Presença de Augusto Frederico Schmidt

Schmidt e os Sonetos Completos
AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT…
Augusto Frederico Schmidt, 50 Anos de SONETOS, seu último e definitivo livro de poemas.
Carta dos editores na abertura do último livro de Augusto Frederico Schmidt.

– Poeta presente em nossas vidas de leitores e ali onde mora a imaginação poética para sempre há-de permanecer.

Augusto, membro da tríade de poetas católicos do Brasil.

Augusto católico que quando a fé titubeava e sentia-se qualquer coisa de descrente, qualquer coisa de dúvida, de pronto voltava ao seio da Mãe, a Igreja Católica, santa e apostólica para aí devotar-se mais e mais à Poesia.

50 Anos sem Augusto, para mim há-de melhor traduzir-se em “50 Anos com a poesia eterna de Augusto Frederico SCHMIDT”.

Augusto, o poeta-empresário, jornalista brilhante, editor, assessor de JK, o botafoguense, Augusto por vezes incompreendido; Augusto arrebatado, augustamente nacionalista, o criados do mote “50 Anos em cinco” – que seu (dele) amigo JK de pronto adotou como slogan de governo.

Augusto poeta – “próspero e pródigo” – que, humildemente confessa o “pecado literário” ter-lhe desde cedo o tomado; e, desde então, para a vida inteira…
Augusto poeta que viveu “as lembranças dos sonhos partidos” numa “casa construída pela imaginação“.

Livros de Augusto F Schmidt
Livros de Augusto, estarão expostos no evnto “50 Anos de Sonetos”, a lembrar os 50 anos da morte de Augusto Schmidt, poeta eterno!

Augusto, “o poeta gordo” – e “gordo ele era e assim admite na ‘Oração do poeta gordo’ e que também era míope, mas enxergava longe…” – como viu Maria Adelaide do Amaral no prefácio do livro “Saudades de mim mesmo”, antologia de prosa, org. por Letícia Mey e Euda Alvim*.

Celebramos Augusto, 50 anos depois de sua morte, 50 anos da edição magistral de SONETOS.
Um evento na União Brasileira dos Escritores de Goiás (UBE/GO) relembrará a poesia e a memória de Augusto. Aguardem!

A morte de Augusto Frederico Schmidt relembrada no site da Fundação Yedda & Augusto F Schmidt : veja o link.

 

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*Fonte: SCHMIDT, Augusto Frederico (1906-1965). Saudades de mim mesmo: antologia da prosa de AFS/org. Letícia Mey, Euda Alvim, prefácio de Maria Adelaide Amaral. – S. Paulo, Globo, 2006.

Dois andares na “Casa da poesia brasileira”

Para os poetas Augusto Frederico Schmidt e Tasso da Silveira…

E ao traçar estes dois perfis em resumida crônica, encerro o ciclo “Poetas católicos do Brasil”.

Confira o artigo na íntegra, clicando no link abaixo:Destarte 11 ABR 2018.PNG


 

Lúcio Cardoso, poeta!

É preciso romper o silêncio que se instaura em torno de alguns escritores, é preciso revelar o que foi “injustamente deslembrado da memória editorial do mercado brasileiro“, conforme Esio Ribeiro no ensaio “Introdução à poesia completa de Lúcio Cardoso” (vide capa abaixo).

 

Ésio Ribeiro já havia publicado (e sido premiado pela Academia Mineira de Letras), em 2004,  O RISO ESCURO OU O PAVÃO DE LUTO: Um Percurso pela Poesia de Lúcio Cardoso… Amostra em Google Livros.

HOJE, 04/07, dia da Festa de Santa Isabel de Portugal, saiu meu artigo –  que intitulei de uma mini resenha de um “baita livro”. Clique na figura abaixo para ler o artigo na íntegra em Terça Poética do Opção Cultural.

