Mártires cristãos do Séc. xxi

O assassinato do padre Jacques Hamel por um delinquente juvenil a soldo do Estado Islâmico mostra a crueldade do século marcado pelo terror islâmico.

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John Keats (1795 – 1821), em duas traduções

John Keats em traduções ao português, na revista Escamandro, enriquecendo o acervo de Poemas famosos da língua inglesa (título de Oswaldino Marques, 1956).

Projeto Shakespeare Remix, O Globo

Exposição Biblioteca Central da Florida International University (FIU)

Que honra e que alegria ter participado deste projeto e ver a colheita dos frutos.
Shakespeare Vive, 4 séculos depois de ter virado ‘estrela’.| 400 anos da morte do poeta.Projeto Shakespeare Remix_OGlobo

Assista a minha fala no projeto d’O Globo “A tempestade | Próspero”.

Participe do Remix, seguindo o link do projeto em O Globo.
Obrigado pela leitura e comentário!
School

Yves Bonnefoy (2) – o Adeus ao poeta

O ADEUS ao poeta francês Yves Bonnefoy!YvesBonnefoyMenor

Yves Bonnefoy (1923-2016). 
A notícia do desaparecimento do poeta deu-se em meio ao ruído da Copa de futebol da Europa, no início deste mês de julho, em Paris, aos 93 anos. Por conta de todo um noticiário específico e das férias, só vim a chorar a morte do poeta 2 dias depois do ocorrido.
A presença de Bonnefoy em minha vida há de continuar forte, chegado que foi o poeta pela mão de um amigo francês que viveu por um tempo em Goyaz. Dele ganhei o volume de “Poèmes”, com quatro livros do poeta.
Marc Souchon (da Universidade de Besançon, Fr) dedicou-me o livro de Bonnefoy, na esperança de que vivêssemos “em mundo mais poético“… Lá se vão 27 anos e, de minha parte, mesmo envolto nas “agruras do comércio“, não deixei de seguir o conselho do meu amigo Souchon, professor-visitante “Leitor”,  que conheci na UFG (Universidade Federal de Goiás), nos meus tempos de ICHL.

É! O amigo Marc Souchon tinha a profissão que todo Beto desejaria ter – Leitor; mas essa é outra história. Agora, temos de frente a realidade do desaparecimento de um dos mais importantes e produtivos poetas de la vieille France, o adeus à Yves Bonnefoy…

Dele disse em obituário a Enciclopédia Universalis (a tradução amadora é minha!):
A obra de Yves Bonnefoy (1923-2016) situa-se sob o signo da injunção de Rimbauld (em Illuminations): « trouver le lieu et la formule » [“encontrar o lugar e a fórmula”].

“A obra do poeta Bonnefoy se liberta muito pouco do surrealismo, numa busca que vai se revestir de múltiplas fórmulas, em diálogo constante com umas e outras, a saber: poemas onde se afirma uma busca da presença que devolve a palavra ao seu verdadeiro lugar (como “Du mouvement et de l’immobilité de Douve”); relatos onde a potência do sonho revela o que o cotidiano dissimula (como em “L’Arrière-pays”); ensaios nos quais se desenvolvem, sobre os rastros de Baudelaire, um diálogo entre pintura e poesia (caso de “Le Nuage rouge”); e traduções, onde, por fim, fica evidente o domínio do verbo Shakespeariano – de “Jules César” ao “Conte d’hiver“, afinal Bonnefoy era tradutor do bardo inglês.

Aos francófonos, recomendo a leitura completa no link consultado em 08.07.16. Clique aqui para saltar à Universalis.fr./

Ao não-francófonos que desejarem conhecer a obra de Yves Bonnefoy, recomendo este belo website O Poema, dedicado à obra de Bonnefoy, traduzido no Brasil pelo francófilo professor Mário Laranjeira.

«A poesia de Yves Bonnefoy é marcada por uma busca, sem trégua nem concessões, do “vrai lieu” (lugar verdadeiro) – esperança, sempre a preceder a palavra -, da unidade a ser reencontrada. Aceitação do limite, da finitude e da morte que conduz ao encontro, na outra margem, das coisas simples em que revive a manifestação do ser: a moradia, a luz, o fogo, a pedra, a folhagem, a neve, o amor.

«Sua obra poética já foi traduzida para mais de vinte idiomas e é reconhecida pela crítica como comparável ao que de melhor se produziu na França em todos os tempos.» – Comentário do livro Yves Bonnefoy: Obra Poética, tradução  e organização de Mário Laranjeira publicado pela Editora Iluminuras em 1998.

Dou-me conta, ao dar adeus a Bonnefoy, que tenho uma dívida imensa neste blog com os poetas da minha formação francofônica, feita na Alliance Française dos saudosos anos ’80 do século passado…
Dívida que hei de pagar ao longo das próximas semanas, prometo!

E a ti, poeta amado, fico certo de que soou
(…) o gongo, contra a arma disforme da morte.
Adeus, semblante em maio.
Adeus, poeta!

yvesbonnefoy
Yves Bonnefoy (*Nascido em Tours, 1923 ~ Morto em Paris, no dia 01.07.2016).

Por ora, deixo a você leitor, este poema intitulado “Les Chemins” (Caminhos) de Yves Bonnefoy num esforço enorme de tradução para nossa língua – que me perdoem os defeitos, mas é obra-em-andamento.

