Cartas do Pai (1)

DA NATURALIDADE, post originalmente publicado em 28/02/2004.Alceu Amoroso Lima: “Cartas do pai: de Alceu para sua filha Madre Maria Teresa”

Collagem Alceu Cartas do pai: de Alceu a sua filha madre Maria Teresa
Montagem com Capa e algumas páginas de “Cartas do Pai: de Alceu a madre Teresa ou simplesmente: Tukinha!”

Um dos muitos presentes que eu ganhei em meu aniversário, o livro do Alceu Amoroso Lima tem lugar de destaque. Estou lendo as “Cartas do Pai*” com a economia da contemplação.
Um livro tão bem escrito assim merece ser lido com atenção e cuidado. A seleção de cartas foi feita por Alceu Filho e pela destinatária das cartas, a madre superiora de um mosteiro beneditino, a abadessa Maria Teresa, a filha bem amada de Alceu, ou simplesmente a “querida Tukinha” das cartas do pai Amoroso.

Contaram esses dois filhos com o privilégio divino de ter recebido como pai esse grande brasileiro (e grande católico) Alceu AMOROSO Lima. Para navegar por 11 anos de vida de Alceu, brindando-nos com este belo livro, contaram com o apoio do Instituto Moreira Salles (IMS) e com a revisão da irmã Sílvia do citado mosteiro beneditino.

Eis-nos, leitores, diante de um grande e marcante livro. Aos poucos trarei pra vocês trechos que me encantem como este sobre a naturalidade,

Da carta enviada da fazenda São Lourenço em 6 de julho de 1958.

[…]

Alceu a Madre Teresa...
“Tukinha do meu coração…”

Você define a humildade como a porta de todas as virtudes. Como dizer melhor? Para mim, ela quase se confunde com a naturalidade. Esta é um modo de ser, alguma coisa que precede a virtude. É como que o adro de todas as virtudes,
de que a humildade é a porta de entrada. A naturalidade é qualquer coisa de indefinido, de aberto, de vago, é como um grupo de crianças brincando à porta da igreja. A marca da naturalidade é a despreocupação. Quem procura ser natural já não é.

A naturalidade é uma vocação. Embora a simples ausência de pose já seja uma forma de naturalidade. Esta, porém, no duro mesmo, é um estado constante.
[…]
A naturalidade é a preparação indefinida para a humildade. Esta já é alguma coisa de consciente, de definida, de consistente. Não é mais uma predisposição, uma vocação. É um estado. É uma estrutura do espírito. É uma moldura, dentro da qual nós colocamos a nossa pintura interior e exterior. (Ontem li que alguém – o pai de um tal de Paul Morand – classificava os pintores em de superfície, ou extrovertidos, como Rubens, ou de fundo, e introvertidos, como Rembrandt. A classificação é muito boa, não acha?)

Alceu e Madre Maria Teresa, Lia
Dr. Alceu ou simplesmente Papai (P.) e Lia, ou simplesmente Madre Maria Teresa.

Pois a naturalidade é como a pintura de fundo, vem de dentro e por isso é uma preparação, a melhor possível, para a humildade. Esta, porém, já é uma pintura de superfície, voltada para fora, no sentido de dever ser visível, embora nunca contrafeita ou artificial. Mas podendo e até devendo ser cultivada. Aprendemos a ser humildes. Temos de adestrar a nossa humildade. Melhoramos ou pioramos de humildade. A vida é uma mestra de humildade. Mas naturalidade, esta não se ensina, nem se melhora ou piora.

É ou não é. Pronto. Mas a humildade só é realmente uma grande coisa quando vem precedida de naturalidad, quando é uma humildade natural, que apenas temos o dever de cultivar, de educar, de melhorar, de ensinar, para que sempre vá crescendo
e não se deixe estragar pela vida e sobretudo artificializar-se. Pois a humildade que se contenta e se compraz consigo mesma, a que se exibe, já deixa de ser humildade – isto é, virtude real do publicano – para ser um farisaísmo às avessas,
um falso publicanismo, que é então pior que o verdadeiro farisaísmo. Pois o fariseu verdadeiro ao menos se exibe, é tolo, é ridículo, expõe a sua mazela, embora convencido de que não a tem, nem que é doença alguma julgar-se o tal.
[…]

Alceu a Madre Teresa...
“Tukinha do meu coração…”

