Quando a Poesia é uma forma de oração (I)

HÁ POETAS PARA QUEM escrever é uma forma de rezar.
Um exemplo evidente do que estou dizendo vem de boa parte da poesia de Jorge de Lima. E se cantar é rezar duas vezes,  diria que fazer (ou ler) poemas dessa natureza é, sim, uma forma de prece silenciosa.

“Para Claudel, o poeta cristão está em contínua celebração, pois é por ela que expressa o desejo mais profundo: “A louvação, a celebração é talvez a maior elevação da poesia, porque ela é a expressão do desejo mais profundo da alma, a voz da alegria e da vida. O dever de toda criação. Aquele que cada criatura tem desejo de todos os outros.” (de Gilberto Mendonça Teles, na Revista da PUC, Rio, Poesia e Religião. (2)

Poema do Cristão – Jorde de Lima*

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.|
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas,
que eu decomponho e absorvo com os sentidos,
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros como as estrelas-do-mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém.
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas,
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo com a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita,
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais,
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega,
[peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou
[tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado,
[tenho mantos de púrpura, e de estamenha, sou burríssimo
[como São Cristóvão, e sapientíssimo como Santo Tomás.
[E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para
[todos os séculos, louco de Deus, amém!

E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem
[e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!

Anoto algumas amostras de como a poesia de Jorge alcança o estado de prece. Não sem razão isso o faz distinguir de tantas outras vozes poéticas brasileiras, pois, seg. Gilberto Mendonça Teles
se houve poeta visceralmente religioso em nossa poesia, se houve escritor cuja obra foi toda penetrada de uma substância mística, foi sem dúvida alguma Jorge de Lima…” E, isso, o destaca mesmo entre os membros da ilustre “trindade sagrada da Poesia Católica Brasileira” – ele, Jorge de Lima, Murilo – que Jorge considerava “o Grade Poeta Amigo –, e Augusto Frederico Schmidt. Fico com Jorge:

a) De “A Túnica Inconsútil” – onde se encontra esta espécie de “valor de eternidade, de permanência” que destacou Mário de Andrade, em Nota Preliminar à edição da Aguilar (1958). Queria ele, Jorge de Lima que “A Túnica…” fosse considerado “um poema só” e não um livro de poemas.

Pois bem, um ou muitos poema(s), o valor ali está, assinalado por Mário, no ato de o Poeta “rastrear, poética e tematicamente a Bíblia”; e este valor aumenta com o preenchimento com “pouca sonoridade” (diz Mário), mas “cheio da mais rica e mesmo surpreendente imaginação” poética.

“Poema do Cristão” – a leitura de todo o(s) poema(s) de “A Túnica…” pressupõe mais do que o sr. Mário de Andrade, do alto de seu posto de crítico literário pôde ver, naquele artigo de 1938, publicado n’O Estadão e que virou prefácio do livro.
O mais é a possibilidade de descortinar a visão do Jorge de Lima, místico.

Ao abrir o livro, Jorge nos lança uma dicotomia que nos dá pistas importantes para a leitura do poema como forma de oração:

(1) “sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas…
que decomponho e absorvo com os sentidos”

E de outra parte:

(2) “e compreendo com a inteligência
      transfigurada em Cristo.”

(3) E conduz o leitor à conclusão mais pertinente da adoção desta postura de Fé:
”Tenho os movimentos alargados.”

Analisemos a expressão “inteligência transfigurada”.

Segundo a The Catholic Encyclopedia,

“…a Transfiguração de Cristo é o ponto culminante de sua vida pública, como o Seu batismo é o seu ponto de partida, e Sua Ascensão ao fim. Além disso, este glorioso evento tem sido relacionada em detalhes por S.Mateus ( 17:1-6 ), S. Marcos ( 9:1-8 ), e S. Lucas ( 9:28-36 ), enquanto S. Pedro ( 2 Pedro 1:16-18 ) e S. João ( 01:14 ), duas das testemunhas privilegiadas, fazem alusão a ela.

