Meus posts mais lidos em 2016

Leitores amigos de Leveza & Esperança:

Olá! As veredas da leitura e da reflexão. É o que posso dizer sobre meu persistente trabalho aqui no blog. Um exercício pessoal que vai ganhando adeptos, sem nunca ceder à mesmice e ao mainstream editorial – estou mais interessado naqueles “talvez uns dois em mil” leitores de que nos fala o poema de  Wislawa SZYMBORSKA
(1923-2012).

Alguns gostam de poesia

Alguns –

ou seja nem todos.

Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Sim, dois em mil. Não milhões, tampouco half a million –  como parece imperar nos sites e portais atuais aqui você e eu (dois em mil) podemos nos deleitar com temas que não passam na web massiva; notadamente temas como Literatura e Fé, catolicismo, poesia e crítica literária. Essas reflexões sobre leituras ganharam este ano uma nova série de posts, intitulada “Queres ler o quê?” 

Eis-nos diante de mais um ano que chega, com aquela tendência natural ao ser humano racional e minimamente organizado: fazer um balanço do ano que se vai…

Nas estatísticas de 2016, eis os 5 posts mais lidos:

  1. Queres ler o quê (IV).

    BALZAC

    Se disser sim a Honoré de Balzac, terá o leitor uma miríade de informações a seu dispor – entre romances, originais e em tradução ao português, bem como uma das mais ricas fortunas críticas. Siga lendo…

  2. A Prece, Emily Dickinson.

    PRAYER is ……
    Pintura_Sassoferrato-The-Virgin-in-Prayer MilleChristi

    Prayer is the little implement…continue lendo!

  3. José J. Veiga – a ilha dos gatos pingados.

    Um conto excepcional, lido por mim… confira neste link.

  4. Especial Georges Bernanos

    DAQUI, você pode ir direto aos posts dedicados a Georges Bernanos, o mais brasileiro dos autores franceses. Confira no link.

    Capas Novos Livros Bernanos
  5. Livros – a lista 2015.

    Confira no link.

  6. Observação final.

    Espero que você, leitor especial do blog – dois deles especialíssimos (Eliana Pessoa e Nelson L. Castro) que sempre vêem, lêem e nem sempre comentam – tenha um bom 2017.

    Que a leitura seja sua, minha, nossa companheira, nosso alimento e nossa reserva de isolamento do mundo que se encontra em atoleiros cultural e moral inaceitáveis.
    Dois dos novíssimos escritores apreciados numa nova série de posts também tiveram enorme repercussão aqui e no Facebook. Autores do século XXI – uma fortuna crítica para os que (ainda) não são escritores famosos!
    6.1 – Karleno Bocarro – que apreciei neste post (ver link).
    karleno-bocarro_perfil
    6.2 – Rodrigo Duarte Garcia – neste aqui.
    O artigo completo está nos arquivos de Opção Cultural.
    os-invernos-da-ilha
    Em 2017, espero continuar trazendo até, você leitor, minhas avaliações de leituras, reflexões poéticas e culturais sobre o que vai publicando, aquilo que considero o melhor, sem influências outras que as dos irmãos de Fé e da tradição Católica. Espero continuar respondendo à pergunta:  “Queres ler o quê?
    Au revoir. Merci!
    Ω.Ω.Ω.Ω.Ω

Livros 2016

Uma pequena e valiosa lista no painel dos leitores do Opção Cultural.livros-do-ano-2016_opcao

São sete livros apenas, comentados em no máximo 10 linhas, revelando que nem sempre o lançamento do ano em curso é o que atrai o leitor seletivo. Se me incluo aí na lista, comentando um belo livro lançado em 2016, não o faço como auto-elogio, mas cumprindo a obrigação de agregador e incentivador da arte de ler.

Esperamos motivar mais leitores inteligentes a fazer parte da lista 2017… Infelizmente, lê-se pouco hoje; lê-se menos e de forma apressada; substitui-se a leitura pelas séries de TV, pela leitura de fofocas e noticiário via web. Perdem com esses novos hábitos a literatura e o leitor (potencial) que se deixa atrair pelos modismos.

Insisto em ler e em aperfeiçoar o hábito da leitura. Delego à tv aberta – próximo a 0,01% do meu tempo; séries e tv fechadas – só depois de muita escolha! Netflix, muito pouco; YouTube, educativo e óperas, algum riso…; samba, música erudita e francesa para acompanhar o dia-a-dia; não perco tempo com futilidades.