O católico poeta, ficcionista, artista Lúcio Cardoso deixa-se ver em sua alma pura e atormentada. Octávio de Faria, outro romancista e grande esquecido, já o sabia e via na poesia dele, Lúcio a “mesma angústia que está em Augusto Frederico Schmidt e cheio do sofrimento que está em Vinicius de Moras, mas também possuído de toda uma emoção nova que só está nele porque é essa a sua originalidade, sua marca de poeta independente e de grande poeta…
(Faria, 1935, p.336, cit por Esio Ribeiro no livro resenhado, p.65.). Em tempo: O Esio Ribeiro também pode ser lido em um blog (um tanto desatualizado) em http://esioribeiro.blogspot.com.br/search?q=cardoso

O MEU ARTIGO EM OPÇÃO CULTURAL ONLINE:
Capa artigo sobre Esio_Lúcio Cardoso.JPG

http://www.edusp.com.br/detlivro.asp?ID=409363

http://www.edusp.com.br/detlivro.asp?id=412769

 

Um “serpentário de erros”

JORGE DE LIMA em seu testamento poético criou uma longa “biografia épica” e recriou-se como poeta, na pele de um insular da poesia de nosso hemisfério

Canto I, 1
Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e  noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama.

(…)

Canto I, 15
E em cada passo surge um serpentário de erros
e uma face sutil que de repente estaca
os meninos, os pés, os sonhos e os bezerros.

Canto X, 20
No momento de crer,
criando
contra as forças da morte
a fé.

No momento de prece,
orando
pela fé que perderam
os outros.

No momento de fé
crivado
com umas setas de amor
as mãos
e os pés e o lado esquerdo
Amém.

EXPLICIT.

invencao-de-orfeu_

Há tanto para redescobrir nesta ébria viagem, desde a “Fundação da ilha” (Canto I) até a findada “Missão e promissão” (Canto X) que, causando ódio ou amor, as dificuldades suplementares surgem para entender os cimos e os vales do poeta em seu derradeiro canto.

“Invenção de Orfeu – diz-nos Fábio de Souza Andrade, “recoloca em circulação outro Jorge de Lima, mais ambicioso (e, portanto, mais ricos em picos e vales), mais resistente à assimilação, que costuma provocar reações extremas: ódio ou amor.”

Experimentação e hermetismo se misturam nessa ilha e o poeta – um insular bem treinado, exige do que navega igual perícia ou maior. Considerada uma biografia épica “Invenção de Orfeu” teria sido a sua própria, dele poeta “que propõe a forjar aqui, combinando gêneros eles mesmos, se apresentam abalados, compostos e heteróclitos. Sua ‘épica’ convoca os modelos clássicos (Virgílio, Dante, Camões e Milton), nunca como uma imitação exterior da tradição agonizante, mas como uma releitura de seus temas, episódios e motivos líricos e narrativos a partir da valorização pós-romântica do polo subjetivo no processo de criação”.

No Canto I, a gênese do longo poema de dez cantos, em que os 1800 versos primeiros são como “a explosão inicial” (Fábio Andrade) e aí, no centro, a referência bíblica ao lado da referência a uma tradição poética imensa. Tarefa árdua seria a de cavar nesse terreno da ilha para descobrirmos mais e mais. Uma hermenêutica se impõe à leitura de Invenção de Orfeu (Jorge de Lima, e sua “biografia épica”), dedicada ao amigo (também católico) Murilo Mendes.


Por ora,  fica a gênese do Mal que no jardim plantada hoje se repete ao longo de um século mau. “O serpentário de erros” aponta-nos a humanidade que conspurca o Éden divino – somos nós, humanos, na ilha,

“Vês, vão os reis de Lúcifa e Malvilha
batidos, tão sem brilho a espada de aço;
tão cansada a carcaça de olho em quilha;
são réus de quem, senão do humano braço
ou de quem for que à sombra os dentes rilha?
Ou de quem vencer pode todo o espaço?
Vencer com jogos tais e tal bravura,
de Deus chamar podemos, de loucura.”


E a violência que espoca na ilha tem nome e referência:

“Contudo grande Ovídio, o calendário
necessita de grandes abluções.
Mataram César ontem – sangue diário
nesses marços de guerra e de aflições;
os jogos deste mês tumultuário
são os roteiros das condenações.
Penduraram cabeças inocentes,
enodoaram de sangue os teus poentes.”