“Cerca de uma semana depois de sua estada em Cesaréia de Filipe , Jesus tomou consigo Pedro e Tiago e Joãoe levou-os a um alto monte, onde Ele foi transfigurado diante de seus olhos violadas. S. Mateus e S. Marcos expressarem este fenômeno pela palavra metemorphothe , que a Vulgata torna transfiguratus est. Os evangelhos Sinópticos explicam o verdadeiro significado da palavra, acrescentando “o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a neve“, segundo a Vulgata , ou “como a luz“, segundo o texto grego.

“Este deslumbrante brilho que emana de todo o Seu corpo foi produzido por um brilhante interior de sua Divindade. O falso judaísmo havia rejeitado o Messias , e agora o verdadeiro judaísmo , representado por Moisés e Elias , a Lei e os Profetas , o reconhece e adora o Cristo, enquanto no o “Segundo tempo” Deus Pai proclamou Seu unigênito e bem-amado Filho .

Por esta manifestação gloriosa do Divino Mestre , que tinha recém-anunciado sua paixão ao Apóstolos ( Mateus 16:21 ), e que falou com Moisés e Elias antes dos julgamentos que Ele esperara em Jerusalém , fortaleceu a de seus três amigos (Pedro, Tiago e João) e preparou-os para a luta terrível de que eles deveriam ser testemunhas em Gethsemani , dando-lhes uma antecipação da glória e celeste se deleita em que alcançamos pelo sofrimento.”

Parece-nos que o Poeta quer buscar esse momento culminante da vida pública de Jesus para trazer à página poética uma expressão que trará o brilho que a compreensão “dos sentidos” seria incapaz de fazer.

Etimologicamente, a palavra “transfigurado” provém do grego: “metemorphothe”, donde decorre metamorfose. Nós usamos esta palavra para descrever a mudança que ocorre, p.ex., quando uma lagarta se torna uma borboleta. Analistas dizem que Jesus tranfigurado é descrito nos evangelhos de forma similar ao que fora Moisés no Sinai: “a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante a sua conversa com o Senhor; (…) todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele (…) e havia um véu no seu rosto. Mas, entrando Moisés diante do Senhor para falar com ele, tirava o véu até sair. E, saindo, transmitia aos israelitas as ordens recebidas. Estes viam irradiar a pele de seu rosto; em seguida Moisés recolocava o véu no seu rosto até a próxima entrevista com o Senhor.”
(Êxodo, 34:29-35).

Que metamorfose(s) procura o poeta? Seria (a) luz que aos olhos do leitor possa iluminar territórios nunca vistos? Deixaria, em meio à transfiguração, véus que haveremos de desvelar para entender toda a Poema do Cristão Jorge?

Encontramos alguns porquês e algumas mais de (suas) decorrências ou consequências – que são deliberados vôos, na poesia de Jorge (e de resto na Poesia tout court); e a razão (esses tantos porquês) às vezes faz despencar do alto vôo em nossa pobre humanidade. Por certo, mesmo na escuridão da busca de entendimento, pode-se entender que uma coisa é do estado larval (a lagarta que sonha em alçar vôo) e o Poeta-pássaro capaz de vôos – “vôos eram fora do mundo”. Vôos que são a própria finalidade

– “Não há escuridão mais para mim.” Declara aquele que “compreende” com a “inteligência transfigurada em Cristo”.

Por isso mesmo, talvez, é que possa o poeta “transfigurado” afirmar:

“Opero transfusões de luz nos seres opacos”.

Eis-me opaco para tão alta compreensão, diria o leitor; para quem armar-se da mera inteligência (Razão) diante da Poesia é sempre pouco – tal como os apenas os sentidos o são para, depois de “decomposto e absorvido” transformar num caldo tão rico de místicos vôos…

É preciso mais ao poeta e sua “inspiração” em direção ao fecho do poema, a prece:

”Nada sou.
”Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!”
[Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo sua misericórdia infinita].

