Seguindo o conselho de Bento XVI

Proposta do Papa, resumida por Zenit com a frase lapidar “reze, trabalhe… e leia” de São Bento de Nursia e retomada por Bento XVI.
Bento XVI apresentou em um lema a chave para voltar a humanizar a sociedade e a cultura: “Ora et labora et lege”: “Reze, trabalhe e leia”, constata o porta-voz da Santa Sé. Siga aqui.
Inclui, pois, nesse período especial que se iniciou domingo passado, horas a mais de leitura. Aí cabem, além das leituras em tela, as muitas em papel da pilha de livros que me lançam olhares de cobrança desde a estante desordenada, ansiosos por merecer a visita de minhas retinas e reflexões.
Lugar inicial reservado a Voegelin, a Geraldo França Lima e ao meu abandonado Sébastien Lapaque (sur Bernanos au Brésil).D&C#3
E no intervalo, uma revista de ensaios: Dicta & Contradicta, (em papel, biensur!), que se lê com alegria, no meio de tanta leitura vazia. D&C é fruto saboroso de “respeito, amor e paixão pela verdade“. É, pois, recomendação entusiasmada de leitura a você, leitor deste blog.
Pedidos aqui. Ou aqui (mais em conta).

Maigret volta à rotina

A SEMANA passada começou sob forte chuva. Na segunda-feira úmida, movido pela carga natural que as segundas-feiras costumam depositar sobre meus ombros, me vi de mau-humor – agravado pela umidade deste verão no cerrado goyano, sentindo-me impotente diante da evidente onipresença da chuva sob os pés, os olhos e em meus ossos e membros (gotas finas persistentes, gotas grossas, acompanhadas de um céu nada acolhedor – muita chuva); na segunda-feira pela manhã, dizia-lhes: debrucei-me à janela do escritório como o garoto antigo e assustado que se movia para o colégio há alguns (muitos) anos atrás, com o medo ancestral (de gaulês antigo) de que o céu me cairia sobre a cabeça.

Lembrei-me do comissário Maigret naquelas passagens em que Simenon o faz surgir para o leitor olhando a chuva de sua janela na Paris dos anos 50, enquanto acende seu cachimbo – este ato que dá forma e consistência ao início do dia do personagem – e que também parece dar força, para nós leitores, diante dos embates do dia-a-dia, como se ao ritmo das gotas tamborilando na janela admitisse num sussurro:

– Bem-Vinda, senhora rotina.

Não era esse o meu caso. Sentia-me na pele do comissário, mas com grande mau-humor trazido por aquela manhã em que até o ato de se barbear parece tornar-se uma rotina desagradável (obrigatória já o é há muito), pois não temos o sol por testemunha e ainda perdemos o álibi dos pássaros, ou da vizinha que nos sorri ao passar sob nossa janela. Estamos sós nessa rotina da disciplina de higiene diária, num dia que se inicia obrigando-nos a tirar o velho guarda-chuvas do seu gancho habitual e procurar a capa com a nostalgia do chapéu que era moda ao tempo dessas estórias de Maigret.

Uma semana depois, acordo sob o véu cinzento da cidade de São Paulo, mas o astral mudou. As razões que me trouxeram a Paulicéia não eram apenas comerciais e sim envolviam o melhor do afeto familiar: devia ajudar minha filha caçula em sua mudança para essa metrópole – tudo tem um ar de doce aceitação, mesmo da persistente chuva que nos castigou quase todo o tempo de estada na capital.

Da janela, logo cedo descortino o horizonte que a Vila Mariana nos permite e me entristeço com a cena de uma família de migrantes que se arranjam como podem sob uma lona amarela, enfrentando a chuva e a fria umidade em pleno canteiro central da Vergueiro. Ainda dói ver as circuntâncias como se recapitulasse na mente a inteira fórmula de felicidade do inglês Bertrand Russell para quem é pouco o requisito para se iniciar no caminho da felicidade – e entre os requisitos está a casa deste homem que busca com garra a felicidade. Serviu-me a cena matutina na Paulicéia inundada para me afastar o mau-humor e pensar no caráter vetorial da felicidade. Pensar no Outro como um ser instalado precariamente e que enfrentava o aguaceiro e a carência com denodo e bravura, diante de quem meu humor de classe média não resistia a mais mínima barreira com sua susceptibilidade.

