Projeto Poesia Falada*Nova Fase

Rudyard Kipling – Projeto em nova fase.  Poesia Falada. “projeto “Os 100 mais belos poemas populares do mundo”- Edição de áudio de Roberval Silva. Produção: Paulo Rolim.

Joseph Rudyard Kipling foi um autor e poeta britânico, conhecido por seus livros “The Jungle Book”, “The Second Jungle Book”, “Just So Stories”, e “Puck of Pook’s Hill”; sua novela, “Kim”; seus poemas, …Wikipédia
Nascimento: 30 de dezembro de 1865, Bombaim, Índia
Falecimento: 18 de janeiro de 1936, Londres, Reino Unido

PoetaRudyardKipling
SE…(If) 

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!
Rudyard Kipling

 

Saudades de Carmo Bernardes, 20 anos depois

A AUSÊNCIA do escritor Carmo Bernardes, cujo falecimento hoje completa 20 anos, foi sentida e anotada por um de nossos confrades no grupo virtual que mantemos no feicebuque (FB).

Hélverton Baiano diz em sua memória do imortal goyano-mineiro que Carmo é uma espécie de “Guimarães Rosa desvalorizado, meio esquecido“.

Capture_HBaianoOnCarmoBernardes
Do FB de Hélverton Baiano & Grupo Literatura Goyaz

Membro da talentosa Geração de 1915, Carmo nasceu em Patos de Minas, no dia 02 de dezembro/’15, tendo sua família se mudado para Formosa em 1920; depois, para Anápolis. Portanto viveu entre os goyanos desde os 5 anos de idade (e não dos 15!); tendo publicado dezenas de livros e convivido, entre seus contemporâneos de talento em Goyaz, com os escritores Bernardo Élis, Eli Brasiliense e José J. Veiga. Carmo Bernardes, autodidata, fez da escrita sua vida; defendeu seu pão cotidiano com a máquina de escrever e não abandonou o planejamento e o bem pensar, antes de sair tamborilando no teclado das Olivettis de então.

Ao comemorar o centenário da valorosa Geração de ’15, no ano passado, entrevistei o poeta- acadêmico Luiz de Aquino, que destacou sobre o quarteto:

Nos quatro notáveis que este ano [1915] se tornam centenários, destaco a elevada qualidade de sua linguagem [José J. Veiga]. O Veiga e o Bernardo são dotados de um lirismo emocionante! Eli nos brinda com a narrativa clara e elevada, sem perda do entendimento pelo leitor comum. E Carmo enriquece-nos com a musicalidade rítmica de um excelente contador de causos, dotando sua prosa de um vocabulário telúrico o bastante para significar um dos mais ricos glossários do linguajar dos sertões de Minas e Goiás. Não compreendo como se estuda num curso de graduação em Letras neste Brasil Central sem fazer uso exaustivo desses autores! E o triste é constatarmos que esses cursos, tanto os de bacharelado quanto os de licenciatura, despejam no mercado profissionais de pesquisa e ensino sem a base mínima para fazerem jus a seus títulos.”

LEMBRO-ME bem do Seo Carmo, na Livraria Cultura Goiana, ali perto do Café Central mantinha o sr. Paulo Araújo, onde o jovem que eu fui encontrava o respeitável cronista, distante, mas sempre afetuoso e firme (sempre meio amuado, mas afável) e que me dava conselhos sobre o que ler. Sobre os livros dele mesmo, que tenho alguns autografados, só me lembro de ganhar autógrafo lá na saudosa livraria e na feira do livro que a turma da Cultura Goiana realizava no coreto da praça Cívica, aos domingos.


Ao pedido de indicação de livros, o experiente autor não hesitava em orientar seu jovem fã, na época com 30 anos: eis um livro que merece ser lido, disse-me ele um dia na Cultura Goiana; e apanhou na estante do Paulo Araújo “Os Frutos Selvagens da Sibéria”. Comprei o livro na hora e um ano depois, em 1987, tive a honra de receber o autógrafo de Evgueni Ievtuchenko, que fazia um tour pelo Brasil, em plena Recife, onde eu me encontrava residindo por conta do meu trabalho como assessor na Caixa Econômica.