(*) No próximo post, a releitura do poema “Confissões, Lamentações e Esperança a Caminho de Damasco” e no terceiro da série falarei sobre os (b) De “Tempo e Eternidade”.
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Fontes:
(1) LIMA, Jorge de. “A Túnica Inconsútil”, Edit. Aguilar, “Jorge de Lima: Obra Completa”, Rio de Janeiro, 1958, p. 425/6.
(2) REVISTA MAGIS – CADERNOS DE FÉ E CULTURA, Ed. 2006.
(3) The Catholic Encyclopedia – verbete Transfiguration.

Uma Excursão Aventurosa

Seguindo o conselho do poeta gaúcho, poeta do mundo, Augusto Meyer, preparei-me para uma “excursão aventurosa” nos territórios do mais famoso florentino (e expatriado) Dante Alighieri, poeta da Humanidade.

O poeta gaúcho A.Meyer
Augusto Meyer, foto-autógrafo, ABL

E PARA SEGUIR o conselho do mestre Meyer à risca, tomei o atalho dessa viagem, como prescrito:

No caso de Dante, sempre me pareceu que valia a pena tentar a experiência que o reparo de Eliot* sugere. Em meu curso de Teoria Literária, mais uma vez recomendei essa excursão aventurosa, não digo pelo Inferno, sem Virgílio e sem guia turístico, mas pela Vita Nuova. Mais precisamente: recomendei, com ou sem preparo, a leitura de alguns sonetos e trechos de prosa do singular livrinho”.

Na minha última viagem aos EUA, tive a chance de incluir essa “excursão aventurosa” nas minhas visitas à Universidade do Novo México (UNM), onde descobri um paraíso chamado Zimmerman Library.

Lá, além de poder ler, adquiri o direito que toda a comunidade de Albuquerque (NM) tem de se tornar leitor frequente da biblioteca ZL e retirar livros, como o recomendado por Augusto Meyer, nos anos ‘60…
e continuamente recomendado pelos bons críticos da obra do ‘florentino’, como mr. Dreher no carderno de literatura do WSJ / Review do sábado pascoal de 2014 – e que já referenciei aqui (vide foto abaixo).

Este “singular livrinho” de Dante me deu aquela alegria que Meyer chama de uma dádiva especial ao “leitor comum” (por oposição ao ‘letrado’); com a sua fruição que traz uma “colaboração emotiva”, por causa do “frescor da sensibilidade” do leitor apaixonado pela Poesia. Só na pele de leitor desarmado temos a “tonalidade emotiva” onde fala mais alto a linguagem do sentimento.

Desejo, pois, que você, leitor, aproveite o soneto que não poucos críticos catalogam como dos melhores na história da literatura mundial (Musa). Trago o dito soneto “Tanto gentile…” – o famoso Soneto XV de “Vita Nuova”, em 3 versões.
Num próximo post, pretendo supreender-lhe, dileto leitor, com algumas notas de Augusto Meyer sobre a tradução deste famoso soneto.

Aqui o original italiano e a tradução de Mark Musa (que se nega a aplicar rimas em inglês, ao traduzir a obra de Dante para a língua de Shakespeare – sábia decisão, pois que aí muitos tropeçam).

Abaixo, a transcrição em português, de uma das tantas traduções do famoso soneto de Vita Nuova –autoria de Eliane A. Zucculin Nucci; não se esquecendo de anotar o que Dante (o nosso) Milano disse, ao traduzir 3 cantos do “Inferno”:
“É enorme a diferença entre o verbo forte e áspero de Dante e a nossa língua de índole branda” (isso aplicável aos cantos do Inferno, seria cabível a este doce soneto?
– “A linguagem de um poeta não pode ser trasladada a outro idioma; pode-se traduzir o que ele quis dizer, mas nunca o que ele disse…”(D.M.):

Trad. do Soneto XV de Vita Nuova - Dante, by Zucculin Nucci
Dificuldades da tradução em Dante, (c) : Eliane A. Zucculin Nucci

Leia mais

O alimento quotidiano

“A Oração ao romper da alva (*)

