Alta lucidez do papa emérito… – Adalberto De Queiroz

À coragem, que é uma virtude que sempre caracterizou J. Ratzinger como papa Bento XVI, soma-se agora a (re)afirmação da Lucidez. O decano papa Emérito o mostra em Crítica à Teologia da Libertação, na primeira entrevista, desde a sua renúncia.
(*)“A fé cristã era usada como motor por esse movimento revolucionário, transformando-se assim em uma força política. Naturalmente, essas ideias se apresentavam com diversas variantes e nem sempre se mostravam com absoluta clareza, mas, no todo, essa era a direção. A uma símile falsificação da fé cristã era necessário se opor até mesmo por amor aos pobres e em prol do serviço que deve ser feito para eles”.
Vale a pena conferir a entrevista inteira no website da revista Exame.

Em sua primeira entrevista
O papa emérito Bento XVI

Além de Coragem, Papa Emérito mostra altíssima lucidez, o papa emérito… – Adalberto De Queiroz.

Diálogo entre cristãos e islamitas (II) ou: construindo pontes de amizade

Ainda sob a proteção de Santo Elígio, continuo o meu trabalho de reforçar o diálogo em referência. Apesar de alguns dizerem que é uma bobagem o que estou fazendo, porque há poucos leitores que leem isso etc. etc.
Eu tampouco me importo com isso, pois sei que o mundo é feito de pequenas sementes de Amor.
Esta iniciativa deseja ser isso, apenas (assim como minha viagem ao Marrocos para encontrar um amigo islamita que conviveu em minha cidade e que me ensinou elementos importantes para dominar a língua Francesa!) – Eis um exemplo de convivência e diálogo que nunca esquecerei, mon ami, Alaoui…e foi por isso que fiz um grande esforço de viajar ao Marrocos enquanto vocês viviam o vosso Ramadã…

Antes de transcrever algumas pequenas passagens, nesta segunda inserção sobre o tema, gostaria de compartilhar algumas ideias do Papa mais incompreendido dos últimos anos, o Papa da renúncia ao Trono de São Pedro, meu querido incompreendido Bento XVI – meus netos hão de se lembrar dele e de tudo que fez pela Igreja de Cristo, estou certo.

Após ter sido confundido como inimigo do Islã, Bento XVI rezou com os ‘primos’ na Mesquita Azul e seu diálogo continuado incorporou pensamentos como esse na XX JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE, em 2005, quando falou aos jovens muçulmanos:

“É nesta perspectiva que me dirijo a vós, diletos e estimados amigos muçulmanos, em vista de compartilhar convosco as minhas esperanças e para vos comunicar também as minhas solicitudes nestes momentos particularmente difíceis da história do nosso tempo.”
(Bento XVI aos jovens muçulmanos
)

“Eu garanto a vós que a Igreja deseja dar continuidade à construção de pontes de amizade com os seguidores de todas as religiões, a fim de procurar o bem autêntico de todas as pessoas e da sociedade no seu conjunto” (Discurso de 25 de Abril de 2005, n. 4).

Notem que o papa se dirige aos jovens islamitas falando a “amigos”, como deveríamos nos referir a todos os irmãos monoteístas (e aos demais, by the way) e fala em construir “pontes de amizade”.
Este diálogo, apesar de turvado pela interpretação quase sempre errônea da mídia esquerdista, é de uma validade enorme e me lembra sempre a confraria de Santo Elígio.
Para além da fronteira do preconceito e da arrogância das partes, o desprezo por culturas diferentes é algo que não é sábio negligenciar, tal como como disse R. Fletcher em seu pequeno grande livro “A Cruz e o Crescente” sobre o contrário: “há uma geologia das relações humanas que não é sábio negligenciar”.
Quando o discurso de Bento na Universidade de Ratisbona é mal interpretado, significa algo do subsolo das relações (azedado pela mídia que tem o poder de lente de aumento com importante desfoque).
Dois séculos nos separam dos ‘primos’ muçulmanos, pois quando Maomé “recebeu as suas primeiras revelações, no começo do séc. VII, o Cristianismo era, oficialmente, há dois séculos, a fé exclusiva do Império Romano, a superpotência do Mediterrâneo”.
Entretanto, nada nos autoriza a afirmar superioridade diante de nossos primos e tampouco de reforçar o desprezo pela diferença cultural.
Se pensamos na matemática, na medicina e na astronomia, não há como ignorar o avanço árabe e, hoje, se pensamos em centrar o conhecimento no Ocidente não há como desdenhar que o mundo hodierno parece construído para novas cruzadas e não para disputas pelo melhor do conhecimento e da evolução construtiva entre culturas.
Entretanto, livros como o de Richard Fletcher podem nos ensinar como apreciar o bom de cada lado e não continuarmos, de parte a parte, a ser geocêntricos.

