Livros, 2017

O poeta goiano Heleno Godoy foi muito feliz nesse exercício de nomear o objeto livro. Livraria em Lucca (It.) (c)By Beto Queiroz

O LIVRO
Heleno Godoy*

“Um livro responde às assinaturas
subscritas, incorpora tempestades,
incendeia oceanos poderosos,
ervas frágeis, manhãs que des-
pertam quando a lua ainda
não se foi. Um livro abrange
um delírio, homens livres
e fugitivos. Um livro estreita
relações, anula diferenças
ou estabelece seus contrários,
como a aranha surpreende
sua presa, enredando-lhe
os contornos, sintética, fria,
anagramática. Um livro
é mortal como esmeralda
falha e falsa, reconciliação
de cômodos intervalos.

Mas pode ser violento como
um tribunal ou uma missa
rezada em silêncio, um vinho
bebido em jejum, pão comido
lentar e parcimoniosamente.

Um livro é um sacramento.
É uma sagrada eleição
de eternidade, uma desolação
dirigida, rumor de elementos
em voo para a especulação
de circunstâncias, um quarto
empoeirado, um astronauta
com o corpo em chamas, re-
entrando o espaço finito.

Um livro inventa e cega.
A abelha jovem, o livro se
constrói como um aparelho
funciona, impenetrável em sua
aparente simplicidade externa,
adormecido e intrincado em seu
interior preciso e visitado.
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Um livro constrói uma direção,
ilude um homem, indústria outro.
Todo livro subsidia a luz e a
escuridão. Um livro contra
diz.”

Aos meus seis leitores, deixo a bibliografia de minhas leituras dos últimos cinco meses do ano que finda. Esses livros foram suporte fundamental ao uso da crítica, um exercício semanal que desenvolvo publicando em Opção Cultural Online, coluna “Destarte”. A quem interessar possa, a Lista 2017 – clique no link abaixo para acessar o arquivo em PDF:
https://cloud.acrobat.com/file/53d7292a-7eff-44b3-bf16-0f337c86b632


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(*) Fonte: GODOY, Heleno. “Inventário: poesia reunida, inéditos e dispersos (1963-2015)”. Goiânia: Casa Editorial martelo, 2015. Org. Solange Fiuza Cardoso Yokozawa, p.318/9.

 

Livros 2016

Uma pequena e valiosa lista no painel dos leitores do Opção Cultural.livros-do-ano-2016_opcao

São sete livros apenas, comentados em no máximo 10 linhas, revelando que nem sempre o lançamento do ano em curso é o que atrai o leitor seletivo. Se me incluo aí na lista, comentando um belo livro lançado em 2016, não o faço como auto-elogio, mas cumprindo a obrigação de agregador e incentivador da arte de ler.

Esperamos motivar mais leitores inteligentes a fazer parte da lista 2017… Infelizmente, lê-se pouco hoje; lê-se menos e de forma apressada; substitui-se a leitura pelas séries de TV, pela leitura de fofocas e noticiário via web. Perdem com esses novos hábitos a literatura e o leitor (potencial) que se deixa atrair pelos modismos.

Insisto em ler e em aperfeiçoar o hábito da leitura. Delego à tv aberta – próximo a 0,01% do meu tempo; séries e tv fechadas – só depois de muita escolha! Netflix, muito pouco; YouTube, educativo e óperas, algum riso…; samba, música erudita e francesa para acompanhar o dia-a-dia; não perco tempo com futilidades.

Há quase 3 anos aboli o futebol semanal na tv – reservo-me para as finais de campeonatos. É muito ainda. Conclusão: obtive um aumento significativo no índice de páginas lidas e na qualidade da absorção dos livros lidos.

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Fig. 1 – Lista de leituras 1976.

Aprendi com o professor Rodrigo Gurgel que a leitura atenta pode ser um passo em direção à boa interpretação e à própria escrita. A lição tirada de Antoine Albalat pode ser desdobrada para o melhor deleite daquele que lê.
Vem de São Gregório Magno a dica fundamental para o leitor atento:

A escritura cresce com quem a lê” – recorda-nos o professor Gurgel que acentua: “O leitor complementa a leitura” – embora seja uma visão católica, reproduz-se em Marcel Proust, por exemplo, para quem “todo leitor, quando lê, é leitor de si mesmo!”. Ou, em J.L. Borges, para quem “a literatura cresce com quem a lê.”