Como seu o poeta pudesse antecipar o Século Mau e o Mal banalizado dos vindouros.
Uma hermenêutica se impõe. Ou como dizia Murilo Mendes, lembrado não sem utilidade por João Gaspar Simões: “O trabalho de exegese do livro terá que ser lentamente feito, através dos anos, por equipes de críticos que o abordem com amor, ciência e intuição, e não apenas com um frio aparelhamento erudito”. Entre os críticos, Murilo por primeiro; outros mais vêm se debruçando (ou navegando a dentro, se prefere o leitor) “penetrando” (como quer Gaspar Simões):
“Extraño todo el designio, la fábrica y el modo” como diria Góngora, é de Góngora que realmente nos lembramos quando penetramos nesta floresta de imagens, de metáfora, de símbolos, de mitos, de ritos, de formas, de seres, de coisas que se associam para viver dentro dessa ‘ilha’ tropical que é a ‘ilha’ em que vamos assistir à invenção de Orfeu”.
Será preciso que sucessivas gerações de críticos se debrucem sobre a fábrica imensa deste imenso poema para, finalmente, se obter uma rigorosa exegese do mistério que o envolve.

Eis um projeto que pode nutrir toda uma vida de apreciador da poesia de Jorge de Lima. Eis uma agenda para um leitor atento dos poetas católicos do Brasil (Jorge, Murilo, Schmidt e o 4o. elemento adicionado à Tríade – Tasso da Silveira).

“Os poemas se tingem de vermelho;
é uma face sangrenta cada espelho.”

Uma chave para entender o futuro em que nos situamos. Ah, século xxi de “pura veneza e seu restelo“; de civilização e seu revés; de fausto e violência extremada – das prisões às areias sem lei do deserto em que se nutre “o serpentário de erros” dos humanos, sobretudo dos maometanos.

./.

Destino palavra (poemas), 2016

Esta é a íntegra do discurso parcialmente dito na Ube, ontem, dia 18/10/2016. A emoção e o tempo me impediram de dizê-lo todo. Digo-o aqui. Boa noite! disse, bom dia, boa tarde,,,dependendo do seu fuso, amigo do blog Leveza & Esperança.

Saudações a todos. Autoridades e Amigo(a)s.

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Porque Chesterton tinha razão, ao afirmar que  “…a prova de toda a felicidade é a gratidão” –
eis como quero dizer-lhes a frase inicial. No princípio era a felicidade e esta é composta por pequenas alegrias e demonstrada de forma suprema no ato de agradecer. Quero, pois, desde logo, demonstar minha gratidão. Se me sinto feliz hoje (e como me sinto!), devo-o a vocês e em especial a todos vocês que vieram me dar mais alegria com sua presença hoje à noite.

 

Agradecimentos especiais. Especialíssimos – a minha companheira Helenir Queiroz, filhas, genros e netos. Aos amigos e confrades do grupo Lit GoYaZ – onde se prova que “escrever é ato solitário, mas publicar pode (e deve) ser solidário!”. À Ube, na pessoa do nosso presidente Edival Lourenço e da sua leal e fiel escudeira Ana Serra. Ao Zeidler, ao Sérgio (editor e revisor da obra!) com quem se pode dialogar e através dos quais e pelas mãos de quem o meu trabalho só pode se engradecer…

À Ercília, à Sônia Santos, ao Aquino e em especial ao Francisco Perna Filho, que ao lado da querida professora Ercília Macedo-Eckel, e da madrinha Sônia Maria Santos, soube enxergar preciosidades que este criador sequer supõe possuir.DSC_0044.JPG

“A palavra é meu sacerdócio, ela que protege e transforma o ser humano”…
Emblemático que este lançamento se dê na antevéspera do Dia do Poeta e no dia do médico -responsáveis diretos pelas dores do corpo e do espírito.

Como se sabe, tenho lido muito e continuamente me encantado com o poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo. Ele disse uma vez que: “Os livros de poesia (e não só eles) são como viagens, umas com roteiro certo, como as dos homens de negócio e as dos turistas, e outras sem rota determinada, como as dos aventureiros” — Alberto da Cunha Melo.

 Eis-me a propor a todos vocês, amigos e leitores, que viajem comigo.

Viajemos com “Shakespeare, Richard Crashaw, Louis Lavelle, Ivan Junqueira, J. Ortega Y Gasset, Antônio José de Moura, Jorge de Lima e outros que se juntam a Alberto da Cunha Melo, cujas palavras fizeram brotar os poemas de Adalberto de Queiroz. São diversos os versos em intituladas estrofes os que compõem “Destino Palavra”… – [o texto em aspas é da entrevista que dei a Yago Rodrigues Alvim (Opção Cultural)].

