Ainda e sempre Fernando Pessoa

A ESSÊNCIA DO COMÉRCIO

(c)Fernando Pessoa

Aqui há anos, antes da Grande Guerra, correu os meios ingleses, como exemplo demonstrativo da insinuação comercial alemã, a notícia do caso curioso das “taças para ovos” (eggcups) que se vendiam na Índia.
O inglês costuma comer os “ovos”, a que nós chamamos “quentes”, não em copos e partidos, mas em pequenas taças de louça, do feitio de meio ovo, e em que o ovo, portanto, entra até metade; partem a extremidade livre do ovo, e comem-no assim, com, uma colher de chá, depois de lhe ter deitado sal e pimenta. Na Índia, colónia britânica, assim se comiam, e naturalmente ainda se comem, os ovos “quentes”. Como é de supor, eram casas inglesas as que, por tradição aparentemente inquebrável, exportavam para a Índia as taças para este fim.

 

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Carlos Alberto Salustri – Trilussa (2) – O gato socialista e outras fábulas

PAULO DUARTE foi o responsável por me fazer chegar às mãos e à mente os poemas de Trilussa, na edição que encontrei num sebo, anos depois de publicada esta 3a. edição, definitiva e com mais 24 poemas inéditos, da Marcus Pereira Publicidade, S. Paulo, 1973.

Trilussa CapaO livrinho me fora recomendado por Anatole Ramos. Anatole foi meu padrinho literário, um tipo à parte no universo da literatura que aqui (em Goiás) se praticava; um revisor de primeira e um cronista generoso que sempre tinha uma palavra de incentivo aos que estavam começando. Ao jovem que eu fui, Anatole sempre prestou a mesma generosa receptividade que fora dada ao jovem e entusiasmado leitor de Trilussa – sr. Paulo Duarte – pelo próprio poeta.
Trilussa nasceu e foi batizado como Carlos Alberto Salustri e eternizado como o poeta “Trilussa”.

A história da amizade entre tradutor e traduzido está muito bem contada na introdução dessa edição citada que tenho em mãos e que prefiro não citar por inteiro, para causar a meus seis leitores o desejo de procurar uma edição deste.

Só o que me interessa agora é transcrever um poeminha de Trilussa, com a finalidade didática de mostrar minha repulsa aos “socialistas” de plantão em nossa pátria e, de resto, em toda a América Latina, oportunistas e “espertalhões matriculados”… Com uma lábia especial e uma articulação de bastidores cheirando ao mofo dos regimes tiranos, ei-los ainda capazes de convencer e ganhar corações e mentes de jovens e até de alguns idosos que não se curam da doença juvenil do esquerdismo.

O Gato Socialista” é um poema da fase de difícil convivência com o fascismo italiano. Fase esta em que, como assinala Paulo Duarte,

“…valeu-lhe [a Trilussa] o melhor de sua obra, os versos contundentes que se tornaram símbolo da inteligência italiana resistindo contra a ditadura, com a qual não é possível coexistir a verdadeira inteligência…”  Foi também a fase em que a vida do poeta tornou-se mais áspera, porque “os jornais tinham medo de publicar certas poesias; os editores não se atreviam a dá-las em volume. A renda diminuiu …” , mas não a poesia; tornando-se, pois, “esse o período mais produtivo do poeta” quando “as suas mais famosas sátiras foram então lançadas. Trilussa lia-as em qualquer ‘osteria’ (hospedagem) onde jantava e algumas era até publicadas…”

Com vocês, meus caros leitores uma das mais saborosas sátira aos oportunistas que insistem em tratar toda a gente como gado manobrável, para os quais o pensamento divergente é motivo de “Listas” – por sinal, de jornalistas (poetas ou pessoas comuns) tão díspares entre si – como Reynaldo Azevedo e Míriam Leitão – pelo simples fato de que não agradam ao Falcão de plantão.


O GATO SOCIALISTA
Trad. Paulo Duarte*

Um Gato, conhecido socialista,
no fundo, espertalhão matriculado,
estava devorando um frango assado
na residência de um capitalista.

Eis então que outro Gato apareceu
na janela que dava para a área:
– Amigo e companheiro também eu
faço parte da classe proletária!

Melhor do que ninguém, conheço as tuas
idéias. Estou mais que certo pois
de que dividirás o frango em duas
partes, uma pra cada um de nós dois!

– Vá andando, resmunga o reformista,
Nada divido seja com quem for,
em jejum, sou de fato socialista,
mas, quando como, sou conservador.

 

Trilussa GatoSocialista

+++++
Fonte: “Versos de Trilussa”, trad. Paulo Duarte, ed. Marcus Pereira, 1973, 3a. ed.
Trilussa, nascido Carlos Alberto Salustri, em Roma 26/SET/1873, morreu na mesma cidade a 21 de dezembro de 1950, poeta e ilustrador, deixou inúmeros livros traduzidos em francês, inglês, espanhol, alemão, russo, grego, húngaro, polonês, tcheco e português (com muito atraso, graças ao esforço do tradutor Paulo Duarte e do editor Marcus Pereira).