A oração ocupava um lugar prioritário na sua ordem do dia. Fazia-a, habitualmente, logo de manhã cedo. Excepcionalmente, ia à capela durante a noite. “Era quase sempre difícil – escreveu – permanecer imóvel a contemplar Deus no silêncio e na aridez da fé”.
Mas confiava em Deus, pois a sua graça, para além da nossa sensibilidade e reações, atua em nós mesmo sem nos darmos conta.
Uma vez recomendou a uma pessoa que lhe era próxima, que “expusesse a alma ao sol de Deus e que não receasse perder o seu tempo permanecendo na capela mesmo que nada sentisse. É preciso dar tempo ao sol para nos bronzear, o que requer um pouco de paciência”.
A oração matutina levava o Rei a adotar uma atitude de escuta e de disponibilidade diante de Deus, para depois servir melhor os homens. Era a audiência que o Senhor lhe concedia e que o ajudava a estar atento às pessoas com quem iria se encontrar.
Na oração, apresentava a Deus o dia inteiro. Por isso, ali procurava o alimento diário. Antes de ser “pedido”, a oração é “escuta”. Não temos que rezar até Deus nos ouvir, mas até ouvirmos o que Deus quer de nós.”

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Fonte: 
(*) SUENENS
, Cardeal. “”, Editorial A.O., Braga, Portugal, 2a. ed., 1995, trad. Margarida Osório Gonçalves, p.65.

Um tempo Cinzento: Brasil 2014–a transparência do Mal…Misererê!

Com Licença Poética, eis que se anuncia a lucidez da poetisa mineira Adélia Prado!
A seguir, neste link, veja a entrevista completa de dona Adélia Prado: é lucidez de Poeta-Profeta!

ADÉLIA nos alerta que estamos vivendo “um tempo cinzento… em que o Mal está em toda parte, por todo canto dos poderes do Brasil e isso gera um país triste…

“Nós estamos vivendo um momento muito esquisito, um momento muito triste. É uma ditadura disfarçada. Não me sinto em um país democrático. (…) Na ditadura (militar) nós estávamos mais vivos do que estamos agora.”

“Eu não me sinto vivendo numa democracia” (Adélia Prado).
“Ai, a ausência de Qualidade do nosso Parlamento…”

Sobre a omissão dos intelectuais, ditos de esquerda: “Os intelectuais estão ausentes… os ditos artistas, intelectuais de esquerda…essas pessoas se calaram”.
”Os que faziam o panegírico
do PT, não tiveram a humildade de dizer: ERRAMOS!”
O País está naquele estágio em que Jean Braudillard chamava de
transparência do Mal”…
Ele, o Mal, está por toda a parte, em todos os poderes da República, na vida do país.

Vivemos num país que é como “comida envenenada”.
“Isso tudo me dá uma ‘aflição danada’…”

Será que só a Poetisa sente isso?

A banalidade do Mal tirou da República sua face alegre…
Talvez por isso mesmo as bandeiras verde-amarelas não tremulam a 25 dias da Copa do Mundo.

A honestidade intelectual e a coragem desta poetisa mineira já vem de longe, no livro de estréia:

“Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.”

(Com Licença Poética, Adélia Prado)

Um desabafo tão lúcido assim tem a ver com um tema histórico, recorrente na história da humanidade: a banalidade do Mal.

Místicos e Mestres Medievais

Na UNIVERSIDADE DO NOVO MÉXICO (UNM),Medieval Lectures0001 passei uma agradável semana acompanhando palestras sobre o tema em referência,

– foi uma excelente atividade no meu período de férias in USA, e uma rara oportunidade de retomar o estudo de assuntos que tangenciavam meu dia-a-dia como comerciante, sofrendo em meio à ázafama do cotidiano o que S.Tomás (ele que foi membro de uma família de comerciantes) – , chamava de “as agruras do comércio”.

O evento MEDIEVAL MYSTICS AND MASTERS, Spring Lectures Series 2014, ocorrido em Albuquerque (NM, USA), de 18 abril/1o. de Maio; de iniciativa do Institute for Medieval Studies (IMS) e apoio da comunidade local.

