A virgem Maria

Salve, Maria!

O melhor texto que li nesta quadra do Advento foi (é) de Renan Martins dos Santos, publisher da Editora Concreta.

Deixarei o link ao final, só para reter você, Leitor, por aqui, um pouco, pois o tema que Renan nos leva a repensar é o da centralidade de Nossa Senhora na história da Salvação humana — que nos foi propiciado pelo advento do Encarnado, o Filho de Deus.

Ele diz:

(…) Mas a história nos conta que houve um ser humano capaz de atravessar esses véus de intangibilidade, uma única pessoa que concebeu a partir de uma decisão direta. Esse ser humano foi a Virgem Maria. Virgem, porque, entre o seu espírito e o Espírito que lhe cobriu com sua sombra, não havia os ruídos da carne. A sua decisão repercutiu imediatamente, sem o intermédio dos instrumentos humanos. Certamente ela não podia decidir quem seria esse ser humano que carregaria em seu seio, especialmente quando a forma dessa alma seria a própria Forma divina, pela qual todas as outras coisas foram criadas. O anjo Gabriel lhe deu a notícia de quem seria, e a Virgem, passado o natural espanto, acolheu a decisão divina, determinada a receber o princípio mesmo do universo dentro de sua alma. Só de uma tal decisão poderia brotar, não mais um animal racional entre tantos, mas o próprio Verbo encarnado, a própria Sabedoria que os filósofos tanto buscaram e que parecia infinitamente distante. A partir dela finalmente reestabeleceu-se uma ponte firme e segura entre os dois planos da realidade até então aparentemente irreconciliáveis desde a criação do mundo. O mistério da decisão humana, da escolha da alma racional, onde essa passagem de um plano ao outro acontece em um núcleo escuro e inacessível, em Maria se dá de maneira tão fulgurosa, que é como a versão humana do Fiat lux!, o ato original de toda a realidade. “Faça-se (em mim) a (vossa) luz”.
“A escolha máxima havia de ser uma máxima entrega. A aceitação de um poder infinito em seu seio equivalia à integração definitiva entre o espírito e a matéria, entre o ideal e o real, entre o Céu e a Terra. A humanidade de Deus, longe de ser absurda, era a única resposta possível ao problema mais interior da própria existência. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós”. Imaculado, o seio da Virgem, ao aceitar a proposição que lhe fora feita no sexto mês, tornou-se como a repetição do Sétimo Dia, em que Deus finalmente decidiu repousar. (Renan Martins dos Santos).

SIGAMOS as já famosas “58 Catequeses do Papa João Paulo II” sobre Nossa Senhora, alocuções feitas pelo SS. Padre de 1995 a 1997, nas audiências gerais das quartas-feiras, extrai essas notas (listo-as aqui como anotadas em meu caderno de Catequista, que era à epoca):
  1. A presença de Maria na Origem da Igreja
    1. Atos 1:14: Um olhar para a Bem-aventurada…”todos unidos pelo mesmo sentimento…”
  2.        Cap. VIII de “Lumen Gentium” – coloca em evidência a contribuição que a figura da Bem-aventurada Virgem Maria oferece à compreensão do mistério da Igreja.
    1.  Lucas nos Atos dos apóstolos nos fala da presença feminina no Cenáculo. Oração e Concórdia.
  3.  “Bendita sois vós entre as mulheres” (Lc. 1, 42) – que enseja três propósitos:
    1. Perseverança na oração;
    2. Concórdia e Amor entre os fiéis;
    3. Missão singular de Maria.
  4.  A presença de Maria é discreta durante a Vida de Jesus e de singular evidência nos primeiros dias da vida da Igreja. – Atos 1, 14; Lc. 1,35.
  5. Maria no Cenáculo com “os irmãos de Jesus” –  a família espiritual (Igreja).
    1. Maria operando como “a Mãe da Igreja” –  eis o papel da Virgem e sua centralidade: “manter unidos os irmãos, mesmo em meio às disputas“.
    2. A educação do povo cristão para a Oração.
  6.  Contemplar o rosto de “Theotokos” (Theo: Deus; Tokos: Mãe).10075670a4f3a27abd6588dbd20d4c4b
  7.  Contemplar o rosto  materno de Maria nos primeiros séculos.
    1. “Lumen Gentius” – 52. Convoca os fiéis a venerar a memória de Maria, mãe de Jesus, Nosso Senhor.
    2. “Mãe de Jesus – título que assume todo o seu significado – título honorífico e de veneração, que nos faz recordar o lugar da Virgem Maria na vida de Jesus.
    3. A maternidade virginal – a origem da Revelação do mistério da concepção por obra do Espírito Santo. É parte do Credo Apostólico: “…nascido da Virgem Maria“.
      1. A maternidade virginal jamais poderá estar separada da identidade de Jesus.
      2. Maria é inspiração e modelo. Uma riqueza incomensurável … a vocação especial de Maria alcança seu vórtice no exemplo de Cristo.
    4. O título “Mãe de Deus” foi atribuído só depois de uma reflexão da Igreja que durou dois séculos.
      1. No século III d.C., no Egito, começam os cristãos a invocar Maria como “Theotokos”, Mãe de Deus.
    5. “Sub tuum praesidium” : “Sob Tua Proteção”, Theotokos, mãe de Deus.
      1. Concílio de Éfeso, 431 d.C., define o dogma da maternidade de Maria: “Mãe de Jesus”; “Mãe virginal” e “Mãe de Deus”.
    6. O rosto da Mãe do Redentor.
      1. “A virgem Maria é reconhecida e honrada como verdadeira mãe de Deus Redentor” – (Lumen Gentium, 53).
      2. Na Idade Média, a piedade e a reflexão teológica aprofundam a sua colaboração na obra do Salvador.
      3. A “Mariologia” (estudo da vida de Maria Santíssima) se orienta em função da Cristologia e em nenhum outro.
      4. Final do século II d.C., Santo Irineu, discípulo de Policarpo, diz: “Maria é a antítese perfeita da desobediência e incredulidade de Eva.”
        1.  “….assim como Eva causou a morte, de igual modo Maria, com seu “Sim”, se tornou causa da Salvação para si própria e para todos os homens” (17, 3-2).
        2. Doutrina – “Vita di Maria”, século X pelo monge bizantino João, o Geômetra.
        3. São Bernardo, no século XII (1153) comenta a apresentação de Jesus no Templo como um oferecimento do Filho…hóstia Santa, agradável a Deus.”
        4. Arnaldo de Chartres distingue “dois altares: um no coração do Cristo. Cristo imolava a sua carne; Maria, a sua alma“. Daí em diante, é elaborada a “Doutrina da especial cooperação de Maria no sacrifício do Redentor“.