Capas Livros CarmoBernardes

Gostava também de ler o Carmo cronista. Não me lembro se n’O Pop ou na Folha de Goyaz. Lembro-me bem de seu mau humor contra a poda indiscriminada de árvores pela nossa distribuidora de energia elétrica. Eu, amante da Natureza e das árvores me deliciava com o tom que o Bernardes dava à sua “bronca” na Celg. Ele era um defensor da Natureza, um verde avant-la-lettre, desde que com o pai iniciou-se nas “atividades madeireiras”; autodidata, Carmo fez curso de Estatística e Recenseamento, tendo tabalhado no Censo de 1940. Jornalista, foi a profissão que exerceu por mais tempo; mas o “mateiro” era o que morava no sangue do mineiro-goyano Carmo. Dirigiu redações de jornais em Anápolis e Goiânia e dedicou-se às atividades ecológicas antes que isso fosse o modismo político dos dias atuais. Foi conselheiro da Fundação Inca, representante ao I Encontro Nacional sobre a Proteção e Melhoria do Meio Ambiente e à 1a. Conferência Nacional de Meio Ambiente.
A vida o coroou com o título de “Doutor do Cerrado”.
Contracapa_Jurubatuba_CarmoBernardes

Ainda no ano do Centenário, fomos brindados com um artigo de fundo, assinado pelo escritor Bento Fleury no Diário da Manhã  (veja link abaixo) e com uma palestra na Academia Goiana de Letras, proferida pelo acadêmico, poeta Aidenor Aires, da qual infelizmente não tenho em mãos a transcrição de imediato, quem sabe volte com outro post sobre o tema…

Ligado ao Partido Comunista, não sei em que medida (se filiado ou simpatizante), o Carmo conquistou a simpatia de leitores dentro e fora da estreita estética do realismo marxista. Numa época em que qualquer simpatia com os desfavorecidos do campo e das cidades poderia colocá-lo em listas de perseguições, o escritor foi ouvido em inquérito policial-militar. Em artigo da então doutoranda Márcia Pereira dos Santos, OPSIS, Revista do NIESC, vol.5, 2005, link consultado em 25.04/2016 Carmo não era do “partidão”, mas tinha a simpatia de membros eméritos do ‘partido’, como Jorge Amado, que o elogia na contracapa da 3a.edição de “Jurubatuba”.

Transcrevo do artigo da Doutora Márcia Pereira dos Santos (2005).

“Para a ditadura militar, subversivo era todo aquele que tinha idéias contrárias àquelas defendidas pelo regime. Bernardes estava, pois, condenado a refugiar-se para não ser preso como foram outros intelectuais goianos na mesma época. O ano que fica na Ilha do Bananal, marcado pelo medo diário de ser preso, as dificuldades econômicas, a distância da família, que ficara em Goiânia, e a doença contraída reforçavam a necessidade que o escritor sentia em não se deixar calar totalmente. Talvez aqui esteja a justificativa para Bernardes, anos mais tarde, escrever o livro Xambióa: paz e guerra, (acessado apenas segundo entrevistas com sua filha Ana Maria e com D. Maria Nicolina) e mantê- lo não publicado. O mesmo ocorrendo com outro livro de relatos, Visto do Tempo, sem data para lançamento e sobre o qual o autor orientou sua família a só publicar depois de sua morte.”
[nota 2 da Autora: “2 No momento em que este artigo foi escrito o livro “Xambióa: paz e guerra”, permanecia inédito sendo publicado em abril de 2005 pela Agencia Goiana Pedro Ludovico Teixeira, durante a I Bienal do Livro em Goiânia, quando esse artigo já havia sido encaminhado para publicação]