Há quase 3 anos aboli o futebol semanal na tv – reservo-me para as finais de campeonatos. É muito ainda. Conclusão: obtive um aumento significativo no índice de páginas lidas e na qualidade da absorção dos livros lidos.

lista2bleituras2b19762b1
Fig. 1 – Lista de leituras 1976.

Aprendi com o professor Rodrigo Gurgel que a leitura atenta pode ser um passo em direção à boa interpretação e à própria escrita. A lição tirada de Antoine Albalat pode ser desdobrada para o melhor deleite daquele que lê.
Vem de São Gregório Magno a dica fundamental para o leitor atento:

A escritura cresce com quem a lê” – recorda-nos o professor Gurgel que acentua: “O leitor complementa a leitura” – embora seja uma visão católica, reproduz-se em Marcel Proust, por exemplo, para quem “todo leitor, quando lê, é leitor de si mesmo!”. Ou, em J.L. Borges, para quem “a literatura cresce com quem a lê.”

Ao longo da minha vida, sempre fechei o ano com a minha lista pessoal de livros lidos – para ter uma memória de tudo o que havia conseguido realizar no plano literário (o que desejara ler no início daquele período e, secretamente, para que me preparasse para escrever melhor!).

Há listas antigas e guardadas em meus cadernos que são inseparáveis, mesmo depois de tantas mudanças de casas e de situações existenciais…Essa que ilustra a página, feita num caderninho artesanal montado por minha mulher, é de 1976 (fig.1).

No extraordinário “Crítica, Literatura e Narratofobia” (2015), Rodrigo Gurgel abre o volume com o artigo “Em busca do livro primordial” – com que me identifiquei visceralmente. Confiram parte deste texto:

RECORDAR NOSSO PASSADO não pode ser um exercício de idealização. O diálogo com o  “eu”que nos observa e, ao mesmo tempo, envolto na neblina do tempo, nos dá as costas e caminha de volta à infância, precisa estar impregnado daquela tensão que ressurge sempre que nos debruçamos sobre o poço da verdade.
É o homem de carne e osso que busco quando olho sobre meus ombros na direção da juventude, da infância. Mas não se trata de revisitar um horizonte ensolarado. Trata-se, ao contrário, de repetir as caminhadas de Miguel de Unamuno pelo claustro do Monastério de Santo Estevão, em Salamanca, debruçar-se sobre o poço, no Pátio das Cisternas, e gritar: “Eu…eu…eu!”, para que o eco do passado, ao repetir o pronome, reafirme minha existência.
Um de meus sonhos recorrentes está impregnado desse “eu” sempre à minha espera, em algum ponto do emaranhado de reminiscências.
No sonho, estou na entrada do porão da casa de minha bisavó paterna. A cena começa exatamente ali, repetindo os gestos que cansei de fazer durante a infância:  retiro a chave pendurada no batente, num prego, coloco-a na fechadura, e, com um único giro, a porta se abre. Sinto, imediatamente, o cheiro adocicado de BHC, um odor úmido, e o ar pegajoso que vem do ambiente escuro.
O segundo movimento é localizar, na parede à esquerda, entre a estante e o batente, o interruptor. A seguir, entrar. A lâmpada, fraca, mal ilumina as porcelanas e os vidros nas prateleiras, além dos caixotes empilhados e recobertos de pó.No entanto, o que procuro não está ali, mas no cômodo ao lado, que permanece escuro.
Não sinto calor  ou frio, apenas uma expectativa controlável, pois estou certo de que ele se esconde no quarto vizinho, sob a escuridão.Então, penetro naquele lugar ainda mais úmido, e é difícil descobrir o interruptor, que não passa de uma delicada corrente presa à lâmpada, no centro do cômodo. A mão cega apalpa a escuridão. Por um segundo, a ansiedade transforma-se numa espécie de medo, talvez o receio de que minha busca — e o encontro certo — não se concretizem, somente pelo fato de eu não conseguir acender a luz. Mas encontro a correntinha e puxo-a — e imediatamente vejo os caixotes de livros no chão.
Sei o que venho buscar: o livro superior a todos os livros, um manual completo sobre a existência e, ao mesmo tempo, o guia para a difícil, emaranhada tarefa de viver. Tenho certeza de que está ali, aguardando-me. Não uma obra mágica, mas apenas o conjunto de páginas recoberto por duas capas envelhecidas, no qual se esconde a síntese da experiência humana.
Vasculho os caixotes lentamente, retirando os livros, um a um.
(…)
E então, do fundo de um caixote de madeira, sob a pilha de livros inúteis, retiro aquele que me revelará o segredo de viver. Nem pesado nem leve, segurá-lo guarda o mesmo prazer que sinto, ao encontrar em um sebo, a obra há vários anos desejada.
(…)
O sonho é impressionante por vários motivos, mas deixo aos psicanalistas a tarefa de compor, mais que a análise, suas ficções.
O que me interessa é reencontrar esse objeto que se tornou uma das poucas constâncias em minha vida. Há, claro, um conjunto de fatos, de circunstâncias que formam uma personalidade, mas, no meu caso, os livros têm papel primordial.
Às camadas do meu ser correspondem livros. Nasci e fui educado entre três bibliotecas: a de meu pai, composta, basicamente, de obras de filosofia e da área jurídica, mas onde descobri as sisudas capas negras do Tesouro da Juventude — com a velha ortografia, em que eu podia saborear a beleza excêntrica de palavras como ophthalmologia, columna e aucthor — e o Lello Universal; a de miha avó, pequeníssima, mas com livros indispensáveis, como As mil e uma noites e Madame Bovary; a a do Gabinete de Leitura Ruy Barbosa.
Cada uma me ofereceu o que tinha de melhor, mas a do Gabinete fez o principal, pois a bibliotecária da noite, dona Odete, deixava que eu transpusesse o balcão de madeira escura e, penetrando no acervo, percorresse as estantes livremente. Ali, então, descobri o mundo.
Mas o que forma um leitor é, antes de tudo, o exemplo de outros leitores…(…)
Se o tempo me fez mais seletivo, se a ânsia adolescente de ter todos os livros foi substituída por uma serenidade que diminuiu o número de compras mas não tornou possível ler tudo o que desejo, isso não muda o anseio das visões oníricas, de que, algum dia, aquele menino que penetra no porão me permita ler ao menos o título, talvez a primeira linha do livro que sintetiza a vida”*

