Quero ler… o quê? (II)

IAN McEWAN.capaianmcewanchildrenact
“The Children Act”
Penguin/Vintage, 2014, 216 p./ISBN 9780099599647

Dia 05 de setembro passado, eu estava em Helsinque (Finlândia), à espera do meu trem para São Petersburgo. Tive uma hora ou duas, entre a chegada do barco da “Viking Line” que nos trouxera de Estocolmo e a saída do trem para a Rússia…

Andando pela cidade, em busca de um café que nos reconfortasse de nossa travessia do Báltico minha mulher e eu encontramos uma grande livraria, onde comprei, entre outros, este livro de bolso de McEwan (2014) que me acompanhou até à chegada a S. Petersburgo e alguns dias mais.

O livro é um McEwan puro. Sabe-se que McEwan é um candidato ao Nobel de Literatura (preterido mais uma vez, em 2016) e que faz muita pesquisa para chegar à publicação de um romance. Neste caso, o autor registra seu reconhecimento e gratidão ao juiz Sir Alan Ward, que com sua (dele) experiência ajudou o autor a obter mais verossimilhança para a trama. McEwan cumpre bem a lição flaubertiana (ou Vargas Llosiana) de devotar-se a seu ofício com tal obstinação que marcou seu estilo como um dos maiores romancistas (quiçá o maior) de língua inglesa nos dias atuais. Este é mais um romance de uma safra produtiva de ficção. McEwan é britânico, nascido em 21/06/1948.

Neste romance, lemos com grande interesse a história da doutora Fiona Maye, juíza de 59 anos, que está de plantão no tribunal e atende às questões de infância. É uma histórica que coloca o leitor diante de uma polêmica romanesca tratada por McEwan com “inteligência e sensibilidade” – as mesmas cartacterística pelas quais é conhecida a própria ilustrada juíza que também tem vasta cultura e habilidades musicais. O caso urgente de um adolescente (a meses de tornar-se adulto) cujos pais não querem autorizar a transfusão de sangue, por princípios religiosos, é uma corrida contra o tempo para salvar o jovem.

Ao longo da história, vamos entendendo o comportamento da juíza e seus princípios de firme inteligência e sensibilidade como julgadora. Uma visita ao hospital, acompanhada da assistente-social, desperta sentimentos nela e emoções incríveis no jovem em tratamento e que precisa de uma decisão “de vida-ou-morte“. Esta sentença de Fiona mexerá com o futuro dos dois e o livro prenderá o leitor até à última página ansioso que estará para saber o que ocorrerá com o casamento de Fiona e o futuro de Adam.

Tal como em “Sábado”, há uma referência cruzada de prosa e poesia – o garoto Adam tem talento musical e poético; Dra. Fiona, musical. Sabem meus leitores que não sou um big fã de enredos (“a poética de enredo é uma parte, às vezes mínima – porém supervalorizada pela crítica – da satisfação que um romance nos dá” – disse alhures!), mas eis um romance em que facilmente o leitor tornar-se-á presa da história em si (do enredo – como de resto na maioria dos romances de McEwan).

Não hei de lhe tirar, caro leitor, o prazer de descobrir o que se passa até o final do romance, desde que me prometa que quando estiver aí pela altura da segunda parte do romance, lembrar-se-á deste resenhista lendo um poema – (de novo como em Sábado) do qual não conheço o ritmo musical, mas que me ficou na mente por oras enquanto passeava pelas mesmas ruas em que passaram Dostoiévski e Pushkin.

ianmcewan“In a field by the river my love and I did stand,
And on my leaning shoulder she laid her snow-white hand.
She bid me take life easy, as the grass grows on the weirs;
But I was young and foolish, and now am full of tears.” (W.B.Yeats*)

Falarei, então, como Fiona o fez, na cena da visita ao hosspital, ao repetir o poema cantado – (conheça versão cantada do poema de Yeats no link do youtube abaixo!) – com o jovem Adam  – “She bid me take life easy“, she quoted to him…” (p.118). ♥♥♥♥

Veja o poema em dueto no YouTube.

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(*)Poema de W.B. Yeats, trecho citado à pág. 117 e o fecho em p.118. Não me consta que tenha sido traduzido. Comprar em eBook na Bertrand.