Mas, ah, que “a felicidade se defende mediante desvios ou rodeios” (1) e mesmo em condições diversas, eu me ponho de pronto em comunhão com aquele homem em sua luta diante dos obstáculos, como se me irmanasse em pensamento a um casal, que encontrei na estrada caminhando impássivel sob a chuva, prosseguia de frontes erguidas sob o aguaceiro, sem muxoxos, em sua viagem em busca de sua felicidade…

Era da mesma cepa e estirpe aquele casal no meio da chuva que me inspirou ainda jovem a escrever os versos a seguir transcritos. E isso já faz 22 anos…(2):

“…Que esperança a nossa:
Eu e esse casal
De mãos dadas pela via Anhanguera
Em que passo?
Que esperança a desse menino de bicicleta
Medindo o espaço que se abre
Em seu quintal?
Que esperança
Em todos nós
Pelo mundo em sua rota?
A mesma porção de fé
Que nos iguala ao cão
A se esconder do frio
E do trovão em meio à chuva
Na mesma medida de espera
Das aves que suportam
Chuva e frio
Iguais existimos
E sob as dificuldades
Do limbo arrancamos
Uma raiz de vida e resistimos.

+++++
Fontes: (1) A Felicidade Humana, Julián Marías, Duas Cidades, S. Paulo, 1989.
(2) “Frágil Armação: Poemas”, A. Queiroz, Edit. Barão de Itararé, Goiânia, 1985.

A lição das caraíbas

A crônica nasce do choque entre a imaginação e a realidade. Não há declaração de amor entre esses dois entes. O que existe mesmo é um choque físico, um fenômeno simples…

Se é verdade que toda obra de arte é a solução de um problema, há nesse gênero de expressão a semente de um problema a ser solucionado, tal como no aforismo há plantada a força compacta do autor que não pôde se dedicar ao desenvolvimento completo da Idéia (1).

No caso deste cronista é bom que o momento do choque seja exposto ao leitor imaginário para que este participe de modo ativo como parteiro ou padrinho da idéia nascente. Eis-me aqui no quarto de hotel, longe de casa, do conforto do lar, da companhia da família, distante dos livros, do latido do cão, da proximidade confortável do ambiente em que cometo alguns poemas e croniquetas. Sem as muletas preferenciais da crônica – os livros lidos e relidos, sem o almofadado mundo familiar, somem os assuntos para pauta que mereça o desenvolvimento esperado pelos leitores.

Estou em Brasília e a cidade me fornece seus da(r)dos. A cidade vista do quarto de hotel, do sétimo andar, em meados de agosto expõe seus esplendores e misérias. Não é preciso ouvir o noticiário,abre-se a janela e o céu azul deste agosto de baixa umidade e secura expõe o cronista sem assunto (e sem terras) a um choque – é o pretexto que tem para acionar o motor da idéia.

Há 49 agostos convivo com essa demonstração cíclica do tempo, que alterna chuva e seca na maior savana do planeta, mas nunca me pareceu um espetáculo tão eloquente como agora.

Da minha janela, no quarto de hotel, repete-se em dose urbana o que testemunhei em toda a estrada (Goiânia-Brasília). Assistimos à resistência do cerrado à baixa umidade e à secura, que nesses dias tornam sufocantes as tardes para os animais e as plantas. Mas no meio do cerrado seco e da relva aparentemente morta, descortinamos duas espécies em plena florada: os ipês e as caraíbas. A caraíba vê suas primas ricas – ipês roxos e amarelos – exibirem suas cores, enquanto ela, pobre caraíba cumpre seu dever com um estoicismo apreciável e com regularidade de monja. Todo agosto, lá está a caraíba, nossa irmã do cerrado abrindo-se em flores amarelas, belíssimas, mesmo quando um agricultor põe fogo no cerrado ou um motorista imprudente atira-lhe um toco de cigarro que cresta tudo a sua volta.

Em meio ao cerrado seco e pintado de cor palha, lá está a caraíba atestando a força da natureza e a beleza do criador em seu testemunho silencioso, diante de nossas retinas preguiçosas e desatentas e nossos 18% de umidade relativa, nossa mínima esperança de viajantes e cidadãos desta savana e do planeta, com nossas almas desfolhadas…

Deveria o cronista lamentar-se como Anatole France, que não se sentia à altura da Academia de Ciências, “je ne peut que gémir d´être exclu des temples de la certitude“, mas meus gemidos são de outra natureza, pois, desolado me sinto diante de outros templos de certeza em nosso tempo, em nosso país. Esses parecem querer excluir o cronista que se atreva a dar sua interpretação do tempo presente com a armadura da fé cristã e a expressão da poesia.

