por dentro dos olhos cerrados se possa enxergar apenas visões ternas, calmas e pacíficas; e não o horror de uma viagem a terras indesejadas. Para isso, criaram-se técnicas – como a mais antiga delas e que dizem funcionar em todos os idiomas: contar carneiros. Até hoje, não sei bem porque isso poderia funcionar, o certo é que naquela noite pensei bem próximo à vigília em doces lembranças das brincadeiras do dia com meus primos. Porém, onde cabem carneiros, cabem também pequenos demônios noturnos a espiar-nos por dentro dos olhos nossos, carunchos, cupins que roessem a madeira por dentro com estardalhaço noturno – como se da madeira do estuque e dos olhos tomassem posse.

A cama daquele que aguarda o sono há de ser como funda, como leito em vasto oceano, como quando ainda um infante me balançavam o berço. Assim e não essa terra árida, em que sobre “um leito raso” os olhos dos olhos se transfiguram em ondas com aquela exposição trevosa que assusta o menino exausto mas insone.

Seria o caso de sondar o espaço, em busca da estrela mais brilhante; da que se diz  a que queima, “estrela ardente”. A que espécie de cão esse demônio empreendera tal sociedade a me impedir o repouso?

– Não sabe o menino de dentro dos olhos presa feita responder, meu senhor. Sei que fisionomia de um barqueiro tinha. Sei ainda que o cão tinha lá sua serventia de manter ativos os “pesadelos fantásticos, trementes…

Bem, quando se está em tal situação, não há mesmo como fugir. Então, decidi que o melhor era manter os olhos bem abertos – como os olhos estrangeiros que me fitavam com certa majestade sem enganar-me que um punhal portava.

Era como se… – dir-se-ia: Morfeu estava afastado dessa contenda, à sua gruta recolhido – como se, entre a noite e o menino batalha interminável se travasse. Via umas cavernas ao longe destacadas. Pensava no que me dissera minha avó que há muito se sabe que se espalham cavernas por uma terra não muito distante da casa de meu tio, onde a terra ronca, onde Goyaz planta outra terra por debaixo desta.

E lá estavam, sob a terra real, algo que voava e ao mesmo tempo permanecia intacto: eram os olhos, não quaisquer olhos, mas olhos marcadamente de bicho: felinos e canídeos antes de tomarem a presa com seus dentes vorazes – são olhos tenazes, a resoluta definição da insônia que os olhos por dentro dos olhos do que sonham dormir não se grudam nunca.

Dantesca diria, hoje, dessa visão que tive. Mas quando menino, não disse nada. Foi o silêncio que restou de tudo que olhos não fossem – corpo e tudo mais se confundindo com o lodo em volta. E do quadro todo assim fixado e asfixiado, só os olhos alheios a me seguir sem descanso, como pajens restaram: às avessas do que proteger não podiam.

Foi assim que um percurso de uma noite fiz, na velha casa de meu tio João Queiroz, em que o teto desenhara olhos de tigre, de chacal, de urso – olhos “tenazes e constantes” – fixos olhando tendo por empréstimos os meus…

De manhã, bem cedo, os olhos vermelhos, cansados, a meditar chorando, recebi de minha avó uma xícara com leite de cabra e um afago:
– Deus te faça feliz. Os olhos, menino “quietos, tranquilos, calmos e medonhos”  – todos eles roubam os olhos da gente, por vezes. São noites brancas, embora negras se anunciem. Elas existem porque em meio ao mundo insone aumentou a conta  da imaginação pecaminosa e ensandecida e porque os elfos esconderam-se na cúspide das colunas altas demais para os meninos de sua idade alcançarem. E assim, os insones são tomados por escravo. É preciso que dê nove voltas em torno à chácara hoje e amanhã dormirá feliz…

Hoje, quando recordo dos olhos do sonho, relendo o poema do João, dou-me conta da sabedoria de vovó: são estrangeiros olhos de eternos sonhos – a quem alguém decidiu chamar não-sonhos, insônia. Sempre dou nove voltas em torno ao mundo, antes de fechar os olhos e assim, raro deixo-me guiar por olhos tão medonhos…

Fim.

