Meus posts mais lidos em 2016

Leitores amigos de Leveza & Esperança:

Olá! As veredas da leitura e da reflexão. É o que posso dizer sobre meu persistente trabalho aqui no blog. Um exercício pessoal que vai ganhando adeptos, sem nunca ceder à mesmice e ao mainstream editorial – estou mais interessado naqueles “talvez uns dois em mil” leitores de que nos fala o poema de  Wislawa SZYMBORSKA
(1923-2012).

Alguns gostam de poesia

Alguns –

ou seja nem todos.

Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Sim, dois em mil. Não milhões, tampouco half a million –  como parece imperar nos sites e portais atuais aqui você e eu (dois em mil) podemos nos deleitar com temas que não passam na web massiva; notadamente temas como Literatura e Fé, catolicismo, poesia e crítica literária. Essas reflexões sobre leituras ganharam este ano uma nova série de posts, intitulada “Queres ler o quê?” 

Eis-nos diante de mais um ano que chega, com aquela tendência natural ao ser humano racional e minimamente organizado: fazer um balanço do ano que se vai…

Nas estatísticas de 2016, eis os 5 posts mais lidos:

  1. Queres ler o quê (IV).

    BALZAC

    Se disser sim a Honoré de Balzac, terá o leitor uma miríade de informações a seu dispor – entre romances, originais e em tradução ao português, bem como uma das mais ricas fortunas críticas. Siga lendo…

  2. A Prece, Emily Dickinson.

    PRAYER is ……
    Pintura_Sassoferrato-The-Virgin-in-Prayer MilleChristi

    Prayer is the little implement…continue lendo!

  3. José J. Veiga – a ilha dos gatos pingados.

    Um conto excepcional, lido por mim… confira neste link.

  4. Especial Georges Bernanos

    DAQUI, você pode ir direto aos posts dedicados a Georges Bernanos, o mais brasileiro dos autores franceses. Confira no link.

    Capas Novos Livros Bernanos
  5. Livros – a lista 2015.

    Confira no link.

  6. Observação final.

    Espero que você, leitor especial do blog – dois deles especialíssimos (Eliana Pessoa e Nelson L. Castro) que sempre vêem, lêem e nem sempre comentam – tenha um bom 2017.

    Que a leitura seja sua, minha, nossa companheira, nosso alimento e nossa reserva de isolamento do mundo que se encontra em atoleiros cultural e moral inaceitáveis.
    Dois dos novíssimos escritores apreciados numa nova série de posts também tiveram enorme repercussão aqui e no Facebook. Autores do século XXI – uma fortuna crítica para os que (ainda) não são escritores famosos!
    6.1 – Karleno Bocarro – que apreciei neste post (ver link).
    karleno-bocarro_perfil
    6.2 – Rodrigo Duarte Garcia – neste aqui.
    O artigo completo está nos arquivos de Opção Cultural.
    os-invernos-da-ilha
    Em 2017, espero continuar trazendo até, você leitor, minhas avaliações de leituras, reflexões poéticas e culturais sobre o que vai publicando, aquilo que considero o melhor, sem influências outras que as dos irmãos de Fé e da tradição Católica. Espero continuar respondendo à pergunta:  “Queres ler o quê?
    Au revoir. Merci!
    Ω.Ω.Ω.Ω.Ω

Livros 2016

Uma pequena e valiosa lista no painel dos leitores do Opção Cultural.livros-do-ano-2016_opcao

São sete livros apenas, comentados em no máximo 10 linhas, revelando que nem sempre o lançamento do ano em curso é o que atrai o leitor seletivo. Se me incluo aí na lista, comentando um belo livro lançado em 2016, não o faço como auto-elogio, mas cumprindo a obrigação de agregador e incentivador da arte de ler.

Esperamos motivar mais leitores inteligentes a fazer parte da lista 2017… Infelizmente, lê-se pouco hoje; lê-se menos e de forma apressada; substitui-se a leitura pelas séries de TV, pela leitura de fofocas e noticiário via web. Perdem com esses novos hábitos a literatura e o leitor (potencial) que se deixa atrair pelos modismos.

Insisto em ler e em aperfeiçoar o hábito da leitura. Delego à tv aberta – próximo a 0,01% do meu tempo; séries e tv fechadas – só depois de muita escolha! Netflix, muito pouco; YouTube, educativo e óperas, algum riso…; samba, música erudita e francesa para acompanhar o dia-a-dia; não perco tempo com futilidades.