Ao longo da minha vida, sempre fechei o ano com a minha lista pessoal de livros lidos – para ter uma memória de tudo o que havia conseguido realizar no plano literário (o que desejara ler no início daquele período e, secretamente, para que me preparasse para escrever melhor!).

Há listas antigas e guardadas em meus cadernos que são inseparáveis, mesmo depois de tantas mudanças de casas e de situações existenciais…Essa que ilustra a página, feita num caderninho artesanal montado por minha mulher, é de 1976 (fig.1).

No extraordinário “Crítica, Literatura e Narratofobia” (2015), Rodrigo Gurgel abre o volume com o artigo “Em busca do livro primordial” – com que me identifiquei visceralmente. Confiram parte deste texto:

RECORDAR NOSSO PASSADO não pode ser um exercício de idealização. O diálogo com o  “eu”que nos observa e, ao mesmo tempo, envolto na neblina do tempo, nos dá as costas e caminha de volta à infância, precisa estar impregnado daquela tensão que ressurge sempre que nos debruçamos sobre o poço da verdade.
É o homem de carne e osso que busco quando olho sobre meus ombros na direção da juventude, da infância. Mas não se trata de revisitar um horizonte ensolarado. Trata-se, ao contrário, de repetir as caminhadas de Miguel de Unamuno pelo claustro do Monastério de Santo Estevão, em Salamanca, debruçar-se sobre o poço, no Pátio das Cisternas, e gritar: “Eu…eu…eu!”, para que o eco do passado, ao repetir o pronome, reafirme minha existência.
Um de meus sonhos recorrentes está impregnado desse “eu” sempre à minha espera, em algum ponto do emaranhado de reminiscências.
No sonho, estou na entrada do porão da casa de minha bisavó paterna. A cena começa exatamente ali, repetindo os gestos que cansei de fazer durante a infância:  retiro a chave pendurada no batente, num prego, coloco-a na fechadura, e, com um único giro, a porta se abre. Sinto, imediatamente, o cheiro adocicado de BHC, um odor úmido, e o ar pegajoso que vem do ambiente escuro.
O segundo movimento é localizar, na parede à esquerda, entre a estante e o batente, o interruptor. A seguir, entrar. A lâmpada, fraca, mal ilumina as porcelanas e os vidros nas prateleiras, além dos caixotes empilhados e recobertos de pó.No entanto, o que procuro não está ali, mas no cômodo ao lado, que permanece escuro.
Não sinto calor  ou frio, apenas uma expectativa controlável, pois estou certo de que ele se esconde no quarto vizinho, sob a escuridão.Então, penetro naquele lugar ainda mais úmido, e é difícil descobrir o interruptor, que não passa de uma delicada corrente presa à lâmpada, no centro do cômodo. A mão cega apalpa a escuridão. Por um segundo, a ansiedade transforma-se numa espécie de medo, talvez o receio de que minha busca — e o encontro certo — não se concretizem, somente pelo fato de eu não conseguir acender a luz. Mas encontro a correntinha e puxo-a — e imediatamente vejo os caixotes de livros no chão.
Sei o que venho buscar: o livro superior a todos os livros, um manual completo sobre a existência e, ao mesmo tempo, o guia para a difícil, emaranhada tarefa de viver. Tenho certeza de que está ali, aguardando-me. Não uma obra mágica, mas apenas o conjunto de páginas recoberto por duas capas envelhecidas, no qual se esconde a síntese da experiência humana.
Vasculho os caixotes lentamente, retirando os livros, um a um.
(…)
E então, do fundo de um caixote de madeira, sob a pilha de livros inúteis, retiro aquele que me revelará o segredo de viver. Nem pesado nem leve, segurá-lo guarda o mesmo prazer que sinto, ao encontrar em um sebo, a obra há vários anos desejada.
(…)
O sonho é impressionante por vários motivos, mas deixo aos psicanalistas a tarefa de compor, mais que a análise, suas ficções.
O que me interessa é reencontrar esse objeto que se tornou uma das poucas constâncias em minha vida. Há, claro, um conjunto de fatos, de circunstâncias que formam uma personalidade, mas, no meu caso, os livros têm papel primordial.
Às camadas do meu ser correspondem livros. Nasci e fui educado entre três bibliotecas: a de meu pai, composta, basicamente, de obras de filosofia e da área jurídica, mas onde descobri as sisudas capas negras do Tesouro da Juventude — com a velha ortografia, em que eu podia saborear a beleza excêntrica de palavras como ophthalmologia, columna e aucthor — e o Lello Universal; a de miha avó, pequeníssima, mas com livros indispensáveis, como As mil e uma noites e Madame Bovary; a a do Gabinete de Leitura Ruy Barbosa.
Cada uma me ofereceu o que tinha de melhor, mas a do Gabinete fez o principal, pois a bibliotecária da noite, dona Odete, deixava que eu transpusesse o balcão de madeira escura e, penetrando no acervo, percorresse as estantes livremente. Ali, então, descobri o mundo.
Mas o que forma um leitor é, antes de tudo, o exemplo de outros leitores…(…)
Se o tempo me fez mais seletivo, se a ânsia adolescente de ter todos os livros foi substituída por uma serenidade que diminuiu o número de compras mas não tornou possível ler tudo o que desejo, isso não muda o anseio das visões oníricas, de que, algum dia, aquele menino que penetra no porão me permita ler ao menos o título, talvez a primeira linha do livro que sintetiza a vida”*

