O café de Eliot

A Ti, leitor, o mentiroso “respeitável leitor”, a quem Charles e Thomas ousaram chamar pelo nome apropriado: “Tu! Hypocrite lecteur! – mon semblable -, mon frère…”

Vamos aos Teatro? Marcos Fayad & Guimarães Rosa valem ouro!

EM ARTIGO no Jornal Opção – editoria Opção Cultural.

QUANDO um de seus contemporâneos e concidadãos realiza uma grande tarefa, o mínimo que temos que fazer é reconhecer o seu (dele) talento. A cidade de Goiânia e seus multiplicadores culturais precisam saber disso…

No dia da estréia de “Cara-de-Bronze” os diários ignoraram a importância do espetáculo. Apenas no bravo Opção Cultural uma nota (pequena para a importância do fato!) e n’O POP, uma big foto de um homem e regras de como depilar o peito. O Diário da Manhã ignorou solenemente o espetáculo; idem, O Hoje….

Fui à estréia de Cara-de-Bronze, peça dirigida por Marcos Fayad que adaptou texto de um conto de Guimarães Rosa para a linguagem teatral.  Registrei meu encantamento com o trabalho, a dedicação do diretor – sua profunda crença na qualidade teatral e na importância da escolha do texto. Marcos Fayad lê. Entende o que lê e traduz bem para a linguagem teatral o universo imaginado e imaginário de Guimarães Rosa.

Não obstante, nenhum grande artigo nos jornais locais anunciou a importante estréia de “Cara-De-Bronze”. Reabilitemo-nos, Goyania & goianiensis, com a volta do espetáculo ao teatro Goiânia.
Agora, é hora de a cidade reabilitar sua conexão com o Sertão lítero teatral de Fayad Rosa. A peça volta ao palco do Teatro Goiânia, para xx apresentações, de 1º.a 3 de julho às 21h.
Vamos ao Teatro?

 

O exigente e disciplinado ator-diretor reconheceu, em diálogo com o público o valor e dedicação de seu elenco e de quem o ajudou a tornar Cara-de-Bronze uma belíssiva releitura de G. Rosa.

As fotos são deste blogueiro fotógrafo amador.

O artigo está em Opção Cultural. Leia-o e divulgue. 

*Naturalmente, fui ao teatro (impossível o “fui-me!” – gralha do online)  e fico muito à vontade para dizer: vale a pena (re)ver Marcos Fayad e seu elenco em Cara-de-Bronze.
Fotos do bate-papo, após a estréia; reconhecimento de todos, incluindo os moços da marcenaria que montaram o belíssimo curral que é parte fundamental da mise-en-scène.

Drafts de poemas (xii)

Chuva feito enxame de abelhas

 – à memória de yêda schmaltz,

I

chuva feito     enxame
de abelhas           que  sobrevoam      –    e querem enxotar –
tomba  em tons e        sobretons, como se sob
o zinco houvessem.

sobre o teto de minha casa  no cerrado esta savana amada  chove  poesia sobre o teto da casa onde a poeta yêda                                                   schmaltz
ante-
vi(u)veu.

eu nem te vi; quem te vê, poeta amiga, sumida nos tempos de antanho; tanta abelha, tanto zumbido tanto som de mato tanto som de rio de riacho.

le douve como o joão leite

                                   rio, riacho       clara     sanga…

la douce                           

la douceur

du sexe, du feu.

II

sons de minha terra e da tua terra e era céu o que via ouvia quando era pequeno e o teto desabava e eu nem era Asterix                                                  nem era nada

do que eu sou agora  –

um nada diante de ti e de tua memória se fosses viva eu te daria um beijo na boca um beijo como só klimt dera em teu poema eu daria uma casa e uma kombi cheia de poesia só para que tu visses ouvisses vivesses o que vivo agora – Withman o que dissera que um menino leria o poema dele (him) –
séculos depois.