Em nome da Paz

Papa Bento 16 fala em nome da Paz.

http://www.zenit.org/article-31289?l=portuguese

Nosso Pastor é um exemplo de equilíbrio num mundo em desordem. Viva o Papa. Deus proteja Bento xvi.

No Líbano, o Papa mostrou o equilíbrio do bom Católico: convivência em Paz com todas as religiões. Maronitas e Católicos juntos podemos dizer: amamos a Paz. Primos mulçumanos, venham para a Paz.

O pensador Bento xvi fala sobre o tema deste post, isto é, o fundamentalismo é uma falsificação da Religião. Como católico, creio que o Papa Bento elaborou bem. Deus Proteja o Papa. Confiram no link:  http://www.zenit.org/article-31297?l=portuguese

http://migre.me/aIEAJ

Leituras da Quaresma 2012

LENDO BENTO XVI sobre “Jesus de Nazaré”, descobrimos isso:
(…) Não há nenhuma oposição entre S.Mateus, que fala dos pobres segundo o espírito, e S. Lucas, segundo o qual o Senhor se dirige simplesmente aos ´pobres`.
Foi dito que S.Mateus teria espiritualizado o conceito de pobreza que segundo S.Lucas seria originariamente entendido de um modo material e real, e assim tê-lo-ia despojado da sua radicalidade.

Quem lê o Evangelho de S. Lucas sabe perfeitamente que precisamente este evangelista nos apresenta os ´pobres em espírito`, que eram por assim dizer os grupos sociológicos nos quais o caminho terreno de Jesus e da sua mensagem poderia tomar o seu início. E é inversamente claro que S. Mateus permanece totalmente na tradição da piedade dos Salmos e, assim, na visão do verdadeiro Israel, que nela encontrou sua expressão.

“A pobreza de que aqui se trata não é um fenômeno simplesmente material. A simples pobreza material não redime, ainda que certamente os preteridos deste mundo possam contar, de um modo muito especial, com a bondade de Deus. Mas o coração daqueles que nada possuem pode estar endurecido, envenenado, ser mau interiormente cheio de cobiça pela posse das coisas, esquecendo-se de Deus e cobiçando as propriedades externas.

“Por outro lado, a pobreza de que lá se fala também não é uma simples atitude espiritual. É evidente que a atitude radical que nos foi e nos é apresentada por tantos verdadeiros  cristãos, desde o pai do monaquismo Stø. Antão até S. Francisco de Assis; e até os exemplarmente pobres do nosso século não é obrigatória para todos.

Mas a Igreja precisa sempre, para estar em comunhão com os pobres de Jesus, dos grandes renunciadores; ela precisa das comunidades que os seguem, que vivem na pobreza e na simplicidade e que assim nos mostram a verdade das bem-aventuranças, para sacudir a todos para que estejam despertos, para compreenderem a propriedade apenas como serviço, para contraporem à cultura do ter uma cultura da liberdade interior e assim criarem os pressupostos para a justiça social.