A falsa humildade é o pior dos orgulhos, como a verdadeira humildade é a mais humana e mais natural das virtudes, desde que é justamente a que vem logo depois da naturalidade e é apenas uma naturalidade consciente e elaborada, embora essa elaboração deva tornar-se uma segunda natureza, sob pena de se converter em falsa humildade.
(Está um cheiro de melado que é uma gostosura…)!
P.
Que livro! Merci, Sirlene…:-)
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Fonte: *”Cartas do pai”, Ed. IMS, S.Paulo, 2003, p.36. Post publicado por Adalberto Queiroz 28/02/2004. Meus agradecimento à Sirlene Vieira, empreendedora, ex-sócia e para sempre amiga, que me presentou tão bem no meu aniversário de 2004. Deste livro pode-se repetir, sem medo de errar, o que Antonio F. De Franceschi diz no prefácio, repetindo Montaigne: “Eis aqui, leitor, um livro de boa fé – … ou melhor: “simplesmente, um livro de Fé”! Pois sim, foi na Fé que este livro encontrou razão de ser editado.

Vilém Flusser (excertos part I) – (3)

Vilém Flusser
9. Poesia
TRADICIONALMENTE, FAZ-SE UMA DISTINÇÃO ENTRE POESIA E imitação (‘poesis’ e ‘mimesis’).

Todavia, com a hegemonia do alfabeto, essa associação estreita do pensamento à língua, entende-se majoritariamente por “poesia” um jogo com a linguagem cuja estratégia é aumentar criativamente o universo da língua. Esse universo é aprofundado poeticamente devido à manipulação de palavras e frases, à modulação de funções da língua,a um jogo com o significado das palavras e das frases, a modulações rítmicas e melódicas dos fonemas. Poesia, nesse sentido, é qualquer fonte da qual a língua sempre nasce renovada, e precisamente em qualquer literatura, ou seja, também nos textos científicos, filosóficos e políticos, e não apenas nos ‘poéticos’. As reflexões anteriores sugerem que a poesia, ao contrário da imitação, tomará caminhos até agora inimagináveis, especificamente os caminhos que se abrem graças à introdução de aparelhos e aos seus respectivos novos códigos. As imagens se desligarão de suas funções imitativa e mimética e vão se tornar poéticas, criadoras. Esse poder poético já está claramente evidente, por exemplo, em filmes, vídeos e imagens sintéticas. Contudo, no que diz respeito à poesia, no sentido de jogo de linguagem, parece que o acesso à nova cultura está atravancado: pois ela se vê vinculada ao escrever alfabético.

Há futuro para a Escrita?
O genial pensador ‘brasileiro-tcheco-universal          Vilém Flusser

 À primeira vista, parece como se pudesse haver também jogos de linguagem não alfabéticos. Os aparelhos não podem,pois, brincar com a língua tanto quanto com as imagens e os tons musicais? Não pode, pois, haver, além de imagens e músicas eletrônicas, poesia eletrônica? É possível pensar programas que movimentem os aparelhos para uma modulação linguística automática a superar de longe, em termos de força poética, as modulações alfabéticas. Uma programação de tal ordem poderia libertar a poesia alfabética de seu atual cárcere elitista e, tendo em vista o declínio do alfabeto, levá-la a uma oralidade cada vez mais poderosa e refinada.Caso essa estratégia pudesse ser adotada poderíamos esperar por salmos e epopéias como os de Davi e as de Homero, mas em novos níveis. Uma nova canção poderia ser entoada ao Senhor.

O desligamento da poesia (como jogo de linguagem) do alfabeto e sua transposição para aparelhos computacionais pressupõem, sem dúvida, que haja pessoas engajadas em uma oralidade cada vez mais poderosa e refinada. Isso, contudo, contradiz o capítulo anterior [onde Flussém trata de “A Língua Falada. Como o programar se desligou da escrita alfanumérica…”]. Se quisermos prever a atividade poética futura, é necessário refletir sobre poesia como oposição à imitação, e ter em vista, então, o caso especial da poesia como criação de linguagem.

