Julián Marías

“A felicidade é para as pessoas o que a perfeição é para os entes”.

Com esse pensamento-síntese, idéia “arrancada do grande rincão que é a obra de Leibniz“, poderíamos sintetizar o livro de Julian Marías*.
Marias

Sempre que termino a leitura de um livro dessa grandeza, penso em como a literatura, em seus diversos estilos e gêneros, pode ajudar-nos – sem cair na prateleira ostensiva do termo auto-ajuda! – a enxergar melhor, a ser melhores, convivendo com mais integração com o mundo à nossa volta; e com nossos semelhantes em nossa caminhada como cristãos.

Livros, filmes, discos, relatos, conferências podem abrir-nos rumos para a nossa busca da felicidade – dentro da “realidade projetiva” que somos, pois, afinal, como bem conclui Marías: “nossa vida consiste no esforço por alcançar parcelas, ilhas de felicidade, antecipações da felicidade plena”.

Dia desses recebi um dessas mensagens iluminadas de um dos meus brilhantes amigos, que ainda escrevem em blogs para exaltar o Bem, o Belo e o Verdadeiro (seus posts são comentados por muito poucos, pois, a maioria prefere o ruído vazio do sensualismo e da exaltação dos ‘valores’ da modernidade descrente de tudo). Pois bem, este amigo me dizia sobre seu ofício de comentarista:

O que desejo é não me transformar em um Hans Castorp.

A referência é sofisticada, fala do personagem de Thomas Mann (em “A Montanha Mágica”) e está naturalmente coberta de significado, trazendo o condão de afirmar o propósito de desenvolver uma certa pedagogia no seu blog. Hoje, mais do que nunca, é urgente que tenhamos propósitos didáticos indicando através das leituras, dos comentários de audições musicais, na apropriada escolha dos temas, enfim, rumos da verdade num mundo cada vez mais dominado pela mentira, pela empulhação e pela desfaçatez.

Eis o propósito que me move a escolher essas citações de Julián Marías. Espero que isso motive o leitor a procurar o livro do pensador espanhol, discípulo de Ortega Y Gasset.

O que se fala nesse livro – que não é de auto-ajuda ressalte-se mais uma vez – ajuda o leitor porque é a meditada e madura reflexão de um homem sábio. Os trinta capítulos que correspondem a 30 conferências em um curso no Instituto de Espanha, com o mesmo título, examina a fundo o significado de felicidade, do passado filosófico aos nossos dias, passando pela mística cristão, o utilitarismo, o reducionismo do ´welfare state` até a antropologia metafísica e à intimidade da vida de cada um.

No fim e ao cabo, torna-se, pois, um livro de auto arazoamento, de convite à reflexão, de convite ao exercício do pensar sobre a felicidade – e, pois, se pode dizer da vida humana, daí porque não é uma referência à felicidade dos cães ou dos animais de criação, mas da Criação por excelência na terra – fala-se da Felicidade Humana.

Num mundo que exalta a infelicidade, um livro assim pode ser um roteiro de pensar como retornar ao projeto original de se continuar procurando a felicidade – esse alvo móvel.

Muitas pessoas deixam a felicidade se perder sem que isso seja inevitável; às vezes, por desgraça o é; mas muitas vezes se a dá por perdida quando o que se perde é algo que, a seu lado, quase não tem importância. Por que isso acontece? Porque não se dá atenção ao que é a condição mesma da vida“.

A felicidade conclui Maríás em um dos mais importantes capítulos (XIX) do livro “é a vida mesma: quando alcança sua plenitude, é felicidade”.

O autor consegue demolir alguns equívocos do pensamento atual que identifica a felicidade com a acumulação de riquezas, a dissipação de si mesmo nos prazeres ou nas atividades sociais, o reducionismo de felicidade como ´bem-estar` e a limitação do horizonte da felicidade à vida terrena (sem a esperança cristã da vida eterna).

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Post originalmente publicado no Verbeat em 29/08/2006.
Fonte: “A Felicidade Humana”, Julián Marias, Ed. Duas Cidades, 1989.

