Poema de Natal, Jorge de Lima, 1950

De JORGE DE LIMA, “Poema de Natal”. Daqui até 25/12/16, pretendo reunir o melhor que reencontrar sobre este tema em nossa memória poética. Obrigado ao blog da “Peregrina Cultural” pelo belo post.

Peregrinacultural's Weblog

 Natividade, 1962

Antônio Gomide (SP 1895 — SP 1967)

óleo sobre tela

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Poema de Natal

 

                                                               Jorge de Lima

—–

ERA UM NATAL.  E um poema de alegria

escrito pela mão de quem se iludia

E nele havia as dádivas do dia,

e nele havia sinos acordados;

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e havia nele tudo o que se espera

com seus anseios sempre contrariados;

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só lhe faltava o que ninguém sabia

porque ficara n’alma que o fizera.

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                                  Publicado em Jornal de Letras, Rio de Janeiro, dezembro de 1950.

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Em: Jorge de Lima: poesias completas, volume IV, Brasília, Aguilar, 1974.

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Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.

Obras:

Poesia: 

XIV Alexandrinos (1914)

O Mundo do…

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Da série Queres Ler o quê? (v) – “Sangue Sábio”

SANGUE SÁBIO (WISE BLOOD)*

POR MUITO TEMPO ouvi falar de Flannery O’Connor nos meios católicos do Brasil, sem nunca ter encontrado um livro dela traduzido para o português. Li trechos de obras, algumas amostras em inglês, mas nada que me levasse (ou trouxesse) um romance ou um livro de contos às mãos.

Em Maceió, passeando pelos sebos – na verdade, uma corrida, pois era próximo da hora do fechamento e os livreiros têm medo de permanecerem abertos muito após 17h30, quando proliferam os  assaltos na região; pois bem, lá na capital das Alagoas encontro por uma pechincha este “Sangue Sábio” que arrematei (por ótimo preço) junto a outros dois livros que me interessavam (um A.J. Cronin e uma antiga edição portuguesa das Confissões, de Agostinho, em bom estado de conservação).

Bem, eis-me, finalmente, diante da Sra. O’Connor.

flannery-oconnor_perfil
A noção da liberdade não pode ser percebida facilmente. Trata-se de um mistério, o qual um romance, mesmo cômico, deve necessariamente explorar” (Flanney O’Connor).

Seguindo um conselho do professor Olavo de Carvalho, coloco o livro de lado, para voltar com um comentário mais denso depois. Nem por isso, não estou ainda vivendo com os personagens, rindo das suas peripécias, das trapaças e pensando muito nos personagens – sobretudo nesse menino Hazel Motes e em seus (também da autora, por certo!) conflitos existenciais, suas dúvidas atrozes entre o sentido da vida prática (o que o tradutor chama de “vida secular” e o “sentido religioso” da vida – que eu prefiro chamar de Destino.

Pois é justamente sobre o Destino que o professor Rodrigo Gurgel lembrou-nos em pequena nota sobre Flannery que:
“A Graça é o acontecimento perante o qual o homem entende o seu destino, o seu verdadeiro destino”

Originária do Sul dos EUA, como Thomas Wolfe e Faulkner para só citar dois sulistas, a sra. Flannery O’Connor é a menos prestigiada pelos nossos tradutores – enquanto os citados por O’Shea (incluindo Clemens, Porter, McCullers, Welty e Caldwell) têm vários livros traduzidos e até mais de uma versão no Brasil ou Portugal.”É deveras surpreendente que, até a publicação de “Sangue Sábio”, nenhum escrito de Flannery O’Connor houvesse sido publicado em português.Tal vazio é inexpicável…” – arremata J.R. O’Shea para justificar seu trabalho.

O vácuo preenchido representa parte da tese de doutoramento de J.R. O’Shea que é Ph.D. em literatura anglo-americana pela Universidade da Carolina do Norte (EUA). De 2002 p’ra cá, as editoras parecem ter redescoberto Flannery O’Connor que teve outros livros traduzidos no Brasil.

