Ratzinger e Holderlin

Introdução ao Cristianismonon coerceri maximo, contineri tamen a minimo, divinum est – não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino” (Holderlin, em Hipérion).


Este aforismo de Hölderlin no início de seu Hipérion, citado pelo então Cardeal Ratzinger, serve para nos lembrar a imagem cristã da verdadeira grandeza de Deus: “Não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino”.

Creio que essa citação nos ajuda a compreender que “o espírito ilimitado, que traz em si a totalidade do ser ultrapassa o ´máximo`de tal forma que este se torna insignificante para ele, e ele penetra até o ínfimo porque para ele nada é pequeno demais. Justamente o fato de ultrapassar o máximo e de penetrar no ínfimo constitui a verdadeira essência do espírito absoluto. Mas, ao mesmo tempo, revela-se nesse ponto uma inversão de valores do máximo e do mínimo, do maior e do menor, e esse é um traço característico da visão cristã da realidade. Para aquele que, como espírito, sustenta e abarca o universo, um espírito ou um coração humano que seja capaz de amar é maior do que todos os sistemas de vias lácteas. Os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande“.

O contexto da citação
Extraída do Cap.3 do livro citado (O Deus da fé e o Deus dos filósofos), esse trecho, conquanto belíssimo é mesmo um desafio. Pretendo ao situá-lo, agora, no contexto do livro, de modo a que meus seis leitores possam apreciá-la como eu a apreciei, inclusive na sua dificuldade de compreensão.

1. A opção da Igreja primitiva pela filosofia.
Onde Ratzinger trata de explicar como a Igreja primitiva resolveu o problema de esclarecer qual era o Deus da fé cristã. Pregando e vivendo a fé num “ambiente saturado de deuses”, os cristãos primitivos viam-se diante da pergunta: “a qual deus corresponde o Deus cristão, se a Júpiter, a Hermes, a Dioniso ou a um outro qualquer?”
E a resposta era sempre: “a nenhum dos deuses que vocês adoram, mas única e exclusivamente àquele Deus que vocês não adoram, ou seja àquele ser supremo do qual falam os filósofos…”

Essa foi a opção pelo “logos” contra o mito, assinala Ratzinger. Opção acertada para aquela época e para hoje, como se vê na conclusão de um longo exame que o Cardeal faz entre a oposição entre fé e razão:
– “ A fé cristã optou não pelos deuses das religiões e sim pelo Deus dos filósofos, isto é, decidiu-se contra o mito do habitual e exlusivamente a favor da verdade do ser mesmo”.

2. A transformação do Deus dos filósofos. O passo seguinte, descreve que, ao decidir-se por esse Deus dos filósofos, a fé cristã entendeu também que o ser humano pode e deve dirigir-se a ele em suas orações, assinala Ratzinger, ressaltando que esse passo significa dar a Deus a face humana, o Deus dos homens que não é apenas o pensamento do filósofo nem só “a matemática eterna do universo” mas também, e sobretudo, “ágape e poder do amor criativo”.

Essa experiência magistralmente exposta por São Paulo em Romanos 1, 18-31 não pode ser compreendida pelos gentios e a compreensão é uma experiência única e, às vezes, dolorosa. Eis o caso de Pascal que, acostumado e identificado com o pensamento matemático, passa uma noite pela experiência que lhe dá o entendimento de Deus e escreveu num bilhete uma frase que passou a carregar sempre costurado à sua roupa:
– “Fogo, o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó não o Deus dos filósofos e sábios”.

Pascal compreende que o “Deus que é a geometria eterna do universo só pode sê-lo por ser o amor criador”.
Outro magistral exemplo, Ratzinger o encontra em Lucas 15, 1-10, na parábola da ovelha extraviada e da moeda perdida. Nela, Jesus justifica e descreve a sua atuação e a sua missão como enviado de Deus e a relação entre Deus e o ser humano. O resultado é a compreensão de um Deus cristão “extremamente antropomorfo” – ressalta Ratzinger. O Deus que encontramos ali, como em numerosos textos do Antigo Testamento é um Deus que “tem as paixões de um ser humano, ele se alegra, procura, espera, vai ao encontro…Ele não é a geometria insensível do universo, não é a justiça neutra que paira acima das coisas, insensível ao coração e seus afetos. Esse Deus tem um coração, ele ama com toda a excentricidade típica de uma pessoa que ama.”

Mas o entendimento da realidade cristã pode fracassar se o leitor não apreender essa humanidade do Deus Cristão. De fato, “a grande maioria dos seres humanos de hoje crêem que deve existir algo parecido com um “ser supremo” só que acham absurdo que esse ser se preocupe com os seres humanos”. Esse temor a uma espécie de antropomorfismo de Deus, destaca Ratzinger, é ainda mais real e palpável hoje do que no início do cristianismo.
– Ah, quando que Deus vai se preocupar comigo, com meu mundo miserável, com meus pecados ou virtudes, com minhas escolhas, enfim com minha vida?! dizem muitos hoje em dia…

Eis, pois, onde se situa o poeta Hölderlin que, nos chama a fugir da estreiteza de raciocínio e nos convida a pensar num Deus como espírito ilimitado. O teólogo e o homem de fé nos convida a refletir que, ao pensar em Deus como o poeta resumiu em seu aforismo, devemos imaginar que “os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande”.

Nesse ponto justamente é que a mensagem do Evangelho e a imagem cristã de Deus corrigem a filosofia, ensina Ratzinger: “mostrando que o amor é mais sublime do que o mero pensamento. O pensamento absoluto é amar; ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor.”