Junguiana I

Carl G JungJUNG Memória, sonhos, reflexões

O que mais me atrai neste livro de Jung é seu profundo compromisso com a verdade. Seus sonhos e suas análises, seus relatos das passagens da infância me soam absolutamente verdadeiros. Ao redigir um texto sobre este amado livro, por provisório que seja, queria me sentir na pele do menino Carl entregando sua redação ao professor e certo de que havia sido absolutamente verdadeiro.

As reflexões que faço durante a leitura são persistentes. Torço para terminar o dia e me encontrar de novo com seus sonhos e reflexões. Vez por outra, no meio da estafante rotina comercial, flagro passagens dos sonhos dele a me espreitar desde o alto da divisória do escritório com uma inusitada e inconsciente idéia antiga, chamando-me para passear no campo, jogar pedras no lago, perder-me no cerrado da infância interiorana.

Hoje na cadeira da dentista (é, penso, ao final da sessão: eis-me de novo aqui, para depois, ouvir, vitorioso da minha dentista: viu, você sobreviveu!) pensei na situação que me leva a essa neura antiga. Meus nervos em frangalhos desde a véspera, deixam-me inabilitado para grandes tarefas. Sei que não resisto às sugestões de implantes, dolorosos desde a véspera, dolorosos desde o neles pensar como susceptíveis. Vejo as fotos desses místicos hindus, dedicados à sua vida espiritual e despreocupados com os dentes. Ei-los nas fotos da grande rede sorridentes, com os dentes em frangalhos, cacos de dentes sob uma montanha de espiritualidade.

Um episódio da infância em Anápolis, nos tardios 60, agora trazido pelas memórias jungianas leva-me à hora precisa em que comecei a ouvir o barulho característico dos motores das salas de dentistas (estes parecem não mudar nunca), enquanto levava meus irmãos menores ao consultório do doutor Edwards (doutor Vadinho, pra todos nós meninos do Abrigo).

Parece que não sou capaz de apagar aquela tarde da pacata Anápolis de minha adolescência, quando, ao sair do dentista, logo à frente do consultório esbarramos com um corpo de menino – quase da mesma idade daquele que eu tinha pela mão. Ele jazia no asfalto, o rosto coberto por uma folha de O Anápolis, o pavé ensangüentado, toda a gente em volta e ao lado em pânico com o atropelamento.

O sol da tarde absolutamente inerte nem apagar se apagou. Voltamos todo o percurso quase sem trocar palavra, o ônibus do Colégio – que nos levaria de volta ao Abrigo, era como se entrássemos num exemplar mais novo das velhas carroças puxadas por mulas fortes, que transportavam os caixões dos enterros que transitavam em frente à antiga casa de meu tio Adalberto, em Garanhuns.

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Post originalmente publicado no Verbeat, em 05.07.2006

Das coisas como entidades sentimentais (1)

Algum leitor remanescente, de minha temporada no Verbeat, deve se perguntar porquê dessa republicação.
– Ocorre que perdi o backup que me foi gentilmente cedido pelos Verbeaters e assim só me restam alguns post daquele período, que vou tentar recuperar pouco a pouco, em meu velho computador. Portanto, ao republicar esses artigos, faço um acerto de contas rilkeano que faz justiça à memória de meus velhor posts perdidos, que são como o caderno de poemas perdidos do passado, esquecido alhures, n´algum canto ou num banco de ônibus, ou n´alguma gare distante…

Esvazio meus bolsos após um dia de fadiga comercial e, lentamente, descalço os pés dos sapatos e conquisto meus chinelos, enquanto o boné me espia do armário (à espera de um fim-de-semana, tão carente quanto meu cão). Sobre a escrivaninha as moedas – essas mesmas que me acompanharam ao longo do dia, e me “escolheram” entre milhões de pessoas a quem poderiam ter acompanhado, entre mil bolsos pelos quais passarão, depois de mim; sobre a escrivaninha repousam a gravata e o cinto, a carteirinha, os papeizinhos de lembrete (sempre carreguei dezenas de papeizinhos e listas que inventariam meu dia com a memória das frutas), o talão de cheques, os documentos do carro, o telefone móvel (que já ninguém põe a tocar para me dar um afeto)
– “As coisas são tão intensas“.