Eis-nos: não o dera nada de bandeja para que o menino o lesse – eu o li e tu?
eu o ouvi e a Ti;
(tudo confesso)
fumando um cigarro de folha de chuchu ou diamba – sim, eu ouvi quando a chuva de prata pousou em tua casa do bairro Feliz.

eu vi eu ouvi quando o mato passara pelo couro de gibão do teu avô do meu avô eu prometo que é a mesma coisa do que eu juro eu não esconjuro ninguém                                                       que ouve vozes, como tu, você e eu o fizéramos, mas já nos curamos somos todos uns sem ouvidos – oiças duras somos – uns moucos
uns loucos que não ouvimos mais nada…

 
III

gerardo mourão e hermilo, o borba; e yves bonnefoy, de boa fé ouviam vozes e bruno também – eles ouviam coisas tão claras, tão distintas do sussurro que ouço  sem estrutura que resista.

como em joaquim cardozo, o moço nordestino, nas minas gerais que viu ruir toda a sua (dele, him) estrutura mental

– como quando vozes nenhuma ouvia mais

aquele pobre padre –
o que descreu e não conseguia mais celebrar a Eucaristia!

como quando aquele menino lá do abrigo
teve leucemia como aquele que um dia fez um furo no muro do hospício –

e por ali eu ouvi; ele me ouvia – outros também – o José Décio ouvia,                           José J.Veiga [eu desconfio que também ] –

porque não é possível a ninguém criar nada nesse mundo de meu Deus
se não ouvir vozes,
se não ouvir a chuva como Benedetti a ouvia em menino, se não ouvir o doce  frio friozinho friozão; bão-bá-lá-lão –
de um poeta na contramão…

se não, se não …

poesia pé de poesia poesia pela poesia feito sobrinho e sua tia
poesia sobre si sobre Ti

a mesma mentirosa só:
fingida e fugidia…

IV

pode outra coisa a não ser o poeta fazer assim chover?

– pode essa chuva de poesia no meio da madrugada

acordar a gente dizendo

que está chovendo poesia em nossa horta

– quando hei de me lembrar e quem há de?

fazer ouvido mouco para tanta doidera de ouvir vozes

bastardas vespas zumbindo em nossa cabeça quando a tempestade assume o comando e já não se é ninguém

só a memória de abelhas                                      européias

e de sonetos que o florentino –
(não o meu tio Flô!) escrevia
com giz nas paredes antes de (se) jogar
pela janela do paraíso.

Ω
[Goiânia, Abril de 2016]

Gullariano, à inglesa: Ephemeral Invention

UM POEMA do escritor goiano EDIVAL LOURENÇO, vem de ser traduzido ao inglês por Eric M.B. Becker deve sair em Words Without Borders, revista da qual ele, Eric, é o editor.

EricMenorCreio ser um grande momento e uma chance  a mais de um talento poético das terras dos Goyazes mostrar sua força a um público amplo e diversificado. Lê-se muita poesia em língua inglesa. Os sites dedicados à poesia são muitos e interessantíssimos. Listo alguns que não se negam – como muitos brasileiros, a dispor os versos como devem ser dispostos, tratando-os com o respeito que a Poesia merece.

Alguns bons exemplos:
i. Poetry Foundation.
ii. Poets.org
iii. Eliot Society
iv. Notegraphy

Eis, portanto, uma janela que se abre à poesia feita em Goiás com a presença generosa do Eric em nossa terra.
Aqui, o tradutor originário de Minnesota (EUA) faz pesquisa de campo para a tradução do romance do Edival Lourenço – “Naqueles morros, depois da chuva”. Edit. Hedra (2011).
Ganhamos, de quebra, um poema do poeta-presidente Ube/Go (União Brasileira de Escritores, seção Goiás) na língua de Robert Frost (ou se preferir, de Eliot). Provocados por este blogueiro, Eric e Edival se dispuseram a antecipar a publicação, dizendo o poema no original e na tradução, durante oficina de tradução na Ube.

Edival Lourenço e EricBecker
Eric M.B.Becker e Edival Lourenço na 8a. Oficina Ube/GO, sobre tradução.

Aqui, você ouve o poema em inglês na voz do tradutor – Eric M.B.Becker.

E esta é a versão do poema falado por mim em português:

Abaixo, leia o poema no original – como publicado em “A caligrafia das heras (2012).
Gullariano_Poema do Edival
A nova versão do poema (ed. bilingüe).

Poema Bilingue

Meu velho tamboril & memórias de Carmo Bernardes

PUBLICADA EM OPÇÃO CULTURAL em 16.JUN.2016.

Clique na figura para ler o artigo no site do Opção Cultural ou leia a íntegra abaixo.

