A conversão de Murilo Mendes ou: “Retrato Da Amizade” (1)

MURILO MENDES o Poeta Brasileiro de Roma – livro de Maria Betânia Amoroso
é livro de erudição e muito informativo.

Os fãs do poeta mineiro (e cosmopolita) temos em Betânia uma fonte riquíssima de informações sobre a vida, a viagem, as amizades, os amores e a invenção muriliana.

Apesar de manter um certo jargão acadêmico, “vício do cachimbo da pesquisadora universitária“, o livro é muito bom.

Amorosa viagem com  "o Poeta Brasileiro de Roma"
Amorosa viagem com “o Poeta Brasileiro de Roma”

DESTA FEITA, venho para registrar meu encantamento com a leitura do livro da professora Maria Betânia e a grande curiosidade não resolvida sobre o sobrenome da Autora que pode ter (ou não) a ver com meu amado Alceu.

Tamanho é meu entusiasmo com o estilo de Betânia Amoroso que já encomendei à Estante Virtual outro livro dela, Betânia: “Pier Paolo Pasolini“, sobre, evidentemente, a vida e obra do cineasta, poeta e polêmico escritor italiano.

O livro que tenho em mãos e que leio com entusiasmo foi gestado em longa pesquisa, realizada em parte na Itália (entre 2001/09), período em que Betânia Amoroso ouviu, leu e viveu (imagino, pela paixão que o texto transmite) Murilo e suas memórias.

Por ora, fiquem com o belo texto sobre a conversão de Murilo Mendes, de outra safra de Maria Betânia (os artigos), encontrado em academia.edu -, pois ainda não me considero preparado para uma resenha completa do livro, digamos que ainda estou percorrendo o caminho nesta viagem com (e sobre) “O Poeta Brasileiro de Roma”.

 

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Livros 2014

2014 MAIS UM ANO QUE SE VAI.

Com ele, fechei um ciclo.
Malgrado seja apenas uma marca no calendário, nossos corações se exaltam com o fim do ano e o início de outro. Estamos vivos. Podemos olhar e reavaliar o que fizemos. Com as ferramentas de hoje, em alguns minutos, você faz um balanço fotográfico ou de video. O meu olhar é generoso e de imensa gratidão. Afinal, foi um ano em que olhei para mim mesmo e para os meus amados mais próximos, criando novos hábitos, curando feridas e voltando a publicar um livro. Li muito. Estudei. Rezei. Amei muito. Um mundo voltou a se mostrar para mim como horizonte infindo: a Leitura.
O que fazer com o balanço de minhas (suas, leitor?) leituras – em papel ou em meio digital?

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T.S.Eliot (4) com Ivan Junqueira, poeta e tradutor

IVAN JUNQUEIRA e T.S. ELIOT ou:

Como um devoto quebra o altar onde  sua poesia é incensada

e, ainda assim, se torna o maior criador da poesia inglesa?

Eliot-Meia_Idade_thumb.jpg
 legenda

 

T.S. Eliot (1888-1965)

 

 

 


– Essa a pergunta que o poeta e crítico literário Ivan Junqueira tenta responder num ensaio belíssimo (lembrando que a palavra ensaio tem também o sentido da “tentativa“) – que é uma aula para compreender um poeta considerado enigmático e difícil, erudito e fragmentário.

Por entender que esta pergunta e suas múltiplas respostas tem em Junqueira um bom ponto de parte é que repercuto o ensaio neste e em outros dois posts.

Sob o título “Eliot e a Poética do Fragmento”, Ivan Junqueira
traça com seu estilo inconfundível uma visão da erudição de Eliot e a representação do que ele chama de “fragmentação” e citação – um debruçar-se sobre as janelas da tradição (poético-literária) e reinventá-la, respeitando-a e recriando-a como um poeta inovador – o poeta par excellence do séc.XX.

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“No presépio”, de Adélia Prado. Um poema em prosa

Adélia Prado: "No Presépio", um poema em prosa contra a "tristeza e seus requintes"
Adélia Prado, “Filandras”, Edit. Record, Rio de Janeiro, 2011.
Clique na imagem para ver em melhor definição.
Se preferir, leia o texto ao lado.

NO PRESÉPIO*

Por Adélia Prado, poetisa e cronista mineira.

Minha alma debate-se, tentada à tristeza e seus requintes. Meu pai morto não vai repetir este ano: “Nada como um frango com arroz depois da missa”.
Minha irmã chora porque seu marido é amarradinho com dinheiro e ela queria muito comprar uns festões, uns presentinhos mais regalados, ô vida, e ele acha tudo bobagem e só quer saber de encher a geladeira com mortadela e cerveja.

Talvez, por isto, ou porque me achei velha demais no espelho da loja, sinto dificuldades em ajudar Corália. Queria muito chorar, deveras estou chorando, às vésperas do nascimento do Senhor, eu que estremeço recém-nascidos.