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Colaboração em pauta

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Trabalhar juntos – blog, práticas, mentoring

Um dos assuntos a ser abordado – sempre seguindo as lições aprendidas com meus gurus em Colaboração – prof. Morten T. Hansen, Weiss & Hughes, e a dupla Ricci-Wiese será 
– Quão colaborativa é sua liderança?
Você ainda acha que colaboração é teamwork apenas (trabalho em equipe). Ou é um processo?
Você acredita mesmo que colaboração se resolve (somente) com ferramentas de T.I.?

Tudo isso e muito mais. Inscreva-se Já!
Colab_Livros

O que será melhor: filme ou livro?

Como gostei demais do filme, aproveitei a oferta do Amazon Kindle Unlimited (for free, 30 dias).
É o teste entre a beleza dos efeitos especiais do cinema versus a página impressa (ou digitalizada, que dá no mesmo), onde só o texto deve agarrar e manter o leitor.
Vejamos. À suivre.

“Porque estás vivo aqui, agora e sempre…” Adeus, poeta!

IVAN JUNQUEIRA, 1934-2014, poeta e tradutor, autor entre outros de “Os Mortos” (1964), “Três Meditações na Corda Lírica” (1977), “A Rainha Arcaica” ( 1980). Tradutor a quem devemos o melhor de T.S. Eliot em português – “Quatro Quartetos” (1967) e T.S.Eliot Poesia Completa (1981) e os Ensaios (1991). Para consultar uma 
bibliografia completa visite este link da ABL.

No último dia 03 de julho, em meio às notícias geradas pela Copa do Mundo da Fifa/14, somos comunicados da morte do poeta Ivan Junqueira. Entre os inúmeros obituários, dou a preferência a este, escrito no website do colégio em que o poeta fez seus primeiros estudos – o Colégio Notre Dame de Ipanema no Rio de Janeiro.

Membro da Academia Brasileira de Letras, o ex-aluno do Notre Dame, estudou Medicina e Filosofia, sem terminar os cursos, voltando-se ao chamado das letras na imprensa e como tradutor e, principalmente, poeta. Dele disse o presidente da ABL, ao saber de seu passamento: “…grande poeta, mestre indiscutível nas artes do ensaio crítico e da tradução literária, Ivan deixa um legado que enriquece a nossa tradição e a história literária do Brasil.”

Li pela vez primeira os poemas de Ivan na década de 80, com o belo volume de “A rainha arcaica”.

Dentro do volumezinho lido e relido – tantas vezes assustado com a grandeza do poeta, que me deixa(va) envergonhado de me pretender poeta, encontro um recorte da Folha de S.Paulo, em que Nogueira Moutinho exalta a poesia de Ivan, com frase lapidar:

“O poeta pertence, realmente, à família dos que preferem sugerir e entremostrar em vez de praticar uma incisão nítida na  placa metálica da linguagem. Não é um gravador, é antes um debuxador de ‘fusains’. Nesses desenhos a carvão que são alguns de seus poemas, eu destacaria as ‘Três Meditações na Corda Lírica”, sobretudo a primeira, em que Ivan Junqueira parece delinear os princípios de sua arte poética, fora do tempo, mas no tempo audível” .

Talvez por essa observação gravada no recortezinho, apaixonei-me pelo poema, que reproduzo aqui  – como minha forma de dizer Adeus ao poeta Ivan e aos leitores: sei que o poeta está vivo…

Ivan Junqueira

Três Meditações na Corda Lírica (1)

(À Margarida)

“Only trough time time is conquered” (T.S.Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92).

Deixa tombar teu corpo sobre a terra
e escuta a voz escura das raízes,
do limo primitivo, da limalha
fina do que é findo e ainda respira.

O que passou (não tanto a treva e a cinza
que os mortos vestem para rir dos vivos)
mais vivo está que toda essa harmonia
de claves e colcheias retorcidas,
mais vivo está porque o escutas limpo,
fora do tempo, mas no tempo audível
de teu olvido, partitura antiga,
para alaúde e lira escrita, timbre
que vibra sem alívio no vazio,
coral de sinos, música de si
mesma esquecida, aquém e além ouvida.

O que passou (à tona, cicatriz)
é dor que nunca dói na superfície,
ao nível do martírio, mas na fibra
da dor que só destila sua resina
quando escondida sob o pó das frinchas
e que, doída assim tão funda e esquiva,
é mais que dor ou cicatriz: estigma
aberto pela morte de outras vidas
nas pálpebras cerradas do existido,
espessa floração de espinhos ígneos,
solstício do suplício, dor a pino
de te saberes resto de um menino
que anoiteceu contigo num jardim
entre brinquedos e vogais partidas.

E tudo é apenas isso, esse fluir
de vozes quebradiças, ida e vinda
de ti por tuas veias e teus rios,
onde o tempo não cessa, onde o princípio
de tudo está no fim, e o fim na origem,
onde a mudança e movimento filtram
sua alquimia de vigília e ritmo,
onde és apenas linfa e labirinto,
caminho que retorna ao limo, à fina
limalha do que é findo e ainda respira
para depois, o mesmo, erguer-se a ti,
ao que serás, porqu estás vivo aqui,
agora e sempre, antes e após de tudo.