Ainda hoje um senhor usava bengala comprava verduras na mesma banca que eu e senti saudades de um chapéu panamá que jamais usei. Saudades do que não fui.
A escova de dente que daqui a pouco usarei, estou certo mexerá com o nervo sensitivo de minha alma, mas me dará certa paz na higiene diária, só superada pela água quente descendo sobre meu corpo que envelhece (é preciso lembrar-se da advertência da esposa: “água quente demais estraga o cabelo, mas minhas juntas cansadas não reclamam de nada”). Hoje queria ter tomado o bonde número 5 e andando sem destino, chegado alhures, passado pelas coisas como elas passaram por mim.

Enquanto tento conciliar sono e repouso, as idéias esvoaçavam sobre a minha cabeça (“livros, esses insetos vegetais“, decreta o poeta-amigo, C.M.) e concluo que é impossível dormir…
Sobre a cômoda outra infinidade de coisas me espiam esperando calor e toque: o rosário, a pena antiga e estilizada, as flores de madeira e ao lado delas os lápis (árvores desencarnadas e, no entanto, cheias da vida do negro grafite), o papel da caderneta entreaberta (e essa minha letra irreconhecível amanhã), o sonífero em estado de deleição.

O copo d´água cristalina brilha, quando acendo o abajur que deita luz sobre o meu cansaço da jornada. Espero insone que o dia estenda seu lençol branquíssimo sobre minhas angústias. Por ora, apenas observo todas essas coisas como entidades sentimentais e a elas me apego como mamífero às tetas da mamãe noite.

Ratzinger e Holderlin

Introdução ao Cristianismonon coerceri maximo, contineri tamen a minimo, divinum est – não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino” (Holderlin, em Hipérion).


Este aforismo de Hölderlin no início de seu Hipérion, citado pelo então Cardeal Ratzinger, serve para nos lembrar a imagem cristã da verdadeira grandeza de Deus: “Não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino”.

Creio que essa citação nos ajuda a compreender que “o espírito ilimitado, que traz em si a totalidade do ser ultrapassa o ´máximo`de tal forma que este se torna insignificante para ele, e ele penetra até o ínfimo porque para ele nada é pequeno demais. Justamente o fato de ultrapassar o máximo e de penetrar no ínfimo constitui a verdadeira essência do espírito absoluto. Mas, ao mesmo tempo, revela-se nesse ponto uma inversão de valores do máximo e do mínimo, do maior e do menor, e esse é um traço característico da visão cristã da realidade. Para aquele que, como espírito, sustenta e abarca o universo, um espírito ou um coração humano que seja capaz de amar é maior do que todos os sistemas de vias lácteas. Os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande“.

O contexto da citação
Extraída do Cap.3 do livro citado (O Deus da fé e o Deus dos filósofos), esse trecho, conquanto belíssimo é mesmo um desafio. Pretendo ao situá-lo, agora, no contexto do livro, de modo a que meus seis leitores possam apreciá-la como eu a apreciei, inclusive na sua dificuldade de compreensão.

1. A opção da Igreja primitiva pela filosofia.
Onde Ratzinger trata de explicar como a Igreja primitiva resolveu o problema de esclarecer qual era o Deus da fé cristã. Pregando e vivendo a fé num “ambiente saturado de deuses”, os cristãos primitivos viam-se diante da pergunta: “a qual deus corresponde o Deus cristão, se a Júpiter, a Hermes, a Dioniso ou a um outro qualquer?”
E a resposta era sempre: “a nenhum dos deuses que vocês adoram, mas única e exclusivamente àquele Deus que vocês não adoram, ou seja àquele ser supremo do qual falam os filósofos…”

Essa foi a opção pelo “logos” contra o mito, assinala Ratzinger. Opção acertada para aquela época e para hoje, como se vê na conclusão de um longo exame que o Cardeal faz entre a oposição entre fé e razão:
– “ A fé cristã optou não pelos deuses das religiões e sim pelo Deus dos filósofos, isto é, decidiu-se contra o mito do habitual e exlusivamente a favor da verdade do ser mesmo”.