Estou achando o mundo triste, querendo pai e mãe, eu também. Corália disse: você é tão criativa! E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não posso.
Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São bonitos demais! À meia-noite o Menino vem, à meia-noite em ponto. Forro o cocho de palha. Ele vem, as coisas sabem, pois estão pulsando, os carneiros de gesso, a estrela de purpurina, a lagoa feita de espelhos.

Vou fazer as guirlandas para Corália enfeitar sua loja. A radiação da “luz que não fere os olhos” abre caminho entre escombros, avança imperceptível e os brutos, até os brutos, banhados. Desfoco um pouco o olhar e lá está o halo, a expectante claridade, em Corália, em Joana com seu marido e em mim, também em mim que escolho beber o vinho da alegria, porque deste lugar, onde “o leão come a palha com o boi“, esta certeza me toma: “um menino pequeno nos conduzirá”.

s pode ter
Presépio – (c) da foto do website abaixo: http://www.culturamix.com/cultura/religiao/presepio-natal

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Fonte: PRADO, Adélia.
“Filandras”, Editora Record –
Rio de Janeiro, 2001, pág. 111.

Walt Whitman (1/10)

“Feuillage, ensemble, accoucheur, trottoir, rendez-vous, embouchure, nonchalance, rondure, rapport…

– A maioria dessas palavras (entre outras do pequeno dicionário “franglais” de Walt Whitman) podem ser achadas no Webster’s “An American Dictionary of the English Language (News Haven, 1841).

Isso é o que nos conta Francis Murphy na introdução à edição da obra de Whitman – “The Complete Poems”, Penguin Books.

H.L. Mencken on Walt Whitman Lingua
Word-coiner, Whitman usou a língua das ruas, o francês, a língua dos negros e dos púlpitos, tudo para enriquecer o verso-livre.

Num famoso artigo, citado por Murphy (não o da lei que leva seu sobrenome!), Mme. Louise Pound refere-se a Whitman como um poeta que, apesar de não ter sido um estudioso da língua de Molière – e nunca ter viajado à França; gostava de incluir o francês em seus poemas. Mme. Pound acreditava que “sua [dele] predileção por coisas francesas tenha vindo de uma viagem que o poeta fizera a New Orleans, em 1848” (*).

O sr. Murphy diz que, desde que Emerson espirituosamente assinalou que “As Folhas da Relva” do Whitman era uma ‘combinação do Bhagavad-Gita com o New York Herald’, os editores têm o prazer de chamar atenção para o fato de que Walt Whitman é um “poliglota” em seu vocabulário poético. É o caso do famoso artigo de Mrs. Pound citado acima – ver referência completa no rodapé deste post.

H. L. Mencken diz que Whitman apenas inventava termos novos e se apropriava de palavras como um “word-coiner” – cunhador de alto estilo, by the way… que, além do franglais queria em sua poesia a língua dos negros, do púlpito, das ruas…enfim, uma língua que fosse próxima da língua falada. Talvez por isso mesmo o efeito final na maioria dos poemas de Whitman é que são muito bons de ser falados, lidos “em voz alta”, como gosto de dizer ou “declamados” que é como se dizia antigamente.
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O verso-livre lhe caía bem por ter sido um tipógrafo, antes de enfermeiro na guerra de Secessão. Enfim, a pesquisa sobre “a polegada a mais sobre Mrs. Dickinson, Emily Dickinson está a toda por essas bandas. Culpa do Euler Fagundes De França Belém, o incentivo de Helio Moreira e de Cecilia Do Amaral Queiroz (que descobrimos, no jantar de ontem, ser excelente pra ler poemas de WW em voz alta!). No Facebook, compartilhei este texto com meu amigo e ex-professor de Francês, com muito aprendi sobre a França, M. Serge Evreinoff e à minha amiga, a poetisa Maria Abadia Silva, francófona.

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(*) A edição da Peguin Books é boa (e portátil) antologia, mas não se rivaliza com a da Library of America (sel. de Justin Kaplan) – “Poetry and Prose”, 1982, que se encontra fácil na B&N ou na Amazon (link acima, para Kindle) e referências abaixo:

Walt Whitman, uma vida dedicada a lapidar Folhas da Relva
As duas edições citadas, sobre a minha mesa, ao compor este post.

Fontes: WHITMAN, Walt. Leaves of Grass. Editoras citadas acima; POUND, Louise. “Walt Whitman and the French Language, in American Speech, vol. I, 1925-6, p. 421-50, cit. by MURPHY, Francis, in Whitman, The Complete Poems, da Penguin Books, 1977, p.22. + Links web acima.

Emily Dickinson, a natureza e suas cores…

Sunset (c) foto Webshots.com, by Kevin McNeal
Sunset (c) foto Webshots.com, by Kevin McNeal


Emily Dickinson

A Natureza raro usa o amarelo,
Antes prefere outros tons;
Reserva-o todo para o pôr-do-sol;
Azul, gasta aos borbotões.

Como a mulher abusa do carmim,
Mas o amarelo – esta cor
Com parcimônia a seleciona, – assim
Como palavras de Amor.

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Fonte: DICKINSON, Emily. “Emily Dickinson: Uma Centena de Poemas”, tradução de Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Editora/USP, 1985. p. 128/9.