Saudades do Carnaval*

Agora sim, é Carnaval.Imagem Vive-se no país inteiro o Carnaval – festa pagã, com um pé na concessão cristã de a `Carne-Vale´, festa descendente das saturnais antigas do paganismo. Para mim, hoje não vale mais o grito da escola de Samba, mas o ” Carnaval dos Animais”, do compositor Camile Saint-Saëns. O leitor-ouvinte pode começar com a abertura do rei Leão e escolher entre as faixas: Galinhas e Galos, Antílopes, Tartarugas, Elefante, Cangurus, Aquário, Personagens orelhudos, O cuco no fundo do bosque, O cisne, pianistas etc. Enjoy it. Bom Carnaval. Aos interessados, uma reflexão de J.G. Merquior (*) no rodapé deste post.
ADENDO AO POST (em 04/03/2014).


Caros Amigos –
No momento político do Brasil, uma conclusão: a prática marxista que faz o PT agir na sombra (ou à luz do dia) nos leva a crer que não se trata de um bloco de mensaleiros, mas sim de um bando de ‘revolucionários oportunistas’ a fornicar com a Pátria…
Capa_VejaCarnaval'14A capa da revista VEJA, que me chegou às mãos com atraso de 24 horas, me azedou meu Carnaval em Paz. A gravidade da situação política do país deve afligir os homens de bem.
A ‘virada’ na votação do STF me dá a dimensão exata do poder que os petistas tem na República hoje. A desfaçatez com que a Presidente tira recursos de investimentos no país para aplicar em Cuba, Venezuela e ditaduras outras, somada à manipulação das instâncias diversas do Poder, nos dão a exata dimensão de que vivemos numa ditadura do partido dos Trabalhadores.
E isso parece não ter um fim próximo. Talvez por isso o ministro Gilberto Carvalho fique tão a cavalheiro para dizer que “continuaremos investindo” na baderna, enquanto minguam os recursos para a Produção… Pobre país alucinado enquanto sambam todos uns poucos fazem de Brasília uma verdadeira pocilga.


Le Carnaval des Animaux: I. Introduction et Marche Royal du Lion

Para entender melhor a obra de Saint-Saëns, explicações do blog do Maestro EMANUEL MARTINEZ, a melhor info em português sobre esta obra: http://bit.ly/ONZu7a

  • REPERTÓRIO: SAINT-SAËNS, Camille – Carnaval dos animais
    repertoriosinfonico.blogspot.com

  • Pianistas, entre os animais? Pode parecer-lhe estranho, dileto leitor, mas quem explica é o Maestro Martinez :
    – “De repente aparecem dois pianistas que também querem participar da festa do zoológico. Eles vão tocar para vocês, mas não reparem: são principiantes e a única coisa que sabem tocar, mais ou menos, é um certo exercício de piano. Por favor, perdoem os erros…”

  • Eu que amava a Marcha Real do Leão…já estou repensando minha predileção, diante do movimento “O Cisne”.
    Ainda o Maestro Martinez:
    “CISNE – Chegamos ao lago de nosso zoológico. Bem no meio, nobre e tranqüilo, um belo cisne branco desliza sobre as águas. Ninguém melhor que o naipe das cordas para representar a calma, a solitária elegância do cisne, que lentamente desaparece ao nosso olhar.”
    (cit. do blog REPERTÓRIO SINFONICO do Maestro Emanuel Martinez).
  • há 21 horas: © um Poeta pensava: Já o rufar dos tambores se fazia ouvir nos morros do Brasil afora… Outros locais menos afeitos às tradições do Carnaval, preparavam-se para retiros espirituais ou longas sonecas nas tardes vazias; longos passeios nas ruas desertas; pequenos furtos nas casas à vista – com suas luzes permanentes na varanda; os amantes se preparavam para desfazer o mal-estar da ausência do Eros durante as longas jornadas de trabalho; um esguio senhor magro como tantos, amarelo como todos no escritório, deixava seu subsolo para se mostrar como Juscélia num bloco que saía há 30 anos em seu bairro… e outros cristãos cruzavam a solidão dos dias do reinado de Momo olhando de esguelha pela janela aberta e excitados com o neon do aparelho de TV sempre ligado…
    “Saudades do Carnaval era o pensavam o escritor sem assunto, o repórter sem matéria, o político sem palanque, a mulher que estreita as coxas – sem a presença do amante… Saturnais, “carnaval, ah, desengano!” – soa
    a canção antiga na mente dos solitários.”