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(*)Exercício: 'transposição' do poema "Olhos do sonho" de João da Cruz e Sousa para narrativa.

Dia do Meio Ambiente lembra Carmo Bernardes

NESTE 05 JUN 2016 – DIA DEDICADO AO MEIO-AMBIENTE, relembremos Carmo Bernardes. Pois, antes mesmo de o meio-ambiente ser um modismo e até razão para criação de partido político, o Sêo Carmo já era um ‘ambientalista’. Na verdade, era o melhor aprendiz das “atividades madeireiras” absorvidas de seu pai. Carmos Bernardes (1915-1996), – na feliz alcunha que lhe apôs o estudioso Bento Fleury, é o “Doutor dos Sertões; o Doutor do Cerrado”, com certeza entre nossos escritores o que melhor entendeu o bioma em que vivemos – a maior savana do planeta – o cerrado. Perto dele, até o grande Washington Novaes é aprendiz.

Pensei em homenagear o Carmo com um texto inédito – até o principiei, mas vi que a tarefa era empreitada para mais de uma quadra do ano – tarefa similar a derrubar “um jatobazeiro que três homens não abarcam” (como os três homens do “Barreiro dos Três Cruzeiros) – do magistral conto inicial de Idas e Vindas (1977). Que o compadre Chico Sena saiba que não desisti da crônica “Meu tamboril me ensina a sondar os ventos e as chuvas. Ou: Minhas amadas árvores: lembranças de Carmo Bernardes”.Carmo_contracapa Jurubatuba

Cheguei a ligar para o meu amigo, o poeta Acadêmico Aidenor Aires, mas desisti da empreita por ora. Deixo a palavra de homenagem a Pedro Nava, que sobre Carmo escreveu uma apresentação inesquecível no livro “Idas e Vindas” (1977), editado pela Codecri, editora de O pasquim, com ilustrações de Poty.

Apresentação do Livro Idas e Vindas de Carmo Bernardes

*Por Pedro Nava

Evidentemente que fazer a apresentação de um livro de Carmo Bernardes é honra para mim como seria para qualquer outro. Note-se bem que eu estou falando da apresentação de um livro e não do próprio autor. Esse, por mais que se oculte, é conhecido da elite dos letrados e artistas brasileiros como um dos nossos maiores regionalistas. Vive embiocado em Goiás, vive se escondendo, é avesso a qualquer gênero de de publicidade mas é autor que se impõe pela própria força a qualquer pesoa que o leia. Tenho feito essa experiência repetidas vezes. Falo nele a este, àquele. Ninguém sabe quem é. Pois então vou empretar a você um livro dele. Empresto ora as Rememórias, ora Reçaga ora essa saga do nosso interior, esse épico Jurubatuba que para mim tem sua ponta cervantina. E o pasmo é imediato naqueles que estou tesstando. Como é que este homem não é disputado pelas grandes editoras e não é conhecido de todo o Brasil? Coisas lá dele. Do capiau esquisitão e distante que prefere curtir seu fuminho cortado a canivete, sua pesca e sua caça a qualquer coisa que se pareça com política literária.
Capas Livros CarmoBernardes
Agora ele vai sair por intermédido da Codecri e entrar assim em contato com o grande público. Então o Brasil conhecerá um de seus maiores escritores. Não estou aqui para fazer a crítica de sua obra. Esta já foi magistralmente traçada em “Força e expressão de uma literatura”, por Nelly Alves de Almeida, em estudo que é uma obra-prima de exegese e de crítica. Quero apenas chamar a atenção para certos aspectos da linguagem de Carmo Bernardes. A propósito da maneira de falar do nortista, do brasileiro do centro, dos de leste e oeste, do carioca, do paulista, do gaúcho eu já tive ocasião de dizer que seus sotaques e modismos não corrompem nem são defeitos do idioma. Antes são dele maior riqueza, do mesmo modo que o português do Brasil é mais um tesouro da língua mãe peninsular. O goiano de Carmos Bernardes é uma das mais lindas falas brasileiras que tenho ouvido e visto por escrita. Rica de homofonias, de contrações que são verdaderos achados de síntese, da fabricação riquíssima de verbos a custa de tudo quanto é substantivo – numa opulência e numa liberdade que só encontram símile na língua inglesa, da criação não arbitrária mas seguindo uma espécie de lógica de língua nascente que se vê nos neologismos do autor de Reçaga – tudo isto é seiva que mostra força e riqueza, a variedade e a reserva que o regionalismo representa para nossa falação do português do Brasil.