E Gurgel segue registrando sua gratidão ao exemplo de leitores eminentes para a sua (dele) formação como leitor e crítico — seu pai, por primeiro; as professoras de Teoria Literária e de Língua Portuguesa; professores do colégio que o iniciaram no que, comparado à capacitação de hoje fê-lo pensar que cumpriu, antes de tudo, um mestrado. Nelson Foot, professor autodidata, é lembrado com carinho por Gurgel, quando já aposentado, o ensinava a entender um poema de Cecília Meireles e o traduzia para o romeno, depois para o latim, a seguir para o francês, finalmente para o inglês…“Gosto de imaginá-lo brincando com os textos como se fossem animais de estimação.” 

E assim, de maneira quase afetiva, Rodrigo Gurgel nos apresenta seu mundo de livros, para só então listar “Dez livros que mudaram minha vida” (p.37/40). A lista fica aqui, mas a recomendação aos meus seis leitores deste blog é que procurem conhecer os argumentos que fundamentam o livro por inteiro.

A lista de RODRIGO GURGEL – Dez livros que mudaram minha vida

  1. Os Sertões, de Euclides da Cunha.

  2. Livros do poeta inglês John Keats — notadamente “Endymion” e seu marcante verso “A thing of beauty is a joy for ever…” que o remete a seu estimado professor Flávio Vespasiano Di Giorgio.

  3. “Claro Enigma” (referência também de Di Giorgio) de Carlos Drummond de Andrade.

  4. “A Morte de Virgílio”, Hermann Broch, principalmente o magistral início: “a solidão do mar, ensolarada e todavia prenunciadora de morte…

  5. “Lorde Jim de Joseph Conrad e …

  6. “A fera na selva” — Henry James porque (Conrad e James) eles “mostraram-me que a grande batalha encontra-se no centro do nosso coração — essa é a única história sempre recontada” (Gurgel).

  7. “Raízes da criação literária” (Edmund Wilson).

  8. “A orgia perpétua” (Mario Vargas Llosa).

  9. “O imbecil coletivo” e tantos outros artigos de Olavo de Carvalho.