“Autodidata, Carmo Bernardes não teve formação acadêmica. O interesse pelos livros e pelas palavras nasceu ainda na infância sob influência da mãe. Cursou apenas as séries iniciais do ensino regular, mas embrenhou-se no contato com livros, palavras e escritos, tornandose um aficionado leitor dos mais diversos escritores e gêneros literários. À medida que se envolvia com as letras, Bernardes ia compondo um universo de referência que mais tarde marcaria seu estilo de jornalista e escritor. Somente aos 30 anos, depois de ter passado por inúmeras outras profissões, Bernardes entra no jornalismo, na cidade de Anápolis. Até esse período era um entusiasta do partido comunista, porém, segundo sua filha Ana Maria do Carmo, em entrevista concedida em 10/05/04, tal entusiasmo não se prolonga, pois o autor se distancia do partido. Redator, cronista e repórter, Carmo Bernardes desenvolveu o trabalho jornalístico trazendo consigo a vida forjada no contato com a cultura rural, com a experiência de carpinteiro do pai e a sabedoria popular da mãe. No jornal A Imprensa, de Anápolis, iniciou uma atuação mais sistemática no jornalismo, nas décadas de 1940 e 1950. Ainda em Anápolis ingressou na publicação do semanário A Luta, jornal independente, muitas vezes impresso pelo próprio Bernardes com a ajuda de D. Maria Nicolina do Carmo, sua esposa. Jornal combativo e 112 OPSIS – Revista do NIESC, Vol. 5, 2005 atento aos problemas sociais, A Luta expressava as aspirações do autor de uma maior difusão da cultura goiana, bem como dos problemas que afligiam os goianos. Em 1959, Bernardes transfere-se para Goiânia, mas somente em 1965 volta a ocupar-se do jornalismo, tornando-se redator do Jornal Cinco de Março e fazendo algumas contribuições em rádios da capital. Neste ano de 1965 é convocado a depor no IPM. Em 1966, publica seu primeiro livro de contos: Vida Mundo. Bernardes levava uma vida simples em Goiânia. Da casinha verde na Macambira, atual setor Pedro Ludovico, ia difundindo suas concepções de mundo que se propagavam nos jornais e em revistas da capital goiana. Trabalhava em órgãos públicos e freqüentava o Café Central, ponto de encontro que marcou a vida de uma geração de intelectuais goianos. Segundo o Dr. Orlando Ferreira de Castro, em entrevista concedida em 11/05/04, o Café Central serviu de palco de inúmeros debates e discussões entre vários grupos que ali se encontravam. Bernardes estava em meio a intelectuais e, com sua presença silenciosa e observadora, era levado a intervenções que, muitas vezes, deixavam outros intelectuais surpresos com sua capacidade de entendimento e compreensão dos mais variados assuntos. Os encontros noturnos no Café Central prolongavam-se por horas, permitindo um conhecimento mútuo entre os que ali se reuniam. As principais publicações de Bernardes, nesse momento, eram artigos e crônicas, que foram, posteriormente reunidas em dois livros, Rememória (1969) e Rememória II (1969). As crônicas apontam para a personalidade do seu autor e, ainda, podem ser indícios dos motivos da denúncia de Bernardes à ditadura militar e, consequentemente, à sua fuga para a Ilha do Bananal. Tematizando a vida cotidiana na nova capital, as mazelas da população pobre, as discrepâncias entre o povo e a elite, as diferenças entre a chamada grande literatura e a sua forma de escrever, as crônicas de Bernardes podem ser lidas como “panfletos” de uma concepção política de mundo. Ao denunciar, diariamente, as injustiças e as incoerências da vida social, Bernardes, muitas vezes lido apenas como um escritor de curiosidades, faz de seu espaço no jornal um meio de ir revelando o que vê e o que sente. Disfarçado em um displicente “caipira escritor” deixa claro, em pitorescas crônicas, que reproduzem a cultura rural ou em histórias de anônimos caipiras na cidade, os dramas vividos pelos homens do campo em Goiás nesse período, especialmente a precariedade da vida rural e a expulsão dos lavradores de suas terras; a incapacidade do mundo urbano em assimilar esses recém chegados, considerados inaptos à vida na cidade; a falta de uma estrutura que atenda às necessidades de alimentação, saúde, educação, emprego e moradia da população que está se formando na nova capital. Vê-se em Bernardes, um número crescente de crônicas com críticas à sociedade na qual está inserido. Não é, pois, de se espantar as suspeitas levantadas sobre o autor como subversivo. Observador do povo, Bernardes não se acanhava em dizer que escrevia para esse mesmo povo em um momento em que “povo” poderia traduzir ou expressar o imaginário circulante de possíveis revoltas e revoluções, que a ditadura militar viera combater, como dizia os discursos dos militares. Além disso, a presença de Bernardes no governo do Estado, logo deposto pelos militares, e no Jornal Quarto Poder da Universidade Federal de Goiás, corrobora na denúncia do autor como sendo oposição ao regime. De certa forma, Bernardes recebe com surpresa a “dedoduragem”, como diz em crônicas do livro Rememórias. Considerase um “coitado” que escreve suas “caraminholas” e que nunca foi marxista ou comunista, como fora acusado – não pôde ser encontrada até o momento, no contexto da presente pesquisa, alguma crônica do autor que mencione sua passagem pelo PC – , não se considerando, portanto, um indivíduo perigoso a quem quer que seja