Pelo telefone, numa voz de terça-feira de chuva fina na janela, Adalberto foi contando assim miúdo de sua história poética, de suas viagens e do que é feita a obra. Numa das indagações, feito fresta de sol entre nuvens acinzentadas clareou, então, a palavra. Ela, que, num paralelo com a literatura de viagem, é a chegada, o “destino” — como ele mesmo escreve. Afinal, a palavra protege e transforma, sublima o homem. Faz dele mais e mais.

Disse também ao Yago, o que  vos digo agora: um pouco mais de MINHA história e deste livro – “Destino Palavra”.
Diz Miguel Unamuno que “todo ser de ficção, todo personagem poético que um autor cria faz parte do próprio autor.”
Um livro – falava do romance – , mas estendi por minha conta ao poema, o que Flaubert dizia de sua (dele) “Emma Bovary – c’est moi” – que era o próprio, que nele havia vivido, antes de ser personagem “de carne e osso”; assim também repete Miguel:

“Minha lenda! Meu romance! Quer dizer, a lenda e o romance que os outros e eu, meu amigos e meu inimigos, meu eu amigo e meu eu inimigo, fizemos conjuntamente a respeito de mim…Minha história é minha lenda…”

Parodiando, assim posso afirmar que meu “Destino palavra” não é outro senão eu próprio. Um pedaço da alma que lhes vai impressa em bom papel e bem envelopada por uma capa para que, lendo, saibam e conheçam um pouco de mim.

Este é meu terceiro livro individual. Além de ter participado de algumas antologias, uma em São Paulo, “Veia Poética”, e outra em Porto Alegre, “Qorpo Insano” e mais a que lancei no último ano, em Goiânia, “Literatura Goyaz”, escrevi “Frágil Armação” e “Cadernos de Sizenando”.

O Edival, que é uma espécie de irmão mais velho na lide literária e um irmão de quem só recebo bons exemplos, pergunta-me e me provoca a pensar – então, depois de tantos anos “de agruras do comércio, como se sente o poeta com mais ou menos energia para escrever – como um dique represado ou um rio seco?” E recorro à história bíblica com uma resposta enviesada, que dei a ele (no Raízes Jornalismo Cultural) e repito a vocês hoje à noite:

“Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivesse merecida,

começa de servir outros sete anos,
dizendo: “Mais servira se não fora
para tão longo amor tão curta a vida”.

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Cenas do super-prestigiado evento na Ube/Seção Goiás, 18/10/2016.

A poesia vale a pena – como a Amada no soneto camoniano. Se hoje posso servir à Literatura, eu o faço com a mesma ardor e sincera devoção que o fiz para construir uma carreira de empresário baseada na confiabilidade e na dedicação ao que fazíamos – minha mulher e eu.

Na Nota do editor, eu conto um pouco do trabalho, que é uma busca em minha poesia por novos rumos. Eu nunca parei de escrever; só parei de publicar. E, recentemente, muito me prendi ao poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo. Ele tem me ensinado que temos que nos colocar em xeque. E, a todo tempo, eu tenho feito isso…

Praticamente por toda a obra, eu trabalhei com um material de memória. Eu rescrevi poemas antigos ou retrabalhei temas antigos e até alguns novos. A viagem é uma constante em minha vida. Apanhei esta ideia do livro como viagem, da poesia como uma viagem muito especial, e a segui. Por 30 anos, eu viajei como executivo, diretor de empresa; e, hoje, eu viajo como aventureiro, mas como um aventureiro que não sabe seu destino, que não sabe aonde ir. E, ainda assim e mais por isso, como aquele que traça seu destino. O livro foi trabalhado nesta dinâmica…

Quando com cerca de 40 poemas, eu submeti o rascunho do livro (a obra em progresso) a duas/três pessoas — a quem agradeço imensamente, Ercília Macedo-Eckel e Francisco Perna Filho – esses contribuíram muito, a ponto até de eu retirar alguns poemas, após a conversa (ou a leitura de mensagens eletrônicas) deles – como também devo agradecer a Luiz Aquino e Maria Lúcia Gigonzac, pelo incentivo a prosseguir crendo, imagino, que estava tomando o caminho apropriado, o norte do que hoje é “Destino Palavra”.