Logolalia Waber
(c) www.logolalia.com/

Nem sempre estamos cientes do que devemos à poesia, no sentido lato da palavra: quase tudo que percebemos e vivenciamos. Fazer poesia é a produção de modelos de experiência, e sem tais modelos não poderíamos perceber quase nada. Ficaríamos anestesiados e teríamos de – submetidos aos nossos instintos atrofiados – cambalear cegos, surdos e insensíveis. Os poetas são nossos órgãos do sentido. Nós vemos, ouvimos, sentimos sabores e cheiros devido aos modelos que nos são apresentados pelos poetas. Nós percebemos o mundo por meio desses modelos. Os poetas criaram esses modelos e não os imitaram a partir daquilo que se encontrasse desmodelado e bruto em algum lugar. Quando vemos cores, seja por meio de Van Gogh ou de uma Kodak; [1987] quando ouvimos sons, seja o de Bach ou de um rock; quando sentimos sabores, seja o de um Brillat-Savarin ou de um fast-food; essas cores, sons e sabores são como são não porque vêm da Natureza assim, mas porque são culturais, isto é, porque foram poeticamente elaborados por um motivo fundamental de alguma forma não percebido naturalmente.
Se tentássemos escrever uma história da percepção a partir da hipótese de que as cores são percebidas de maneira diferente antes e depois de Van Gogh, ela seria uma história da estética, da experiência.
(…)
+++++
FLUSSER. Vilém. (1920-1991). “A escrita – Há futuro para a escrita?”. Trad. do alemão por Murilo J da Costa – S.Paulo, Annablume, 2010. Orig. alemão de 1989. 178 p.

Weekly Photo Challenge: Fresh

Santo Agostinho tinha razão, como na legenda do blog se explica: “O mundo é um livro e aqueles que não viajam lêem uma só página…”The world is a book, and those who don’t travel only read one page.” ― Saint Augustine

Presença de Augusto Frederico Schmidt

Schmidt e os Sonetos Completos
AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT…
Augusto Frederico Schmidt, 50 Anos de SONETOS, seu último e definitivo livro de poemas.
Carta dos editores na abertura do último livro de Augusto Frederico Schmidt.

– Poeta presente em nossas vidas de leitores e ali onde mora a imaginação poética para sempre há-de permanecer.

Augusto, membro da tríade de poetas católicos do Brasil.

Augusto católico que quando a fé titubeava e sentia-se qualquer coisa de descrente, qualquer coisa de dúvida, de pronto voltava ao seio da Mãe, a Igreja Católica, santa e apostólica para aí devotar-se mais e mais à Poesia.

50 Anos sem Augusto, para mim há-de melhor traduzir-se em “50 Anos com a poesia eterna de Augusto Frederico SCHMIDT”.

Augusto, o poeta-empresário, jornalista brilhante, editor, assessor de JK, o botafoguense, Augusto por vezes incompreendido; Augusto arrebatado, augustamente nacionalista, o criados do mote “50 Anos em cinco” – que seu (dele) amigo JK de pronto adotou como slogan de governo.

Augusto poeta – “próspero e pródigo” – que, humildemente confessa o “pecado literário” ter-lhe desde cedo o tomado; e, desde então, para a vida inteira…
Augusto poeta que viveu “as lembranças dos sonhos partidos” numa “casa construída pela imaginação“.

Livros de Augusto F Schmidt
Livros de Augusto, estarão expostos no evnto “50 Anos de Sonetos”, a lembrar os 50 anos da morte de Augusto Schmidt, poeta eterno!

Augusto, “o poeta gordo” – e “gordo ele era e assim admite na ‘Oração do poeta gordo’ e que também era míope, mas enxergava longe…” – como viu Maria Adelaide do Amaral no prefácio do livro “Saudades de mim mesmo”, antologia de prosa, org. por Letícia Mey e Euda Alvim*.

Celebramos Augusto, 50 anos depois de sua morte, 50 anos da edição magistral de SONETOS.
Um evento na União Brasileira dos Escritores de Goiás (UBE/GO) relembrará a poesia e a memória de Augusto. Aguardem!

A morte de Augusto Frederico Schmidt relembrada no site da Fundação Yedda & Augusto F Schmidt : veja o link.

 

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*Fonte: SCHMIDT, Augusto Frederico (1906-1965). Saudades de mim mesmo: antologia da prosa de AFS/org. Letícia Mey, Euda Alvim, prefácio de Maria Adelaide Amaral. – S. Paulo, Globo, 2006.

Alguns poemas de mulheres goianas ou: Tecelãs de Palavras – antologia de bolso (I)

Sônia & Darcy, poetisas de Goiás

Olá, Leitor(a) – dizem por aí que a poesia morreu,  que não há mais leitor que resista às linhas, aos versos, aos torvelinhos – matéria das tecelã(o)s.
Não têm paciência mais, dizem os entendidos da web.
– Será mesmo?