Comunista ou não, Carmo me conquistou por suas narrativas e suas crônicas. Lia dele tudo que me caía às mãos e no mais das vezes era forçoso concordar com Pedro Nava:

“Sua prosa é feito moenda que não volta nem deixa tirar. A cana passa inteirinha e a gente tem de ter cuidado que não entre a mão – para não soltar nosso sangue com o caldo. Seu herói [em Jurubatuba] – assim derrubador de mulheres, alegre com elas, protetor dos fracos e meninos, esperto com os homens porém trouxa com a humanidade, é um Dom Quixote caipira. Digo Dom Quixote sobretudo pela solidão (insisto nisso) dos seus personagens.” 

Algumas citações retiradas ao artigo de Bento Fleury** comprovando a maestria de Carmo, o “Doutor dos Sertões; o Doutor do Cerrado”, com certeza entre nossos escritores o que melhor entendeu o bioma em que vivemos – a maior savana do planeta – o cerrado:

“Agora está numa infância enorme é o pau d’arco roxo. Quem sou eu para intrometer! Só uma coisa posso dizer e provar: desde que me entendo por gente sei que o cerne do ipê roxo cura mal de garganta, pereba, sarna e para matar piolho de animal e gente é sem parelha.”

“Já o pequi, a bem dizer, não é fruta para gulodice. A sua ação é mais mesmo de sustento de aguentar relance na falta de recurso maior sustância no passadio. O pequi é um santo remédio. Despeitora as pudriqueiras que ficam no peito após a gripe, renova a coragem, tem manteiga e sem sustança.”

“Vai narrando ainda sobre outras plantas, em que Bernardes (1974, p. 17) em seu livro Força da nova evoca a mata-cura, uma erva medicinal, de cujas folhas moídas fazem-se cigarros para curar bronquite (Só se deve fumar somente um por dia.):
“Por envolta de terreiro pegou a espraguejar, encher de pé de joá-brabo, melão-de-são-caetano a lastrar misturado com cabaça amargosa, crescer fedegoso, carrapichal, mata-e-cura”, também os nhanbus na saroba cerradeira: “Uns nhambus, por exemplo, aí na saroba, azucrinam a alma das criaturas de Deus, numa orquestra com tudo quanto é versidade de pássaros, que, se facilitar, endoidece.” Bernardes (1971, p. 11).”

Sobre o Oiti:
“…o oiti, que é árvore frondosa, muito encontrada nas matas do norte de Goiás: “O gringo encostou à sombra de um oitizeiro, abanando a cara com o chapéu, ensopadinho de suor.” (Bernardes, 1977, p. 22), assim como as sangra d’águas, que são árvores dos brejos e das beiras dos córregos, mescladas de folhas vermelhas: “Assim como não sei viajar sem ela aí dum lado para merendar meio-dia à sombra das sangra-d’águas no barranco dos ribeirões da linfa pura e fresca.” (Bernardes, 1976, p. 12).