  10. Livros de Isaiah Berlin — através dos quais o autor diz ver-se “livre do coscorão esquerdista“.

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Post-post: O hábito das listas persegue a humanidade há muito tempo…* é o que prova Shaun Usher com suas 125 “listas extraordinárias” encontradas pelo pesquisador inglês nos muitos arquivos vasculhados por ele quando reunia material para o livro “Cartas extraordinárias“. Agora, Usher aproveitou este material criando “Listas Extraordinárias“. capa-livro-listas-extraordinarias

O “listismo“, no entanto, ganhou status de maioridade nestes tempos de autopromoção e de publicação aberta pelo uso intensivo da Web. Há listas diversas de filmes, músicas, hábitos saudáveis, alimentos para dietas, roupas etc. espalhadas pela internet. Algumas delas de utilidade próxima de zero…
Outras, se levadas a sério – como a lista de livros fundamentais elaborada por Vargas Llosa (dirigida a candidatos a escritor, mas submetida por muitos sites ao simples mortal!) pressupõe que o leitor médio brasileiro gastaria 21,5 anos para cumpri-la, lendo uma média de 115 páginas por ano – o que já é uma coisa extraordinária entre nós com os novos hábitos surgidos no país pós-Internet.

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FONTES:
i. link de O Globo consultado em 23/12/2016 às 9h00 – © 1996 – 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

ii. (*) GURGEL, Rodrigo. Crítica, literatura e narratofobia, Campinas, SP: Vide Editorial, 2015, p.25/30 (excertos).

iii. ALBALAT, Antoine. A arte de escrever em 2o lições.- Campinas, SP: Vide Editorial, trad. Cândido de Figueiredo. Apresentação de Rodrigo Gurgel.

Além das listas acima, recomendo aos leitores os livros que comentei ampla ou sinteticamente aqui no meu blog ao longo do ano, principalmente na minha coluna no Jornal Opção (ex. Karleno Bocarro e Rodrigo Duarte Garcia) ou nos tópicos “Queres ler o quê?“. Boa Leitura!

 

Queres ler o quê?

cropped-estantebibliobeto1.pngNão sei. Quero ler e quero ler bem! – dispara o  amigo à minha pergunta. E me devolve a palavra:

– Sabe o amigo que agora realizo esse sonho de tantos seres humanos – e o faço em tempo integral. Leio quase o tempo todo e sem a obrigação de o fazer. Talvez por isso, tenho seguido algumas regras para ler e aproveitar bem o que leio. Seguindo esse princípio, cheguei, por sugestão do professor Rodrigo Gurgel, ao livro “A arte de escrever – em 20 lições”, de Antoine Albalat.

[Uma pausa aqui para dizer da minha admiração pelas aulas que nem parecem a distância, virtuais, que tenho com o professor Gurgel. As bases da criação literária, então, recomendo a todos que amam a leitura, independente de querer ou não se tornar um escritor ou aperfeiçoar o estilo!]

– Mas serve mesmo a quem não quer escrever e só se interessa por leitura?

Sim, respondo de pronto. E dou um exemplo.

– “A leitura dos bons autores é …indispensável para a formação do estilo
(segundo Albalat). E eu diria ler é indispensável à formação do caráter.
Bem, mas isso já seria outra história e tema para outro post.

Lendo (e não precisa ser os textos sagrados), aprecia-se a vida através de um espelho que nas páginas se colocam para que nos observemos. Um criminoso de uma página de Dostoiévsky ou de Simenon – exemplos aparentemente díspares – podem, ambos, ensinar-nos de modo diverso a fixarmo-nos em valores e numa reta conduta. Estou certo em 99% (com erro de 1% para mais ou para menos!) de que Albalat está certíssimo: “o proveito da leitura depende da maneira como se lê.

Ansioso por saber mais?

– Abra o clássico de Albalat na altura da Apresentação, feita por Gurgel: “como toda leitura este livro exige bom senso, pois há uma diferença abissal entre orientar-se por meio destas lições [as 20 lições] e copiar, sem espírito crítico, os exemplos.”

– Refiro-me especificamente ao tema que hoje me ocupa a mente e a preocupação. Leio, ainda, com o fito de aperfeiçoar o próprio estilo e desenvolver um método para ajudar aos outros que gostam de ler e se vêem perdidos num mar de produções em que a subliteratura enfeita estantes e desborda as listas de vendas.