Mas aprendemos com o filósofo professor Olavo de Carvalho “que todo problema que nos acerta no coração ou no fígado só pode ser expresso poeticamente…” E isso é como água fresca para o cronista-poeta. É como nova umidade e frescor – eis a retórica das caraíbas lhe dizendo: Olha ao redor e vê quão animador é o esforço da contínua busca do belo, do bom e do verdadeiro.

Eia, anima-te, com o exemplo das caraíbas e lança tua crônica ao vento da internet”. Aventuro-me, lembrando que dia desses, repetia para os anônimos leitores das 8 Colunas que, chegado à beira dos cinquent´Anos, lembrava-me do texto do austríaco Hermann Broch, sentindo que estou diante de uma grave questão – a da atitude diante da minha época. Às vezes, a alta onda que se levanta derruba-me, sinto-me acachapado, nocauteado por essa onda forte que se levanta, vez por outra como numa savana queimada.

Uma revista semanal me jogou-me à cara, no domingo passado, uma reportagem sobre o cidadão Ibsen Pinheiro, vítima de uma injustiça da nossa dita melhor imprensa semanal. Onze anos passados e lá aparecem as ´correções`, as tardias erratas de uma contravenção não mais passível de ser punida. Lido o texto, reflexões dolorosas depois, decidi-me a enviar uma carta à redação da revista, tornando pública minha revolta com os rumos de nossas instituições, de nossa pobre pátria que levantava esse pequeno véu para bater-se com outro mais hediondo que surge da presidência da república, por pouco avistada em suas peraltices neste agosto, desde o ponto de vista da minha janela do meu quarto d´hôtel…

A reflexão leva a pensar sobre os erros vários em que incorrem as instituições, agora ameaçadas da Nova Censura republicana, pobre pátria, patriazinha sem memória, incapaz de fazer conexões históricas, entre causas e efeitos daquilo que agora nos abate.

Pensa o cronista: ficamos moderninhos demais com todos estes aparelhos telefônicos móveis, com este governo de talhe esquerdista pós-moderno, com essas invasões de terra, com este desrespeito ao outro que aboliu a gentileza de trato e instaurou um baixo ticket de valor à Vida nas grandes cidades.

Em lugar disso o que fizemos com os valores permanentes da Vida? O que fizemos com a força da Fé, o liame do Afeto dentro e fora da Família, o poder do trato, da promessa, do Voto (não, não este que se põe nas urnas como obrigação eleitoral, mas o Voto, as juras e os contratos que não se deveriam se desfeitos por um “qualquer dá-cá-uma-palha”); o que fizemos do Ensino e da formação de nossos jovens, da Educação como esforço pessoal e não apenas como “dever do Estado”?

– O que fazer se tantas Vidas são baseadas na ausência do Amor e da Caridade?

Ficamos moderninhos demais, com nossos celulares e internet (agora mesmo celebramos noss recordes na comunidade web, intitulada Orkut como uma realização hiperimportante), mas mantemos os joves distantes dos livros, da educação clássica, do respeito ao outro, como num cerrado tostado pelo fogo dito ‘modernizador`.

A regilião, a família, a alta cultura que só pode advir de uma formação clássica (vejam crônica do poeta Fábio Ulanin na Web) pode apagar o fogo destruidor do dinheiro fácil, do esnobismo, do achincalhe ao Outro, e da mínima e básica falta de educação e boas maneiras que virou moda em todos os lugares públicos – incluindo shoppings, cinemas, escolas…

Contra a secura de tantas perdas no cerrado de nossas vidas que estamos nesse jogo de educação cívica (ou seria de Educação pura e simples?) proponho atentarmos ao ensinamentos que emanam da lição da caraíbas.

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Fontes:
(1) A frase citada é do resumo da Aula 8 de Olavo de Carvalho, “O Advento do Cristianismo”, ed. É Realizações, S. Paulo, 2001. (AQ).

(2) *Original publicado no blog 8 Colunas, em 2005.