  • (*) Reflexões sobre o Carnaval, do pensador J.G. Merquior:
    Esse psiquismo reprimido, de manifestação cuidadosamente restrita a determinados momentos do calendário tradicional, se alimentava do orgiástico – daquele ´êxtase agudo´que Weber distinguiu do crônico estado de santidade proporcionado pelas éticas rigoristas. O delírio orgiástico, a celebração dionisíaca, o transe coletivo, são válvulas plenamente reconhecidas (embora enquadradas) pelas culturas de tipo arcaico; elas permitem ao indivíduo e aos grupos sociais um periódico desforrar-se das suas opressões e frustrações. Na festa orgiastíca – saturnais, carnaval –, a sociedade vivia o reconhecimento da sua própria contestação (esse poder institucional de subversão singulariza o impulso carnavalesco na libido lúdica da sociedade. Sem ele, o ludismo cultural descrito por Huizinga fica condenado às sublimações mais ou menos conformistas – erro evitado por G. Bataille).Imagem
      • Vem assim, “em seguida, o espírito da máscara – ou, na fórmula de Mikhail Bakhtin, da ´negação da estúpida coincidência consigo mesmo´; a rebelião contra o ego submetido a uma continuidade dócil à repressão. A máscara princípio de metamorfose, antítese da persona sufocante. Segundo Walter F. Otto, vários cultos gregos utilizavam máscaras, mas só no de Diônisos existia uma relação íntima entre máscara e teofania; Diônisos, o deus da alteridade radical, fazia coincidir sua presença com a ausência de toda imagem fixa: com o rosto vazio a ser preenchido pelo Outro. A 3a. característica maior do saturnalismo é a profanação sisstemática, as aproximações excêntricas (do baixo com o sublime, do sábio com a insensatez etc.) signo da consciência protéica do inacabamento do universo. Na visão do mundo carnavalesca, a realidade é uma transformação incessante.
        “No centro do carnaval se situa o rito que Bakhtin chamou de felicidade de ´endestronização´: a elevação ao trono de um rei-bufão, senhor-escravo, velho-criança; de um rei Momo, abbas stultorum, lord of misrule, abbot of unreason. Na posse de tal monarca já transparece a sua deposição; o gesto da coroação significa ironicamente um veto radial a todo poder estabelecido ou por estabelecer – uma relativização de todo valor instalado ou instalável, uma Welt-Verlachung (J-P.), ridicularização do mundo inteiro. O cetro do rei Momo é pura parõdia. Mas essa paródia zomba de si mesma: a relativização saturnal não é negativa absoluta, é antes a consagração do sentimento do ciclo, da lei da perecibilidade de toas as condensações culturais, da sequência necessária de morte-e-regeneração. A paródia carnavalesca relembra a finitude, mas conjura a imortalidade. O riso de entrudo descende do escárnio ritual que, na sociedade primitiva, castigava deuses e soberanos, a fim de pô-los em brios e de obrigá-los  a renovar-se, promovendo a fecundação da terra e da raça. É uma gargalhada cosmogônica praticada em tempos de crise. Riso instigador da vitalidade, porque ele próprio é símbolo da exuberância da libido: Freud ligaria a consciência do cômico ao senso da energia psíquica economizada. (…)
        “…O carnaval é, a rigor mais festa do que espetáculo; seu palco é o mundo, seu protagonista é toda gente, ou o bufão que não é ator, e sim continuamente, cotidianamente bobo.
        “(…) Seria triste que o Brasil, sendo, por sua formação, depositário de paradigmas culturais que mal ou bem resistiram a algumas das mutilações humanas provocadas pela racionalização da vida, abdicasse de seu passado no exato instante em que o futuro lhe confere tanto sentido. Triste e irônico – porque a guinada que sufocasse em nós o espírito do carnaval, o espírito lucidamente ´amoral´ de Macunaíma, em proveito de não-sei-que forçada compostura, conseguiria tão-somente nos colocar na órbita sombria do atraso cultural. E então, só restaria rezar para que o gênio da avacalhação – esse saci verde-amarelo – nos restituísse a nós mesmos, à nossa autêntica ´inautenticidade´ ética.”