Vilém Flusser: capa-vilem-flussera-escrita
“Ler” (legere, legein) significa escolher (Herauspicken), selecionar (Klauben). A atividade de selecionar denomina-se “eleição”; a capacidade para realizá-la “inteligência”; e o resultado dessa ação, “elegância” e “elite”. (*)

A missão, pois, que se transformou na primeira tarefa foi ler tomando notas, até porque Albalat confirma o que a memória sexagenária vai confirmando: “ler, sem tomar notas, é como se nada houvesse lido.” Albalat chega a mensurar que o prazo de “esquecimento” da leitura é de seis meses. Há em relação ao enredo prazos ainda mais exíguos. Há quem devore o livro e não o tenha digerido, assinala A.A. Como a poética de enredo nunca foi o que mais me atraiu nos livros, sigo pensando que é preciso entender a mensagem de fundo que o livro me traz. Nos dois casos, não é bom valer-se apenas da memória.

A memória é coisa oscilante – adverte o escritor francês. “Não haveria sábios, se nos fiássemos nela. A verdadeira memória consiste, não no recordar, mas em ter, ao alcance da mão os meios de encontrar. A primeira condição para ler bem é, portanto, fixar o que se quer reter, e tomar notas. Um livro que se deixa sem ter extraído dele alguma coisa é um livro que não se leu.

O bom livro tem uma  capacidade de criar nos leitores tão diversas sensações quantas são as leituras atenciosas e anotadas. Lê-se também por puro entretenimento e não há mal nenhum nisso. Um Rex Stout ou um Simenon podem fazer parte de seu pacote de livros de férias, sem ferir os Gurgel, Albalat ou um Flaubert – para falar em três autores que trabalham a preocupação 1 – estilo… Um Alexandre Soares Silva pode ficar ao lado de Rodrigo Duarte Garcia ou de um Karleno Bocarro.

Mas que miscelânea! um Balzac ao lado de Javier Marías; um Linhares ao lado de McEwan?

– Não tenha medo, dileto amigo, de se entregar à leitura diversa; e que o faça também nos livros não tradicional (de papel, celulose); use-os no Kindle, no celular ou tablet, mas lembre-se: tome notas.

Nessa série de posts, vou anotando observações dessas viagens que venho fazendo a livros e autores os mais diversos (só ficção ou crítica).  Sigo o mandato do anjo a São João no Apocalipse, a respeito de um certo “livrinho” – “Toma-o; e come o livro”. 

Ler, devorar, digerir. Em papel ou digital. Separar as correntes, percorrer as vertentes de cada qual – entender sua filiação, sua história – afinal cada livro há de valer pelo suor que emanou do autor e se este levou a sério o seu ofício – terá captado (e atiçado) “o nervo divino das coisas” (Ortega Y Gasset, via Gurgel) – e só por esta razão há de ser lido (e às vezes relido).

Uma lista recente anotada no caderno de “linguados” à minha própria maneira (sem ordem alfabética), seja para tomar notas (de comparação antes que de erudição!), para obter citações e registrar apreciação pessoal do que se vai devorando.  Isso não significa que falarei de todos, mas um pouco do que vale a pena apreciar em alguns deles como numa “conspiração com o Leitor” (Tóibin) deste leitor:

  • “A próxima leitura”, Felipe Fortuna.
  • “Poems” by Elizabeth Bishop (original e traduções de P.H. Britto).
  • “Crítica, literatura e narratofobia”, Rodrigo Gurgel.
  • “O bispo negro e Arras por foro de Espanha”, Alexandre Herculano.
  • “O trem e a cidade”, Thomas Wolfe, trad.Marilene Felinto.
  • “O pai Goriot”, De Balzac.
  • “Mrs. Dalloway”, Virgína Wolf.
  • “Os mímicos”, V.S. Naipaul.
  • “A estrada”, Cormac McCarthy.
  • “O palhaço”, Heinrich Böll.
  • “As almas que se quebram no chão”, Karleno Bocarro.
  • “Maya”(releitura) e “Idílio na Serra da Figura”, Ursulino Leão.
  • “O livro roubado”, Flávio Carneiro.
  • “Ferreiro do bosque grande”, J.R.R. Tolkien.
  • “Reçaga”, Carmo Bernardes (releitura, 40 anos depois!)
  • “The Language Instinct”, Steven Pinker (eBook/Kindle).
  • “Assim começa o Mal”, Javier Marías.
  • “Os palácios distantes”, Abílio Estévez (interrompido!)
  • “Os invernos da ilha”, Rodrigo Duarte Garcia.
  • “Um velho que lia romances de amor”, L. Sepúlveda.
  • “Wilful Disregard”, Lena Andersson (autora sueca, em inglês).
  • “The Children act”, Ian McEwan (em inglês).
  • “A orgia perpétua”, Vargas Llosa (em andamento).