OS CAMINHOS
****Yves Bonnefoy*

Caminhos, em meio 
À matéria das árvores. Deuses, entre 
os tufos deste canto incansável de pássaros.
E todo teu sangue arqueado abaixo de mão sonhadora,
Ó próximo, oh! meu dia inteiro.

Quem colhe o ferro
Oxidado, entre as altas ervas, não esquece jamais
Que dos escolhos do metal a luz pode tomar
E consumir o sal da dúvida e da morte.
+++++
(*) A este exercício de tradução livre pode o leitor atribuir-me todas as faltas que houver (menos uma: a do amor ao poema), indicando melhorias via betoq55 at GMail.com (AQ).
Do poeta-tradutor de Shakespeare e J. Keats, muito a aprender.
Um velho post com tradução de Mário Laranjeira e outras referências poéticas.

 

Carlos Alberto Salustri – Trilussa (2)

Não sei porque, exatamente, este post vai e vem é muito procurado no Google como “O gato socialista”. Talvez quando aumentem as prisões de gatunos…da orientação política ironizada por Trilussa!?

A cachoeira*

Das idas a Corumbá de Goiás, posso lembrar-me com alegria. Minha memória guarda um desses passeios como um dia envolto na neblina, vaporzinho descendo sobre a alma plena de alegria, da mesma forma que este café da tarde faz subir a razão em sua fumaça, semelhante ao gênio da lâmpada. Para o menino que fui fazia calor, mas esta lembrança tem algo da friagem dos junhos cinquentões.

A tarde talvez fosse azul,  descobri no poema lido já adulto – em outras circunstâncias -, tateando a cidade grande para evitar que o corpo deixasse a alma se recolher ao covil da falta de alegria. O ondeado verdolengo das matas em torno ao salto d’água se impôs ao olhar do menino esculpido em desafio. Hoje, a onda fraca dos pingos d’água ricocheteiam de uma chuveirada quentinha.

Tremia por dentro, naquela viagem. quando viagem era ir de Anápolis ao Salto de Corumbá; tudo por conta de uma conversa havida no caminho. Haveria lá, diziam os grandes, uma prova de resistência e só alguns de nós conseguiria subir ao mais alto da cachoeira – na verdade apenas um “salto”: o Salto de Corumbá.Salto_Corumbá+Sepia

Eu, que sempre fui um medroso renitente, enxerguei logo o gigante negro e fantasiei a minha impossibilidade de realizar a subida, mentalizei o horror que seria para todos os demais vitoriosos e a chacota em que me tornaria diante, principalmente, das meninas da caravana.

Chegamos ao Salto. Despimo-nos e pedi à minha irmã para manter-me com a camiseta. Autorizado, senti a alegria dessa decisão quando os mosquitos se esparramavam em meio à massa de meninos e meninas, urubus diante de carniça nova. Estávamos todos mais ou menos certos de que haveria provas difíceis pelos sermões antecipados, que nos pregaram antes da aventura. Só não havíamos nos afeitos às precauções naturais dos pequenos habitantes da savana goiana – os menores que mais incomodam, aprenderia mais tarde também.

Despidos braços e pernas, cabeças ao sol, serpenteamos em meio às árvores numa subida que parecia impossível de se completar. A penitência parecia maior porque nós, os pequenos, íamos ao rabo da fila indiana e sempre sobrava uma cipoada de um mais atrevido que segurava o galho até ao exato minuto da nossa passada… e seguia sorrindo para alternar-se com outro gaiato que abriria caminho à meninada.

Por dentro de mim, já havia tantas reclamações quanto arranhões no rosto. O que me salvou foi aquela camiseta que, embora puída, livrou-me de mais uma cicatriz entre as sete adquiridas à peine – o suficiente para tornar-me o homem que escreve esta croniqueta.

Finalmente, chegamos ao topo. Tendo obtido o êxito que os grandes esperavam ou desejavam que eu não conseguisse, senti-me um completo mateiro em meio aos maiorais. Deu-se, entanto, que não estava a missão terminada. Lá do alto, começaram os graúdos a escorregar pelo mato, descendo o longo declive feito tivéssemos cada qual uma prancha sob seu corpo.

– Valha-me, deus, pensei!

Nem tempo de uma prece tive quando me senti empurrado ladeira abaixo. Aos poucos, venci o barranco e a camiseta velha parecia um trapo pronto para virar pano-de-chão, quando a água fria do rio Corumbá me gelou as carnes e o espírito. Que alívio!

Nunca mais me esqueço de que um salto não é uma cachoeira e que mosquitos não gostam de certas horas do dia à flor-d’água. Ali fiquei tiritando calado e pensando: “que despautério ser da “banda dos pequenos”; mas a água caindo branca do alto da cachoeira vale-me o dia, até mesmo com os arranhões que levei comigo vida adentro.

Deram-nos um pão com salame e uma caneca de suco. Foi tudo o que se salvou daquela tarde, mas nem por isso o café que me aquece nesta tarde de julho deixa-me a alma atrelada ao corpo – a presa de um covil. Não!

Sorrio por dentro, mangando do menino medroso que visitou o Salto do Corumbá pela vez primeira, sabendo que dele não puderam maldar os mais crescidos.

(*) Ao amigo, poeta-cronista Luiz de Aquino. Reescrita em 20/3;2017.