O fato me animou a retornar à UNM no próximo Outono (Fall ‘14), para me dedicar aos estudos de Humanidades (Francês e estudos Medievais), que por muitos anos foram sendo adiados em virtude da agenda quase sempre repleta de compromissos comerciais, como diretor da Multidata Informática nestes últimos 20 anos.

Abaixo, o leitor encontrará minha visão geral do evento e o que nele mais me chamou a atenção. Foram seis dias de intensa atividade de retorno a uma época da história da Humanidade que é de uma riqueza insondável, às vezes obnubliada pelo preconceito difundido por certa parte da mídia.

Ao designar a era Medieval como idade das trevas, não fazem tais críticos senão uma ‘generalização apressada’ sobre uma período riquíssimo em cultura, espiritualidade e visões definitivas para o que hoje gozam no ambiente acadêmico e cultural pós-Iluminista.

FRANKLIN de Oliveira resumiu muito bem tal preconceito, em seu magistral livro sobre Literatura e Civilização:

A idade Médianão foi, de forma alguma, a Dark Ages inventada pelos historiadores liberais do séc. XIX, mas genuína herdeira do mundo greco-romano. (*)

“Desde logo acentue-se que sem o conhecimento de sua história torna-se impossível a compreensão do mundo moderno, consequentemente do mundo contemporâneo.

Há um fato fundamental, que, dizendo de sua importância, também elide as teorias que a definiram como época escura: ela significa a fundação da Europa em sua base cristã-romana. Para apreender-se o veio subterrâneo que a informou basta pensar, numa simplificação que, apesar de ser quase um despojamento histórico, nem por isto despe-se de significação cultural, em dois fatos que ocorreram no seu seio: o estupendo fato da literatura provençal e a aparição da poesia dos clerici vagantes.

“…Pense-se nos vários proto-renascimentos que ocorreram no bojo do Medievo, onde Francesco d’Assisi acionou a grande revolução espiritual de que se nutriram a pintura de Giotto, o visionarismo libertário de Gioacchino da Fiore, de Giovanni da Parma, de Pier di Giovanni Olivi, Ubertino da Casale, Michele da Cesena, Almarico di Bena, os Spirituali e a poesia de Dante.” (1)

a) DO ESCOPO do evento:

NOTA-SE, desde logo, um claro ecumenismo na programação do evento, o que se refletiu também no auditório, onde era notável a presença de diversos credos.
No primeiro dia sentei-me ao lado do meu colega Bernard Hassan (Ossian), e logo travamos relacionamento com dois padres que estavam sentados na fila atrás de nós. O frei Peter é o pároco na igreja santa Maria de la Via Abbey (Our Lady of the Most Holy Rosary). Seu interesse naturalmente é imenso sobre o tema, muito mais porque acaba de concluir alguns anos de pesquisa e deve preparar um livro sobre a idade Média, com foco no Tomismo. Havia outros clérigos católicos e leigos de diversas religiões (protestantes, islamitas, judeus e hindus), além, é claro, de membros (amigos) da sociedade que patrocina o evento junto com o ISM – veja no verso do folheto em cópia os apoios, com destaque para a sociedade “Friends of Medieval Studies”.

O programa incluía, pois, uma mirada ampla que começava nos místicos cristãos Hildegard de Bingen e Giocchiano da Fiore; passando por dois mestres muçulmanos – Avicena e al-Farabi; chegando ao Sufismo medieval (com Jalal al-Din Rumi); além de uma sessão dedicada ao Budismo tibetano, representado na vida e obra de Yeshe Tsogyal, figura central da mais antiga escola tibetana de Budismo.
Sem dúvida, Os palestrantes eram todos de alto nível, como se pode ver pela ficha de cada um deles, sempre professores eméritos, mestres e doutores com uma ou várias publicações sobre o tema que focaram em suas conferências. Um especialista em filosofia islâmica e judaica –
Lenn E. Goodman abordou os dois mestres muçulmanos (Al-Farabi e Avicena), além da vida e obra do Rabbi Moses ben Maimon (1138-1204)  – que não são objeto deste post.

b) DOS MÍSTICOS CRISTÃOS – O professor Dr. Bernard McGinn foi o palestrante que mais me empolgou, seja pela qualidade das intervenções, seja pela vitalidade e bom-humor demonstrados em suas conferências.