E Gurgel segue registrando sua gratidão ao exemplo de leitores eminentes para a sua (dele) formação como leitor e crítico — seu pai, por primeiro; as professoras de Teoria Literária e de Língua Portuguesa; professores do colégio que o iniciaram no que, comparado à capacitação de hoje fê-lo pensar que cumpriu, antes de tudo, um mestrado. Nelson Foot, professor autodidata, é lembrado com carinho por Gurgel, quando já aposentado, o ensinava a entender um poema de Cecília Meireles e o traduzia para o romeno, depois para o latim, a seguir para o francês, finalmente para o inglês…“Gosto de imaginá-lo brincando com os textos como se fossem animais de estimação.” 

E assim, de maneira quase afetiva, Rodrigo Gurgel nos apresenta seu mundo de livros, para só então listar “Dez livros que mudaram minha vida” (p.37/40). A lista fica aqui, mas a recomendação aos meus seis leitores deste blog é que procurem conhecer os argumentos que fundamentam o livro por inteiro.

A lista de RODRIGO GURGEL – Dez livros que mudaram minha vida

  1. Os Sertões, de Euclides da Cunha.

  2. Livros do poeta inglês John Keats — notadamente “Endymion” e seu marcante verso “A thing of beauty is a joy for ever…” que o remete a seu estimado professor Flávio Vespasiano Di Giorgio.

  3. “Claro Enigma” (referência também de Di Giorgio) de Carlos Drummond de Andrade.

  4. “A Morte de Virgílio”, Hermann Broch, principalmente o magistral início: “a solidão do mar, ensolarada e todavia prenunciadora de morte…

  5. “Lorde Jim de Joseph Conrad e …

  6. “A fera na selva” — Henry James porque (Conrad e James) eles “mostraram-me que a grande batalha encontra-se no centro do nosso coração — essa é a única história sempre recontada” (Gurgel).

  7. “Raízes da criação literária” (Edmund Wilson).

  8. “A orgia perpétua” (Mario Vargas Llosa).

  9. “O imbecil coletivo” e tantos outros artigos de Olavo de Carvalho.