2. A transformação do Deus dos filósofos. O passo seguinte, descreve que, ao decidir-se por esse Deus dos filósofos, a fé cristã entendeu também que o ser humano pode e deve dirigir-se a ele em suas orações, assinala Ratzinger, ressaltando que esse passo significa dar a Deus a face humana, o Deus dos homens que não é apenas o pensamento do filósofo nem só “a matemática eterna do universo” mas também, e sobretudo, “ágape e poder do amor criativo”.

Essa experiência magistralmente exposta por São Paulo em Romanos 1, 18-31 não pode ser compreendida pelos gentios e a compreensão é uma experiência única e, às vezes, dolorosa. Eis o caso de Pascal que, acostumado e identificado com o pensamento matemático, passa uma noite pela experiência que lhe dá o entendimento de Deus e escreveu num bilhete uma frase que passou a carregar sempre costurado à sua roupa:
– “Fogo, o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó não o Deus dos filósofos e sábios”.

Pascal compreende que o “Deus que é a geometria eterna do universo só pode sê-lo por ser o amor criador”.
Outro magistral exemplo, Ratzinger o encontra em Lucas 15, 1-10, na parábola da ovelha extraviada e da moeda perdida. Nela, Jesus justifica e descreve a sua atuação e a sua missão como enviado de Deus e a relação entre Deus e o ser humano. O resultado é a compreensão de um Deus cristão “extremamente antropomorfo” – ressalta Ratzinger. O Deus que encontramos ali, como em numerosos textos do Antigo Testamento é um Deus que “tem as paixões de um ser humano, ele se alegra, procura, espera, vai ao encontro…Ele não é a geometria insensível do universo, não é a justiça neutra que paira acima das coisas, insensível ao coração e seus afetos. Esse Deus tem um coração, ele ama com toda a excentricidade típica de uma pessoa que ama.”

Mas o entendimento da realidade cristã pode fracassar se o leitor não apreender essa humanidade do Deus Cristão. De fato, “a grande maioria dos seres humanos de hoje crêem que deve existir algo parecido com um “ser supremo” só que acham absurdo que esse ser se preocupe com os seres humanos”. Esse temor a uma espécie de antropomorfismo de Deus, destaca Ratzinger, é ainda mais real e palpável hoje do que no início do cristianismo.
– Ah, quando que Deus vai se preocupar comigo, com meu mundo miserável, com meus pecados ou virtudes, com minhas escolhas, enfim com minha vida?! dizem muitos hoje em dia…

Eis, pois, onde se situa o poeta Hölderlin que, nos chama a fugir da estreiteza de raciocínio e nos convida a pensar num Deus como espírito ilimitado. O teólogo e o homem de fé nos convida a refletir que, ao pensar em Deus como o poeta resumiu em seu aforismo, devemos imaginar que “os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande”.

Nesse ponto justamente é que a mensagem do Evangelho e a imagem cristã de Deus corrigem a filosofia, ensina Ratzinger: “mostrando que o amor é mais sublime do que o mero pensamento. O pensamento absoluto é amar; ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor.”

Esse texto pra mim, parece mesmo a origem da primeira encíclica de Bento XVI”Deus é Amor”.

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(À suivre 3: “O reflexo dessa questão no texto do Símbolo apostólico – o Credo”).
Espero, sinceramente, ter dado a meus seis leitores mais elementos de compreensão da citação de Holderlin e criado interesse na leitura do excelente livro “Introdução ao Cristianismo”, de nosso Papa Bento XVI, que o escreveu como Cardeal J. Ratzinger.

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Fonte: “Introdução ao Cristianismo”, J. Ratzinger, Edições Loyola, 2005, p.109/10.

Raïssa e Jacques Maritain

Os amigos mais próximos sabem a importância de Jacques Maritain em minha caminhada espiritual.

No início de minha vivência na Igreja Católica, tive acesso ao primeiro livro da esposa de Jacques, Mme. Maritain, Raïssa, de quem o meu amigo Fábio Ulanin garimpou para mim o excelente “Grandes Amizades“, em edição da Agir de 1964.

Agora, encontrei este website com informações preciosas em francês sobre ce couple admirable.

Jacques e Raïssa Maritain desempenham o papel de um casal-farol da vida intelectualo e espiritual francesa, na primeira metade do séc. XX.

