V.S. Naipaul (3)

Minha coluna sobre V. S. Naipaul no Jornal Opção Cultural.

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Leitura atenta: escrita criativa (exerc. #1)

V.S.NAIPAULNovelist and travel writer VS Naipaul

 “Jamais me ocorreu que escrever este livro poderia vir a ser um fim em si, que o ato de registrar uma vida poderia se tornar uma extensão daquela vida. Jamais me ocorreu que eu pudesse vir a gostar da vida metódica e regulamentada do hotel, que antes me levava ao desespero, e que o contraste entre a imutabilidade de meu quarto e a lenta construção do que lá estava sendo criado me daria tamanha satisfação. Ordem, sequência, regularidade: é o que sinto cada vez que o medidor do aquecedor estala, aceitando mais uma de minhas moedas. Em quatorze meses, o aquecedor ja engoliu centenas de xelins, ora com um som oco, ora com um som mais cheio. (…)
“Conheço cada linha do trecho do papel parede acima da escrivaninha. Não percebi nenhum sinal de deterioração, mas fala-se em redcorar o hotel. E a escrivaninha: quando sentei-me à sua frente pela primeira vez, achei-a tosca e estreita. O tampo escuro estava manchado e arranhado, o arranhões estavam cheios de terra e sujeira, a gaveta estava emperrada, os pés tinham sido serrados. Não fazia parte do mobiliário padronizado do hotel. Fora-me fornecida em atenção a um pedido especial. Era um móvel de segunda mão, que não pertencia a ninguém. Agora ela me parece reabilitada e limpa: é um objeto cotidiano e confortável e até mesmo os arranhões adquiriram um certo brilho. Isto se deu graças ao dom da observação minunciosa, que adquiri ao escrever este livro; uma ordem, da qual faço parte, vem corresponder a outra, que é criada por mim. E com este dom veio também outro, o que eu menos esperava: uma capacidade de gozar constantemente, calmamente a passagem do tempo.”
(Os mímicos, p.310, trad. Paulo Henriques Britto).

Transcrevendo este trecho do romance que acabo de ler, primeiro num caderno e agora num editor de texto, sigo um conselho do professor Rodrigo Gurgel, na oficina de Escrita Criativa 2016.

Penso no trabalho braçal que levou V.S. Naipaul a construir o romance, elaborar cuidadosamente os planos em que se desenrolam as aventuras e desventuras de um personagem em prosa não linear. Foram esforços de um talentoso e disciplinado escritor trabalhando entre agosto de 1964 a julho de 1966. Somente isso já exigiria do leitor uma atenção cuidadosa sobre essa tenacidade.

A observação atenta do que lê para aprender é sistemática e continuamente provocada a ser uma espécie de comunhão entre leitor-escritor. O que espreita, o que vigia, o que presencia – eis o leitor atento. Ao que descreve cabe manter-nos agarrados ao fio da conversação imaginária.

A imaginação, tida como “a doida da casa” por Santa Teresa D’Ávila pode por vezes ser o fio condutor de uma remissão. Trata-se de “gozar calmamente a passagem do tempo” para um e outro. Mas não haverá comunhão se não houver verdade no texto. Se não encontro na escrita algo “além do transitório, do momentâneo”, se ali não houver uma “sintaxe” própria, se o Autor falseia e escorrega para o rés-do-chão, transforma-se no prisioneiro do corriqueiro. O que não inventa, não surpreende – e para isso não são necessários muitos malabarismos! – não retém, não serve ao Leitor a ceia (seiva) da história que teria a contar.

Ao contrário, o que une elementos únicos como se fossem a própria vida; esse convence e retém o Leitor, numa teia de encantamento capaz de criar uma “conspiração afetiva”.

Forçoso dizer que todo livro tem seu propósito, quando bem realizado. Não me cabe dizer agora, no calor da 1a. leitura recém-finda que “mensagem” é essa que vem de “Os Mímicos”. Nem seja este, talvez, o caso. Bastou-me manter os olhos bem abertos, “a mente atenta não apenas para se divertir, mas para aprender com o Outro” – como sugere o professor Gurgel.

E se é certo que “Não basta imaginação!”. A doida da casa há de servir-nos, leitores exigentes mais do que um entretenimento e um passar do tempo. “Viver e escrever precisam transformar-se em uma coisa única”. Primeiro, isso ocorre com (e dentro) do escritor; mas não menos importante, secundariamente no (dentro) do Leitor. Há, dessa forma, uma espécie de “uma conspiração afetiva entre escritor e leitor“.
De “um sacerdote da imaginação” (Paul Mariani) espera-se sempre o respeito pelo altar do livro.