Há quase 3 anos aboli o futebol semanal na tv – reservo-me para as finais de campeonatos. É muito ainda. Conclusão: obtive um aumento significativo no índice de páginas lidas e na qualidade da absorção dos livros lidos.

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Fig. 1 – Lista de leituras 1976.

Aprendi com o professor Rodrigo Gurgel que a leitura atenta pode ser um passo em direção à boa interpretação e à própria escrita. A lição tirada de Antoine Albalat pode ser desdobrada para o melhor deleite daquele que lê.
Vem de São Gregório Magno a dica fundamental para o leitor atento:

A escritura cresce com quem a lê” – recorda-nos o professor Gurgel que acentua: “O leitor complementa a leitura” – embora seja uma visão católica, reproduz-se em Marcel Proust, por exemplo, para quem “todo leitor, quando lê, é leitor de si mesmo!”. Ou, em J.L. Borges, para quem “a literatura cresce com quem a lê.”

Ao longo da minha vida, sempre fechei o ano com a minha lista pessoal de livros lidos – para ter uma memória de tudo o que havia conseguido realizar no plano literário (o que desejara ler no início daquele período e, secretamente, para que me preparasse para escrever melhor!).

Há listas antigas e guardadas em meus cadernos que são inseparáveis, mesmo depois de tantas mudanças de casas e de situações existenciais…Essa que ilustra a página, feita num caderninho artesanal montado por minha mulher, é de 1976 (fig.1).

No extraordinário “Crítica, Literatura e Narratofobia” (2015), Rodrigo Gurgel abre o volume com o artigo “Em busca do livro primordial” – com que me identifiquei visceralmente. Confiram parte deste texto:

RECORDAR NOSSO PASSADO não pode ser um exercício de idealização. O diálogo com o  “eu”que nos observa e, ao mesmo tempo, envolto na neblina do tempo, nos dá as costas e caminha de volta à infância, precisa estar impregnado daquela tensão que ressurge sempre que nos debruçamos sobre o poço da verdade.
É o homem de carne e osso que busco quando olho sobre meus ombros na direção da juventude, da infância. Mas não se trata de revisitar um horizonte ensolarado. Trata-se, ao contrário, de repetir as caminhadas de Miguel de Unamuno pelo claustro do Monastério de Santo Estevão, em Salamanca, debruçar-se sobre o poço, no Pátio das Cisternas, e gritar: “Eu…eu…eu!”, para que o eco do passado, ao repetir o pronome, reafirme minha existência.
Um de meus sonhos recorrentes está impregnado desse “eu” sempre à minha espera, em algum ponto do emaranhado de reminiscências.
No sonho, estou na entrada do porão da casa de minha bisavó paterna. A cena começa exatamente ali, repetindo os gestos que cansei de fazer durante a infância:  retiro a chave pendurada no batente, num prego, coloco-a na fechadura, e, com um único giro, a porta se abre. Sinto, imediatamente, o cheiro adocicado de BHC, um odor úmido, e o ar pegajoso que vem do ambiente escuro.
O segundo movimento é localizar, na parede à esquerda, entre a estante e o batente, o interruptor. A seguir, entrar. A lâmpada, fraca, mal ilumina as porcelanas e os vidros nas prateleiras, além dos caixotes empilhados e recobertos de pó.No entanto, o que procuro não está ali, mas no cômodo ao lado, que permanece escuro.
Não sinto calor  ou frio, apenas uma expectativa controlável, pois estou certo de que ele se esconde no quarto vizinho, sob a escuridão.Então, penetro naquele lugar ainda mais úmido, e é difícil descobrir o interruptor, que não passa de uma delicada corrente presa à lâmpada, no centro do cômodo. A mão cega apalpa a escuridão. Por um segundo, a ansiedade transforma-se numa espécie de medo, talvez o receio de que minha busca — e o encontro certo — não se concretizem, somente pelo fato de eu não conseguir acender a luz. Mas encontro a correntinha e puxo-a — e imediatamente vejo os caixotes de livros no chão.
Sei o que venho buscar: o livro superior a todos os livros, um manual completo sobre a existência e, ao mesmo tempo, o guia para a difícil, emaranhada tarefa de viver. Tenho certeza de que está ali, aguardando-me. Não uma obra mágica, mas apenas o conjunto de páginas recoberto por duas capas envelhecidas, no qual se esconde a síntese da experiência humana.
Vasculho os caixotes lentamente, retirando os livros, um a um.
(…)
E então, do fundo de um caixote de madeira, sob a pilha de livros inúteis, retiro aquele que me revelará o segredo de viver. Nem pesado nem leve, segurá-lo guarda o mesmo prazer que sinto, ao encontrar em um sebo, a obra há vários anos desejada.
(…)
O sonho é impressionante por vários motivos, mas deixo aos psicanalistas a tarefa de compor, mais que a análise, suas ficções.
O que me interessa é reencontrar esse objeto que se tornou uma das poucas constâncias em minha vida. Há, claro, um conjunto de fatos, de circunstâncias que formam uma personalidade, mas, no meu caso, os livros têm papel primordial.
Às camadas do meu ser correspondem livros. Nasci e fui educado entre três bibliotecas: a de meu pai, composta, basicamente, de obras de filosofia e da área jurídica, mas onde descobri as sisudas capas negras do Tesouro da Juventude — com a velha ortografia, em que eu podia saborear a beleza excêntrica de palavras como ophthalmologia, columna e aucthor — e o Lello Universal; a de miha avó, pequeníssima, mas com livros indispensáveis, como As mil e uma noites e Madame Bovary; a a do Gabinete de Leitura Ruy Barbosa.
Cada uma me ofereceu o que tinha de melhor, mas a do Gabinete fez o principal, pois a bibliotecária da noite, dona Odete, deixava que eu transpusesse o balcão de madeira escura e, penetrando no acervo, percorresse as estantes livremente. Ali, então, descobri o mundo.
Mas o que forma um leitor é, antes de tudo, o exemplo de outros leitores…(…)
Se o tempo me fez mais seletivo, se a ânsia adolescente de ter todos os livros foi substituída por uma serenidade que diminuiu o número de compras mas não tornou possível ler tudo o que desejo, isso não muda o anseio das visões oníricas, de que, algum dia, aquele menino que penetra no porão me permita ler ao menos o título, talvez a primeira linha do livro que sintetiza a vida”*