“O Sermão da Montanha como tal não é nenhum programa social, isto é verdade. No entanto, somente onde estiver viva no pensar e no agir a grande orientação que ele nos dá, somente aí onde a força da renúncia e da responsabilidade para com o próximo e para com tudo vier da Fé, somente aí pode crescer a justiça social. E a Igreja como um todo deve manter-se consciente de que deve permanecer reconhecível como a comunidade dos ´pobres de Deus` Como o Antigo Testamento se abriu a partir dos pobres de Deus para a renovação da nova aliança, assim também toda a renovação da Igreja deve partir daqueles nos quais vive a mesma decisiva humildade e a mesma bondade disponível para o serviço.” (…)

++++

Fonte: RATZINGER, Joseph (Bento XVI, Papa). “Jesus de Nazaré”, 1a. parte, trad. J.J Ferreira de Farias. S. Paulo, edit. Planeta do Brasil, 2007, pág. 81/82.

Semana Santa, 2010

Transcrevo trechos da pregação de Bento XVI neste Domingo de Ramos, cfme. Zenit:

Paul Claudel - Le chemin de la Croix


Com a celebração do Domingo de Ramos,

começou “esta semana grande e santa, na qual celebraremos os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do nosso Senhor”, explicou o Papa depois da Missa, ao introduzir o Ângelus.O Papa convidou a “participar com especial fervor das celebrações litúrgicas dos próximos dias, para experimentar e alegrar-se com a infinita misericórdia de Deus, que, por amor, nos liberta do pecado e da morte”.

Com a celebração deste domingo, o Pontífice iniciou o que poderia ser chamado de “maratona litúrgica” da Semana Santa: mais de duas horas de celebrações nesta manhã, as duas celebrações da Quinta-Feira Santa, as duas celebrações da Sexta-Feira Santa, a Missa da vigília pascal – com Batismo de adultos – e a celebração da manhã da Páscoa, com a bênção Urbi et Orbi.

Além disso, este ano haverá outra celebração importante: a Missa de aniversário do “nascimento no céu” de João Paulo II, que será realizada amanhã, 29 de março, às 18h, em São Pedro, de forma antecipada, já que o papa polonês faleceu no dia 2 de abril de 2005 (que neste ano coincide com a Sexta-Feira Santa).

Ler mais.

Emily Dickinson, 21/100*

The Brain – is wider than the Sky –
For – put them side by side
The one the other contain
With ease – and You – beside

The Brain is deeper than the sea
For – hold them – Blue to Blue –
The one the other will absorb
As Sponges – Buckets – do

The Brain is just the weight of God –
For – Heft them- Pound for Pound-
And they will difer – if they do –
As Syllable from Sound

O cérebro é mais vasto que o céu
Pois se os pomos lado a lado –
Aquele o outro contém –
Fácil – e a você também –

O cérebro é mais fundo que o mar –
Ponha-se azul contra azul –
Aquele o outro absorve –
Como a esponja baldes sorve –

O cérebro é do peso de Deus –
Sopese-os com precisão –
E vão diferir, se é o caso,
Como a sílaba do som.

Comentários de Aíla (pág. 195-6, op. cit.):
“Ilustra-se o encantamento “transcendentalista”de E.D. ante a potência inaudita da mente humana, aqui mencionada através de figura concreta, o cérebro. A identidade, assegurada por aquela consciência mental, devia ser “o presente que lhe deram os deuses quando ela era pequenina“, mencionado em outro poema. Insaciável, a mente alarga sua circunferência para abranger sempre mais, apossar-se do não-eu. Aqui se relembra uma velha balada popular inglesa “Riddles Wisely Expounded“. “Mais um teorema que um poema“, diz Anderson (Charles R. Anderson, Emily Dickinson’s Poetry – Stairway of Surprise, p.265).
A conclusão pode variar segundo a interpretação do leitor que considere maior, ou menor, a diferença entre a sílaba e o som. Enquanto o céu e o mar podem ser abarcados em sua aparência, Deus não é algo da mesma natureza; um parentético – “if they do” – pode significar “se há diferença“, ou “se há possibilidade de falar-se em diferenças“.
O original não coube táo fácil na forma da tradução, a começar pela diferença silábica de ‘brain’ e ‘cérebro. Novamente se metamorfoseia o ‘common measure’, agora em 9-7-7-7 sílabas. As rimas se arranjaram como foi possível.”

