A gênese de um livro (IV)

A taça dourada*

O sol não brota; ele se mostra
com tudo o que a noite esconde.
Sol em minha janela e sua fronde
de pinheirinho molhado; amostra

de desejo e fonte de toda paz;
do que tenho merece graças dar
o que não tenho aragem sagaz
da chuva que cai a nos molhar.

A chuva que caiu ontem à noite
aqui deixou à mostra nosso lar:
se o pesadelo agride feito açoite,
vem a manhã a fronte nos dourar.

Dourado-esmeralda é o seu rosto,
sol, estrela maior, insofismável
do mestre a lembrar bem disposto
que a vida é sempre incontornável.

A taça onde do vinho nos servimos
um dia ao mar o rei de Tule a atira;
bebe-se com ardor por toda a vida,
perdido o amor, no mar ela suspira.

Assim o sol que à janela forte bate
irá se pôr à montanha docemente,
como a vida da chuva se ressente
na morte o ser eterno tem o embate.
./.

(*)Poema em draft do livro em preparo (2017).

A gênese de um livro (III)

Canções americanas (2)

Ah! azevinheiro em minha janela
mas meu coração não está mais lá;
estreita era a cama – nós dois nela,
mas meu amor está amarrado lá.

Mas meu amor está amarrado lá
onde a grama está sempre verde
o silêncio permite ao nightingale
cantar sem que o deserdem.

Cantar sem que o deserdem
o poeta deseja desde Homero;
sem Calipso o verso tecer-lhe
com saudades partir austero.

Com saudades, partiu austero
sobre o mar do Caribe e além –
só desejava um passarinho
do cerrado que o acordasse
de madrugada
de volta ao domo donde provém.

./.

Plantation, Fl, 15.02. GYN, 23.02.17

Dia dos Namorados na América

Valentine’s Day 2017

Mesmo com a advertência de Drummond na memória (“Não faças versos sobre acontecimentos“),
ousei um poema para minha musa, neste Valentine’s Day in USA.
Confira, caro(a) leitor(a).
cancoes-americanas-1
AQ./.
Plantation, Florida, US, 14th, Feb/2017.

Sobre Diogo Rosas G

Continuando a série de leituras sobre a novíssima literatura feita no Brasil, apresento artigo sobre o livro de DIOGO ROSAS G. divulgado em Opção Cultural, caderno dedicado à Cultura no Jornal Opção, Goiânia, ed. 2170, 13.02.2017. Para ler o artigo, clique na imagem abaixo.

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A gênese de um livro (II)

Os decapitados*
(c)Adalberto de Queiroz

Eles vêm ao acaso de todos os cantos do mundo – serão os algozes
Atenderam o chamado, às dezenas, depois às centenas; ao fim, milhares
Tantos assim que por último não havia onde as cabeças depositar-lhes.
Os homens que ali sacrifícios realizam, do deserto eram flores ferozes.

As nossas armas eram usadas, disparadas sem balas; as canções rasgadas.
Interessavam-lhes as cabeças cortadas por primeiro, como a morte requisitara:
Na bandeja de prata da blogosphera as ofertavam – uma a uma expostas: cortadas.

Eles se chamam Omar, Abu, Amihl, Hamel, e Ayman, Abu Du’a, Sirajuddin, Saeed – e se escondem sobre o mesmo capuz negro.

Caçam com ferocidade a Joseph, João, Mateus, Lucas, Marcos, Marc e a Jacques Hamel…

– O que fizeram ao João, o Batista, que no deserto de mel silvestre e gafanhotos
Se alimentava? a cabeça cortada ofertaram a Salomé – e hoje ela está vestida de
Senhora de grande poder – Herodíades sob jóias; sob um véu negro engastadas.

A bandeira negra, ao som de cavalos disparados – as kalashnikovas automáticas
mortais – post-modern cimitarras: a profecia de João, o Batista, como vergasta
– entre a Cruz e o Crescente opostos na areia de sangue genuflexos, afogados.

A ferocidade da caixa-grade de Pound – loucura de deus afásico;
um funâmbulo, sob a corda bamba do século mau e seu clamor
de sangue sem sal – o grão de mostarda escondido no alforje.

Afásico, acidentado, imobilizado na noite de Tomás – o Tranströmer
todos “Os carrascos vão buscar pedras, Deus escreve na areia.”

Sim. Só há mesmo um livro de areia e o deserto interior e feroz dos homens –
pedra de tropeço de outros homens – sem mel, nem sal, nem pomba salvadora.

++++
Fonte: Caderno de drafts de poemas, 2017. 07.02.17.