François Barraud Femme au livre
François Barraud [Public domain], via Wikimedia Commons

EU PORÉM VOS DIGO, repetindo VILÉM FLUSSER, que já dissera em modo de pensamento em voz alta sobre o fazer poesia (ou literatura em geral):

O intelecto ´sensu stricto` é uma tecelagem que usa palavras como fios. O intelecto ´sensu lato´ tem uma ante-sala na qual funciona uma fiação que transforma algodão bruto (dados dos sentidos) em fios (palavras). A maioria da matéria-prima, porém, já vem em forma de fios.

Eis duas tecelãs de minha terra, Goiás ou Goyaz, como gosto de grafar.

Deixai que a poesia dessas duas poetisas goianas inundem seus corações (e mentes) com a beleza de seu (delas) tecidos tão bem feitos.

Então, terei ganho meu dia, mesmo se o vosso comentário não aparecer ao fim e ao cabo da leitura. Os poemas abaixo são parte de meus poemas de uma antologia de bolso que irei pouco a pouco ampliando, mas ainda assim não deixando que ultrapassem o propósito original (o bolso).

SÔNIA MARIA DOS SANTOS
Poetisa Sônia Maria Santos (Anápolis,12 de julho de 1945)
Poetisa Sônia Maria dos Santos (Anápolis, 1945).

Matéria da alma

Danço ainda com uma flor na boca
a esperança toda numa valsa.

Da alma, a matéria o tempo não gasta:
prossegue, amante, peregrina;

entre a alegria e o assombro
das horas repetidas;

entre a luz que chega e cega
e da que suavemente pousa na retina.

∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞

SÓ O VERBO

Não mais

sobre a pedra

        o cordeiro degolado,

no manto claro

                        azul do dia.

Só o verbo
com sua lâmina
desce à cabeça,
à linha estreita, à escrita;

gota a gota,
num cântico,
com a face erguida.

∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞

Frei Juan De La Cruz
Ao menor sinal de vento

                          de água corrente

de pedra e musgo,

seu pé no chão

e a bondade.

Na barra da tarde, Frei Juan

entende-se com seus irmãos de alma.

De dores, principalmente.

Faz poesia, derrama seu cálice.

*********

DARCY FRANÇA DENÓFRIO

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

Poetisa Darcy França Denófrio (1936)
Darcy França Denófrio (Itarumã, Jataí-GO, 1936)

ÍNVIO LADO

“Tell all the truth but tell it slant –
Success in circuit lies.”
(Emily Dickinson)
.

Há um lado da flor

que não penetramos:

talvez a reserva sitiada

onde guarda seu aroma.

Quase sempre esbarramos

em seus ferrões de defesa

e sangramos nossa dor

pela ponta dos espinhos.

E aí então paramos

e olhamos só por fora

a beleza que se entrega

com sua quota de reserva.

É do outro lado

(do mistério)

que não alcançamos

que a flor explode

em toda sua grandeza.

É lá que se contorceu

e guardou a sua história

e sangrou as suas gotas

e a solidão que (sobre)carrega.

Quem olha uma flor
ou um ser desabrochado

vê um prisma (feio ou lindo)
jamais o seu lado
inviolado.

ESCAPE 

A raça humana
não pode suportar muita realidade.
(T.S. ELIOT)

Conheço a distância

que vai entre o sonho

e a dura realidade.

E conheço a fórmula

de amortecer o susto

e a queda do último piso.

Olhar sem crer lá fora

esse vidro que corta

e fechar, atrás de si, a porta.

Plantar, como sempre faço,

essas flores no paredão do muro

para deslumbrarem os meus olhos.

E, nessa lente distorcida,

em que capto a beleza,

mesmo aquela que não existe,

ficar musgo sobre a rocha

— véu veludoso verde veludo —,

cobrindo essa faca que cega o corte.

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/goias/darcy_franca_denofrio.html
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Fontes: SANTOS, Sonia Maria. Livro “Matéria da Alma”, Kelps, 2011, 138 pp. e DENÓFRIO, Darcy França. fontes web consultadas – http://www.ubebr.com.br/perfil/atuais/darcy-frana-denfrio-
Sites e livros reais, acima citados.

Bravo! Do sonho e outras quimeras, por Nélson L. Castro

“Sonho…e enquanto sonho,

desenho um mundo risonho

onde se não morre nem mata

Um mundo de faz-de-conta,

no qual o tempo não conta,

tão belo que só o sonho o retrata…
(Nélson L Castro).
Continue lendo no link abaixo
https://mukandasdonelsinho.files.wordpress.com/2015/03/dreams.jpg?w=471&h=321

Falar de mim….