Gil Vicente & Ivo Barroso

Do poeta-tradutor IVO BARROSO, sempre podemos esperar inovação e talento – que lhe é nato. Neste post, Ivo nos alerta sobre a atualização que fez ao texto de Gil Vicente, voltado ao leitor brasileiro de nossos dias:
*****”Cuidou-se ainda de evitar o tratamento vós, hoje praticamente à margem da língua falada e escrita no Brasil, substituindo-o por tu e às vezes mesmo por você. Essa variedade se encontra no próprio texto vicentino, em que, na estrofe 7, se diz:

“Embarca, ou embarcai”, deixando claro que o Diabo hesita em dar ao Fidalgo um tratamento (pelo menos lingüístico) superior.”

– Já o leitor recebe, sempre, por certo o melhor tratamento por parte do meticuloso tradutor, que ressalta: “Nosso intuito — ao fazer uma tradução interlingual deste Auto de Gil Vicente — foi apresentar ao leitor brasileiro uma réplica do texto vicentino como se redigido hoje em linguagem corrente do Brasil. Além disso, pensando em sua representação teatral, buscamos utilizar um vocabulário de imediata compreensão auditiva, sem quaisquer palavras que requeressem do ouvinte uma consulta ao dicionário. Contudo, foi necessário mantermos alguns vocábulos específicos, como termos jurídicos e de marinharia, cujo sentido vem esclarecido em notas oportunamente dispostas.”

“Com a preocupação maior de que este novo texto contivesse apenas palavras de utilização atual e de conhecimento amplo, tivemos, em muitas ocasiões, de sacrificar expressões lídimas da língua portuguesa, mas ausentes de nosso vocabulário hodierno.”(I.B.)

Gaveta do Ivo

AUTO DA BARCA DO INFERNO – GIL VICENTE 

Monumento a Gil Vicente Monumento a Gil Vicente

A Editora SESI-SP entrega este mês aos seus leitores o livro AUTO DA BARCA DO INFERNO, obra de estudo obrigatório nos cursos universitários de língua portuguesa. Escrito em 1517 pelo grande poeta clássico e dramaturgo português Gil Vicente (c. 1465-c.1536), o texto é um apólogo em versos de sete sílabas fartamente rimados visando à edificação moral dos leitores (ou ouvintes). Num porto inespecífico estão ancoradas duas barcas que se destinam a transportar os mortos em sua viagem final para o além. A barca mais enfeitada é a do Inferno e seu comandante, o Diabo; a mais singela, a do Paraíso, está sob a guarda de um Anjo à proa. Vários personagens (um fidalgo, um agiota, um simplório, um sapateiro, um frade, uma alcoviteira, um judeu, um corregedor, um procurador, um enforcado e quatro cavaleiros cristãos), que acabaram de…

Ver o post original 1.052 mais palavras

No mínimo um poema ao dia (dia #3)

No mínimo, um poema ao dia (3)  
Walt Whitman trad. Rodrigo Garcia Lopes
(1819-1892).

Song of Myself (trechos)

EU CELEBRO a mim mesmo,GravuraEmMetal_WhitmanBySamuelHollyer
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você.
Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade . . . . observando uma lâmina de grama do verão.
Casas e quartos se enchem de perfumes . . . . as estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também, mas não deixo.
A atmosfera não é nenhum perfume . . . . não tem gosto de destilação . . . . é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre . . . . estou apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.
A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros . . . . raiz de amaranto, fio de seda, forquilha e
Minha respiração minha inspiração . . . . a batida do meu coração . . . . passagem de
O aroma das folhas verdes e das folhas secas, da praia e das rochas marinhas de cores
videira,
sangue e ar por meus pulmões,
escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz . . . . palavras disparadas nos
redemoinhos do vento,
Uns beijos de leve . . . . alguns agarros . . . . o afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar . . . . apito do meio-dia . . . . a canção de mim mesmo se
erguendo da cama e cruzando com o sol.

***

Tradução de Rodrigo Garcia Lopes em “Folhas da Relva” (ed. Iluminuras); que, segundo IVO BARROSO, “no 150º aniversário da publicação de As Folhas de Relva, a Editora Iluminuras nos oferece os doze poemas iniciais (que compunham a primeira edição), traduzidos por Rodrigo Garcia Lopes, trabalho que embora ainda não ponha o leitor brasileiro diante da obra poética conjunta do bardo americano, pelo menos contribui com uma significativa amostragem dela, acrescida de longo estudo crítico sobre sua importância literária e a vida do autor, que dispensa navegações pela Internet.” (Ler mais poemas de Whitman, na trad. de Ivo N. B.)
Fronstispício da edicao de 1867 de Folhas da Relva_WhitmanLink para o poema no Original inglês.
******
Capa_Whitman_Rodrigo

Vargas Llosa analisa ‘Os miseráveis’, de Victor Hugo

Vargas Llosa analisa ‘Os miseráveis’, de Victor Hugo – Prosa & Verso: O Globo.
Impecável texto do poeta Ivo Barroso sobre este “presente inusitado, por ser muito mais que uma biografia e englobar a vida e a obra de Hugo, chega-nos agora este ensaio que Mario Vargas Llosa desenvolveu a partir de um curso de Literatura Europeia Comparada, ministrado na Universidade de Oxford em 2004, e ao qual deu o título lamartiniano de “A tentação do impossível” (a obra chegará às livrarias dia 6 de fevereiro).”
Com o aniversário chegando, 05.02, taí um item para minha Wish List. (AQ)