2016-06-16 (2)

 

Meu velho tamboril  ensina-me a ouvir o vento

                                                                                          Adalberto de Queiroz, Especial para o jornal Opção

Dia desses conversava com um dos meus compadres sobre as árvores do quintal da casa de minha filha. Lá, existem algumas espécies que me surpreenderam quando adquirimos o terreno. Tudo fiz para manter as árvores e enfrentei com bravura a mudança de um velho bacuri que havia anos se erguia faceiro no que hoje é um dos quartos da casa. Quando soube, por telefone – estava nos EUA, que o velho bacuri teria que ser removido fiquei furioso e pedi que adiassem a decisão.

Com a casa pronta, em uma das primeiras reuniões em território de meu genro e de minha filha, orgulhoso, mostrei ao compadre Chico cada uma das árvores – todas têm sua história especial e única, principalmente o bacuri que se mudara e pousa com galhardia em frente aos quartos da nova residência.

– Você devia escrever sobre as árvores – arrematou ele, ao final do giro que fizemos em torno da casa, rodeada de belas espécies: dois ingazeiros, um baruzeiro[1], o formoso bacuri que, mesmo mudado (em uma odisséia familiar importante) continua lá, altivo, a provar meu amor pelas árvores.

Um dos responsáveis pelo meu interesse pelas árvores foi um monitor de nome e personalidade estranhas que conheci no orfanato – Sêo Alcides, que, perdoados os hábitos rudes com que tratava a todos – meninos e adultos, transmitiu-me a consciência de que tudo deveríamos fazer para plantar e cuidar das árvores, pois delas dependia nossa sobreviência. Mais tarde, o pouco de nomes e da sabença real que possuo sobre tão vasto tema, aprendi mesmo foi lendo e observando os escritos de Carmo Bernardes.

Ele foi o mais acadêmico dos mateiros goianos, nascido mineiro e criado nos campos dos Goyazes, aprendeu com o pai tudo que nos transmitiu sobre a riqueza vegetal do cerrado. O Sêo Carmo, ou para o respeito do cargo de imortal – o escritor Carmo Bernardes é, pois, um dos responsáveis por este meu amor às árvores.

Fui conversar com um amigo dele, por conta das memórias todas que esta crônica veio me trazendo. O poeta Aidenor Aires conviveu com Carmo e dele aprendeu muito, não apenas sobre árvores.

– Eu tenho uma relação muito próxima com as árvores – disse-me o poeta Aidenor Aires. “A primeira imagem importante que eu tenho na vida é de um jatobazeiro que existia na porta de nossa casa no sertão do oeste da Bahia. Esse jatobazeiro era meu parque de diversões, ali caíam uns jatobazinhos que a gente fazia de boizinhos, para brincarmos…”.

O improviso do brinquedo infantil transforma-se em aprendizado do adulto que, mais tarde em Goiânia, torna-se amigo de Carmo Bernardes.

– Aprendi com a amizade e na convivência com o Carmo que os nomes das árvores vêm do papel econômico que têm numa sociedade: “olha, dizia o Carmo, toda árvore que você conhece tem nome; árvore que não tem nome você chama de pau-à-toa!”. É pau à toa porque não servem pra nada” –  diz o poeta. “Aroeira serve para fazer estacas, a sicupira serve como remédio e boa madeira, imburana, idem; o mogno e o cedro – pela preciosidade do móvel que podem gerar; até aquelas árvores que servem só pra fazer um chicote que corrija menino têm nome. O restante, se você perguntar a um cidadão da roça: que árvore é esta aqui? Se não souber, ele dirá logo: “É pau-à-toa!”

Carmo Bernardes, em sua obra inteira tanto a respeito da fauna quanto da flora – sempre vai nominando as árvores que conhece e quase sempre dá informações sobre elas. Carmo é classificado pelo poeta Aidenor como um verdadeiro pedagogo: “O Carmo achava que só podia escrever se sua escrita servisse para alguma coisa e para alguém, fosse para conscientizar, fosse para que o leitor aprendesse alguma coisa…” – diz Aidenor.

Em “Jângala”, livro em que Carmo Bernardes faz um levantamento da fauna e da flora do “Complexo do Araguaia”, surge informação relevante a cada capítulo. O 7º capítulo, intitulado “As madeiras” nos dá exemplos da pedagogia do Carmo:

“O jatobazeiro, uma leguminosa – cesalpinácea – é a espécie predominante nos matos de terra seca; depois vem o angelim, também chamado angelim-pedra. Tem esse nome devido à fibra da madeira ser encaracolada, entremeada de resinas, com a aparência de pedra; pertence à família das ochnáceas, bela madeira de marcenaria, muito macia para cortar; as peças confeccionadas com ela não trincam e aceitam finíssimo polimento”.