  10. Livros de Isaiah Berlin — através dos quais o autor diz ver-se “livre do coscorão esquerdista“.

α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α∞α
Post-post: O hábito das listas persegue a humanidade há muito tempo…* é o que prova Shaun Usher com suas 125 “listas extraordinárias” encontradas pelo pesquisador inglês nos muitos arquivos vasculhados por ele quando reunia material para o livro “Cartas extraordinárias“. Agora, Usher aproveitou este material criando “Listas Extraordinárias“. capa-livro-listas-extraordinarias

O “listismo“, no entanto, ganhou status de maioridade nestes tempos de autopromoção e de publicação aberta pelo uso intensivo da Web. Há listas diversas de filmes, músicas, hábitos saudáveis, alimentos para dietas, roupas etc. espalhadas pela internet. Algumas delas de utilidade próxima de zero…
Outras, se levadas a sério – como a lista de livros fundamentais elaborada por Vargas Llosa (dirigida a candidatos a escritor, mas submetida por muitos sites ao simples mortal!) pressupõe que o leitor médio brasileiro gastaria 21,5 anos para cumpri-la, lendo uma média de 115 páginas por ano – o que já é uma coisa extraordinária entre nós com os novos hábitos surgidos no país pós-Internet.

+++++
FONTES:
i. link de O Globo consultado em 23/12/2016 às 9h00 – © 1996 – 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

ii. (*) GURGEL, Rodrigo. Crítica, literatura e narratofobia, Campinas, SP: Vide Editorial, 2015, p.25/30 (excertos).

iii. ALBALAT, Antoine. A arte de escrever em 2o lições.- Campinas, SP: Vide Editorial, trad. Cândido de Figueiredo. Apresentação de Rodrigo Gurgel.

Além das listas acima, recomendo aos leitores os livros que comentei ampla ou sinteticamente aqui no meu blog ao longo do ano, principalmente na minha coluna no Jornal Opção (ex. Karleno Bocarro e Rodrigo Duarte Garcia) ou nos tópicos “Queres ler o quê?“. Boa Leitura!

 

Quero ler… o quê? (III)

O gigante Thomas Wolfe.thomas-wolfe_societysite

Literalmente gigante. O homem, sabe-se, tinha quase dois metros de altura. Não pode ser confundido com o jornalista “Tom Wolf”, de grafia similar, porque Thomas W. é escritor que tem várias polegadas acima na qualidade do texto e tem uma imaginação criadora única, que se nos mostra nos livros deixados. Mesmo tendo morrido jovem com 38 anos, Wolfe legou-nos obras importantes, merecendo ser lido por quem ama a prosa de ficção e as boas narrativas curtas (contos).

Wolfe, agora retratado em filme, como nos conta o editor do Jornal Opção Euler Fagundes de França Belém, ele próprio editor e dono de texto digno de ser eternizado em livros – pois bem, como nos conta Euler, o filme “Mestre de gênios” trata da relação de Wolfe com seu editor Max Perkins:

22
Wolfe e Perkins em foto do artigo de Euler De França Belém, Opção, ed.06/11/16

“O “Mestre dos Gê­nios”, de Michael Grandage, é um desses excelentes filmes que passam quase despercebidos — tanto que, em Goiânia, foi exibido apenas no Cine Lumière, no shopping Bou­gainville. A atuação dos atores Jude Law, como o escritor Thomas Wolfe, e Colin Firth, como o editor Max Perkins, é impecável. Não deixa de ser curioso que ingleses tenham representado homens lendários da cultura dos Estados Unidos. Nicole Kidman aparece de maneira discreta como Aline Bernstein, a amante de Thomas Wolfe. Aqui e ali, há licenças poéticas, com condensações necessárias tanto para chamar a atenção do espectador quanto para tornar a história adequada ao cinema.
“Mesmo sendo uma síntese da história complicada mas produtiva entre Thomas Wolfe (1900-1938) e Max Perkins (1884-1947), o filme, inclusive o título, é, no geral, preciso. Se o leitor quer, porém, uma história mais bem contada, com nuances, deve consultar a biografia “Max Perkins — Um Editor de Gênios” (Intrínseca, 541 páginas, tradução de Regina Lyra), de A. Scott Berg, autor premiado com o Pulitzer.” – (Euler Belém, Opção, ed. 06/11/2016 – coluna Imprensa)

Mas, antes de apontar a você, leitor, o link para o belo artigo do Euler Belém, permita-me contar duas ou três cositas sobre o autor em apreço. O responsável pelo meu apreço à obra de Wolfe é o professor e crítico Rodrigo Gurgel. Em uma das aulas virtuais que assisti em março passado, o professor ensinava-nos sobre a figura do “Autor” na literatura. A par de anotar os pré-requisitos do grande autor, Gurgel sugeriu a leitura de “O trem e a cidade”.