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Fonte:
MERQUIOR, J.G. “Saudades do Carnaval. Introdução à Crise da Cultura”. Forense. Rio de Janeiro, 1971. p.183 e seguintes; p.243.

Saudades de Merquior (i)

RETIRO da estante meu exemplar de “ARTE E SOCIEDADE EM Marcuse, Adorno e Benjamin”, jose_guilherme_merquiorde José Guilherme Merquior (1).
O livro é datado de julho de 1979, Porto Alegre. Reabrir o volume me transporta aos estudos de Comunicação, na URGS. Lembro-me de muitos professores de ideologia marxista, mas me lembro de alguns poucos conservadores. Livro JGMerquior
Um deles foi fundamental em minha vida acadêmica, ao me emprestar um livro definitivo (“Castelo Interior e Moradas”, de Sta. Teresa d’Ávila), o qual nunca tive a chance de devevolver ao proprietário – professor Silvio Duncan, de saudosa memória. Na Fabico (Fac. de Bibliot. e Comunicação) e pela mão de outra professora de quem esqueço o nome, mas não o agateado dos olhos, conheci J.G.Merquior e a necessidade da arte.
Bem, mas agora é hora de falar um pouco sobre o livro em epígrafe e não da doutora da Igreja…
O contexto dessas notas é que comecei a seguir o Seminário de Filosofia do professor Olavo de Carvalho, justamente na aula 232, justamente referente ao estudo da escola de Frankfurt.

A discussão começa com um texto de Robin-Philips sobre Herbert Marcuse,  ‘o renegado’ se olharmos a escola do ponto de vista de um “retorno ao futuro” – , mas “o membro mais conhecido do movimento por causa de sua capacidade de se comunicar com a juventude de forma eficaz. O movimento hippie o adotou como seu guru intelectual, e Marcuse, por sua vez, abasteceu a geração mais jovem com um fluxo constante de propaganda destinada a santificar os impulsos rebeldes da juventude. (Foi ele quem inventou o slogan ‘Faça amor, não guerra’)”.

SE Marcuse teve o maior sucesso entre os jovens dos tardios ‘60, e logo depois sua teoria meio que virou pó, outro é o caso de Walter Benjamin e mesmo de Theodor Adorno permaneceram e diversificaram suas abordagens (música para Adorno; a presença do transcendental – os anjos em Benjamin(1), p.ex.) .
Eu, como todo bom aluno (submetido ao treinamento universitário de esquerdismo) dos anos ‘70, escrevi um trabalho de curso sobre as relações entre Capital e Trabalho, a partir da perspectiva Marcusiana da dicotomia “Eros x Tânatos” – princípio do prazer x princípio de realidade. Uau!  Coisa mesmo para ser rasgada, como o fez tanta gente com os poemas cometidos em sua juventude.