Especialista em história da teologia Cristã, em Patrística e Medievalismo, McGinn tem diversos livros publicados (veja lista no link abaixo) e, recentemente, tem se dedicado a escrever sobre escatologia e história da espiritualidade e do misticismo.

ComAutografo Dr.BernardMcGinno fiquei fã do estilo e do alto saber do professor, superei minha timidez e ousei  pedir-lhe um autógrafo em livro que eu já havia encomendado à Amazon: “The Doctors of the Church”.

Escolhi esse e mais um outro exemplar para adquirir durante o evento por conta de interesses anteriores – p.ex., minha admiração e constante desejo de conhecer mais aprofundadamente a obra de Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz; Santa Catarina de Sena entre outros Doutore(a)s da Igreja. Adquiri também “ (Modern Library Classics)” – vide resenha neste link.
Ambos estão na fila de leitura que aumentou consideravelmente depois deste seminário na UNM.

Fiquei impressionado com a força espiritual e muito interessado em dois personagens que eu não conhecia tanto, em meio a tantos Mestres e Místicos (do período abordado); além do visionário Gioacchino Da Fiori (que eu já conhecia de minhas leituras nos livros de Eric Voegelin) – destaco Hildegard de Bingen e Mestre Eckhart.

O traço comum que encontrei entre esses homens e mulheres deste rico período medieval foi a imensa capacidade que tiveram de manter contínuo diálogo com Deus, de manter a centralidade no Sagrado e uma forte determinação de manter fina sintonia com o Criador.

Fiquei também muito interessado em ler os Sermões de Eckhart, o dominicano de Colônia (Alemanha) que encantou Paris com suas homilias, mas não agradou o papa João XXIII, que o acusa de heresia e o persegue mesmo depois da morte do mestre Eckhart…


O raro título de “Magister Academus” (Meister) recebido na Sorbonne se incorpora ao seu nome de batismo, passando o dominicano Johannes Eckhart a ser chamado de Meister Eckhart (**) – “um servo de Deus que nunca parou de sonhar e de trabalhar, pregador, doutrinador e escritor incansável..”

Ele recebeu de seus colegas dominicanos a fraternidade e a láurea de ser reconhecido o primeiro pregador a juntar a Escolástica com a Nova Teologia em vernáculo (a chamada “emerging vernacular theology”, lembrando que o Latim era a língua da Igreja, nos sermões e nos estudos teológicos à época).

Apesar da grandeza de tudo que fez, Mestre Eckhart teve divergências com o papa. Na época em que João XXIII ordena que ele justifique uma nova série de proposições extraídas de seus escritos, ele declarou:

“Eu posso errar, mas eu não sou um herege, pois errar tem a ver com a mente e o segundo com a vontade!”

Diante de juízes que não tinham experiência mística comparável a sua própria, Eckhart se referiu a sua certeza interior assim:

…O que eu tenho ensinado é a verdade nua e crua”; pois:
O olho com que eu vejo Deus é o mesmo pelo qual Ele me vê…

A bula do Papa João XXII , de 27 de março de 1329, condena 28 proposições extraídas das duas listas. Uma vez que fala de Meister Eckhart como já morto, infere-se que Eckhart morreu algum tempo antes, talvez em 1327 ou 1328. Ele também diz que Eckhart tinha recolhido os erros da acusação.

Era intensa e íntima sua ligação com Deus e esse era o caminho que desejava para os seus fiéis e o que pregava em seus sermões. Uma frase sintetiza sua definição prática do que seu misticismo:

“Misticismo é profunda consciência de Deus em nossa vida;
é busca de profundo conhecimento e profunda União com Deus…”

Medieval Lectures0002O professor McGinn criou um gráfico (manual mesmo) sobre o pensamento místico da maturidade do Meister Eckhart – baseado em “Grunt = Ground” – quatro estágios da união entre a alma humana e Deus: algo na linha do que a enciclopédia Britannica considera como traços de “dissimilarity, similarity, identity, breakthrough” no maduro Eckhart (e muito mais!) – e quem sabe, me animo a num próximo post dedicar-me a repercutir esse aspecto da palestra, pois que amplo e profundo demais para o final dessas linhas?!