Sobre a “Mamacadela”, Bento pinça esse trecho:
“…a mamacadela, que é uma frutinha amarela, silvestre, também conhecida por fruta-cera, cuja raiz é diurética e com a qual se faz um preparado terapêutico contra vitiligo: “Apois si é o inharé, que uns conhecem por mama-de-cadela ou fruta de cera. A mama-cadela também é conhecida como fruta-de-cera e inharé e tem de duas espécies: uma que dá pau alto e outra mais ou menos rasteira que dá de vergônteas. Bacupari, gravatá, marmelada-de-cachorro… enfim, quando ando no mato vou levando de eito toda fruta que encontro.”


Fontes:

  1. LITERATURA E PERSEGUIÇÃO POLÍTICA EM GOIÁS: O CASO DE CARMO BERNARDES, Doutora Márcia Pereira dos Santos – OPSIS – Revista do NIESC, Vol. 5, 2005.
  2. Artigo de jornal Diário da Manhã (Goiânia) – matéria de Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, graduado em Letras e Linguística pela UFG, pós-graduado em Literatura Comparada pela UFG, mestre em Literatura pela UFG, mestre em Geografia pela UFG, doutorando em Geografia pela UFG, escritor, professor e poeta. 
  3. Link para a nota do Opção Cultural (Yago R Alvim).

 

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Literatura Goyaz Antologia 2015*

E a Poesia foi a anfitriã dos que A amam…

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Foi a estréia de um evento literário no espaço acolhedor da Galeria de Arte do Teatro Basileu Toledo França. A professora Fernanda Porto nos acolheu com carinho especial e o Coordenador da casa, professor Peterson Pessoa fez tudo com dedicação e a humildade do servo que concorre com amor para o êxito – o que incluiu carregar cadeiras e mesa…

Os co-autores e membros do grupo Literatura Goyaz fizeram do evento a antítese do virtual que, conforme Pessoa, é mais do que o “real” é o Atual – o que se vive. E vivemos o momento com intensidade de sarau.

Nós, Peterson e eu, que chegáramos cedo para preparar o ambiente à espera dos convidados, pudemos sentir o clima da sala – a Galeria de Arte, cuidadosamente mantida pela professora Fernanda Porto (a quem naturalmente, deveriam dar um ar-condicionado tão breve quanto possível); pois, nós, pudemos planejar o espaço, respeitando ao máximo as obras de artes dos pequenos que lá estão expondo.

Dois deles, mais curiosos queriam saber que movimento se passava em meio às suas obras: o João e o Artur, posaram próximos às obras que devem ser as primeiras de uma longa carreira, esperamos, com a formação que lá estão recebendo da instituição respeitabílissima que é o Basileu Toledo França (Itego).

O César Miranda, que veio de Brasília, foi o primeiro a chegar, sacramentando a regra de quem mais longe mora, mais cedo chega à festa!
E encantou-se com outra obra de arte dos pequenos.

Com a presença de espírito que caracteriza o poeta-humorista e autor de centenas de palíndromos inesquecíveis, Cesar cunhou logo uma frase lapidar: “Cher Mondrian. Chair Mondrian!” – legenda perfeita para a obra dos pequenos João & Artur.
Cesar+Mondrian+LançamentoItego

Logo, minha ansiedade cedia, com a chegada de outros convidados. A Marisa (a)Penas, sempre pontual, às 19h00, e outros mais que se anunciavam como convidados de co-autores – todos bem-vindos; sabendo-se, desde sempre, que em Goiânia convida-se para as 19h para começar o evento às 19h30.

Também pontual o editor Mário Zeidler Filho, da editora e Livraria Caminhos, montou logo seu espaço, onde expôs a nossa Antologia e outros belos lançamentos do catálogo da editora.

Depois de carregar cadeiras e prender quadros, o doutorando Pessoa pôde respirar e nos inspirar com seus conhecimentos de artes cênicas e filosofia. As bandeirolas já estavam nos devidos lugares, as bebidas garantiriam mais frescor aos convidados – na ausência do ar condicionado. Relaxei, pensando que tínhamos feito o melhor e ficamos à espera de todos.
E não é que eles (e elas! ‘todos & todas‘) vieram?! Encheram com sua alegria e entusiasmo a galeria de arte do Basileu; encheram de poesia e sonhos nossa noitada.