Se você, dileto leitor, tiver interesse em saber mais ou participar dessa aventura da leitura, fique à vontade para enviar-me uma mensagem para betoq55 at gmail.com.

Livros, a lista 2015

ESTE ANO como há muitos outros...
Eis a lista, que de resto serve a muito pouco. 2 ou 3 comentários e lixo!
O que importa é que se algum moço ou moça pelo Brasil afora tomar essa lista e procurar ler um livro por mês no ano que se segue, o blogueiro terá cumprido sua missão.
Separei este ano apenas 12 livros – nem todos dados como lidos, concluídos – pois que alguns são livros de consulta e de estudo.
A tônica de 2015 foi mesmo a de que estivemos diante de um bom ano para os conservadores. Muitos bons livros que não constam da lista – pela rigidez que me impus do número 12 atestariam essa afirmação. O catálogo de editoras como a É Realizações, Resistência Cultural e outras “alternativas” – como Concreta; o vigor de uma revista como “Nabuco” e um certo destemor na expressão de setores do pensamento nacional que pareciam sufocados pela política editorial-educacional do governo no poder são outras evidências objetivas disto.

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Livros novos ou antigos – o conservador ganhou espaço nas estantes das livrarias e editoras.

2015 – deve (e para mim foi) lembrado como o ano do Cinquentenário do livro 1 da lista – “Sonetos”, de Augusto Frederico Schmidt e da morte do autor. Este blog tem uma boa memória sobre o assunto, pois com Caminhos Livraria e Editora produzimos um livreto sobre a efeméride.
O livro 2 – é “Esquecidos & Superestimados” de Rodrigo Gurgel, o professor que realizou o prodígio de nos fazer  voltar a ler boa crítica literária em português do Brasil – no dizer de Bruno Garschagen, agradecimento feito na “orelha” do livro e que endosso, quando mais não fosse pelos ensaios sobre Euclides da Cunha e Coelho Neto.
3 – A Beleza Salvará o Mundo (Gregory Wolfe) – um estilo próprio para dizer o que precisamos em meio ao ruído ideológico das guerrilhas, elevando o debate e marcando estilo próprio. Não, não é um pastiche de Bloom como este não o foi de Mortimer Adler…Escritor, professor e editor, Wolfe é um dos pioneiros do ressurgimento do interesse na relação arte e religião.
4 – A Poeira da Glória – Um Martin Vasques da Cunha para ser estudado. Livro de referência. Como anda na contra-mão da crítica tupiniquim, há de desagradar a muitos. O curriculum do autor e a qualidade do texto devem enriquecer meu 2016.
5 – Bruno Garschagen – fez-me sedimentar uma intuição. O que eu já imaginava – que “governo nos olhos dos outros é refresco” – se confirma; foi por isso que acompanhei com prazer a leitura de “Pare de Acreditar no Governo”.
6 – JÚLIO MESQUITA e seu tempo – de Jorge Caldeira, vol. 1 – o Jornal de prelo locomotores e República; seguido de outros 3 volumes. Do primeiro posso dizer que há sim interesse por um catatau sobre a história do criador de O Estado de São Paulo, porque o que se conhece não é apenas o jornal (do qual sou leitor e assinante) mas o país do período retratado e este assino deste pequenininho – como nacionalista não eufórico.
7 – G.K. Chesterton – “Contos de fadas e Outros Escritos” – outro exemplo de retomada da obra de um conservador na mão de uma editora alternativa, publicação via crowdfunding – sem dinheiro de governos e bancado pelos leitores, como este blogueiro.
8 – Javier Marías – “Assim começa o mal” – Uma ficção de valor que é para a vida se movimentar em pura imaginação. Neste caso pecaminosa e soberbamente bem escrita. O desejo é o pano de fundo da história, tal como “é um dos motores mais poderosos da vida”. Uma outra Beatriz que não move o poeta mas um ficcionista de valor – um dos que dominam plenamente sua arte.
9 – O diário sentimental de uma viagem ao Chile será sempre lembrado pelos bons livros que de lá trouxe. Em minha viagem, relatada aqui e no jornal Opção, cito este e outros livros. O Antologista Erwin Díaz nos prova com “Poesia chilena de hoy” que o pequeno país costeiro tem, além de dois prêmios Nobel, uma rica poesia, além e apesar do icônico Pablo Neruda.
10 – Dona Adélia – Poesia Reunida. A paixão do verso e a postura civica me fazem amar esta cidadã. “Lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo” – tenho que concordar em como Drummond colocou-a em verso definida.
11 – “A vida intelectual” – Há muitos anos recebi um arquivo pdf com este texto que agora a É Realizações traz a lume. O padre e educador A.D.Sertillanges é para ser lido, relido, estudado e tido à cabeceira. Evoé, editores, por este “livro dedicado a todos aqueles que desejam uma vida pleana…” Eu me senti incluído e feliz com a edição.
12 – Olavo de Carvalho – “A  dialética simbólica”. Sim, não se assuste amigo de formação e prática política. É muito bom esse livro, apesar de ser uma seleta de artigos, anotações de aulas e que ficariam dispersos não fosse o esforço do pensador e do editor de reuni-los em livro “de grossa lombada”. Mesmo que considerados “escritos menores” esses textos trazem a marca de “um dos mais originais e audaciosos pensadores do Brasil”. Eu sou muito grato ao professor Olavo por ter acompanhado seu (dele) COF – não a tosse! – mas o Curso Online de Filosofia e com ele aprendi muito. Se você conseguir passar por sobre a camada de verniz que o nome recebeu – como os móveis antigos de bom Carvalho devem receber – perder o preconceito, há de descobrir um pensador original e um provocador que nada tem de sisudo mas que pode e deve ser levado a sério para pensarmos o país.