Eu, de minha parte, pensei neste poema por um longo tempo, na linha do que havia lido nas memórias do Papa Bento XVI, sobre “uma lenda, segundo a qual Santo Agostinho, meditando sobre o mistério da Trindade, viu na praia uma criança brincando com uma concha, com a qual ela tentava jogar a água do mar em um pequeno buraco. Então lhe teria sido dito: “assim como este buraco não pode conter a água do mar, a tua inteligência tampouco pode abranger o mistério de Deus”.  Assim, a concha me lembra meu grande mestre Agostinho, me lembra o meu trabalho teológico, me lembra a grandeza do mistério que ultrapassa todo o nosso saber“, conclui Ratzinger.

+++
(*) Fontes: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas” . Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Editor/Edit. Usp, 1985, pág. 90/91; p.195/196.
Ratzinger, J. (Papa Bento xvi). “Lembranças da minha vida: vol.1 (1927-1977). S.Paulo, Paulinas, 2006. Trad. Frederico Stein, pág. 137.

A essência de servir

“35.  Este modo justo de servir torna humilde o agente.
Este não assume uma posição de superioridade face
ao outro, por mais miserável que possa ser de momento a sua situação.Cristo ocupou o último lugar no mundo — a cruz — e, precisamente com esta humildade radical, nos redimiu e ajuda sem cessar. Quem se acha em condições de ajudar há-de reconhecer que, precisamente deste modo, é ajudado ele próprio também; não é mérito seu nem título de glória o facto de poder ajudar. Esta tarefa é graça. Quanto mais alguém trabalhar pelos outros, tanto melhor compreenderá e assumirá como própria esta palavra de Cristo: « Somos servos inúteis » (Lc 17, 10). Na realidade, ele reconhece que age, não em virtude de uma superioridade ou uma maior eficiência pessoal, mas porque o Senhor lhe concedeu este dom. Às vezes, a excessiva vastidão das necessidades e as limitações do próprio agir poderão expô-lo à tentação do desânimo. Mas é precisamente então que lhe serve de ajuda saber que, em última instância, ele não passa de um instrumento nas mãos do Senhor; libertar-se-á assim da presunção de dever realizar, pessoalmente e sozinho, o necessário melhoramento do mundo. Com humildade, fará o que lhe for possível realizar e, com humildade, confiará o resto ao Senhor. É Deus quem governa o mundo, não nós. Prestamos-Lhe apenas o nosso serviço por quanto podemos e até onde Ele nos dá a força. Mas, fazer tudo o que nos for possível e com a força de que dispomos, tal é o dever que mantém o servo bom de Cristo sempre em movimento: « O amor de Cristo nos constrange
»
(2 Cor 5, 14).
(CARTA ENCÍCLICA “DEUS CARITAS EST” (Deus é Amor) DO SUMO PONTÍFICE BENTO XVI)

Ratzinger e Holderlin II

Gostaria de reabilitar nesse post-citação o contexto da citação de Holderlin por Bento XVI:

Extraída do Cap.3 do livro citado (Introdução ao Cristianismo – cap. “O Deus da fé e o Deus dos filósofos”), esse trecho, conquanto belíssimo é mesmo um desafio. Pretendo ao situá-lo, agora, no contexto do livro, de modo a que meus poucos leitores – amigos possam apreciá-la como eu a apreciei, inclusive na sua dificuldade de compreensão.