E sobre aquele Baru à porta da casa de minha filha, que, mesmo agredido pelo caminhão de entregas durante a obra, permanece firme em  frente à casa…, quem há de contar sua história? Histórias de uma família que da sombra e dos frutos tirará proveito das castanhas? Falará esta árvore com os netos que começam a ter notícia de uma nova cidade, de um novo clima (nascidos fora do Brasil), de uma nova cidade para onde se mudaram e onde começam a fazer sua história?

Carmo responde em “Jângala”: “O  Baru aparece mais para a área de beira-campo, uma Papilionácea, árvore de tronco médio, madeira fixe[2], apropriada para trabalhos de torno. É do grupo dos castanheiros. O fruto tem a forma achatada e ovalada, é revestido por uma polpa farinácea de acentuado sabor de alcaçuz, apreciado pelo gado e pelo índio Xavante. Cada fruto contém uma pequena castanha, de sabor próximo ao do amendoim, mas com um cheiro forte e enjoativo do feijão cru.”

Do destino do baruzeiro e das histórias que este haverá de reunir, o tempo dirá.

Carmo Bernardes foi pioneiro da chamada “maré ecológica” em Goiás, e sempre nutriu umaconsciência a respeito do meio-ambiente. “Desde os tempos em que foi editor em Anápolis, ele lutava contra os efeitos da migração do homem rural para as grandes cidades. Às vezes, quando viajávamos juntos, passando numa estrada, ele mostrava no meio do pasto um pé de limão-rosa abandonado, um pé de manga morrendo, pé de laranja; e dizia: ‘aqui morou uma família que foi obrigada pelo êxodo rural a sair da fazenda, portanto, as árvores são o testemunho da vida das pessoas lá naquele ermo…”, relata Aidenor Aires.

Às vezes, o “mateiro Carmo” usava uma linguagem euclidiana, nota Aidenor Aires: “O Carmo tinha uma versatilidade muito grande. Foi secretário da Celg [distribuidora de energia elétrica de Goiás], secretário da Universidade, depois assessor de governos. Ele era perito em escrever correspondências oficiais, discursos. Ele era um mago. Um dia ele me falou: “Olha, Aidenor, para nós, que andamos com essas caraminholas na cabeça, é muito difícil arrumar emprego, então, aprende isso aqui: escrever um ofício, uma carta para um embaixador, um presidente da República – com todos os formalismos, sem a dureza da linguagem oficial. Ele era perito nisso. “Nosso destino”, disse Carmo a Aidenor, “é carregar jumento. Eu carreguei jumento a vida inteira…isto é, nós escrevemos, trabalhamos, para outro levar a fama, mas disso, ele viveu a vida inteira, porque livro não dá fortuna pra ninguém…”

O título de “Jângala: Complexo do Araguaia” foi inspirado em “Jangal”, do escritor britânico Rudyard Kipling, revela Aidenor. E é um livro onde fala tanto da fauna quanto da flora, porque “para ele, Carmo, o mundo é uma coisa só…porque a vida que tem na formiga tem em nós – a vida das árvores, dos animais é a mesma e temos que preservá-la porque as vidas estão interconectadas. A falta de uma é uma perda para a Humanidade, como acentua Hemingway na epígrafe do romance “Por quem os sinos dobram ?”

                “A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” (John Donne).

É Bento Fleury, outro apaixonado pelas árvores, quem me justifica meu choro quando dizimam-nas em nome do progresso ou de uma bela construção, como se parte de nossa vida fossem. Na crônica “O jatobazeiro da Chácara Baumann” (ou: “O espaço que uma arvore ocupa na nossa vida”), Bento Fleury resume o que poderia essa crônica dizer em uma frase: “Eu amo as árvores, pois elas sabem do seu destino”, aduzindo: sabem do destino delas e do destino humano.

Retomo o fio da prosa e o eito dessa crônica para não se tornar infinda. À história de minhas árvores devo sempre adicionar a observação que não sou nem nunca fui um que vive em partido em defesa do meio ambiente ou se intitula “verde” por oportunismo ou como seguidor de um modismo, de uma ‘maré ecológica’ passageira.

O parágrafo que se segue dedico-o a lembrar como veio Sêo Carmo a gostar de árvores. E se você tiver paciência de ler esta crônica descobrirá como a orelha-de-macaco pode apontar os rumos do vento e sentir o cheiro da chuva que se avizinha.