Eles me fizeram, dizia: compreender que eu estava no rumo certo e que tinham certas sujeirinhas que precisavam sair. E outra: um dos poemas virou uma folha enorme A3 – uma homenagem a Yêda Schmaltz, que nem está no livro, e que será entregue a algumas pessoas (os mais pontuais) que comparecem a este lançamento – é um poema experimental (Chuva feito enxame de abelhas).

O Francisco Perna Filho, mestre e doutorando em Literatura, me ajudou a enxergar um caminho: definitivamente, não sou um poeta católico, sou um católico poeta. Um homem que sente o peso das seis décadas, diante de um século que se ergue em insensatez: “um velho, conservador e católico que ama a poesia. Sou apenas um católico que escreve poesias e que faz disso um sacerdócio.”

Depois que me aposentei, em 2014, eu escrevo poemas diariamente. Muito mudou em minha vida desde então. Sob a direção espiritual de alguns santos entre nós pecadores, naquele ano, dei uma guinada em minha vida. Redescobri que a minha vida é escrever e isso foi a coisa mais centrada que decidi seguir. Deixei o mundo dos negócios – que nunca me deixará – pois dele trago como Augusto Frederico Schmidt a lembrança de que só me foi possível dar-me ao prazer da leitura e da escrita nesta quadra da vida por conta do dever cumprido em 30 anos de comércio.

Costuma dizer, repetindo Santo Tomás de Aquino, que “ah, as agruras do comércio” dilapidam energias, podem construir ou destruir fortunas e sonhos, mas nunca – jamais poderão destruir a nossa alma. Ei-la exposta através da Arte, da poesia….

Não sou poeta para me diferenciar de nenhum dos meus colegas comerciantes. Sou poeta porque devo cumprir a sina; porque tenho que atender ao chamado de todas as vozes que me procuram à noite, noite-e-dia, para dizer-me palavras; sou poeta porque carrego o “sê-lo” – espécie de manto que nos cobre os ombros – poetas – e que é (ou deve ser) de todo o usual do mais simples dos carpinteiros, fazê-lo mais dourado é enganar-se é ludibriar o que nos lê… Nem por isso, minha poesia não exigirá de quem lê que se proponha um olhar para o Alto, como aquele personagem de Herculano que em meio às agruras da guerra fratricida diz uma trova inesquecível:

“Sem padre [pai], madre ou irmãos
A quem me socorrerei?
A ti, meu Senhor Jesus
Senhor Jesus, me socorrei.”

Neste livro – bem o captou o jovem editor Yago Rodrigues Alvim – o elemento místico está sempre presente, mas o traço fundamental está mesmo na temática da viagem; o título mesmo remete a esta literatura (de viagem), onde o personagem empreita uma aventura e que, por fim, se vê transformado.

Yago R. Alvim – Existe uma sublimação. A palavra transforma o ser humano?

Sim! Disse eu ao jovem editor. A palavra pode transformar o ser humano. Não muda o mundo mas pode mudar o Ser. “Muito lindo o que você disse, eu mesmo assino embaixo”- respondi em entrevista numa tarde de chuvinha fina.  E Até me lembrei de um autor francês que, condenado à prisão domiciliar, escreveu “Viagem ao redor do meu quarto” – falo de Xavier de Maistre é um personagem que consegue viajar através da palavra.
A palavra muda sim, meus caros. A palavra mudou (e moldou) o menino órfão que enviado a um abrigo em Anápolis sempre amou os livros da saudosa biblioteca de Dona Modesta; da biblioteca do Colégio Couto Magalhães – tão bem cuidados por dona Faustina. Um deles marcou a minha juventude. Com ele, eu me resguardei de muitas violências contra mim. O autor é (era) Francisco Marins, “O bugre do chapéu de anta” é uma estória linda. Seu personagem viaja para o interior de Goiás e o que o destaca é o bugre do chapéu de anta.

Pois bem, isso, que hoje se chama “bullying”, na minha época era simplesmente agressão – e foi lendo para mim mesmo e em voz alta para os inúmeros irmãos e colegas que eu deixei de levar muita porrada – era de certa forma sempre salvo pelo livro – por esse e muitos outros livros. Muitos, no recreio, só queriam bater em magrinhos como fui. Por isso, afirmei ao Yago e afirmo a vocês que “a palavra nos protege” e, por consequência de meu desenvolvimento humano e espiritual “a palavra – o ato de ler e escrever é para mim um sacerdócio e salvação”.