Traçado quase como uma fígura mítica, entanto, humaníssima – o Autor imaginado por Gurgel tem que “lançar-se!” com tenacidade, resistência, dedicação, conhecimento e inteligência. Este misto de guerreiro e santo é uma amostra de alguém que exerce um ofício quase sagrado e de quem se exige “o empenho de toda a personalidade”.

É isso que lemos nos livros de Wolfe e de outros autores conscientes dessa espécie de atributos e ouvem sua vocação: Balzac, Vargas Llosa, Flannery O’Connor, Milan Kundera, Georges Bernanos, C.S. Lewis, Flannery O’Connor e o próprio Wolfe…entre muitos outros (não inclui brasileiros, o que farei em outro post da série “Quero ler…O quê?”.

Talvez por ser essa espécie híbrida de guerreiro e místico é que Balzac

honore-de-balzactrajemonge
Balzac no seu traje de monge – literatura como   “o empenho de toda a sua personalidade” (R.G.)

gostasse de se deixar mostrar ao daguerreótipo (a máquina fotográfica primitiva ou aos pintores) com seu traje de monge.

O exemplo de Wolfe é o do encontro da própria “sintaxe” – a ordem das idéias e dos conceitos – transformada em arte sua visão particular do mundo, do que o “O trem e a cidade” foi-nos dado como exemplo de bem realizado…

Curiosa coincidência me levou a só conseguir ler o livrinho do Wolfe dentro de um trem. Era dos poucos livros que levava na bagagem e o li com grande interesse em uma viagem num trem rápido, de Helsinque a São Petersburgo.  Desde a citação do autor pelo professor Gurgel, achei uma série de outros livros do autor na Amazon. Confiram no link.

Portanto, esse enorme post só quer dar resposta à pergunta do título – e série de artigos sobre leitura compartilhada: Quero ler…O quê?
– Respondo que merecem ser lidos o artigo de Euler  e a ficção de Thomas Wolfe, que com este post, espero, você leitor tenha grande motivação para conhecer.

Eis um daqueles autores a quem se aplica com propriedade a frase de Flannery O’Connor: para este escritor a forma de ficção será sempre uma forma de superar seus próprios limites, indo além e adiantes em busca das fronteiras do mistério“. Viajo com Wolfe e me delicio com sua prosa de alto nível.

“As pessoas estavam falando a língua universal da partida, que não varia no mundo inteiro – a língua muitas vezes banal, trivial e até inútil, mas por isso mesmo curiosamente tocante, já que serve para esconder uma emoção mais profunda no coração dos homens, para preencher o vazio que há em seus corações ante o pensamento da partida, para servir de escuro, uma máscara que esconda seus sentimentos verdadeiros.
“E por isso havia para o jovem, o estranho e o forasteiro que via e ouvias essas coisas, um caráter emocionante e comovente na cerimônia da partida do trem. Enquanto ele via e ouvia essas atitudes e palavras que, transposta a barreira de uma língua estranha, eram idênticas àquelas que ele vira e conhecera toda a sua vida, entres os seus – ele de repente sentiu, como nunca tinha sentido antes, a terrível solidão da familiaridade, a percepção da identidade humana que tão estranhamente une todas as pessoas do mundo, e que está arraigada na estrutura da vida dos homens, muito além da língua que eles falam, da raça da qual são membros.” (Wolfe, em “O trem e a cidade”, trad. Marilene Felinto).
O Thomas Wolfe é um craque da narrativa curta. Estou lendo agora “Of time and the river” em inglês, porque não o sabia traduzido no Vernáculo.
++++

Post-post: Veja fotos do trecho de “O trem e a cidade” neste link. Para visitar o site Oficial de Thomas Wolfe Society, clique aqui.

Queres ler o quê?

Muito se publica e a subliteratura parece imperar. As listas são um horror para aquele que quer ler com critério. Um guia para ler e saborear a leitura.

Leia Mais...

Mentecaptos

“Somente um mentecapto escreve se não for por dinheiro” (S. Johnson)

Escrever tornou-se um ato banal nestes tempos conhecidos como a era da informação. A facilidade de acesso aos meios de publicação, com a internet, trouxe ao cidadão comum a ilusão de que é muito fácil ser escritor. Tantas tonterias são cometidas que o ato sagrado de traduzir idéias em palavras parece nunca ter sofrido tantos sacrilégios.