No Cap. I, o então Cardeal Ratzinger trata de explicar como a Igreja primitiva resolveu o problema de esclarecer qual era o Deus da fé cristã. Pregando e vivendo a fé num “ambiente saturado de deuses”, os cristãos primitivos viam-se diante da pergunta: “a qual deus corresponde o Deus cristão, se a Júpiter, a Hermes, a Dioniso ou a um outro qualquer?”
E a resposta era sempre:

“a nenhum dos deuses que vocês adoram, mas única e exclusivamente àquele Deus que vocês não adoram, ou seja àquele ser supremo do qual falam os filósofos…”

Essa foi a opção pelo “logos” contra o mito, assinala Ratzinger. Opção acertada para aquela época e para hoje, como se vê na conclusão de um longo exame que o então Cardeal faz entre a oposição entre fé e razão:

– “ A fé cristã optou não pelos deuses das religiões e sim pelo Deus dos filósofos, isto é, decidiu-se contra o mito do habitual e exlusivamente a favor da verdade do ser mesmo”.

O passo seguinte está descrito em
2. – A transformação do Deus dos filósofos.

Ao decidir-se por esse Deus dos filósofos, a fé cristã entendeu também que o ser humano pode e deve dirigir-se a ele em suas orações, assinala Ratzinger, ressaltando que esse passo significa dar a Deus a face humana, o Deus dos homens que não é apenas o pensamento do filósofo nem só “a matemática eterna do universo” mas também, e sobretudo, “ágape e poder do amor criativo”.

Essa experiência magistralmente exposta por São Paulo em Romanos 1, 18-31 não pode ser compreendida pelos gentios e a compreensão é uma experiência única e, às vezes, dolorosa. Eis o caso de Pascal que, acostumado e identificado com o pensamento matemático, passa uma noite pela experiência que lhe dá o entendimento de Deus e escreveu num bilhete uma frase que passou a carregar sempre costurado à sua roupa:

– “Fogo, o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó não o Deus dos filósofos e sábios”.

Pascal compreende que o “Deus que é a geometria eterna do universo só pode sê-lo por ser o amor criador”.

Outro magistral exemplo, Ratzinger o encontra em Lucas 15, 1-10, na parábola da ovelha extraviada e da moeda perdida. Nela, Jesus justifica e descreve a sua atuação e a sua missão como enviado de Deus e a relação entre Deus e o ser humano. O resultado é a compreensão de um Deus cristão “extremamente antropomorfo” – ressalta Ratzinger. O Deus que encontramos ali, como em numerosos textos do Antigo Testamento é um Deus que “tem as paixões de um ser humano, ele se alegra, procura, espera, vai ao encontro…Ele não é a geometria insensível do universo, não é a justiça neutra que paira acima das coisas, insensível ao coração e seus afetos. Esse Deus tem um coração, ele ama com toda a excentricidade típica de uma pessoa que ama.”

Mas o entendimento da realidade cristã pode fracassar se o leitor não apreender essa humanidade do Deus Cristão. De fato, “a grande maioria dos seres humanos de hoje crêem que deve existir algo parecido com um “ser supremo” só que acham absurdo que esse ser se preocupe com os seres humanos”. Esse temor a uma espécie de antropomorfismo de Deus, destaca Ratzinger, é ainda mais real e palpável hoje do que no início do cristianismo.

– Ah, quando que Deus se preocupar comigo, com meu mundo miserável, com meus pecados ou virtudes, com minhas escolhas, enfim com minha vida?!

Eis, pois, onde se situa o poeta Holderlin que, nos chama a fugir da estreiteza de raciocínio e nos convida a pensar num Deus como espírito ilimitado: o teólogo e o homem de fé nos convida a pensar que, ao pensar em Deus como o poeta resumiu em seu aforismo, devemos imaginar que “os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande”. È, justamente nesse ponto, que a mensagem do Evangelho e a imagem cristã de Deus corrigem a filosofia, ensina Ratzinger:

“… mostrando que o amor é mais sublime do que o mero pensamento.
O pensamento absoluto é amar;
ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor.”

Encerro com esse trecho que me parece mesmo ser a origem da primeira encíclica de Bento XVI: “Deus é Amor.

Ah, se eu fosse capaz de tanta Esperança…

Bento XVI: oração como escola essencial de esperança

Segundo sua segunda encíclica, «Spe salvi»
Por Marta Lago

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 30 de novembro de 2007 (ZENIT.org).- «Primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperança é a oração», adverte Bento XVI em sua segunda encíclica, «Spe salvi», que assinou e publicou hoje.