Deixa tombar teu corpo e te acostuma,
húmus, à terra – útero e sepulcro.
+++++
Fonte: JUNQUEIRA, Ivan. “A rainha arcaica”, Rio de Janeiro, Nova Fronteira Edit. , 1980.

“Porque estás vivo aqui, agora e sempre…” Adeus, poeta!

IVAN JUNQUEIRA, 1934-2014, poeta e tradutor, autor entre outros de “Os Mortos” (1964), “Três Meditações na Corda Lírica” (1977), “A Rainha Arcaica” ( 1980). Tradutor a quem devemos o melhor de T.S. Eliot em português – “Quatro Quartetos” (1967) e T.S.Eliot Poesia Completa (1981) e os Ensaios (1991). Para consultar uma 
bibliografia completa visite este link da ABL.

No último dia 03 de julho, em meio às notícias geradas pela Copa do Mundo da Fifa/14, somos comunicados da morte do poeta Ivan Junqueira. Entre os inúmeros obituários, dou a preferência a este, escrito no website do colégio em que o poeta fez seus primeiros estudos – o Colégio Notre Dame de Ipanema no Rio de Janeiro.

Membro da Academia Brasileira de Letras, o ex-aluno do Notre Dame, estudou Medicina e Filosofia, sem terminar os cursos, voltando-se ao chamado das letras na imprensa e como tradutor e, principalmente, poeta. Dele disse o presidente da ABL, ao saber de seu passamento: “…grande poeta, mestre indiscutível nas artes do ensaio crítico e da tradução literária, Ivan deixa um legado que enriquece a nossa tradição e a história literária do Brasil.”

Li pela vez primeira os poemas de Ivan na década de 80, com o belo volume de “A rainha arcaica”.

Dentro do volumezinho lido e relido – tantas vezes assustado com a grandeza do poeta, que me deixa(va) envergonhado de me pretender poeta, encontro um recorte da Folha de S.Paulo, em que Nogueira Moutinho exalta a poesia de Ivan, com frase lapidar:

“O poeta pertence, realmente, à família dos que preferem sugerir e entremostrar em vez de praticar uma incisão nítida na  placa metálica da linguagem. Não é um gravador, é antes um debuxador de ‘fusains’. Nesses desenhos a carvão que são alguns de seus poemas, eu destacaria as ‘Três Meditações na Corda Lírica”, sobretudo a primeira, em que Ivan Junqueira parece delinear os princípios de sua arte poética, fora do tempo, mas no tempo audível” .

Talvez por essa observação gravada no recortezinho, apaixonei-me pelo poema, que reproduzo aqui  – como minha forma de dizer Adeus ao poeta Ivan e aos leitores: sei que o poeta está vivo…

Ivan Junqueira

Três Meditações na Corda Lírica (1)

(À Margarida)

“Only trough time time is conquered” (T.S.Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92).

Deixa tombar teu corpo sobre a terra
e escuta a voz escura das raízes,
do limo primitivo, da limalha
fina do que é findo e ainda respira.

O que passou (não tanto a treva e a cinza
que os mortos vestem para rir dos vivos)
mais vivo está que toda essa harmonia
de claves e colcheias retorcidas,
mais vivo está porque o escutas limpo,
fora do tempo, mas no tempo audível
de teu olvido, partitura antiga,
para alaúde e lira escrita, timbre
que vibra sem alívio no vazio,
coral de sinos, música de si
mesma esquecida, aquém e além ouvida.

O que passou (à tona, cicatriz)
é dor que nunca dói na superfície,
ao nível do martírio, mas na fibra
da dor que só destila sua resina
quando escondida sob o pó das frinchas
e que, doída assim tão funda e esquiva,
é mais que dor ou cicatriz: estigma
aberto pela morte de outras vidas
nas pálpebras cerradas do existido,
espessa floração de espinhos ígneos,
solstício do suplício, dor a pino
de te saberes resto de um menino
que anoiteceu contigo num jardim
entre brinquedos e vogais partidas.

E tudo é apenas isso, esse fluir
de vozes quebradiças, ida e vinda
de ti por tuas veias e teus rios,
onde o tempo não cessa, onde o princípio
de tudo está no fim, e o fim na origem,
onde a mudança e movimento filtram
sua alquimia de vigília e ritmo,
onde és apenas linfa e labirinto,
caminho que retorna ao limo, à fina
limalha do que é findo e ainda respira
para depois, o mesmo, erguer-se a ti,
ao que serás, porqu estás vivo aqui,
agora e sempre, antes e após de tudo.

Deixa tombar teu corpo e te acostuma,
húmus, à terra – útero e sepulcro.
+++++
Fonte: JUNQUEIRA, Ivan. “A rainha arcaica”, Rio de Janeiro, Nova Fronteira Edit. , 1980.

Colaboração é tema de minha palestra na AMCHAM/Goiânia

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Comitê de GE