Nascido em Patos de Minas, a 2 de dezembro de 1915, Carmo se mudou com a família para a cidade de Formosa em 1920 e, em 1925, para o município de Anápolis. Estudou o primário entre as duas cidades e acompanhou o pai em suas atividades madeireiras. Fez curso de estatística e recenseamento e, a seguir, publicou os primeiros trabalhos de uma escrita pródiga e diversificada: contos, crônicas e romances, além do ofício administrativo de secretário de muitas entidades. Os “volantes de propaganda do recenseamento de 1940”, no entanto, foram seus primeiros trabalhos publicados.

Jornalista durante boa parte de sua vida, Carmo Bernardes foi um autodidata em tudo. Em 1972, contava já 30 anos de atividades no setor de defesa do meio-ambiente. Quando poucos ou ninguém falava do tema, já estava o Carmo dedicando-se ao tema em suas andanças por Goiás. Foi conselheiro da Fundação Inca e representante ao I Encontro Nacional sobre a Proteção e Melhoria do Meio Ambiente e à 1ª Conferência Nacional do Meio Ambiente – conforme se aprende na sua pequena biografia publicada na 2ª edição do romance “Jurubatuba” (1979).

O pesquisador Bento Fleury em artigo intitulado “Carmo Bernardes, o Doutor do Sertão”, justifica o título. “O Carmo escreveu ensinando e foi um doutor no tema sertão e cerrado. Sua obra fala, ensina, tem sabor. Ele conseguiu fazer uma literatura que não está apenas escrita, mas também vivida“.

Bariani Ortêncio, companheiro de amizade e profissão do Carmo, conviveu com ele no programa de televisão “Frutos da Terra”, da TV Anhanguera e como cronistas do jornal “O Popular”. É outro que pode falar com autoridade sobre a formação do “Doutor do Cerrado”.

Foi o pai o grande instrutor do Carmo. “Luiz Bernardes, trançador de couro, carapina, construtor de engenhos de cana, currais, madeiramentos de casas, pilões, colher de pau, monjolos e até trapizonga, ensinou ao filho Carmo tais profissões, deixando para ele, que já se julgava homem, pois andava calçado de botas, os “servicinhos”, como tecer chicote e colocar argola em laço. O avô, José Pernagrossa, também artesão, era fabricante de produtos à base de chifres, de berrantes a pentes e até botões.”

Conheci Sêo Carmo numa sessão de autógrafos em Anápolis. Em minha cidade de formação, onde ele fora editor do jornal “O Anápolis”. Essa oportunidade, perdida na memória, se salva pelo autógrafo na letrinha miúda que me deixou em “Reçaga”: “Adalberto: os meus  votos pelos seus êxitos nos estudos e obrigado por ser você o primeiro a adquirir este livro”. Seguem-se a assinatura de Carmo Bernardes e data. Em Anápolis, 25 de setembro de 1972.

Mais tarde, já estudante em Goiânia, encontrei-o, diversas vezes, na Livraria Cultura Goiana e na Feira Hippie, onde, nas manhãs de domingo ele e outros escritores faziam ponto na banca do Paulo Araújo, assinando livros e conversando entre si. Eu os apreciava de longe, por pura timidez de jovem distante dos graúdos das letras. Bernardo Élis, tímido, nunca deu-nos a mesma atenção que o Sêo Carmo. Este, à sua maneira, tímido também, meio que ensimesmado permitia-nos aproximação e tinha uma resposta sempre didática, ainda que sempre voltado para assuntos da mais alta metafísica interior.

Lembro-me bem de uma vez, na livraria, em que solicitei ao Sêo Carmo uma sugestão de leitura. Foi na exígua mas riquíssima livraria que o Paulo Araújo mantinha, próxima ao Café Central (a Cultura Goiana). Com seu jeito mateiro, sempre ensimesmado, ele não titubeou, foi à estante próxima e retirou o livro de Evgueni Evutchenko – “Os Frutos Silvestres da Sibéria”. Guardo-o comigo, como um troféu, autografado que foi pelo autor russo, em Recife, em 1987 – sempre os frutos silvestres hão de me trazer à memória o Sêo Carmo Bernardes.