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          A compaixão da Mãe e a Paixão do Filho, imortalizadas no mármora já exatamente famoso: “Pietà”, de Michelangelo, no Museu do Vaticano.
        5. Contemporaneamente, o olhar contemplativo sobre “a compaixão de Maria”, a “Pietá” indica-nos a participação de Maria como “um evento profundamente humano“.
        6. Santo Anselmo: “Maria, a Mãe da Reconciliação e dos reconciliados, a Mãe da Salvação e dos que forem salvos“.
        7. A maternidade de Maria não é só um ligame afetivo; é contribuição eficaz para o nascimento espiritual e desenvolvimento da Graça…”Mãe, plena de Graça; Mãe da Vida”  – Gregório de Nissa e Guérrico de Igny (1157): “Um só foi gerado, mas todos nós fomos regenerados“.
        8. Século XIII — “Mariale“: a regeneração é atribuída ao “parto doloroso do Calvário”.
        9. Concílio Vaticano II: “Maria cooperou de modo singular na obra do Salvador…É por esta razão nossa Mãe na ordem da Graça. (Lumen gentium, 61).
          1. Maria é nossa Mãe, verdade consoladora que sustenta e encoraja os fiéis à vida espiritual, mesmo em meio ao sofrimento, levando / trazendo Confiança e Esperança. (19).
        10. Maria na Sagrada Escritura e na reflexão teológica
          1. Dogma da Imaculada Conceição, Pio IX (1854).
          2. Dogma da Assunção, Pio XII (1950).
          3. “Mariologia” é, pois, campo da investigação teológica particular.
          4. Escassa informação nos Evangelhos.
          5. De São Paulo, Apóstolo: Epístola aos Gálatas 4,4.
            1. Bem pouco se sabe sobra a família de Maria de Nazaré:
              1. Citações a conferir: Mc. 3, 32; Mt. 12, 48; Lc. 11:27.
            2. Lucas  – Anunciação / Nascimento / Apresentação do Menino Jesus no Templo / Encontro com os Doutores da Lei.   – essa é a base da “protomariologia“.
            3. O Evangelista São João aprofunda o valor histórico-salvifíco do papel da Mãe de Jesus em Jo. 2:1-12; 19:25-27; e em Atos 1, 14 (este escrito por S. Lucas).
        11. A Exegese atual enriquece Santo Ambrósio: “o foco no propagador do Mistério”, conservando a centralidade do Mistério de Cristo”.
        12. Em Lucas 2,19: … “mas Maria guardava todas essas, meditando-as no seu coração“.
          1. Esforçando-se para “pôr juntos” (symballousa), com um olhar mais profundo, todos os eventos de que ela tinha sido testemunha privilegiada. (22)
          2. O centro é o “Cântico de Maria” (Lc. 1,46-55):

            “Magnificat anima mea Dominum
            Minha alma exalta ao Senhor Deus
            Et exsultavit Spiritus meus in Deo Salutari meo
            E meu Espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

            AMÉM!

 

Fonte:
JOÃO PAULO II, Papa e Santo da Igreja: “A Virgem Maria – 58 Catequeses do Papa João Paulo II”, Editora: Cléofas; Idioma: Português; ISBN: 978-85-88158-46-7; O texto de Renan Martins no Medium.

A defesa da fé e o amor: armas de São Bernardo contra as heresias de Abelardo

LEIA meu artigo-resenha sobre o livro “As heresias de Bedro Abelardo”, trad. Carlos Nougué e Renato Romano, É Realizações, Col. Medievalia, coord. Sidney Silveira.

Edição do livro do santo católico que viveu no século 12, na Alta Idade Média, representa, mais que uma mera publicação para especialistas e eruditos, um ato pedagógico.

Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção

 

Em abril, foi lançado o livro “As Heresias de Pedro Abe­lardo” (É Realizações, 120 páginas, tradução de Carlos Nougué e Renato Romano), livro em edição bilíngue latim-português, de alto valor tanto para os fiéis e os estudiosos da obra de São Bernardo de Claraval, bem como para aqueles que mesmo não partilhando da fé católica, prezam a verdade e estão interessados nos pensadores da Idade Média. Depois de publicar Duns Scot, Clemente de Alexandria e Santo Tomás de Aquino, com títulos raros ou disponíveis apenas em edições portuguesas, a editora É Realizações, sob a coordenação do medievalista Sidney Silveira, presta um grande serviço ao leitor brasileiro interessado no pensamento dos filósofos e teólogos medievais. “Este lançamento representa um ato pedagógico”, resume Sidney Silveira.
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Neste link, leia o artigo completo, antes da edição pelo jornal.