Em Carmo Bernardes sente-se a fala do povo mas tornada literária, por um mestre da memorialística do conto e do romance. Ele usa a mesma para exprimir sua terra, principalmente no sentido dramatico que lhe dá o contato do homem com suas asperezas, com os outros homens, com a gente – considerada agora em bloco, com o tempo inexorável, com o mato, os bichos, as águas de rio, as de charco, as de poço – habitadas pelo Bicho Rodeiro que me parece um sincretismo do Buracão de São Paulo, do Minhocão – ainda daquele estado e de Minas e do Caboclo d’Água que vive no fundo do São Francisco.

Que argúcias de caçador e pescador não precisa o Homem para viver assim cercado de meio hostil, de semelhantes inimigos, bicharada de verdade e fauna de mal assombrado. Essa matéria-prima de sua literatura é sentida na pele, vista, cheirada e captada pelos ouvidos finíssimos de Carmo Bernardes. Com seus claros escuros, suas tintas vivas ou esmaecidas ele faz os flashes do livro atual [Idas e Vinda, Codecri, 1977].

Mais flashes mesmo, simples fotografias, que uma seqüência cinematográfica. Quero dizer com isto que ele se despreocupa e nem toma conhecimento da necessidade de um enredo, de uma anedota para seus contos. Esses constam, principalmente, da apresentação de uma cena altamente dramática sobre a qual o pano se levanta súbito e desce outra vez de repente. É geralmente um quadro cotidiano e terrível que se vê então. A nitidez e a flagrante realidade estatelam o leitor que não precisa de antes nem depois para construir ele mesmo sua própria interpretação do que viu. Nesse ponto de vista, Carmo Bernardes é um sugestionador e um criador imbatível. Quando se começa sua leitura e sente-se que ele já está no vim tem-se vontade de perguntar – como? Quando se a termina – por quê? Mas isto está implícito quando se descobre que ele geralmente se dá ao trabalho de fazer um conto só com seu desfecho ou chegando a um impasse. O resto fica para a intuição poética do leitor. Ele que se leve até ao autor e trate de investigar suas intenções. O escritor goiano por influência ou por simples adivinhação, tem coisas de Tourgueniev, Maupassant e Poe – enredo à parte. Digo no drama, na situação de espanto ou na de humor negro.
Cada estória isolada do livro atual [Idas e Vindas: contos, 1977] representa o que eu disse acima. Lidos em conjunto, na ordem em que estãou ou noutra que apraza lhes dar – esses contos se untam, fazem elos de corrente e adquirem então o nexo de um grande romance. O de sua terra, o do coração deste Brasil – que o goiano Carmo Bernardes auscultou como ninguém.

PEDRO NAVA*
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(*) Fonte: BERNARDES, Carmo. Idas e Vindas: Contos e Causos. Rio De Janeiro: Codecri, 1977. Apresntação de Pedro Nava, ilustr. Poty. Texto cit. p.7/9. Para saber mais sobre Bento Fleury e o estudo sobre Carmo, consultar o link deste blog.