Fiquem por ora, com essa pequena nota, enquanto eu reuniria reflexões para confirmar minha tese: uma católica escritora que vale a pena ser lida – seu nome Flannery O’Connor.
Livros de O’Connor em Português na EstanteVirtual.

http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/352/literatura-e-cultura

O que ainda espero ler:

Sobre o primeiro, edição da Cosac Naify, tem posfácio de Cristovão Tezza e traz a seguinte ficha biográfica:Flannery O’Connor (1925-1964)  – É considerada uma das maiores escritoras norte-americanas do século XX. Nascida na Geórgia, Sul dos Estados Unidos, onde passou toda a sua breve existência – interrompida pelo lúpus aos 39 anos de idade -, sua obra consiste em dois romances e nestes 31 contos traduzidos por Leonardo Fróes, oitavo título da coleção Mulheres Modernistas, que a Cosac Naify lança agora em sua primeira edição integral no Brasil. Os contos de O’Connor, gênero em que adquiriu maestria, abordam, essencialmente, a religião (ela era católica numa região predominantemente protestante), o racismo (ela era branca e filha de proprietários de terra) e a violência, sempre numa atmosfera de extremo realismo. Como observa o escritor Cristovão Tezza, no posfácio escrito especialmente para a edição, “ela é curiosamente mais moderna que Faulkner (…) não é a dimensão divina que é seu objeto de literatura, mas o homem que pensa sobre ela”. O volume inclui fotos da autora, indicações de leitura e bibliografia.

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Fonte: O’CONNOR, Flannery. Sangue Sábio. Trad. José Roberto O’Shea. – S. Paulo : Arx, 2002. 227 páginas.

Queres ler o quê? (IV)

BALZAC

Se disser sim a Honoré de Balzac, terá o leitor uma miríade de informações a seu dispor – entre romances, originais e em tradução ao português, bem como uma das mais ricas fortunas críticas.balzac_o-lirio

-Ah, mas ninguém lê tanta coisa e  Balzac é muito antigo? contradiz meu interlocutor.

De fato, às vezes quanto mais velho o escritor, melhor, feito alguns vinhos. Há os jovens (chardonnays, p.ex.) que devem ser tomados logo; mas há os vinhos de guarda. Balzac é assim… os que o relemos, sabemos todos, desde o pai da matéria o mais brasileiros dos húngaros – o sr. Paulo Rónai que coordenou a maior coleção de escritos do francês para o nosso idioma. Reler Balzac parece ser ainda melhor…E a quem, francófono, pode lê-lo no idioma criado, duplamente será brindado.

TERMINADA a leitura de “O lírio do campo” (Honoré de Balzac), sinto-me no dever de dizer-lhe, amado leitor, leia Balzac. Há um plano de leitura, na verdade, há três ou mais planos de leitura da Comédia Humana. Eu fiz o meu: não ter nenhum plano. Nos últimos dias, por indicação de uma amiga virtual, reli o “Pai Goriot”; por sugestão de um respeitável acadêmico goyano (o sr. Alaor Barbosa), de quem tenho a honra de ser vizinho e com quem posso dialogar vez por outra, reli “Os camponeses” e, por sucessão de leituras, caiu-me (ou teria eu caído no vale da Touraine!) às mãos este “O Lírio do Vale”…

Sinto-me, ao final, como o Sr. Paulo Rónai – falava ele, em páginas anteriores, sobre a polêmica em torno d’O Lírio: “deixemos – diz Rónai: “cada leitor resolver por sua conta a paradoxal questão se “O lírio…” é uma obra-prima imortal ou um livro de segunda ordem, falso e pretensioso.

“Quando separado por alguns anos da última leitura, eu mesmo inclino-me sempre para julgá-lo um livro fraco; mas cada vez que o retomo, o romance arrebata-me e me subjuga. Durante a própria leitura, irrito-me com algum trecho piegas, Félix devorando as lágrimas da amada ideal, exaltando-lhe as perfeições universais, conversando num estilo untuoso que não é dele com o Padre De Dominis, ou comparando seus sofrimentos de amante insatisfeito com a Paixão; mas minhas resistências desaparecem ante o esplendor dos quadros da natureza, tão bem harmonizados com os estados de alma do protagonista; a descrição da vindima (p.313/4); a arte de Balzac em engrandecer o assunto, ínfimo em si, emprestando-lhe proporções de tragédia grega; suas observações magníficas sobre a força dos sentimentos reprimidos na mocidade, o sensualismo oculto no amor platônico ou mil fenômenos pequenos e simbólicos da paixão amorosa. Os grandes temas do escritor: o conflito da alma e da carne; a justiça de Deus e os possíveis erros da providência; os assassínios íntimos que a sociedade deixa impunes, ressoam aqui mais uma vez numa sinfonia polifônica. Romance complexo, perturbador, contraditório, que nos deixa ao mesmo tempo insatisfeitos e admirados; autêntico romance de Balzac”
(Paulo Ronai, p.231).
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Já disse aqui (ou alhures) que Balzac levava extremament a sério seu ofício de escritor – ao qual se dedicou por mais de 30 anos em busca de fama, de fortuna e prazer – tendo auferido no máximo, o mínimo: ser feliz e conhecido por um tempo, mas vivendo atolado em dívidas. Tão a sério o fazia, como se fosse um sacerdócio, este ofício, que Balzac de um tempo em diante de sua jornada, vestia-se como um monge (vide quadro ilustrativo).