Folheando o livro, acho um recorte amarelado de um artigo de Merquior, no DM, Goiânia, de 1984, que remete à discussão no seminário, sobre a negatividade nos Frankfurtianos e a influência desses no mundo do trabalho nos EUA e alhures (onde houver um doutrinador acadêmico neo-hegeliano ou marxista, será sempre uma lavagem cerebral contra a ordem estabelecida – e dentro desta contra o Trabalho). No próximo post, vou postar o artigo inteiro, por ora, recorro à citação do trecho abaixo, com destaque para a interpretação mais pontual do trecho em que Merquior  aponta no “revolucionarismo” do nosso tempo uma marca especial – “a peculiaridade da nossa época é que a mentalidade ‘humanística’ da intelligentsia radical sonha pôr a técnica da revolução politica a serviço do ânimo de revolta boêmia”.
Eis uma maneira de compreender os revoltosos do badernaços de classe média, desde a “chienlit” parisiense dos ’68, passando pelos hippies norte-americanos em seu delírio californiano, com seu horror ao trabalho (em geral e, principalmente, em suas formas tradicionais), chegando aos inúmeros professores “hipnotizados” pela teoria da negatividade de Marcuse em escolas de ponta nos EUA.

Mais recentemente, quase 50 anos depois, entre nós brasileiros parece que Marcuse continua a ser o que J.G.M. suspeitava em 1979: “…Marcuse é hoje o nome da moda, o profeta, mais citado do que lido, dos simpatizantes entusiásticos das ‘revoluções culturais’. Pois é…” – e ei-los os hipnotizados por Herbert Marcuse (et caterva) em abundância entre nossos docentes das Universidades públicas brasileiras, capacitando os jovens nas ideologias esquerdizantes do revolucionarismo; passando por parte do clero católico e sua adesão à “Teologia da Libertação”; e, daí, até chegarmos às figurinhas carimbadas dos “black-blocs” – filhos bastardos do revolucionarismo; com o agravante de que estes, recrutados na classe média brasileira e/ou dentro da burocracia estatal, constróem barricadas de  uma espécie de “revolta boêmia”, de modo bem mais etílico, mais destruidor e (aparentemente, bem remunerado) – diferente do que o fizeram Baudelaire e Wagner, em tempos mais românticos.


Na sociedade, cujo horizonte é a progressiva robotizacão de todo trabalho pesado ou meramente rotineiro, muitos jovens e intelectuais clamam contra a ‘civilização repressiva’ e condenam como irremissivelmente alienantes as disciplinas mínimas necessárias ao funcionalismo da produção cao avanço da ciência. Esse paradoxo tem de ultrajar o moralista mas não tem como intrigar o sociólogo, que o compreende sem justificá-lo. A burguesia vitoriana enfrentou dois grandes modos de protesto e dissidência: o revolucionarismo das massas sem conforto nem voto e a revolta boêmia, do artista romântico ou ‘decadente’.
“Wagner e Baudelaire, que participaram das barricadas de 1848, mas depois se tornaram pais fundadores do decadentismo europeu, – 
encarnam perfeitamente esses dois cismas ideológicos.
“A peculiaridade da nossa época é que a mentalidade “humanística” da intelligentsia radical sonha pôr a técnica da revolução politica a serviço do ânimo de revolta boêmia. Porém, o despertar desse sonho é um verdadeiro pesadelo – o tenebroso colapso das liberdades. onde quer que direito ie economia tenham sido arruinados por urna monocracia ideológica.
“Por isso, entre nós, o sentido do progresso não reside mais na poesia apocaliptica das revoluções, mas na prosa das reformas objetivamente equacionadas e democraticamente executadas.


A chamada escola neohegeliana de Frankfurt, segundo J.G.M., foi originariamente composta de Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse e Siegfried Kracauer; a ela se incorporaram depois Erich Fromm [este, uma surpresa pra mim, que senti a falta de Habermas! na lista de Robin-Phillips], Walter Benjamin, Leo Lowenthal, Wilhelm Reich, Georg Lukács e muitos outros.
Estes homens estavam desiludidos com a sociedade ocidental e os valores tradicionais”, diz Robin Phillips, no artigo “O Ilusionista”
(texto-base da aula 233 e seguintes do Seminário de Filosofia do professor O.C.).

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