Fiquei agradecido e feliz. Devo um obrigado especial a Clara Dawn, Eude Elidifá (Puc/GO), Thálita e Ted Amorim; super especial aos mecenas Marley Rocha, Rildo Rosa e família, Eduardo Zuppani e a todos os demais mecenas, que garantiram com suas contribuições, do projeto de “crowdfunding” (a vaquinha moderna) esse lançamento.
Parceiros da primeira hora e persistentes: o revisor Luiz de Aquino, mais do que confrade, compadre moral; o j0vem editor Mário Zeidler, que se dedicou intensamente como coordenador editorial, possibilitando rapidamente esta 1a.Reimpressão (corrigida).

O êxito do evento para o antologista foi sentido nos olhares, no ânimo que a todos (menos dois ou três cuja timidez ombreia com o talento); uns que nem mesmo ousaram se deixar fotografar. Beleza ver os experientes escritores, como Lêda Selma (AGL/GO), Luiz de Aquino, Edival Lourenço (Ube/GO), Marcos Caiado; nossas Marias – Abadia Silva e Helena Chein, nossas Sônias – Maria dos Santos e Elizabeth; página a página com jovens que vêm chegando e tentando mostrar o talento literário, como Simião Mendes, Thiago Lucarini e Lea Paz. Ver o poeta Itaney Campos, Hélverton Baiano e Chico Perna (Francisco Perna Filho) ocuparem os espaços do sarau com a mais franca e apaixonada poesia falada…

Uma noite para provar que o virtual e o atual são antitéticos – como nos alertou o filósofo Peterson Pessoa. Uma noite em que a magia da Poesia nos uniu em comunhão diante do altar da Amizade. (AQ). Adendo: parte de um poema falado em homenagem à nossa decana Magaly Magalhães, que não tendo participado fisicamente do evento, mostrou-se presente como símbolo-mor do lema “escrever é ato solitário, mas publicar deve (e pode) ser solidário”. Concluo, repetindo Murilo Mendes em “Somos todos Poetas” : “sinto em mim um desdobrar de planos” e compreendo como “Eternidade do Homem” que não somos senão “elos da corrente universal começada em Adão [e Eva] e a terminar no último homem” 

FAÇA SEU PEDIDO online, em site seguro da Livraria Editora Caminhos: Literatura Goyaz: Antologia 2015.

*Literatura Goyaz: Antologia 2015

 *Lançamento.
Data: 19 de abril de 2016
Hora: 19h00
Local: Galeria do Teatro Basileu Toledo.
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DM Antologia

Uma nota na coluna do dileto amigo Ulisses Aesse merece uma ressalva no adjetivo usado pelo colunista no título: de acordo com o mestre Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, em seu clássico dicionário Analógico, “colaborativo(a)”, adj. diz respeito à combinação de causas que pressupõe “feito em aliança, em perfeita comunhão, conjuntamente com, em parceira com, ombro a ombro”; já “colaboracionista” diz respeito à inconfidência (sobretudo na França ocupada), à colaboração para fins de “arreglo”; o que em hipótese nenhuma tipifica-se nesta coletânea.
UlissesAesse!

Outras repercussões: Opção Cultural.
A Redação. O Popular. Coluna Oficina Poética. Revista Conexão Literatura.

Mentecaptos

“Somente um mentecapto escreve se não for por dinheiro” (S. Johnson)

Escrever tornou-se um ato banal nestes tempos conhecidos como a era da informação. A facilidade de acesso aos meios de publicação, com a internet, trouxe ao cidadão comum a ilusão de que é muito fácil ser escritor. Tantas tonterias são cometidas que o ato sagrado de traduzir idéias em palavras parece nunca ter sofrido tantos sacrilégios.

A aventura humana do ato de “traduzir idéias em palavras”, na sintética definição de Antonio Fernando Borges (1), parece no mais das vezes uma tormenta em mar turbulento, quando não um naufrágio real.