Seguindo o conselho precioso de Antoine Albalat, tenho tomado notas de tudo que leio. Afinal, provou-me o mestre que “para apreciar melhor a leitura” há que se tomar notas. “O proveito da leitura” – decreta Albalat, “depende de como se lê. Ler e tomar notas, não confiar na memória. “Não haveria sábios, se nos fiássemos nela. A verdadeira memória consiste, não no recordar, mas em ter ao alcance da mão, os meios de encontrar. A primeira condição para se ler bem é, portanto, fixar o que se quer reter, e tomar notas. Um livros que se deixa sem ter extraído dele alguma coisa, é um livro que não se leu…”

Bem,  “O Lírio” foi dedicado ao amigo e médico de Balzac – o dr. J.B. Nacquart (membro da Academia Real de Medicina) nesses termos:  “Caro Doutor, eis uma das pedras mais trabalhadas da segunda fiada de um edifício literário lenta e laboriosamente cconstruído; nele desejo inscrever o vosso nome, tanto para agradecer ao sábio que outrora me salvou, quanto para celebrar o amigo de todos os dias” (H.de Balzac).

A consciência do escritor está na dedicatória – ele estava “lenta e laboriosamente” construindo sob a égide de um plano. O planejamento do edifício da Comédia Humana – como se sabe – foi imaginado por uma mente privilegiada e não ficou completo por razões conhecidas – o desaparecimento do Autor com a idade de 51 anos (o romance “Os camponeses” teria sido completado por amigos da sua amante, a condessa Hanska!).

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Ora, a morte, dizia o próprio Balzac na citação mais conhecida: “…é tão inesperada no seu capricho como uma cortesã no seu desdém; mas a morte é mais verdadeira – ela nunca renuncia a nenhum homem.”

Ei-lo, pois, no seu leito de morte (1850), o homem detentor de uma das maiores capacidades imaginativas e de escrita que se conheceu na língua de Molière. Trabalhava 18 horas, segundo os próximos, porque tinha a mente fervilhando de idéias, de um “profundo interesse por tudo” (da botânica à medicina, passando pelos hábitos, costumes e pela Moral vigente à sua época!) tudo, coisas e personagens de certa forma o atormentavam nos inúmeros entrecruzamentos de relações e nas misérias e grandezas do que eram capazes de encetar.

N’O Lírio…(em francês “Le lys dans la Vallée”, 1835) há toda uma História na história. Parte dos “Estudos de Costumes/Cenas da Vida Rural”, o livro é amado e odiado. O modelo da mulher virtuosa que Balzac anunciara no prefácio da 1a. edição de “O pai Goriot” é mesmo de uma virtude acima da média em França e de tal forma angelical que alguns críticos a refutam como inverossímel, personagem inexistente (ou improvável) na França de então…

Para Honoré, em carta à condessa Hanska, “O Lírio do Vale será sob forma humana a perfeição terrestre, como Serafita será a perfeição celeste“. E mais tarde, em outra carta à mesma Hanska: “Mas o Lírio! Se o Lírio não for um breviário feminino, não sou nada. Nele a virtude é sublime, sem ser aborrecida”. O sr. Paulo Rónai – que coordenou a edição dos 17 volumes da editora do Globo, nos anos ’50, brinda-nos com uma apresentação ao romance em que mostra a polêmica havida em torno da aceitação do romance pela crítica da época; tudo iniciado pela inimizade havida entre Balzac e o “príncipe da crítica” Sainte-Beuve (que também se permitia escrever poemas e romances).

