Walter Benjamin

“Porcelanas da China”, de W. Benjamin – Trad. : Rubens Rodrigues Torres Filho.

“A força de uma estrada do campo é uma se alguém anda por ela, e outra se a sobrevoa de aeroplano. Assim é também a força de um texto, uma se alguém o lê, outra se o transcreve.

“Quem voa vê apenas o modo como a estrada se insinua através da paisagem, e, para ele, ela se desenrola segundo as mesmas leis que o terreno em torno. Somente quem anda pela estrada experimenta algo de seu domínio e de como, daquela mesma região que, para o que voa, é apenas uma planície desenrolada, ela faz sair, a seu comando, a cada uma de suas voltas, distâncias, belvederes, clareiras, perspectivas, assim como o chamado do comandante faz sair soldados de uma fila.

“Assim comanda unicamente o texto copiado a alma daquele que está ocupado com ele, enquanto o mero leitor nunca fica conhecendo perspectivas de seu interior,  tais como as abre o texto, essa estrada através da floresta virgem interior que sempre volta a adensar-se: porque o leitor obedece ao movimento de seu eu no livre reino aéreo do devaneio, enquanto o copiador o faz ser comandado. A arte chinesa de copiar livros foi, portanto, a incomparável garantia de cultura literária, e a cópia, uma chave para os enigmas da China[i]

[i] BENJAMIN, Walter. “Rua de Mão Única” – Obras escolhidas, vol. II. Tradução: Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo, 3ª. ed., 1993, pág. 15/6.

Autores do séc. 21 (2) – Karleno Bocarro

Neste segundo dos quatro artigos em que me proponho a comentar jovens autores que não estão a serviço das utopias do século passado, comento a obra “As almas que se quebram no chão“, de Karleno Bocarro*.

“Por meio da obra de Karleno Bocarro, é possível compreender os males da crença no coletivismo e da muleta do escapismo”
“Na obra, o centro do mal não decorre da ação política do protagonista
ou das demais personagens, mas sim provém de dentro da alma destes.”

Confira no link abaixo (clique na figura para ler o artigo em Opção Cultural, ed.2162)

(*) Para adquirir o livro, clique no link da editora É Realizações.

Quero ler… o quê? (III)

O gigante Thomas Wolfe.thomas-wolfe_societysite

Literalmente gigante. O homem, sabe-se, tinha quase dois metros de altura. Não pode ser confundido com o jornalista “Tom Wolf”, de grafia similar, porque Thomas W. é escritor que tem várias polegadas acima na qualidade do texto e tem uma imaginação criadora única, que se nos mostra nos livros deixados. Mesmo tendo morrido jovem com 38 anos, Wolfe legou-nos obras importantes, merecendo ser lido por quem ama a prosa de ficção e as boas narrativas curtas (contos).

Wolfe, agora retratado em filme, como nos conta o editor do Jornal Opção Euler Fagundes de França Belém, ele próprio editor e dono de texto digno de ser eternizado em livros – pois bem, como nos conta Euler, o filme “Mestre de gênios” trata da relação de Wolfe com seu editor Max Perkins:

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Wolfe e Perkins em foto do artigo de Euler De França Belém, Opção, ed.06/11/16

“O “Mestre dos Gê­nios”, de Michael Grandage, é um desses excelentes filmes que passam quase despercebidos — tanto que, em Goiânia, foi exibido apenas no Cine Lumière, no shopping Bou­gainville. A atuação dos atores Jude Law, como o escritor Thomas Wolfe, e Colin Firth, como o editor Max Perkins, é impecável. Não deixa de ser curioso que ingleses tenham representado homens lendários da cultura dos Estados Unidos. Nicole Kidman aparece de maneira discreta como Aline Bernstein, a amante de Thomas Wolfe. Aqui e ali, há licenças poéticas, com condensações necessárias tanto para chamar a atenção do espectador quanto para tornar a história adequada ao cinema.
“Mesmo sendo uma síntese da história complicada mas produtiva entre Thomas Wolfe (1900-1938) e Max Perkins (1884-1947), o filme, inclusive o título, é, no geral, preciso. Se o leitor quer, porém, uma história mais bem contada, com nuances, deve consultar a biografia “Max Perkins — Um Editor de Gênios” (Intrínseca, 541 páginas, tradução de Regina Lyra), de A. Scott Berg, autor premiado com o Pulitzer.” – (Euler Belém, Opção, ed. 06/11/2016 – coluna Imprensa)