Sua reflexão sobre a «esperança cristã» se dirige às inquietudes do coração humano, oferecendo as razões da certeza que muda a vida do crente em Deus.

A «esperança» maior, a que supera todas as dificuldades, a que redime o homem, vem do encontro real com Deus, que manifestou a totalidade de seu amor em Cristo Jesus, recorda o Papa.

É necessário «reaprender» esta verdadeira esperança – exorta – para poder oferecê-la ao mundo. E para isso a encíclica recorre a alguns testemunhos de esperança e a seu encontro pessoal com Deus.

Bento XVI, no começo de sua encíclica, dá o exemplo da escrava sudanesa canonizada por João Paulo II, Josefina Bakhita. Ela passou por terríveis sofrimentos, vendida desde muito jovem, até que chegou a conhecer o Deus vivo, o Deus de Jesus Cristo.

Ouviu dizer que existia um «Senhor de todos os senhores», «a bondade em pessoa»; soube que «este Senhor também a conhecia», «mais ainda, que a amava», que «tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela ‘à direita de Deus Pai’ – escreve o Papa. Agora ela tinha ‘esperança’.»

«Mediante o conhecimento desta esperança, ela estava ‘redimida’, já não se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia aquilo que Paulo queria dizer quando lembrava aos Efésios que, antes, estavam sem esperança e sem Deus no mundo: sem esperança porque estavam sem Deus.»

A partir de então, sentiu o dever de estender «a libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo (…); tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas», aponta o Santo Padre, rejeitando da esperança qualquer pretensão de individualismo.
Continue lendo…

Ratzinger e Holderlin

Introdução ao Cristianismonon coerceri maximo, contineri tamen a minimo, divinum est – não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino” (Holderlin, em Hipérion).


Este aforismo de Hölderlin no início de seu Hipérion, citado pelo então Cardeal Ratzinger, serve para nos lembrar a imagem cristã da verdadeira grandeza de Deus: “Não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino”.

Creio que essa citação nos ajuda a compreender que “o espírito ilimitado, que traz em si a totalidade do ser ultrapassa o ´máximo`de tal forma que este se torna insignificante para ele, e ele penetra até o ínfimo porque para ele nada é pequeno demais. Justamente o fato de ultrapassar o máximo e de penetrar no ínfimo constitui a verdadeira essência do espírito absoluto. Mas, ao mesmo tempo, revela-se nesse ponto uma inversão de valores do máximo e do mínimo, do maior e do menor, e esse é um traço característico da visão cristã da realidade. Para aquele que, como espírito, sustenta e abarca o universo, um espírito ou um coração humano que seja capaz de amar é maior do que todos os sistemas de vias lácteas. Os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande“.

O contexto da citação
Extraída do Cap.3 do livro citado (O Deus da fé e o Deus dos filósofos), esse trecho, conquanto belíssimo é mesmo um desafio. Pretendo ao situá-lo, agora, no contexto do livro, de modo a que meus seis leitores possam apreciá-la como eu a apreciei, inclusive na sua dificuldade de compreensão.

1. A opção da Igreja primitiva pela filosofia.
Onde Ratzinger trata de explicar como a Igreja primitiva resolveu o problema de esclarecer qual era o Deus da fé cristã. Pregando e vivendo a fé num “ambiente saturado de deuses”, os cristãos primitivos viam-se diante da pergunta: “a qual deus corresponde o Deus cristão, se a Júpiter, a Hermes, a Dioniso ou a um outro qualquer?”
E a resposta era sempre: “a nenhum dos deuses que vocês adoram, mas única e exclusivamente àquele Deus que vocês não adoram, ou seja àquele ser supremo do qual falam os filósofos…”

Essa foi a opção pelo “logos” contra o mito, assinala Ratzinger. Opção acertada para aquela época e para hoje, como se vê na conclusão de um longo exame que o Cardeal faz entre a oposição entre fé e razão:
– “ A fé cristã optou não pelos deuses das religiões e sim pelo Deus dos filósofos, isto é, decidiu-se contra o mito do habitual e exlusivamente a favor da verdade do ser mesmo”.