A Sra. De Berny que serviu de modelo para a Condessa de Mortsauf (Henriette ou “Branca”) escreveu em sua última carta ao autor o melhor dos elogios que um romance pode ter (o da leitora!): “Posso morrer; estou certo de você ter na fronte a coroa que nela eu desejava ver. “O Lírio” é uma obra sublime sem mancha nem falha“.condessa-de-berny

Nem todos os leitores, no entanto, pensam o mesmo: “O Lírio… é um dos grandes romances menosprezados da literatura romântica, seria o adeus de Balzac à mulher que foi “toda a minha família”- uma vida que é também uma de minhas obras” – afirma Graham Robb, biógrafo inglês de Balzac (ROBB, 1995, p.251).

Alguns críticos notáveis hostis ao “Lírio” são listados por Paulo Rónai e foram de certa forma apagados pelo tempo, enquanto o romance continua florindo a mente de leitores pelo mundo afora…Um dito Sr. De Faguet chama o livro, sem rodeios de “talvez o pior romance que conheço, por seus “discursos de pedantismo” (fala da condessa de Mortsauf), mas foi este “excesso das críticas”, aind segundo Rónai, que atraiu os leitores que foram confirmar e assim o romance angariou fama entre “entre leitores dos mais qualificados”.

Só me resta, dileto leitor, repetir com Lobato em carta Godofredo Rangel:
<<“Meu entusiasmo é tanto que só tenho um conselho a dar-te: lê “O lírio do vale” e depois varre da tua cabeça o alfabeto, para que nunca mais nenhum livro venha profanar essa leitura suprema e última. Lê “O Lírio…”, Rangel, e morre. Lê “O Lírio…” e suicida-te, Rangel. Se o não tens aí, posso mandar-te o meu – e junto o revólver”>>
(Monteiro Lobato, cit. por Rónai na apresentação do romance na edição da Edit. do Globo, 1959, p. 230).
***

A quem interessar possa, minha cena predileta – a do buquê de Félix para a Condessa de Mortsauf está descrita a uma dezena de postagens abaixo no meu facebook e também aqui. [a confreira Maria Lúcia Gigonzac já nos alertava sobre a boa escolha dos nomes nas obras de Honoré de Balzac, principalmente este para “Branca”, Henriette, Condessa de Mortsauf.]
Avaliação de leitura: 4,5* – Vale ler, mas ler com a desmedida atenção que Balzac exige e merece.
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Fontes: todas as citações d’O Lírio… neste post são da edição de 1959 da Editora do Globo, coord. Paulo Rónai, trad. deste romance por Gomes da Silveira. Sobre a biografia de Balzac, ver ROBB, Graham. Balzac: uma biografia, S. Paulo, Cia das Letras, 1995, p.251/3.

Celebrando 40 Anos da poesia de Nei Duclós – ‘Outubro’ edição especial…

NEI DUCLÓS, segundo a Wikipedia– é um jornalista, poeta e escritor brasileiro. Tem 17 livros lançados de crônicas, contos, poesias, romance e ensaios. Além de inúmeros textos publicados na imprensa brasileira, sites e blogs e redes sociais.

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Para nós, seus leitores, Nei é um mago da palavra que nos permite celebrar seus 40 anos de Poesia, da publicação de seu primeiro livro – com poemas escritos entre os seus 20 a 28 anos – com plena vitalidade e uma atividade intensa nas mídias sociais. Seu site, com o sugestivo nome de Consciência.org é pleno de bons textos sobre diversos temas.

São os temas que inspiram e fazem transpirar o poeta, que é também historiador, cronista e crítico de cinema.

Tenho comigo o livro “Outubro” há vários outonos, desde 1977, e com ele mantenho um bom relacionamento como leitor que admira, relendo com entusiasmo a poesia de Nei. À cada véspera do mês, repetia o estribilho:

“Lento e bruto
Eu mudo
Sei que vem
Outubro”

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Hoje, publico um artigo – que é mais uma “Louvação”, à maneira dos meus antepassados nordestinos, sobretudo Hermilo Borba Filho, porque ficar calado quando se tem a honra e a chance de celebrar 40 Anos de Outubro com o poeta em plena atividade é um crime de lesa poesia. Eis o artigo em Opção Cultural (Goiânia) – clique na imagem para continuar lendo.