Mas, antes de apontar a você, leitor, o link para o belo artigo do Euler Belém, permita-me contar duas ou três cositas sobre o autor em apreço. O responsável pelo meu apreço à obra de Wolfe é o professor e crítico Rodrigo Gurgel. Em uma das aulas virtuais que assisti em março passado, o professor ensinava-nos sobre a figura do “Autor” na literatura. A par de anotar os pré-requisitos do grande autor, Gurgel sugeriu a leitura de “O trem e a cidade”.

Traçado quase como uma fígura mítica, entanto, humaníssima – o Autor imaginado por Gurgel tem que “lançar-se!” com tenacidade, resistência, dedicação, conhecimento e inteligência. Este misto de guerreiro e santo é uma amostra de alguém que exerce um ofício quase sagrado e de quem se exige “o empenho de toda a personalidade”.

É isso que lemos nos livros de Wolfe e de outros autores conscientes dessa espécie de atributos e ouvem sua vocação: Balzac, Vargas Llosa, Flannery O’Connor, Milan Kundera, Georges Bernanos, C.S. Lewis, Flannery O’Connor e o próprio Wolfe…entre muitos outros (não inclui brasileiros, o que farei em outro post da série “Quero ler…O quê?”.

Talvez por ser essa espécie híbrida de guerreiro e místico é que Balzac

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Balzac no seu traje de monge – literatura como   “o empenho de toda a sua personalidade” (R.G.)

gostasse de se deixar mostrar ao daguerreótipo (a máquina fotográfica primitiva ou aos pintores) com seu traje de monge.

O exemplo de Wolfe é o do encontro da própria “sintaxe” – a ordem das idéias e dos conceitos – transformada em arte sua visão particular do mundo, do que o “O trem e a cidade” foi-nos dado como exemplo de bem realizado…

Curiosa coincidência me levou a só conseguir ler o livrinho do Wolfe dentro de um trem. Era dos poucos livros que levava na bagagem e o li com grande interesse em uma viagem num trem rápido, de Helsinque a São Petersburgo.  Desde a citação do autor pelo professor Gurgel, achei uma série de outros livros do autor na Amazon. Confiram no link.

Portanto, esse enorme post só quer dar resposta à pergunta do título – e série de artigos sobre leitura compartilhada: Quero ler…O quê?
– Respondo que merecem ser lidos o artigo de Euler  e a ficção de Thomas Wolfe, que com este post, espero, você leitor tenha grande motivação para conhecer.

Eis um daqueles autores a quem se aplica com propriedade a frase de Flannery O’Connor: para este escritor a forma de ficção será sempre uma forma de superar seus próprios limites, indo além e adiantes em busca das fronteiras do mistério“. Viajo com Wolfe e me delicio com sua prosa de alto nível.

“As pessoas estavam falando a língua universal da partida, que não varia no mundo inteiro – a língua muitas vezes banal, trivial e até inútil, mas por isso mesmo curiosamente tocante, já que serve para esconder uma emoção mais profunda no coração dos homens, para preencher o vazio que há em seus corações ante o pensamento da partida, para servir de escuro, uma máscara que esconda seus sentimentos verdadeiros.
“E por isso havia para o jovem, o estranho e o forasteiro que via e ouvias essas coisas, um caráter emocionante e comovente na cerimônia da partida do trem. Enquanto ele via e ouvia essas atitudes e palavras que, transposta a barreira de uma língua estranha, eram idênticas àquelas que ele vira e conhecera toda a sua vida, entres os seus – ele de repente sentiu, como nunca tinha sentido antes, a terrível solidão da familiaridade, a percepção da identidade humana que tão estranhamente une todas as pessoas do mundo, e que está arraigada na estrutura da vida dos homens, muito além da língua que eles falam, da raça da qual são membros.” (Wolfe, em “O trem e a cidade”, trad. Marilene Felinto).
O Thomas Wolfe é um craque da narrativa curta. Estou lendo agora “Of time and the river” em inglês, porque não o sabia traduzido no Vernáculo.
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Post-post: Veja fotos do trecho de “O trem e a cidade” neste link. Para visitar o site Oficial de Thomas Wolfe Society, clique aqui.