A aventura humana do ato de “traduzir idéias em palavras”, na sintética definição de Antonio Fernando Borges (1), parece no mais das vezes uma tormenta em mar turbulento, quando não um naufrágio real.

Houve tempo em que até um relatório da gestão de um prefeito transformava-se em tradução saborosa, devido ao encanto da linguagem. Lembro-me do velho Graça, Graciliano Ramos em 1929, quando prefeito de Palmeira dos Índios (AL), desmontando a lógica da sensaboria de que, em geral, se salgam os documentos dessa natureza:

“Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamavam.
(…)
“Instituíram-se escolas em três aldeias. Serra da Mandioca, Anum e Canafístula. O Conselho mandou subvencionar uma sociedade aqui fundada por operários, sociedade que se dedica à educação de adultos.
“Presumo que esses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras.
“Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos, passatempos acessíveis a quase todos os roceiros.”

Esta citação reforça o vazio do que vemos hoje, por contraposição ao que lemos hoje nos textos ditos criativos que infestam os websites e blogs. O texto do Graciliano mostra um pouco do que nos falta hoje em sonoridade, equilíbrio e graça – sim, há uma graça no texto a que se pode designar harmonia, aquela sensação de beleza, mesmo quando o assunto não é nem um pouco tocante à beleza – pelo menos, não no sentido que se espera da arte de escrever.

Então, voltamos ao sentido inicial da tradução das idéias em palavras, para entender a citação que abre este exercício. Diz-nos Francisco Azevedo em seu Dicionário Analógico que mentecapto tem a ver com imbecilidade, no verbete 499. E expande para irresponsável, orelhudo, burro, burrical, asinino, asnal, azoinado; e por aí faz cavalgar o termo.

Analisando alguns escritos na internet, concluo a quem cabe o epíteto cunhado por Johnson. No Brasil, há muitos que escrevem com desvelo mas na gratuidade, sem esperar remuneração – como num sacerdócio, esperando a justa medida do reconhecimento – nunca a soldo; escreve-se com tenacidade, num quase sacrifício pessoal, quando me refiro aos grandes escritores. É na solidão e no isolamento, independente da crítica ou do público, distantes dos holofotes que esses dedicam-se à arte de escrever.

Já os calhamaços rascunhados sobre as pernas de “escritores” a serviço do poder – estes sim, mostram-se atoleimados, ajogralhados, apegados ao ofício abjeto do fazer com a mão para levar à boca ou ao palacete de jogral dos governos.

Se a frase de Samuel Johnson na epígrafe serve ao propósito de enfatizar a profissionalização do ofício de escritor e conclamar a que este saiba seu próprio valor; há entre nós os que levam ao rés-do-chão a “arte” e se vendem aos governos de plantão – enxovalhando e amesquinhando o que poderia ser o culto do grave ofício. Hoje escreve-se por dinheiro no Brasil, desde que agrade ao que governa.

Assim, às avessas, fica no Brasil a frase de Johnson com sua validade reversa. Seria o mentecapto aquele típico imbecil coletivo já denunciado pelo professor Olavo de Carvalho, parte da turba, servil e dócil ao poder. Aqui, onde o ofício de escrever não é profissionalizado senão para os que escrevem à sombra do poder e as uns poucos que encontraram público vasto na ficção adocicada; aqui, os mentecaptos às avessas insistem em realizar na solidão a busca da escrita perdida.

*****
Fontes: 1. BORGES, Antonio Fernando. Em Busca da Prosa Perdida. S. Paulo, É Real. Edit., 2013. 2. Relatório de 1929, Graciliano Ramos ao Gov. de Alagoas, Revista de História, link consultado em 12.04.16

 

 

Leitura atenta: escrita criativa (exerc. #1)