De resto, Boas Leituras a você e um 2016 de reencontro com a Essência.
Abraço fraterno

Beto Queiroz

Poesia Falada também é Poesia…É o declamador que vai acordar os poemas prisioneiros das páginas dos livros antigos (e nem tanto…).

Link

Atendi a um pedido do “Portal do Empresário” (ACIEG) 

…E LISTEI seis obras que funcionam como roteiros para empreendedores (ou apenas colaboradores de empreendimentos – compartilham sonhos e esforços conjuntos).[Com texto complementar de minha amiga Ana Helena Borges]

“Ser empreendedor não é algo fácil. É preciso muito mais do que a famosa tríade “força, foco e fé” eternizada pelo mundo fitness. Além dos três pilares essenciais para o esporte é preciso também doses extras de concentração, treinamento, segurança, capacitação, disciplina, conhecimento e, claro, alguma ajuda de vez em quando para encontrar tudo isso.

“O mesmo acontece para inovação. Até mesmo porque empreender não significa apenas começar um negócio, mas também renovar o próprio negócio. Ou seja, empreender é inovar sempre.

“Para alimentar a alma empreendedora, logo inovadora, há várias formas e indicações como ler bons livros, assistir alguns filmes, se propor hábitos novos, viajar, entre outros. Os livros foram a escolha do conselheiro do Grupo Multidata, Adalberto Queiroz, que listou seis obras para quem deseja abrir o negócio ou renovar a capacidade de empreender.

Ana, eu disse: “Lembremo-nos que, antes de tudo, livros são produtos de um efervescente mercado. Então, acompanhar a evolução desses seres vivos exige uma atenção especial do empresário. Se o leitor desta escolha (personalíssima) é um antenado empreendedor, ligado a uma escola de comércio ou a um curso de especialização pós-Universidade, encontrará nas fontes citadas melhores e mais atualizados rumos para as leituras essenciais”, lembra Adalberto.

Veja a lista sistematizada no Portal do Empreendedor (Acieg) !