E Gurgel segue registrando sua gratidão ao exemplo de leitores eminentes para a sua (dele) formação como leitor e crítico — seu pai, por primeiro; as professoras de Teoria Literária e de Língua Portuguesa; professores do colégio que o iniciaram no que, comparado à capacitação de hoje fê-lo pensar que cumpriu, antes de tudo, um mestrado. Nelson Foot, professor autodidata, é lembrado com carinho por Gurgel, quando já aposentado, o ensinava a entender um poema de Cecília Meireles e o traduzia para o romeno, depois para o latim, a seguir para o francês, finalmente para o inglês…“Gosto de imaginá-lo brincando com os textos como se fossem animais de estimação.” 

E assim, de maneira quase afetiva, Rodrigo Gurgel nos apresenta seu mundo de livros, para só então listar “Dez livros que mudaram minha vida” (p.37/40). A lista fica aqui, mas a recomendação aos meus seis leitores deste blog é que procurem conhecer os argumentos que fundamentam o livro por inteiro.

A lista de RODRIGO GURGEL – Dez livros que mudaram minha vida

  1. Os Sertões, de Euclides da Cunha.

  2. Livros do poeta inglês John Keats — notadamente “Endymion” e seu marcante verso “A thing of beauty is a joy for ever…” que o remete a seu estimado professor Flávio Vespasiano Di Giorgio.

  3. “Claro Enigma” (referência também de Di Giorgio) de Carlos Drummond de Andrade.

  4. “A Morte de Virgílio”, Hermann Broch, principalmente o magistral início: “a solidão do mar, ensolarada e todavia prenunciadora de morte…

  5. “Lorde Jim de Joseph Conrad e …

  6. “A fera na selva” — Henry James porque (Conrad e James) eles “mostraram-me que a grande batalha encontra-se no centro do nosso coração — essa é a única história sempre recontada” (Gurgel).

  7. “Raízes da criação literária” (Edmund Wilson).

  8. “A orgia perpétua” (Mario Vargas Llosa).

  9. “O imbecil coletivo” e tantos outros artigos de Olavo de Carvalho.