2. A transformação do Deus dos filósofos. O passo seguinte, descreve que, ao decidir-se por esse Deus dos filósofos, a fé cristã entendeu também que o ser humano pode e deve dirigir-se a ele em suas orações, assinala Ratzinger, ressaltando que esse passo significa dar a Deus a face humana, o Deus dos homens que não é apenas o pensamento do filósofo nem só “a matemática eterna do universo” mas também, e sobretudo, “ágape e poder do amor criativo”.

Essa experiência magistralmente exposta por São Paulo em Romanos 1, 18-31 não pode ser compreendida pelos gentios e a compreensão é uma experiência única e, às vezes, dolorosa. Eis o caso de Pascal que, acostumado e identificado com o pensamento matemático, passa uma noite pela experiência que lhe dá o entendimento de Deus e escreveu num bilhete uma frase que passou a carregar sempre costurado à sua roupa:
– “Fogo, o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó não o Deus dos filósofos e sábios”.

Pascal compreende que o “Deus que é a geometria eterna do universo só pode sê-lo por ser o amor criador”.
Outro magistral exemplo, Ratzinger o encontra em Lucas 15, 1-10, na parábola da ovelha extraviada e da moeda perdida. Nela, Jesus justifica e descreve a sua atuação e a sua missão como enviado de Deus e a relação entre Deus e o ser humano. O resultado é a compreensão de um Deus cristão “extremamente antropomorfo” – ressalta Ratzinger. O Deus que encontramos ali, como em numerosos textos do Antigo Testamento é um Deus que “tem as paixões de um ser humano, ele se alegra, procura, espera, vai ao encontro…Ele não é a geometria insensível do universo, não é a justiça neutra que paira acima das coisas, insensível ao coração e seus afetos. Esse Deus tem um coração, ele ama com toda a excentricidade típica de uma pessoa que ama.”

Mas o entendimento da realidade cristã pode fracassar se o leitor não apreender essa humanidade do Deus Cristão. De fato, “a grande maioria dos seres humanos de hoje crêem que deve existir algo parecido com um “ser supremo” só que acham absurdo que esse ser se preocupe com os seres humanos”. Esse temor a uma espécie de antropomorfismo de Deus, destaca Ratzinger, é ainda mais real e palpável hoje do que no início do cristianismo.
– Ah, quando que Deus vai se preocupar comigo, com meu mundo miserável, com meus pecados ou virtudes, com minhas escolhas, enfim com minha vida?! dizem muitos hoje em dia…

Eis, pois, onde se situa o poeta Hölderlin que, nos chama a fugir da estreiteza de raciocínio e nos convida a pensar num Deus como espírito ilimitado. O teólogo e o homem de fé nos convida a refletir que, ao pensar em Deus como o poeta resumiu em seu aforismo, devemos imaginar que “os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande”.

Nesse ponto justamente é que a mensagem do Evangelho e a imagem cristã de Deus corrigem a filosofia, ensina Ratzinger: “mostrando que o amor é mais sublime do que o mero pensamento. O pensamento absoluto é amar; ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor.”

Esse texto pra mim, parece mesmo a origem da primeira encíclica de Bento XVI”Deus é Amor”.

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(À suivre 3: “O reflexo dessa questão no texto do Símbolo apostólico – o Credo”).
Espero, sinceramente, ter dado a meus seis leitores mais elementos de compreensão da citação de Holderlin e criado interesse na leitura do excelente livro “Introdução ao Cristianismo”, de nosso Papa Bento XVI, que o escreveu como Cardeal J. Ratzinger.

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Fonte: “Introdução ao Cristianismo”, J. Ratzinger, Edições Loyola, 2005, p.109/10.