Esse texto pra mim, parece mesmo a origem da primeira encíclica de Bento XVI”Deus é Amor”.

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(À suivre 3: “O reflexo dessa questão no texto do Símbolo apostólico – o Credo”).
Espero, sinceramente, ter dado a meus seis leitores mais elementos de compreensão da citação de Holderlin e criado interesse na leitura do excelente livro “Introdução ao Cristianismo”, de nosso Papa Bento XVI, que o escreveu como Cardeal J. Ratzinger.

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Fonte: “Introdução ao Cristianismo”, J. Ratzinger, Edições Loyola, 2005, p.109/10.

Raïssa e Jacques Maritain

Os amigos mais próximos sabem a importância de Jacques Maritain em minha caminhada espiritual.

No início de minha vivência na Igreja Católica, tive acesso ao primeiro livro da esposa de Jacques, Mme. Maritain, Raïssa, de quem o meu amigo Fábio Ulanin garimpou para mim o excelente “Grandes Amizades“, em edição da Agir de 1964.

Agora, encontrei este website com informações preciosas em francês sobre ce couple admirable.

Jacques e Raïssa Maritain desempenham o papel de um casal-farol da vida intelectualo e espiritual francesa, na primeira metade do séc. XX.

Neste artigo de 16/10/2003, os autores afirmam que tendo sido alunos de Bergson, afilhados de Léon Bloy, amigos de Ernest Psichari, de Jean Cocteau (em 2003 foi celebrado o quadragésimo aniversário de sua morte), de Charles Péguy e de numerosas outras figuras ilustres, Jacques e Raïssa superaram as aparências de sua época marcada por duas guerras mundiais, pelo positivismo que dominava o ambiente intelectual, para se consagrarem à busca da Verdade.

O testemunho de Jacques e Raïssa Maritain permanece profético até hoje. Para muitos cristãos que sonham com uma piedade dedicada ao trabalho da inteligência, J. e R. ensinam que “é necessário que o Amor proceda da verdade e que o conhecimento frutifique em Amor”. Aos apóstolos impacientes, tentados pelas estratégias de evangelização massiva, eles lembram que cada alma é única e, em seus mistérios, irredutível. Só a amizade espiritual pode reconciliar o chamado da caridade e o da verdade.

Este casal respondeu positivamente à vocação do sacramento do matrimônio de forma muito particular e se transformaram (sem que o brilho de um impusesse sombra sobre o outro) um convite à compartilhar as grandes amizades em seu caminho de santificação da vida.

Aos francófonos, boa leitura.*****************************************

Seule l’amitié spirituelle peut réconcilier l’appel de la charité et celui de la vérité. I`l faut que “L’Amour procède de la vérité et que la connaissance fructifie en Amour“.
(Somente a amizade espiritual pode reconciliar o chamado da caridade com o da verdade.
É preciso que o Amor proceda da verdade e que o conhecimento frutifique em Amor).
Saiba Mais

Link para imaginação

É tanto o que me passa pela cabeça, lendo aqui e ali em papel e na tela, tenho mil idéias nos domínios da imaginação – não aquela “doida da casa” que Santa Teresa d´Ávila nos ensina a evitar. A imaginação que o comunista Italo Calvino achou como a solução para a pergunta de Starobinski baseada no verso de Dante de que “a imaginação é um lugar dentro do qual chove“.

A pergunta original era:

Por qual dessas você optaria: a imaginação como instrumento de saber ou como identificação com a alma do mundo?

E uma pergunta decorrente do ensaio de Calvino tanto ou mais forte me retorna:

Que futuro estará reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar de a civilização da imagem?

Cedo à imaginação seu lugar privilegiado como motor da poesia e do exercício espiritual (como queria Santo Inácio de Loyola), mas descambo para a imaginação pecaminosa como criatório de vermes do universo (e pra vermes, deve-se procurar o bom remédio).

E nesse caso, ainda não achei outra possibilidade tão forte, nesse embate, como os Salmos e as preces.

Repetir uma oração é então a saída pois que a sua força está na repetição, ao longo prece, tenho a devolução da paz interior que garante a ligação palavra-visão do que crê (o que quer crê) com o lugar em que está Nosso Senhor e A Virgem Maria.
O liame da prece com o lugar imaginado é uma dádiva: o deslocamento do lugar em que se deseja estar meditando.
Pode ser um deslumbramento.
Aí não interessa ao que reza estar no mundo e tão somente, quer ir mais longe, sem desgrudar-se fisicamente do chão físico de onde se está, não quer perder a referência, não que perder o fio da sua essência, o que reza não quer enlouquecer.

O imaginativa che ne rube

talvolta sì di fuor, ch’om non s’accorge

perché dintorno suonin mille tube,

chi move te, se ‘l senso non ti porge?

Moveti lume che nel ciel s’informa,

per sé o per voler che giù lo scorge.

(Na tradução de Ivo Barroso:

“Ó imaginativa que por vezes

tão longe nos arrasta, e nem ouvimos

as mil trombetas que ao redor ressoam;

que te move, se o senso não te excita?

Move-te a luz que lá no céu se forma

por si ou esse poder que a nós te envia.”

(…)

E encerro esta croniqueta com Adélia Prado para que meus seis leitores continuem imaginando. Ela, que assim reagia, diante da imaginação poética, diante da voz interior – a sua tagarela implacável:

Se eu não ficar doida

É saúde demais…

E sem ceder à imaginação como ceder “àquela doida da casa”, vou varrendo minha morada interior com um Salmo e meu fraterno abraço,

BetoQ.

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