Os temas do livro

Ocupo-me da dor – de Nosso Senhor à dor comezinha, que já nem olhamos; com o tema da única certeza humana: a morte, com o destino da humanidade; com a violência e as guerras; com a solidão humana. Essa nossa falência humana e social – um século que mal começou e se despedaça em guerras. Há vários poemas sobre a dor, há um outro que diz de navios, mas que não é bem sobre viagens, descobre-se ali a morte e ressurreição da alma. Eu tenho, também, uma busca mística. Tenho dois poetas santos, com os quais falo todos os dias. Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, patrono dos poetas e autor de “A Noite Escura” (entre outros), são dois grandes amigos. Eles me inspiram todo o tempo. Estão cada vez mais presentes e conscientes. E foi isto que quis, escrever um livro mais consciente.

Eu começo no passado, na minha infância e vou percorrendo um caminho, que vai até à segunda parte da obra; e elas, as partes, falam disso, de que a palavra é capaz de mudar aquele que escreve e aquele que lê — que lê de verdade, que se aprofunda. “Eu devorei tal livro”, diz da fome da palavra — olha só, isso é lindo! O chamado feito a São João no Apocalipse pelo Anjo – Toma e come o livro. Faço-o a você que me ouve hoje: tomai dileto amigo; tomai-o e comei. Dovarai, seu, meu, nosso Destino Palavra!

Obrigado!

 

Da série “mexicanas” (iii)

Mexicanas (3) – Crônica – Poema em prosa.

ERA UMA VEZ uma menina e seus pais e um viajante – um homem na casa dos seus sessent’anos e alma de menino, doravante “Caminhante”.
Entraram na mesma van que os levaria do aeroporto ao hotel com o Caminhante. Estar alhures e no México, ter viajado com os versos de António Machado ressoando na mente, reverbera ainda mais quando o cansaço nos ilude entre sono e paisagem, entre sonho e realidade.
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
O Caminhante viu muitas estradas e lateja em suas têmporas: “Caminhante, são teus rastos; o caminho, e nada mais”… E como em The Road, taxativo: “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar…”. Como andam pai e filho na estória que tomou todo o tempo de vôo – a companhia do apocalíptico McCarthy…

 

CormacMcCarthy_AEstrada2
(c)ilustr. site do filme The Road.

Voou sobre os mares, tomou um paquete em Algeciras e uma barquinha no rio São Francisco; o Caminhante andou voando; e sente-se alhures dois dias após deixar a savana em que vive. Heureux qui comme Ulysses a fait um beau voyage… Georges Brassens toca na vitrola instalada na cabeça do Caminhante (vitrola onde repassa canções antigas, quando quer dormir ou quando estar a despertar…).
O Caminhante está a caminho da velhice, lembra-se de tantas coisas que não quer e não se recorda do que quer, pelo menos não na rapidez com que quer – demorou uma era para lembrar-se do nome do músico francês que lhe povoou a partitura da juventude com a primeira língua estrangeira que aprendeu. Ele tem fé; certa mística o acompanha desde tenra idade; leu muito mas esqueceu quase todos os enredos. A trama de sua vida é complexa e mais se assemelha a uma daqueles cobertores que viu na Pensylvannia, anos atrás… Quilt! – Isso! Aquelas colchas de retalhos das mulheres Amish que tanto lembram o cobertor velho que lhe dera sua avó paraibana!

Só tem agora o Caminhante ouvidos para a menininha – também cansada; provavelmente exausta de ter que se parecer adulta; Alberto Da Costa e Silva está ao seu lado na van, estranhamente recordando que em breve a meninazinha estará no “curral dos adultos”. Por ora, sonha. Sonha com a praia e a nomeia – areia.
– Papai, chegamos à areia? Arena, areia, cimento da vida; la arena
Desperta, enquanto a van continua balançando-se no asfalto já úmido da chuvinha fina da temporada, ao cair da tarde, a caminho do destino – banho quente e cama estão nos planos do Caminhante, mas la arena o arranca de seu torpor.
– É já la arena, Papá?!