  10. Livros de Isaiah Berlin — através dos quais o autor diz ver-se “livre do coscorão esquerdista“.

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Post-post: O hábito das listas persegue a humanidade há muito tempo…* é o que prova Shaun Usher com suas 125 “listas extraordinárias” encontradas pelo pesquisador inglês nos muitos arquivos vasculhados por ele quando reunia material para o livro “Cartas extraordinárias“. Agora, Usher aproveitou este material criando “Listas Extraordinárias“. capa-livro-listas-extraordinarias

O “listismo“, no entanto, ganhou status de maioridade nestes tempos de autopromoção e de publicação aberta pelo uso intensivo da Web. Há listas diversas de filmes, músicas, hábitos saudáveis, alimentos para dietas, roupas etc. espalhadas pela internet. Algumas delas de utilidade próxima de zero…
Outras, se levadas a sério – como a lista de livros fundamentais elaborada por Vargas Llosa (dirigida a candidatos a escritor, mas submetida por muitos sites ao simples mortal!) pressupõe que o leitor médio brasileiro gastaria 21,5 anos para cumpri-la, lendo uma média de 115 páginas por ano – o que já é uma coisa extraordinária entre nós com os novos hábitos surgidos no país pós-Internet.

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FONTES:
i. link de O Globo consultado em 23/12/2016 às 9h00 – © 1996 – 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

ii. (*) GURGEL, Rodrigo. Crítica, literatura e narratofobia, Campinas, SP: Vide Editorial, 2015, p.25/30 (excertos).

iii. ALBALAT, Antoine. A arte de escrever em 2o lições.- Campinas, SP: Vide Editorial, trad. Cândido de Figueiredo. Apresentação de Rodrigo Gurgel.

Além das listas acima, recomendo aos leitores os livros que comentei ampla ou sinteticamente aqui no meu blog ao longo do ano, principalmente na minha coluna no Jornal Opção (ex. Karleno Bocarro e Rodrigo Duarte Garcia) ou nos tópicos “Queres ler o quê?“. Boa Leitura!

 

Do poeta Horácio, ode I,5. – com Wagner Schadeck et Reliqua.

Ode I, 5 de Horácio* – revisitada em 4 versões.

Quinto Horácio Flaco, Horácio, poeta lirico e satírico
Quinto Horácio Flaco, Horácio

Saiba porque WS supera-se, ao termo dessa viagem.*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixei em santa parede as úmidas

roupas ao deus.

Senhor dos mares.

I – A tradução (ou libérrima adaptação) de Haroldo de Campos.

Quem, Pirra
agora
se lava em rosas
(pluma e latex)

na rosicama do
teu duplex?
Quem,

onda a onda,
do teu cabelo
desfaz a trança

platino-blonda?
Pobre coitado
inocente inútil

vai lamentar-se
para toda a vida.

Um deus volúvel
mais do que a brisa
muda em mar negro

seu lago azul.
Pensava que eras
dócil-macia

toda ouro mel.
Não és. Varias

(Ah quem se fia
no fútil brilho
desse ouropel!)

Eu, por meu turno,
todo ex-aluno,
esta oferenda

ao deus Netuno
padripotente
no teu vestíbulo

deixo suspensa
(vide a legenda):
VMIDA AINDA
A TVNICA

 

(Tradução de Haroldo de Campos)

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Ode I, 5

II. Nelson Ascher

Que jovem grácil entre rosas
urge-te ungido de perfumes,
Pyrra, em teu antro?

 

Pra quem singelos ornas
louros cabelos?
Ele a fé

maldirá logo e instáveis deuses,
sofrendo, inábil,

mar bravo e negro vento,
pois áurea frui-te ingênuo como
se sempre livre, sempre amável
e ignora as auras

falazes. Pobres desses
que, intacta, ofuscas. Sacro muro
por painel votivo atesta

que alcei molhada
a veste ao deus do mar.

Tradução de Nelson Ascher

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ODE 1,5 duas versões do tradutor Wagner Schadeck.

III. Wagner Schadeck (versão 1)

 

Em muitas rosas, numa gruta amena,
Qual é o menino esbelto e perfumado
que ora te estreita, Pirra?

Para quem orna os teus cabelos loiros?
Quanto ele chorará por confiar
nos inconstantes deuses.

Inexperiente, há de assustar-se ao ver
O vendaval marítimo. Ao te fruir,
creditando teu louro,

Te espera sempre disponível, sempre
Adorável, embora desconheça
o quão falso é tal ouro.

Coitados dos ingênuos a quem brilhas.
Como tábua votiva, na parede
Sagrada, pendurei

Minhas úmidas roupas de naufrágio
Ao deus, senhor do mar.