Neste artigo de 16/10/2003, os autores afirmam que tendo sido alunos de Bergson, afilhados de Léon Bloy, amigos de Ernest Psichari, de Jean Cocteau (em 2003 foi celebrado o quadragésimo aniversário de sua morte), de Charles Péguy e de numerosas outras figuras ilustres, Jacques e Raïssa superaram as aparências de sua época marcada por duas guerras mundiais, pelo positivismo que dominava o ambiente intelectual, para se consagrarem à busca da Verdade.

O testemunho de Jacques e Raïssa Maritain permanece profético até hoje. Para muitos cristãos que sonham com uma piedade dedicada ao trabalho da inteligência, J. e R. ensinam que “é necessário que o Amor proceda da verdade e que o conhecimento frutifique em Amor”. Aos apóstolos impacientes, tentados pelas estratégias de evangelização massiva, eles lembram que cada alma é única e, em seus mistérios, irredutível. Só a amizade espiritual pode reconciliar o chamado da caridade e o da verdade.

Este casal respondeu positivamente à vocação do sacramento do matrimônio de forma muito particular e se transformaram (sem que o brilho de um impusesse sombra sobre o outro) um convite à compartilhar as grandes amizades em seu caminho de santificação da vida.

Aos francófonos, boa leitura.*****************************************

Seule l’amitié spirituelle peut réconcilier l’appel de la charité et celui de la vérité. I`l faut que “L’Amour procède de la vérité et que la connaissance fructifie en Amour“.
(Somente a amizade espiritual pode reconciliar o chamado da caridade com o da verdade.
É preciso que o Amor proceda da verdade e que o conhecimento frutifique em Amor).
Saiba Mais

Link para imaginação

É tanto o que me passa pela cabeça, lendo aqui e ali em papel e na tela, tenho mil idéias nos domínios da imaginação – não aquela “doida da casa” que Santa Teresa d´Ávila nos ensina a evitar. A imaginação que o comunista Italo Calvino achou como a solução para a pergunta de Starobinski baseada no verso de Dante de que “a imaginação é um lugar dentro do qual chove“.

A pergunta original era:

Por qual dessas você optaria: a imaginação como instrumento de saber ou como identificação com a alma do mundo?

E uma pergunta decorrente do ensaio de Calvino tanto ou mais forte me retorna:

Que futuro estará reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar de a civilização da imagem?

Cedo à imaginação seu lugar privilegiado como motor da poesia e do exercício espiritual (como queria Santo Inácio de Loyola), mas descambo para a imaginação pecaminosa como criatório de vermes do universo (e pra vermes, deve-se procurar o bom remédio).

E nesse caso, ainda não achei outra possibilidade tão forte, nesse embate, como os Salmos e as preces.

Repetir uma oração é então a saída pois que a sua força está na repetição, ao longo prece, tenho a devolução da paz interior que garante a ligação palavra-visão do que crê (o que quer crê) com o lugar em que está Nosso Senhor e A Virgem Maria.
O liame da prece com o lugar imaginado é uma dádiva: o deslocamento do lugar em que se deseja estar meditando.
Pode ser um deslumbramento.
Aí não interessa ao que reza estar no mundo e tão somente, quer ir mais longe, sem desgrudar-se fisicamente do chão físico de onde se está, não quer perder a referência, não que perder o fio da sua essência, o que reza não quer enlouquecer.

O imaginativa che ne rube

talvolta sì di fuor, ch’om non s’accorge

perché dintorno suonin mille tube,

chi move te, se ‘l senso non ti porge?

Moveti lume che nel ciel s’informa,

per sé o per voler che giù lo scorge.

(Na tradução de Ivo Barroso:

“Ó imaginativa que por vezes

tão longe nos arrasta, e nem ouvimos

as mil trombetas que ao redor ressoam;

que te move, se o senso não te excita?

Move-te a luz que lá no céu se forma

por si ou esse poder que a nós te envia.”

(…)

E encerro esta croniqueta com Adélia Prado para que meus seis leitores continuem imaginando. Ela, que assim reagia, diante da imaginação poética, diante da voz interior – a sua tagarela implacável:

Se eu não ficar doida

É saúde demais…

E sem ceder à imaginação como ceder “àquela doida da casa”, vou varrendo minha morada interior com um Salmo e meu fraterno abraço,

BetoQ.

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