Criança na Praia (c)LucianaMisura
(c) Ilust./foto blog luciana.misura.org

A estrada (The Road) de que leu no avião é uma estrada solitária e apocalíptica. Cormac McCarthy conduzia-o pela estrada afora… Quase não dormiu entre uma turbulência e outra – está aqui, a centenas de milhas de casa – centenas de anos-luz de sua origem. Savana e mar se encontram quando repousa, mas a voz da menina o acalenta ao longo do sono profundo. Desperta ao amanhecer em outro cenário. Há o mar. Há o mar caminho de Augusto (o Schmidt), o mar “rude e profundo”… aquela obra de Zeus onde reina Poseidon; desde a Criação e seu trabalho no segundo dia; quiçá, antes quando a Sabedoria pairava sobre a superfície das águas. E viu o Caminhante que era bom – da cosmogonia à realização.

Como Ulisses, viajante de epopéias antigas, pensa o Caminhante que no saldo final a viagem foi boa e assim será para sempre. Espera que um cão (ou um gato) venha, ao retornar à casa, reconhecer-lhe a cicatriz em seu pé direito e achegar-se com ternura ao dono que volta à casa.
– Chegamos à arena, Papai?
Se o mar para os poetas é devaneio e perdição, é caminho e é destino; para a menina é construir castelos na areia. Para ela, o mar é tudo isso: la arena… Como a vida, ao fim de tudo.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

E ao retornar, saberá o Caminhante que “ao andar faz-se o caminho, e ao olhar-se para trás vê-se a senda que jamais se há-de voltar a pisar…”
Retornará. E ao ar marinho, há o viajante de preferir voltar mais experiente à casa ora distante, ao fim desta temporada, com uma garrafinha mental plena da areia; da areia em seus pés, na seca doçura de sua aldeia, no cerrado – sua casa erigida na savana, eis onde planeja viver o resto de seus dias, mais experiente e, nem por isso, menos sonhador. Caravelas em noites de leves sonhos. Eia, avante!… Ao mar dos sonhos como “embarcado em seco”; pois é o que terá aprendido a lição de Machado:
“Caminhante, não há caminho, somente sulcos no mar.”
Adiós, Caminhante. Au revoir.
****
(c) Ilustrações. Do blog de luciana.misura.org e filme “The Road”, baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy. Obrigado, poeta Luiz de Aquino, pela revisão do texto, só não aceitei (como de hábito) a ortografia do Novo “Acordo” Ortográfico.

Livros, a lista 2015

A Lista do Beto – uma lista como há mais de 30 anos. Livros lidos ou iniciados em 15 provam que os conservadores ganharam um lugar na estante de nossas editoras e livrarias.

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2015 – Fatos relevantes (1)

Balanço de 2015 – O que é relevante é o que vivemos no pequeno núcleo familiar. São os Afetos, os que jamais se encerram; as carícias que nos permitimos; as manhãs douradas pelo Sol em que tomamos silenciosos nosso café-da-manhã, à véspera de aventuras de mais um dia de vida. Relevante é a Gratidão.

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Pequeno diário de uma viagem ao Chile (síntese)

A SUPREMA ARTE seria viajar em torno do próprio quarto. Se a frase atribuída a Xavier De Maistre fosse verdade absoluta, as companhias aéreas estariam em maus lençóis e os guias de viagem inexistiriam como best-sellers. Desde o famoso Baedecker que a tantos ilustres viajantes instruiu, até o atual Guide Michelin, o fato é que as pessoas mais e mais se animam a enfrentar toda espécie de transtorno para estar alhures. Viajar tem a aura de transformar o viajante por dentro e por fora.

O fato é que há uns poucos que viajam como se frequentassem um curto curso de relações internacionais, outros, de artes; há alguns que o fazem com o fito de ganhar em sensibilidade, através do relacionamento com as pessoas de outras culturas que encontrará ao longo da viagem.

Nesse caso, o Chile poético – sem direta referência (quase óbvia aos vinhedos) pode ser uma opção das mais interessantes. Eu e minha mulher – já considerados idosos, mas cheios de energia e curiosidade por outras culturas – línguas, hábitos, música e literatura diversas da nossa – viajamos ao Chile por nove dias sem visitar um vinhedo sequer. Nem por isso, voltamos sedentos da cultura, ao contrário.