Houve tempo em que até um relatório da gestão de um prefeito transformava-se em tradução saborosa, devido ao encanto da linguagem. Lembro-me do velho Graça, Graciliano Ramos em 1929, quando prefeito de Palmeira dos Índios (AL), desmontando a lógica da sensaboria de que, em geral, se salgam os documentos dessa natureza:

“Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamavam.
(…)
“Instituíram-se escolas em três aldeias. Serra da Mandioca, Anum e Canafístula. O Conselho mandou subvencionar uma sociedade aqui fundada por operários, sociedade que se dedica à educação de adultos.
“Presumo que esses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras.
“Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos, passatempos acessíveis a quase todos os roceiros.”

Esta citação reforça o vazio do que vemos hoje, por contraposição ao que lemos hoje nos textos ditos criativos que infestam os websites e blogs. O texto do Graciliano mostra um pouco do que nos falta hoje em sonoridade, equilíbrio e graça – sim, há uma graça no texto a que se pode designar harmonia, aquela sensação de beleza, mesmo quando o assunto não é nem um pouco tocante à beleza – pelo menos, não no sentido que se espera da arte de escrever.

Então, voltamos ao sentido inicial da tradução das idéias em palavras, para entender a citação que abre este exercício. Diz-nos Francisco Azevedo em seu Dicionário Analógico que mentecapto tem a ver com imbecilidade, no verbete 499. E expande para irresponsável, orelhudo, burro, burrical, asinino, asnal, azoinado; e por aí faz cavalgar o termo.

Analisando alguns escritos na internet, concluo a quem cabe o epíteto cunhado por Johnson. No Brasil, há muitos que escrevem com desvelo mas na gratuidade, sem esperar remuneração – como num sacerdócio, esperando a justa medida do reconhecimento – nunca a soldo; escreve-se com tenacidade, num quase sacrifício pessoal, quando me refiro aos grandes escritores. É na solidão e no isolamento, independente da crítica ou do público, distantes dos holofotes que esses dedicam-se à arte de escrever.

Já os calhamaços rascunhados sobre as pernas de “escritores” a serviço do poder – estes sim, mostram-se atoleimados, ajogralhados, apegados ao ofício abjeto do fazer com a mão para levar à boca ou ao palacete de jogral dos governos.

Se a frase de Samuel Johnson na epígrafe serve ao propósito de enfatizar a profissionalização do ofício de escritor e conclamar a que este saiba seu próprio valor; há entre nós os que levam ao rés-do-chão a “arte” e se vendem aos governos de plantão – enxovalhando e amesquinhando o que poderia ser o culto do grave ofício. Hoje escreve-se por dinheiro no Brasil, desde que agrade ao que governa.

Assim, às avessas, fica no Brasil a frase de Johnson com sua validade reversa. Seria o mentecapto aquele típico imbecil coletivo já denunciado pelo professor Olavo de Carvalho, parte da turba, servil e dócil ao poder. Aqui, onde o ofício de escrever não é profissionalizado senão para os que escrevem à sombra do poder e as uns poucos que encontraram público vasto na ficção adocicada; aqui, os mentecaptos às avessas insistem em realizar na solidão a busca da escrita perdida.

*****
Fontes: 1. BORGES, Antonio Fernando. Em Busca da Prosa Perdida. S. Paulo, É Real. Edit., 2013. 2. Relatório de 1929, Graciliano Ramos ao Gov. de Alagoas, Revista de História, link consultado em 12.04.16

 

 

Leitura atenta: escrita criativa (exerc. #1)