Aí se vai a crônica finda sem que eu justifique o título. O perdão que pede o cronista, talvez não o mereça. O vento desse junho já friorento à beira desse lago bate na copa rala de um dos dois pés de tamburil que mantenho a todo custo em frente à minha casa, avisando-me que é hora de eu virar a folhinha da época de minha própria vida. Na próxima jornada chuvosa que virá depois desse friozinho de junho/julho, os galhos mais altos do mais jovem dos tamburis deve oferecer perigo ao beiral da minha casa. Essas árvores chegaram aqui bem uns 30 anos antes de mim, mas a eles devemos o respeito e a defesa inconteste da vida que representam.
Quando os sinos dobrarem por nós ou por nossos semelhantes serão as árvores que darão o melhor testemunho do que somos e do melhor que legamos ao futuro.
Goiânia, 11 de junho de 2016.

(*) Carmo Bernardes, o autodidata que se fez “Doutor do Cerrado”, foi membro da Academia Goiana de Letras e recebeu prêmios internacionais de literatura. Listam-se entre seus livros os títulos: Reçaga, Rememórias (vols. I e II), Vida Mundo, Jurubatuba, Idas e Vindas, Ressurreição de um Caçador de Gatos, Santa Rita, Nunila, Quarto Crescente, Memórias do Vento, Jângala: Complexo Araguaia e Força da Nova.
[1]O baruzeiro é uma espécie importante para o equilíbrio do Cerrado, pois se trata de uma das poucas árvores cujo fruto amadurece na seca. Nessa época, torna-se uma valiosa fonte de alimento para muitos animais.

[2] Fixe, no original, 2. [Popular] Que é fixo, firme ou seguro.

 

Bergson Express

Henri BERGSON.
Uma série especial do INA.fr.
5 emissões da InaFrançaSobreBergson

….

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Jacques Émile Blance, estudo – Perfil de BERGSON.

Henri Bergson, pensador e escritor maior das letras francesas, marcará a muitos em França (Jacques Maritain, Étienne Gilson, Jean Guitton), mas também na pátria lusa terá influência sobre figuras tão eminentes como o Cardeal Cerejeira.

Na obra “A Filosofia de Bergson”, escreve Leonardo Coimbra: «A metafísica bergsonista, a sua metafísica integral, é hoje a metafísica de uma realidade criação de almas, trazendo consigo como exigência implícita a matéria e a vida, que acompanhando essas almas, lhe fizeram condições de mérito no esforço, de crescimento na invenção, de heroísmo no amor, capazes para darem às almas o alimento espiritual de uma nova vida, a vida religiosa, com exigências e promessas de infinito e eternidade».

Henri Louis Bergson é o segundo de sete irmãos. Nasce no dia 18 de outubro de 1859, em Paris, no seio de uma família judaica, sendo que seu pai, Michael Bergson, é polaco, professor no Conservatório, e a mãe Katherine Levison, inglesa.

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Bergson é educado nas exigências e práticas do judaísmo. Os primeiros anos são vividos em Londres, mas em 1868 volta a França para frequentar o Liceu Concorcet, onde foi aluno brilhante, distinguindo-se em latim e grego.

Terminados os estudos de Retórica, inicia-se no aprofundamento da Filosofia. Embora dotado para as ciências exatas, como ilustra o prémio recebido em 1877 pela solução de um problema levantado por Pascal e cuja solução seria publicada em 1888 no “Annales Matematiques”, o jovem Bergson vai estudar Filosofia na Escola Normal Superior. Durante estes anos tem como colegas Durkheim, o futuro Cardeal Baudrillard e Jaurés.
LEIA MAIS sobre a vida de H. BERGSON…Fonte no link.
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Fontes: links web citados. E mais – este registro de ina.fr: “En 1966, pour le 25e anniversaire de la mort du philosophe Henri BERGSON, Henri GOUHIER et Pierre TROTIGNON, philosophes, lui rendent hommage dans une série de 5 émissions radiophoniques.
La philosophie de BERGSON reposait sur l’intuition des données de la conscience, dégagées de l’idée d’espace et de la notion scientifique du temps. Ce qu’il a expliqué dans ses ouvrages : “Essai sur les données immédiates de la conscience”, “Matière et mémoire”, “L’évolution créatrice” et “Les deux sources de la morale et de la religion”. Henri GOUHIER, philosophe et témoin de la vie de BERGSON et Pierre TROTIGNON, qui prépare une thèse sur la philosophie de la vie de BERGSON, évoquent leurs souvenirs et vision du grand philosophe.” (c) ina.fr e autores citados.