© Wikipedia Deucalião.

 

 

Primeira versão, trad. Wagner Schadeck.01-08-2015

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Ode 1, 5

IV. Wagner Schadeck (versão 2 )

Em gruta amena, plena de rosa,
Que perfumado e gracioso moço,
Te estreita, Pirra?
A quem enfeita os

cabelos loiros? Quanto fiel
lamentará os instáveis deuses.
Inexperiente,
com a atra tormenta

 

Há de ter medo. E crendo em teu louro,
Te espera sempre disposta e amável
sem saber quanto
falso é tal ouro.

Pobre a quem brilhas. Como oferenda,
Deixei em santa parede as úmidas
Roupas ao deus.
Senhor dos mares.

./.

Segunda versão, trad. Wagner Schadeck.
 *Pirra, na mitologia grega, foi uma filha de Epimeteu e Pandora, e esposa de Deucalião. Ambos escaparam de um dilúvio após construírem um barco, aconselhados por Prometeu. Wikipédia

**Mais sobre Pirra e Deucalião.

Autores do séc. 21 (2) – Karleno Bocarro

Neste segundo dos quatro artigos em que me proponho a comentar jovens autores que não estão a serviço das utopias do século passado, comento a obra “As almas que se quebram no chão“, de Karleno Bocarro*.

“Por meio da obra de Karleno Bocarro, é possível compreender os males da crença no coletivismo e da muleta do escapismo”
“Na obra, o centro do mal não decorre da ação política do protagonista
ou das demais personagens, mas sim provém de dentro da alma destes.”

Confira no link abaixo (clique na figura para ler o artigo em Opção Cultural, ed.2162)

(*) Para adquirir o livro, clique no link da editora É Realizações.

Queres ler o quê? (VI)

A QUEDA – por Diogo Mainardi

As memórias de um pai em 424 passos.

O jornalista e romancista Diogo (Briso) Mainardi é um escritor, produtor, roteirista de cinema e colunista brasileiro – diz-nos a enciclopédia online. A partir de sua intensa atividade na revista Veja e, mais recentemente, no portal O Antagonista ficou conhecido por sua combatividade política contra Lula e Dilma, principalmente, mas não apenas…

Antes de A QUEDA, Diogo escreveu e publicou vários livros, tendo inclusive arrebatado o prêmio Jabuti (1990) por “Malthus” (1). A literatura tornou-se secundária para Mainardi; o jornalismo, não; embora o que faça em A QUEDA seja literatura de erudição.Capa A Queda+Mainardi.jpg

A história que se conta em passos numerados (1-424) começa pelo arrebatador:

“1 Tito tem uma paralisia cerebral. “

Para contar a história do filho Tito, Mainardi recorre ao vasto conhecimento acumulado em seus 54 anos de vida de leitor e jornalista. O diálogo com o leitor se estabelece na evocação dos fatos que marcaram o nascimento e o erro médico que levou à constatação “Tito tem uma paralisia cerebral”. O primogênito de Anna e Diogo centra-se, a partir de então, na vida e na história contada como o protagonista por excelência – o que conduz a teia do enredo familiar, que se ilustra com leituras, artes e idéias…

Idéias (sim, escrevo em desacordo ao Acordo ortográfico que nos impuseram!) –- dizia: idéias que são instigantes em Mainardi. Seguindo os passos do “filho deforme“, o pai narrador se nos mostra por inteiro, com a virtudes e o talento que o caracteriza como ser humano – o pai que aceitou “com naturalidade, com deslumbramento, com entusiasmo e, principalmente, com Amor” o filho Tito. Para Diogo,

“Desde o nascimento de Tio, em 30 de setembro de 2000, tornei-me um homem miniaturizado, sem rosto e sem identidade, como no quadro de Canaletto. O que me caracteriza é a paternidade. Sou apenas um homem que acompanha eternamente a própria mulher ao parto de seu filho.
“Sou o pai de Tito. Só existo porque Tito existe”.