A perdição da pós-modernidade

“Como Fausto, cego pela Ansiedade, acreditamos reconstruir o paraíso na terra, quando na verdade construímos nosso próprio sepulcro.” – alerta-nos o poeta, editor e crítico Wagner Schadeck. Um olhar acima e Além. Um olhar para a obra de J.W.Goethe (1749-1832) e para a “pedagogia social” goethiana.

Elizabeth Bishop (1)

Meu artigo no Jornal Opção sobre a poetisa norte-americana.

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Órfã de pai, que perdeu a mãe para um hospício, a solitária Elizabeth tem o que dizer e como dizê-lo. Viveu no Brasil durante 15 anos e “entre o aconchego e a melancolia” escreveu muito e criteriosamente, mas sem jamais tem entendido o país que a acolheu…

Marina Colasanti é tema de estudos de pesquisadores goianos

Um livro e série de palestras em torno de Marina Colasanti

Marina Colasanti é uma contadora de histórias. Uma das melhores em atuação no Brasil e, com certeza, uma das mais estudadas atualmente no País. Porém, os livros que falam especificamente de seus trabalhos são poucos. Assim, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) se uniu para analisar a obra da autora ítalo-brasileira.

Fabiana Valadão Macena, Isabel de Souza, Gisely Marques, Ludmila Santos, Marcos Nunes Carreiro e Meire Lisboa, sob a coordenação de Kelio Junior, estão lançando “Traços de Essencialidades: mulher, literatura e gênero em Marina Colasanti”. Os sete pesquisadores pertencem ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Letras e Linguística da UFG. O livro ainda conta com a participação da renomada pesquisadora e professora da UFG Vera Tietzmann.LivroMarcos0001Capa

Os artigos falam de um tema sempre presente nos livros de Marina e que tem recebido cada vez mais atenção na atualidade: o modo e o ser condicionados da mulher na sociedade. Como diz o professor da UFG Pedro Louzada, na orelha do livro:MarinaColasanti

“É no bojo de uma atitude contradiscursiva ao antifeminismo dos tempos, e representando um dos referenciais do presente, que o livro faz sobressair a obra da escritora Marina Colasanti como notável repositório de visitação obrigatória da presença da mulher e das suas vicissitudes que a autora enfoca e polemiza”.

Os pesquisadores estão fazendo uma série de palestras não só para divulgar o livro, mas também para incentivar a leitura e a pesquisa. Uma mesa redonda marca o pré-lançamento do livro e será realizada hoje, dia 4 de novembro, às 19h30, na Faculdade Sul-americana (Fasam).MarinaColasanti
O lançamento oficial será no dia 12 de novembro, no Instituto Federal de Goiás (IFG), unidade de Aparecida de Goiânia, às 14h30. Neste dia, a própria Marina Colasanti estará presente e fará uma palestra. Ela também estará na UFG, no dia 13 pela manhã. Em todos os dias a entrada é gratuita e os participantes encontrarão os livros à venda.

Marcos Carreiro é um competente e atencioso jornalista de Opção Cultural e como dizem os franceses hoje é dia de “arroser la rose”. Hoje é dia de dizer Bravo! ao editor-jornalista e pós-graduando Marcos Carreiro e a seus colegas pesquisadores, com destaque para o nome já consagrado de Vera Tietzmann.(Do release do livro e comentários meus)./.

Uma Excursão Aventurosa

“A audácia de um leitor petulante muitas vezes é ajudada…

O poeta gaúcho Augusto Meyer…pela intuição divinatória que dá de graça ao atrevido a mesma revelação poética que só como recompensa de canseiras e pestana queimada o escrupuloso vem a conquistar. “

Augusto Meyer: “Nós somos a sombra de um sonho na sombra”.