V.S.NAIPAULNovelist and travel writer VS Naipaul

 “Jamais me ocorreu que escrever este livro poderia vir a ser um fim em si, que o ato de registrar uma vida poderia se tornar uma extensão daquela vida. Jamais me ocorreu que eu pudesse vir a gostar da vida metódica e regulamentada do hotel, que antes me levava ao desespero, e que o contraste entre a imutabilidade de meu quarto e a lenta construção do que lá estava sendo criado me daria tamanha satisfação. Ordem, sequência, regularidade: é o que sinto cada vez que o medidor do aquecedor estala, aceitando mais uma de minhas moedas. Em quatorze meses, o aquecedor ja engoliu centenas de xelins, ora com um som oco, ora com um som mais cheio. (…)
“Conheço cada linha do trecho do papel parede acima da escrivaninha. Não percebi nenhum sinal de deterioração, mas fala-se em redcorar o hotel. E a escrivaninha: quando sentei-me à sua frente pela primeira vez, achei-a tosca e estreita. O tampo escuro estava manchado e arranhado, o arranhões estavam cheios de terra e sujeira, a gaveta estava emperrada, os pés tinham sido serrados. Não fazia parte do mobiliário padronizado do hotel. Fora-me fornecida em atenção a um pedido especial. Era um móvel de segunda mão, que não pertencia a ninguém. Agora ela me parece reabilitada e limpa: é um objeto cotidiano e confortável e até mesmo os arranhões adquiriram um certo brilho. Isto se deu graças ao dom da observação minunciosa, que adquiri ao escrever este livro; uma ordem, da qual faço parte, vem corresponder a outra, que é criada por mim. E com este dom veio também outro, o que eu menos esperava: uma capacidade de gozar constantemente, calmamente a passagem do tempo.”
(Os mímicos, p.310, trad. Paulo Henriques Britto).

Transcrevendo este trecho do romance que acabo de ler, primeiro num caderno e agora num editor de texto, sigo um conselho do professor Rodrigo Gurgel, na oficina de Escrita Criativa 2016.

Penso no trabalho braçal que levou V.S. Naipaul a construir o romance, elaborar cuidadosamente os planos em que se desenrolam as aventuras e desventuras de um personagem em prosa não linear. Foram esforços de um talentoso e disciplinado escritor trabalhando entre agosto de 1964 a julho de 1966. Somente isso já exigiria do leitor uma atenção cuidadosa sobre essa tenacidade.

A observação atenta do que lê para aprender é sistemática e continuamente provocada a ser uma espécie de comunhão entre leitor-escritor. O que espreita, o que vigia, o que presencia – eis o leitor atento. Ao que descreve cabe manter-nos agarrados ao fio da conversação imaginária.

A imaginação, tida como “a doida da casa” por Santa Teresa D’Ávila pode por vezes ser o fio condutor de uma remissão. Trata-se de “gozar calmamente a passagem do tempo” para um e outro. Mas não haverá comunhão se não houver verdade no texto. Se não encontro na escrita algo “além do transitório, do momentâneo”, se ali não houver uma “sintaxe” própria, se o Autor falseia e escorrega para o rés-do-chão, transforma-se no prisioneiro do corriqueiro. O que não inventa, não surpreende – e para isso não são necessários muitos malabarismos! – não retém, não serve ao Leitor a ceia (seiva) da história que teria a contar.

Ao contrário, o que une elementos únicos como se fossem a própria vida; esse convence e retém o Leitor, numa teia de encantamento capaz de criar uma “conspiração afetiva”.

Forçoso dizer que todo livro tem seu propósito, quando bem realizado. Não me cabe dizer agora, no calor da 1a. leitura recém-finda que “mensagem” é essa que vem de “Os Mímicos”. Nem seja este, talvez, o caso. Bastou-me manter os olhos bem abertos, “a mente atenta não apenas para se divertir, mas para aprender com o Outro” – como sugere o professor Gurgel.

E se é certo que “Não basta imaginação!”. A doida da casa há de servir-nos, leitores exigentes mais do que um entretenimento e um passar do tempo. “Viver e escrever precisam transformar-se em uma coisa única”. Primeiro, isso ocorre com (e dentro) do escritor; mas não menos importante, secundariamente no (dentro) do Leitor. Há, dessa forma, uma espécie de “uma conspiração afetiva entre escritor e leitor“.
De “um sacerdote da imaginação” (Paul Mariani) espera-se sempre o respeito pelo altar do livro.

E assim Naipaul arremata o assunto:
“O ato de escrever este livro é mais do que uma forma de me libertar daqueles artigos [feitos ao correr da pena, profundamente desonestos …que se esquivavam da verdade final até perdê-la]; é uma tentativa de redescobrir aquela verdade final.”

E assim se deu comigo, leitor, na leitura atenta (não menos emocionada) de “Os Mímicos”, de V.S.Naipaul, traduzido por Paulo Henriques Brito.
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