Campo Santi Giovanni e Paolo.jpg

O amigo de Paulo Francis e Ivan Lessa – que diz ter desistido da escola de Economia de Londres para ler mais -, tem erudição suficiente para nos conduzir numa caminhada de tantos e tão emocionantes passos. Mas o que parece fácil como enredo de livro não deve ter sido (e não o foi, como constatará o leitor ao final da leitura, d’A QUEDA) como vivência do Amor diário, aquele do trabalho miúdo de que nos fala o poeta Alberto da Cunha Melo em seu poema

ERGONOMIA**
**Alberto da Cunha Melo

O grande trabalho é do amor
sem bronzes, sem assinaturas,
no ar do espaço, na hora do tempo,
pólen de Deus nas criaturas,

a palavra quase sem eco
a injetar humos no deserto,

Mãos de franciscos, de terezas,
que repartem, ocultamente,
suas migalhas sob as mesas,

ou energia sem fronteiras,
que acende todas as estrelas.

É preciso saber ler Diogo Mainardi. Os passos do filho e as dificuldades de comunicação são os desafios enfrentados e a “energia sem fronteiras” dos Mainardis, pois “a paralisica cerebral une” (passo 182, p.73) – como uniu Karel Bobath e Berta Busse (ortopedista e professora de ginástica, respectivamente). Karel e Berta fugiram da Alemanha de Adolf Hitler porque eram judeus. Em Londres, desenvolveram um programa fisioterápico para o tratamento da paralisia cerebra, conhecido como “Conceito Bobath”. Anna e Diogo se uniram em torno da paralisia cerebral de Tito e, com a chegada do segundo filho (Nico), os Mainardis dão ao mundo uma grande lição de ergonomia – a ergonomia do amor

que repartem, ocultamente,
suas migalhas sob as mesas

E não são qualquer migalhas literárias – de John Ruskin (arte) a Ezra Pound, de Proust a Giacomo Leopardi (literatura) e Dante Alighieri; dos quadrinhos ao cinema, de Lou Costello a James Stewart; de Josef Mengele a Simon Wiesenthal – podemos colher muito mais que “migalhas sob as mesas dos Mainardis”, pois estamos diante  da leitura erudita dos 424 passos, numa miríade de informações que tem um cimento – o Amor.

E se o autor diz não ter crença nenhuma, o leitor católico há de ser tomado (como Proust citado por DM) por “um sentimento de felicidade porque as caminhadas pelas lajotas desiguais de Veneza” ou das garagens do Rio de Janeiro – nos passos de um pai amoroso ao lado e segurando, protegendo, pacientemente um fiho deforme. Eis uma história que pode ser lida como uma metáfora da misericórdia que o Pai Eterno tem conosco, seus filhos deformes e com “defeitos no sistema extrapiramidal” desde A Queda de Adão e Eva.

Por isso e muito mais, recomendo os 424 passos como livro a ser lido, meditado e admirado, pois é livro que faz de um potencial inferno um paraíso – como no poeta fundador da língua italiana (Dante Alighieri):

“L’amor che move il sole e l’altre stelle

(Paradiso XXXIII,145)

Mainardi e Tito 2.jpeg

 

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Fontes: (1) Wikipedia – obras de Mainardi: Malthus (1989), pelo qual ganhou o Prêmio Jabuti em 1990.[10];

  • Arquipélago (1992);
  • Polígono das Secas (1995), onde questiona os mitos sertanejos e a literatura brasileira neles baseada.
  • Contra o Brasil (1998), que traz como protagonista Pimenta Bueno, um anti-herói que percorre o livro de ponta a ponta repetindo frases de figuras históricas reais que proferiram as mais diversas imprecações contra o Brasil.
  • A Tapas e Pontapés (2004);
  • Lula É minha Anta (2007).
  • **O poema “Ergonomia” foi tirado do livro de Alberto da Cunha Melo, “Dois caminhos e uma oração, São Paulo, Edit. A Girafa, 2003, p.156.
  • (2) A QUEDA, Diogo Mainardi. – 3a.ed. – Rio de Janeiro : Record, – 2012. 152 p.

Poema de Natal

Natal, 2016

Vendo piscantes luzes à vitrine exposta,
à véspera do Natal de Jesus; acende-se
em mim de pronto este mortal desgosto
do falso brilho emanado dessa luz.

Não há nesses presentes ouro, incenso e mirra.
Sábios de bom gosto; presentes de dois mil anos;
antes fossem hoje mimos a compor eterno hino.

Entanto, hoje, não há senão mercadoria
n’alma do infante extasiada e fria —
que marca p’ra sempre a criança inerte.

Há múltiplos bens  todos vazios:
comprando o que de Graça teríamos —
a vida e a alegria do Jesus Menino.

∴∴∴∴∴∴∴

*Draft de poema inédito em livro.