Poemas inéditos, 2020 (1)

Isaías fala Vida minha vida de tecelão, que vai tecendo malha simples tal qual a de todo cidadão – era trama antes de lhe cortarem de uma vez sua essência de trama, agora não há tear ou urdidura, não há pente que permita levantar ou abaixar a vista do que tecendo estava, não há passagem … Continuar lendo Poemas inéditos, 2020 (1)

Eugenio Montale – Xenia I

EUGÊNIO MONTALE

singularidade - poesia e etc.

1

Querido pequeno inseto
que chamavam de mosca, não sei por quê,
esta tarde quase ao escurecer
enquanto lia o Segundo Livro de Isaías
reapareceste ao meu lado,
mas não tinhas óculos,
não podias me ver
nem podia eu sem aquela centelha
reconhecer-te no escuro.

2

Sem óculos nem antenas
pobre inseto que asas
só tinhas na imaginação,
uma bíblia em frangalhos e ainda por cima tão pouco
confiável, o negro da noite,
um relâmpago, um trovão e depois
nem mesmo a tempestade. Quem sabe,
te foste cedo demais sem mesmo uma
palavra? Mas é ridículo
pensar que ainda tivesses lábios.

3

No Saint-James em Paris terei que pedir
um quarto “de solteiro”. (Não gostam
de hóspedes desacompanhados). E a mesma coisa também
na falsa Bizâncio de teu hotel
veneziano; para buscar logo depois
a cabine das telefonistas,
tuas amigas de sempre; e repartir,
gasta a corda,
o desejo de…

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William Butler Yeats – A torre

YEATS! A torre

singularidade - poesia e etc.

1
O que farei com esta absurdidade,
Esta caricatura, coração?
Decrepitude atada à minha idade
Como à cauda de um cão?
Jamais terei sentido
Tão grande, tão apaixonada, tão incrível
A fantasia, nem houve olho e ouvido
Que mais quisessem o impossível –
Não, nem quando menino, com inseto e anzol,
Ou mais humilde verme, no alto de Ben Bulben,
Eu tinha a desfrutar todo um dia de sol.
Devo mandar às favas minha Musa,
Ter Platão ou Plotino por amigo,
Até que fantasia, olho e ouvido,
Cedam à mente e virem escalpelo
Da ideia abstrata; ou ser escarnecido
Por uma lata presa ao tornozelo.

2
Passo pelas muralhas e reconto
Os alicerces de uma casa e o ponto
Onde a árvore, como um dedo sujo, sai do chão,
E solto a imaginação.
À luz do dia declinante apelo às
Memórias e retinas
De antigas árvores ou ruínas –
Que…

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Notas sobre a civilização do espetáculo (2)

Leiam e comentem. https://recortelirico.com.br/2020/04/civilizacao-do-espetaculo-2/

«O caminho de Cristo é a única coisa que torna possível a nossa sobrevivência» | Martin Scorsese | Andrea Monda In L’Osservatore Romano

Martin Scorsese e o Papa Francisco. Que diálogo. Leiam-no.
Entre os dois começou um diálogo tão simples quanto profundo, que depressa aportou ao nome de Dostoiévski, comum paixão de ambos, que com os seus romances faz de pano de fundo à obra do cineasta de “Os cavaleiros do asfalto” e “Silêncio”. E é precisamente do grande escritor russo que pretendo partir para retomar aquela conversa, ligando-me a “The irishman” e ao protagonista, Frank Sheeran (interpretado magistralmente por Robert De Niro), que surge como o único sobrevivente que, por isso, pode e deve falar, o único vivo que manda «notícias de uma casa de mortos». Não por acaso para todos os outros personagens, que fugazmente comparecem em cena, uma referência detém a imagem e indica-nos a data e a maneira, sempre violenta, da morte. Frank está vivo e fala, melhor, confessa-se, olhando fixamente para a câmara, nos olhos do espetador.
[…]
“Retenho que o caminho de Cristo é a única coisa que torna possível a nossa sobrevivência. É o único caminho que entrevejo para que a humanidade – todo o grande organismo da humanidade – possa efetivamente mudar e evoluir, distanciando-se do aniquilamento. Entendo isto não em sentido cultural, mas espiritual. O facto é que há o ir à igreja é há o caminho de Cristo. Não se trata necessariamente da mesma coisa, como todos sabemos. E creio que a confissão é um dos instrumentos espirituais mais poderosos de que a Igreja dispõe. É um exame autêntico daquilo que és, de todas as tuas dúvidas, os teus medos e as tuas transgressões, e o próprio ato da confissão abre a porta a tentar de novo, a ter uma outra possibilidade. Mesmo se não recebes a absolvição, abriste a porta.”

Quando a 21 de outubro passado se voltaram a encontrar, Martin Scorsese e o papa Francisco retomaram uma conversa como a que podem ter dois velhos amigos que se entendem sem esforço, ainda que a última vez que se tinham encontrado ocorreu praticamente um ano antes, a 23 de outunro de 2018, em Roma, por ocasião do encontro de jovens e idosos com o papa da apresentação do livro “A sabedoria do tempo”. O papa, depois de lhe ter perguntado pela esposa, quis saber informações sobre o seu novo filme, “The irishman”, e o realizador italo-americano explicou que se trata de uma película sobre o tempo e a mortalidade, a amizade e a traição, o remorso e o arrependimento pelo passado.

Entre os dois começou um diálogo tão simples quanto profundo, que depressa aportou ao nome de Dostoiévski, comum paixão de ambos, que com os seus romances faz de pano…

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O cancioneiro de Sebastian Arrurruz

(c) Foto Chris Floyd

Não se esqueça de viver

A É Realizações Editora lança "Não se Esqueça de Viver — Goethe e a tradição dos exercícios espirituais", de Pierre Hadot.Estudioso responsável pela redescoberta do caráter vivencial da filosofia antiga, o autor analisa como isso está presente na visão de mundo goetheana. Pierre Hadot é unanimemente aclamado como o erudito que recuperou a dimensão prática … Continuar lendo Não se esqueça de viver

Recorte lírico

O mundo não está preparado para lidar com a pandemia do Coronavírus, mas pode aprender rapidamente -- e deve. A imprensa não pode (e não deve) criar notícias como se fossem espirros irresponsáveis, sintomas da própria pandemia

Rafael Reinehr | Escrever Por Escrever

https://www.youtube.com/watch?v=OTPhvHJaaWs&list=UUcquBDF-uPq685S2v_eDXiA O canal de RR - um polímata, autodidata e eclético. Amigo. Conheço o Rafael há uns 200 anos. Era o tempo dos blogs, tipo hard, hard... Ele era o meu amigo do Sul - RR. Hoje, é um profissional de Saúde que não se esqueceu do dom recebido para escrever e nos convencer de … Continuar lendo Rafael Reinehr | Escrever Por Escrever

Das pragas do Egito ao Apocalipse

Um livro de revelações - o Apocalipse de São João nos mostra visões de uma terra desolada. Decifre essa mensagem do evangelista e a compare com os dias atuais.