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(c)foto: Naná Monteiro.
Eu e as duas edições, separadas por 40 Outubros. Na edição comemorativa, uma bela dedicatória: “A Poesia nos une…” Sim, poeta!
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Destino palavra – análise crítica (1)

Hoje foi um dia especial. Colhi duas opiniões críticas da maior relevância sobre o meu trabalho. i. Minha querida professora Ercília Macedo-Eckel (neste artigo); ii. Wagner Schadeck, editor-poeta, nesta análise que é um “Encontro das águas” entre a minha poesia e a do baiano Wladimir Saldanha. Confiram, enquanto digo muito Obrigado a Ercília e Wagner. AQ.

Literatura Goyaz

O VIAJANTE ADALBERTO DE QUEIROZ:
“DESTINO PALAVRA”

                                                                                                                   Por Ercília Macedo-Eckel*

Esse menestrel é um “caminhante” atrás do conhecimento, do Verbo, do eixo do universo, como Dante Alighieri (Virgílio e Beatriz), na Divina Comédia, ou como Miguel de Cervantes, na citação de Dom Quixote, em que se misturam o real e o imaginário. Predominantemente, porém, o poeta em Adalberto busca o concreto (material) e o abstrato (espiritual), a verdade. E, algumas vezes, o sonho: nu desde sempre e já no Paraíso – com os olhos da alma nos vemos e, quanto mais nus, mais…

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Nei Duclós (1)

Celebrando os 40 Anos de “Outubro”, poemas de Nei Duclós.

Literatura Goyaz

Este poema é uma amostra do livro “Outubro”, de Nei Duclós.
O livro completa 40 anos com uma edição bem cuidada em que estão os poemas originais, escritos todos entre os 20 e 28 anos do poeta.
Gaúcho, nascido em Uruguaiana em 1948, Nei Duclós tem longa carreira como jornalista. O verbete sobre ele em Wikipedia destaca os 17 livros entre digitais e celulose (livros tradicional), além de diversos artigos.
É também crítico de cinema, tendo composto importantes artigos recentes para o Jornal Opção (Goiânia).

nei-duclos_2016 Nei Duclós, poeta e jornalista, celebra os 40 anos de seu primeiro livro “Outubro”, 2016.

Além de ter seus poemas musicados por Muts Weyrauch e Zé Gomes, Nei Duclós – que é colaborador do Opção, teve carreira jornalística de sucesso e lançou 17 títulos, incluindo o formato digital e tradicional (celulose). É um poeta que vale a pena ser lido, sendo “Outubro” um livro em…

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Quero ler… o quê? (III)

O gigante Thomas Wolfe.thomas-wolfe_societysite

Literalmente gigante. O homem, sabe-se, tinha quase dois metros de altura. Não pode ser confundido com o jornalista “Tom Wolf”, de grafia similar, porque Thomas W. é escritor que tem várias polegadas acima na qualidade do texto e tem uma imaginação criadora única, que se nos mostra nos livros deixados. Mesmo tendo morrido jovem com 38 anos, Wolfe legou-nos obras importantes, merecendo ser lido por quem ama a prosa de ficção e as boas narrativas curtas (contos).

Wolfe, agora retratado em filme, como nos conta o editor do Jornal Opção Euler Fagundes de França Belém, ele próprio editor e dono de texto digno de ser eternizado em livros – pois bem, como nos conta Euler, o filme “Mestre de gênios” trata da relação de Wolfe com seu editor Max Perkins:

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Wolfe e Perkins em foto do artigo de Euler De França Belém, Opção, ed.06/11/16

“O “Mestre dos Gê­nios”, de Michael Grandage, é um desses excelentes filmes que passam quase despercebidos — tanto que, em Goiânia, foi exibido apenas no Cine Lumière, no shopping Bou­gainville. A atuação dos atores Jude Law, como o escritor Thomas Wolfe, e Colin Firth, como o editor Max Perkins, é impecável. Não deixa de ser curioso que ingleses tenham representado homens lendários da cultura dos Estados Unidos. Nicole Kidman aparece de maneira discreta como Aline Bernstein, a amante de Thomas Wolfe. Aqui e ali, há licenças poéticas, com condensações necessárias tanto para chamar a atenção do espectador quanto para tornar a história adequada ao cinema.
“Mesmo sendo uma síntese da história complicada mas produtiva entre Thomas Wolfe (1900-1938) e Max Perkins (1884-1947), o filme, inclusive o título, é, no geral, preciso. Se o leitor quer, porém, uma história mais bem contada, com nuances, deve consultar a biografia “Max Perkins — Um Editor de Gênios” (Intrínseca, 541 páginas, tradução de Regina Lyra), de A. Scott Berg, autor premiado com o Pulitzer.” – (Euler Belém, Opção, ed. 06/11/2016 – coluna Imprensa)