Há duas importantes decisões a tomar quando se prepara uma viagem assim. Primeiro, informar-se sobre o país que se quer visitar. Lembro-me que quando fui aos EUA pela vez primeira, cheguei a ler dois livros interessantes e que, mesmo distantes do atualíssimo guia de Kátia Zero ou as dicas elegantes de Glória Kalil, valem como verdadeiros “Guias”: livros de Joaquim Nabuco e Albert Camus.

As visões da Nova York que encontrei jamais passariam pela poética dos enredos criados por Nabuco ou, quem sabe, por Albert Camus (e suas viagens aos Estados Unidos!).

Pois bem, vou seguindo em vôo tranquilo com o Maurois que no relato viaja pelo Brasil. Encontramo-nos com meu poeta amado (membro da tríade dos poetas de quem pretendo falar no Chile – Augusto Frederico Schmidt ) – dou-lhe a palavra:

Domingo. Numerosas visitas de jornalistas. Admiro seu conhecimento das letras francesas, sua agilidade de espírito, seu gosto pelas idéias. Quase todos me fazem perguntas sobre Alain, como quem o leu bem. Um deles me diz que uma brasileira, Violette de Alcântara, fez uma conferência semana passada sobre Alain e Maurois. “Domine num sum dignus”, mas ser associado a meu mestre me agrada. Muitas perguntas sobre o existencialismo, sobre o Maritanismo, pois há aqui (dizem-me) “maritanistas e neomaritanistas” [Jacques Maritain que ainda grande influência exercia entre os católicos brasileiros, como em Alceu, Corção etc.]. Vou à praia, onde banhistas neste inverno tropical, tomam sol. Depois o poeta Frederico Schmidt me vem buscar para me levar à casa de Luísa Miguel Pereira, a biógrafa do escritor brasileiro Machado de Assis. No caminho, Schmidt me conta que Mauriac, que ele encontrou em Paris, lhe disse: “O senhor é o Barnabooth de Larbaud.”
“Diagnóstico bastante exato, pois este poeta da ansiedade amorosa e da obsessão da morte é também um homem de negócios que pilota com segurança, nestas ruas íngremes, seu grande carro americano.”

O motivo original de minha ida ao Chile foi, primariamente, atender a um convite para fazer uma palestra sobre a “Tríade de católicos-poetas do Brasil – instantâneo de poesia falada com poemas de Augusto Schmidt, Jorge de Lima e Murilo Mendes” , em evento internacional na Universidade de Santiado do Chile (USACH).

Não ficando restrito a esse compromisso, construímos – minha mulher e eu, uma agenda de flanêrie pela cidade de Santiago e uma curta visita a Valparaíso.
As impressões dessa viagem são de modo maior guiadas pela literatura, sobretudo sobre a poesia, a gastronomia e a convivência e observação de um casal sobre um país vizinho que inicialmente não fazia parte dos planos de ambos como destino turístico. Com Maurois, sigo voando:

– “…o avião se esgueira entre cumes nevados. Não sobrevoa os Andes, ele os escala; vai de garganta em garganta, de corredor em corredor.(…) Quando se aperta o botão do oxigênio, uma corrente gasosa, de sabor metálico, penetra na boca, um pouco fria, e vai acalmar o coração e os pulmões. É uma impressão agradável e estranha. Nenhum sentimento de temor; uma vaga beatitude.”

E como o bebê – a criança que dormita e recusa o oxigênio que lhe oferecia a mãe, no relato de Maurois, nem carecemos de oxigênio a enfrentar os solavancos que as térmicas da tarde finda deixaram de herança à noite – e tal como no caso de André, a leitura me traz certa beatitude “pois a travessia dos Andes dura pouco e logo pousamos em Santiago”. Eram 0h40 do dia 07 de outubro.

“El hombre imaginario” de Nicanor Parra esperava-me dentro do meu ansioso coração de viajante.

O personagem que viaja conosco, dizem, é fruto da imaginação como no poema do chileno. Só usando a imaginação os casais costumam voltar de uma viagem apaziguados de alguma rusga que nutriam antes da viagem. Mas o homem imaginário que olha para o país, a cidade, a vila visitada para dela extrair estórias que há de contar depois, com fatos ou com a pura imaginação sobre o destino visitado.|

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