Um poema de john o’donoue

Nothing Else Matters*

From you
I don’t want anything new
no more gifts
nor the scent of landscapes
rising to fill us,
no bouquets of insight
left by my head
in the tenderness of morning,

no intoxication
of thoughts that open horizons
where rooms are low,
nor the sever of spring
under the grid of old words
that has set on our skin,
nor my favorite blue,
the cobalt
colour of silence.

No.
All I want
is your two hands
pulsing in mine,
the two of us
back in a circle
round our love.
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*Fonte: Echoes of Memory_ODonohe
O’DONOUE, John. “Echoes of Memory”, Three River Press, N.York, 1994, p.81.
Saiba mais: Resenha do livro em inglês.

A glória de Deus (I)

The glory of God is the human person fully alive”
A citação em inglês lida alhures num livro de John O´Donohue é a legenda desta manhã de sábado plena de sol, em que a centelha divina se expõe de forma silenciosa, somente com a retórica do vento sob a superfície do lago (como a Sabedoria sempre se expressou).
O sonho lembrado entre o cuscuz e café-com-leite da manhã, os pássaros, as nuvens, notas de Chopin que parecem ressaltar o cheiro da grama recentemente cortada no lote vizinho, o verde intenso desta manhã de abril, em que a natureza parece nos contar segredos.
Tudo faz-me lembrar o texto de John O´Donohue, lido em contexto diverso:
”We are so privileged to still have time. We have but one life, and it is a shame to limit it by fear and false barriers.”
Assim, a calma economia de demonstrações da presença divina me faz enxergar a beleza, a unidade e a criatividade possíveis (devido ao autor de Anam Cara) de ser recuperadas mesmo no meio do turbilhão das dúvidas, das sombras e do claro-escuro da vida que parece nebulosa em tantos momentos. Sentir-se e Ser na essência, abrindo os olhos para o ritmo interior e a riqueza da vida em família, atento às coisas mais simples, às pequenas alegrias, eis a fórmula recuperada.
Esta manhã de sol testemunha a glória de Deus.
E Santo Irineu salta da estante para lembrar a legenda de O´Donohue:
”Deus se torna visível por meio de muitas economias, para que o homem privado totalmente de Deus não deixe de existir. A Glória de Deus é o homem que vive (inteiramente) e a vida do homem consiste na visão de Deus. Se a manifestação de Deus por meio da criação dá a vida a todos os seres que vivem na terra, com maior razão a manifestação do Pai pelo Verbo dá a vida aos que vêem a Deus.”
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Fonte: O´Donohue, John. “Anam Cara: A Book of Celtic Wisdom”, Harper-Perennial, 1997, p.124; Santo Irineu de Lyon. “Contra as Heresias”, Ed.Paulus, 2a.ed., 1995, liv.IV-20, p.433.

J. O´Donohue: releitura (poema em prosa)

Num vaso de barro, uma profusão de anseios”*
Eis-me sentado no mais baixo do pântano.
Eis-me aqui no meio-fio da vida, parado, e estacado, e triste

Eia, caos, eia tráfego, eia bytes que cavalgam para o nada.Eia!
E parece que não há consolo em lugar nenhum.
Entanto, a minha alma rota ainda quer ver a luz.

Um barulho tão grande lá fora
Uma vontade tão frágil cá dentro
Eis o mundo que se esboroa.

Eis-me sentado no mais baixo do pântano.
Assistindo aos homens sombrios que se extraviam…

Ah! que não há nenhum que faça o bem.
A cada dia um pedestal se rompe e vejo cair mais um herói
Ah, David, os insensatos estão soltos e, parece, sairam à forra…

Entanto, a minha alma rota ainda quer ver a luz.
Mas há a planta que agradece
A semente que espoca em vida.

Oh doce voz interior que me chama de tão longe,
Faz que a distração com tudo isso
O que é transitório, e lama, e tédio cesse.

Já não estou sentado, eu cedo:
– Eu me ponho de joelhos,
E diante do sol quedado
Construo essa catedral invisível
Até o céu sua torre estendida…

Sim, eu quero essa escada de Jacó
Eu quero essa noite de João da Cruz.

Eu quero Paz e essa imensidão silenciosa
Eu quero a árvore e a fonte, sim eu quero a paz
Eu quero a prece e o sorriso do Pai,
Eu quero repousar em seu colo.
E as angústias olvidar…
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*Frase de J.O´Donohue, in “Ecos Eternos”.

“Um coração generoso nunca fica solitário” (J.O´Donohue)

(Texto de John O´Donohue*)
É importante orar por aqueles que são entregues aos nossos cuidados no mundo. Cada pessoa percorre um caminho único pelo mundo. Temos o nosso trabalho, dons, dificuldades e compromissos. A fim de ocupar o nosso lugar e contribuir para a luz do mundo, precisamos respeitar todas essas dimensões diferentes da nossa vida.

Contíguo a toda a nossa atividade no mundo, está também presente na nossa vida um pequeno grupo de pessoas que estão diretamente sob os nossos cuidados. Elas são, em geral, a família e alguns amigos íntimos que passam a viver no centro de nossa vida. Essas pessoas nos são enviadas como dádivas e desafios. Em troca, temos o dever de zelar por elas. Essas pessoas estão aos cuidados da nossa alma.

Quando uma pessoa é realmente íntima de outra, ambas estão sob os cuidados das mútuas almas. Devido às exigências da nossa vida, não podemos estar continuamente ali. Entretanto, na afeição da prece, podemos levar as imagens da presença dessas pessoas no altar do nosso coração. Com freqüência, sem o conhecimento do mundo, levamos secretamente esses amigos no coração e, de coração para coração, enviamos bênçãos, desvelo e cuidados mútuos.

Na tradição celta, sempre se reconheceu que, se uma pessoa enviava bênçãos do seu coração, elas se multiplicavam e retornavam para lhe abençoar a vida. Um coração generoso nunca fica solitário. Um coração generoso tem sorte. A solidão da vida contemporânea se deve em parte à deficiência de generosidade. Cada vez mais, competimos uns com os outros por bens, imagem e prestígio. Um só pode ascender se o outro for rebaixado. Há muito pouco espaço no pedestal.

O velho sistema de classes pode haver em grande parte desaparecido, mas o nosso novo sistema apresenta uma necessidade de hierarquia mais sutil, porém igualmente letal. Esquecemos que a competição é falsa. Uma velha regra de raciocínio é que só se podem comparar coisas semelhantes. Não há no mundo dois indivíduos iguais. Conseqüentemente, é falso comparar pessoas e continuar a fomentar uma ideologia de competitividade tão destrutiva. Ao estabelecer esses falsos padrões de comparação e competição cada um danifica o santuário da presença do outro. Fomos seduzidos pela competitividade. E com muita facilidade. Por causas das certezas fictícias que ela proporciona.

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*Fonte: John O´Donohue, “Ecos Eternos“, RJ, Ed. Rocco, 2001, p.238.