Mas, antes de apontar a você, leitor, o link para o belo artigo do Euler Belém, permita-me contar duas ou três cositas sobre o autor em apreço. O responsável pelo meu apreço à obra de Wolfe é o professor e crítico Rodrigo Gurgel. Em uma das aulas virtuais que assisti em março passado, o professor ensinava-nos sobre a figura do “Autor” na literatura. A par de anotar os pré-requisitos do grande autor, Gurgel sugeriu a leitura de “O trem e a cidade”.

Traçado quase como uma fígura mítica, entanto, humaníssima – o Autor imaginado por Gurgel tem que “lançar-se!” com tenacidade, resistência, dedicação, conhecimento e inteligência. Este misto de guerreiro e santo é uma amostra de alguém que exerce um ofício quase sagrado e de quem se exige “o empenho de toda a personalidade”.

É isso que lemos nos livros de Wolfe e de outros autores conscientes dessa espécie de atributos e ouvem sua vocação: Balzac, Vargas Llosa, Flannery O’Connor, Milan Kundera, Georges Bernanos, C.S. Lewis, Flannery O’Connor e o próprio Wolfe…entre muitos outros (não inclui brasileiros, o que farei em outro post da série “Quero ler…O quê?”.

Talvez por ser essa espécie híbrida de guerreiro e místico é que Balzac

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Balzac no seu traje de monge – literatura como   “o empenho de toda a sua personalidade” (R.G.)

gostasse de se deixar mostrar ao daguerreótipo (a máquina fotográfica primitiva ou aos pintores) com seu traje de monge.

O exemplo de Wolfe é o do encontro da própria “sintaxe” – a ordem das idéias e dos conceitos – transformada em arte sua visão particular do mundo, do que o “O trem e a cidade” foi-nos dado como exemplo de bem realizado…

Curiosa coincidência me levou a só conseguir ler o livrinho do Wolfe dentro de um trem. Era dos poucos livros que levava na bagagem e o li com grande interesse em uma viagem num trem rápido, de Helsinque a São Petersburgo.  Desde a citação do autor pelo professor Gurgel, achei uma série de outros livros do autor na Amazon. Confiram no link.

Portanto, esse enorme post só quer dar resposta à pergunta do título – e série de artigos sobre leitura compartilhada: Quero ler…O quê?
– Respondo que merecem ser lidos o artigo de Euler  e a ficção de Thomas Wolfe, que com este post, espero, você leitor tenha grande motivação para conhecer.

Eis um daqueles autores a quem se aplica com propriedade a frase de Flannery O’Connor: para este escritor a forma de ficção será sempre uma forma de superar seus próprios limites, indo além e adiantes em busca das fronteiras do mistério“. Viajo com Wolfe e me delicio com sua prosa de alto nível.

“As pessoas estavam falando a língua universal da partida, que não varia no mundo inteiro – a língua muitas vezes banal, trivial e até inútil, mas por isso mesmo curiosamente tocante, já que serve para esconder uma emoção mais profunda no coração dos homens, para preencher o vazio que há em seus corações ante o pensamento da partida, para servir de escuro, uma máscara que esconda seus sentimentos verdadeiros.
“E por isso havia para o jovem, o estranho e o forasteiro que via e ouvias essas coisas, um caráter emocionante e comovente na cerimônia da partida do trem. Enquanto ele via e ouvia essas atitudes e palavras que, transposta a barreira de uma língua estranha, eram idênticas àquelas que ele vira e conhecera toda a sua vida, entres os seus – ele de repente sentiu, como nunca tinha sentido antes, a terrível solidão da familiaridade, a percepção da identidade humana que tão estranhamente une todas as pessoas do mundo, e que está arraigada na estrutura da vida dos homens, muito além da língua que eles falam, da raça da qual são membros.” (Wolfe, em “O trem e a cidade”, trad. Marilene Felinto).
O Thomas Wolfe é um craque da narrativa curta. Estou lendo agora “Of time and the river” em inglês, porque não o sabia traduzido no Vernáculo.
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Post-post: Veja fotos do trecho de “O trem e a cidade” neste link. Para visitar o site Oficial de Thomas Wolfe Society, clique aqui.