V.S.NAIPAULNovelist and travel writer VS Naipaul

 “Jamais me ocorreu que escrever este livro poderia vir a ser um fim em si, que o ato de registrar uma vida poderia se tornar uma extensão daquela vida. Jamais me ocorreu que eu pudesse vir a gostar da vida metódica e regulamentada do hotel, que antes me levava ao desespero, e que o contraste entre a imutabilidade de meu quarto e a lenta construção do que lá estava sendo criado me daria tamanha satisfação. Ordem, sequência, regularidade: é o que sinto cada vez que o medidor do aquecedor estala, aceitando mais uma de minhas moedas. Em quatorze meses, o aquecedor ja engoliu centenas de xelins, ora com um som oco, ora com um som mais cheio. (…)
“Conheço cada linha do trecho do papel parede acima da escrivaninha. Não percebi nenhum sinal de deterioração, mas fala-se em redcorar o hotel. E a escrivaninha: quando sentei-me à sua frente pela primeira vez, achei-a tosca e estreita. O tampo escuro estava manchado e arranhado, o arranhões estavam cheios de terra e sujeira, a gaveta estava emperrada, os pés tinham sido serrados. Não fazia parte do mobiliário padronizado do hotel. Fora-me fornecida em atenção a um pedido especial. Era um móvel de segunda mão, que não pertencia a ninguém. Agora ela me parece reabilitada e limpa: é um objeto cotidiano e confortável e até mesmo os arranhões adquiriram um certo brilho. Isto se deu graças ao dom da observação minunciosa, que adquiri ao escrever este livro; uma ordem, da qual faço parte, vem corresponder a outra, que é criada por mim. E com este dom veio também outro, o que eu menos esperava: uma capacidade de gozar constantemente, calmamente a passagem do tempo.”
(Os mímicos, p.310, trad. Paulo Henriques Britto).

Transcrevendo este trecho do romance que acabo de ler, primeiro num caderno e agora num editor de texto, sigo um conselho do professor Rodrigo Gurgel, na oficina de Escrita Criativa 2016.

Penso no trabalho braçal que levou V.S. Naipaul a construir o romance, elaborar cuidadosamente os planos em que se desenrolam as aventuras e desventuras de um personagem em prosa não linear. Foram esforços de um talentoso e disciplinado escritor trabalhando entre agosto de 1964 a julho de 1966. Somente isso já exigiria do leitor uma atenção cuidadosa sobre essa tenacidade.

A observação atenta do que lê para aprender é sistemática e continuamente provocada a ser uma espécie de comunhão entre leitor-escritor. O que espreita, o que vigia, o que presencia – eis o leitor atento. Ao que descreve cabe manter-nos agarrados ao fio da conversação imaginária.

A imaginação, tida como “a doida da casa” por Santa Teresa D’Ávila pode por vezes ser o fio condutor de uma remissão. Trata-se de “gozar calmamente a passagem do tempo” para um e outro. Mas não haverá comunhão se não houver verdade no texto. Se não encontro na escrita algo “além do transitório, do momentâneo”, se ali não houver uma “sintaxe” própria, se o Autor falseia e escorrega para o rés-do-chão, transforma-se no prisioneiro do corriqueiro. O que não inventa, não surpreende – e para isso não são necessários muitos malabarismos! – não retém, não serve ao Leitor a ceia (seiva) da história que teria a contar.

Ao contrário, o que une elementos únicos como se fossem a própria vida; esse convence e retém o Leitor, numa teia de encantamento capaz de criar uma “conspiração afetiva”.

Forçoso dizer que todo livro tem seu propósito, quando bem realizado. Não me cabe dizer agora, no calor da 1a. leitura recém-finda que “mensagem” é essa que vem de “Os Mímicos”. Nem seja este, talvez, o caso. Bastou-me manter os olhos bem abertos, “a mente atenta não apenas para se divertir, mas para aprender com o Outro” – como sugere o professor Gurgel.

E se é certo que “Não basta imaginação!”. A doida da casa há de servir-nos, leitores exigentes mais do que um entretenimento e um passar do tempo. “Viver e escrever precisam transformar-se em uma coisa única”. Primeiro, isso ocorre com (e dentro) do escritor; mas não menos importante, secundariamente no (dentro) do Leitor. Há, dessa forma, uma espécie de “uma conspiração afetiva entre escritor e leitor“.
De “um sacerdote da imaginação” (Paul Mariani) espera-se sempre o respeito pelo altar do livro.

E assim Naipaul arremata o assunto:
“O ato de escrever este livro é mais do que uma forma de me libertar daqueles artigos [feitos ao correr da pena, profundamente desonestos …que se esquivavam da verdade final até perdê-la]; é uma tentativa de redescobrir aquela verdade final.”

E assim se deu comigo, leitor, na leitura atenta (não menos emocionada) de “Os Mímicos”, de V.S.Naipaul, traduzido por Paulo Henriques Brito.
♣./.