E assim Naipaul arremata o assunto:
“O ato de escrever este livro é mais do que uma forma de me libertar daqueles artigos [feitos ao correr da pena, profundamente desonestos …que se esquivavam da verdade final até perdê-la]; é uma tentativa de redescobrir aquela verdade final.”

E assim se deu comigo, leitor, na leitura atenta (não menos emocionada) de “Os Mímicos”, de V.S.Naipaul, traduzido por Paulo Henriques Brito.
♣./.

Os políticos

Uma página de V.S. NAIPAUL*

“O tipo mais comum de ambição política é o desejo de derrubar e suceder” (Naipaul)

Os políticos são pessoas que verdadeiramente fazem algo a partir do nada. Pouco de concreto têm a oferecer. Não são engenheiros nem artistas; nada constróem. São manipuladores; oferecem seus serviços de manipulação. Como nada têm a oferecer, raramente sabem o que querem. Por vezes afirmam querer o poder. Mas o definem de modo vago e impreciso. O que é o poder? A limusine com chofer e bancos forrados de fino linho branco, os agentes de segurança esperando no portão, os criados hábeis e respeitosos? Mas isto é apenas comodismo, coisa que pode ser adquirida por qualquer um a qualquer momento, num hotel de primeira. É o poder de intimidar, humilhar, vingar-se?

Mas esta é a espécie mais efêmera de poder, que desaparece tão depressa quanto surge; e o verdadeiro político é aquele que quer jogar o jogo o resto da vida. O político é mais do que um homem imbuído de uma causa, mesmo quando a causa em questão é apenas subir na vida. Ele é impelido por alguma magoazinha, uma falhazinha. Ele tenta exercitar uma habilidade que, mesmo para ele, nunca é tão concreta quanto a do engenheiro; só se torna consciente da verdadeira natureza de sua habilidade quando começa a exercitá-la. É muito comum ocorrer de um homem, depois de anos de lutas e manipulações, chegar bem perto do posto que almeja, por vezes chegar a conquistá-lo, e então revelar-se um fracassado.

Tais indivíduos não merecem piedade, pois, dentre os que aspiram ao poder, eles são homens completos; buscaram e conseguiram a auto-realização em outra área; foi necessária uma guerra mundial para salvar um Churchill do fracasso na política. Já o verdadeiro político só exerce sua habilidade e se completa quando tem sucesso. De repente, seus talentos se manifestam. O homem que antes era mesquinho, descontrolado e inseguro agora revela qualidades insuspeitas: generosidade, moderação e a capacidade de agir com uma brutalidade rápida. Apenas o poder revela o político; é ingenuidade manifestar surpresa perante um fracasso inesperado ou um sucesso inesperado.

“O mais comum, porém, é vermos o verdadeiro político em decadência. Os talentos, jamais manifestos, as habilidades, jamais descobertas, azedam dentro dele; e o homem que começou sábio e generoso, lutando por uma causa nobre, termina se revelando fraco e vacilante. Abandona seus princípios; a cada derrota torna-se mais desesperado; perde seu senso de oportunidade e muda de posição cedo demais ou tarde demais; chega até a perder sua dignidade. Recorre à bebida, à gastronomia, às mulheres, vulgares ou refinadíssimas; torna-se um bufão, algo que até mesmo ele considera desprezível, menos nas horas tranqüilas do cair da tarde, quando sua platéia se reduz a ele próprio e sua esposa, que, embora cheia de rancor, permanece fiel, porque só ela o conhece de verdade. E, aconteça o que acontecer, ele jamais desiste. Este é o líder. Este é o verdadeiro político, o homem versado numa nebulosa arte. Ofereça-lhe o poder. O poder o reanimará, fará com que ele volte a ser o que era antes.”


(*) NAIPAUL, V.S. “Os Mímicos”, trad. Paulo Henriques Britto. – S.Paulo : Cia. das Letras, 1987. p.45/6. Vidiadhar Surajprasad Naipaul nasceu em 1932 (83 anos) em Trinidad e Tobago, tendo se fixado na Inglaterra em 1950. Considerado “o Mestre do Romance”, recebeu o prêmio Nobel de 2001.

Novelist and travel writer VS Naipaul

(c) Foto Eamonn McAbe

Sobre Naipaul, disse Irving Howe, no New York Times Book Review: “Por seu enorme talento, dificilmente pode haver um escritor vivo que supere V.S.Naipaul. Tudo que se espera de um romancista é encontrado em seus livros… a Inglaterra, mas ninguém pode considerá-lo um inglês. Mas o que ele é afinal? Eu diria: ele é o escritor do mundo, um mestre da linguagem e da percepção, é a nossa amarga bênção.”  (Trad. P.H. Britto).