NOTAS ESPARSAS – de B.McG.
– 3 são os tipos de cristãos do Medievo:
a) Os visionários; b) Os místicos; c) Os Profetas.
Gioacchino-da-Fiore-232x300
Joaquim da Fiori reúne as 3 qualidades. (cfme. II Cor. 12: Os sinais distintivos do verdadeiro apóstolo se realizaram em vosso meio através de uma paciência a toda prova, de sinais, prodígios e milagres.).

– No Evangelho de S. João o dom que caracteriza o “Visionário” se torna evidente em 24 citações do verbo “Ver” (em diversos tempos), incluindo o convite: “Vinde e Vede…”
(Ev. Jo.: 1:38 – “Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes:
Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?
39 Vinde e vede, respondeu-lhes Ele…”).

– Comuns aos apóstolos e seguidores de Cristo até a idade Média, as “Visões” foram decisivas para a construção do Cristianismo e dos espaços que a Igreja viria a ocupar – ordens, templos, escritos, releitura da Tradição etc. A Revelação continuada se traduz, assim, em visões espirituais e intelectuais. Essas visões se tornam formas externas de uma “extasis” (cf. ecstasis).

– Aquilo que designamos por “visões supernaturais”, restritas a uns poucos é “um Olhar especial para Deus”. Por vezes, essas visões permitem construir mosteiros (Hildegard de Bingen e Joaquim da Fiori), descobrir continentes (Colombo e a visão de novas terras); o dom de fornecer “dicas” sobre eventos futuros – vide o encontro de Da Fiori com o Rei Ricardo “Coração de Leão”; exercer uma pedagogia (educação de noviços, disciplina para o serviço religioso: pregadores, monges e monjas) – entender (e fazer entender) o mistério da Santíssima Trindade (p.ex., em Hildegard).

– As visões de Hildegard, diz McGinn “indicam sempre um didático propósito: a Unidade da Santíssima Trindade (vide figuras que bem ilustram as visões).
Santa Hildegard de Bingen
foi declarada
Doutora da Igreja por Bento XVI, em 2012. Sua obra mais difundida e que dela faz quase um consenso de que é uma Santa para o nosso século – “The Book of Divine Works”.

Fico devendo também algumas linhas (mais aprofundadas) sobre Gioacchino da Fiori e Hildegard de Bingen, ambos visionários e realizadores, sempre inspirados na sua Fé e em viver o misticismo inteiramente

c) E antes de terminar, alinho minhas perspectivas e sonhos de voltar à UNM no próximo Outono ( Fall’14 ) para cursos de Religião comparada e de Francês, departamento este em que fui muito bem recebido pela professora Marina Peters-Newells.

d) Plano de leituras e livros referenciados no conclave:
Perdoe-me se o tempo e o espaço não me permitem me dedicar a outras conferências, mas como se sabe, todo texto exige escolha de palavras e é comandado pelo gosto pessoal do blogueiro.
Não imagine o leitor que desgostei das demais palestras, mas por ter gostado tanto das palestras e dos temas de McGinn, é que escolhi dedicar-me mais aos tópicos por ele levantados. E, para finalizar, deixo aos interessados nos livros do dr. Bernard McGinn, um link da Amazon dos livros de sua autoria e da página especial dedicada no website ao Autor.

LINK para >>>Dr. Bernard McGinn na AMAZON.com Bernard McGinn

(*) Conexões: um agradecimento especial a meu amigo Bernard Hassan e à professora Marina Peter-Newells (French Department) pelas orientações e pelas conexões que me ajudaram a sonhar com (e tornar possível) meu retorno à Universidade do Novo México em setembro próximo, para estudos em Religião e Francês.

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Fontes:
(1) DE OLIVEIRA, Franklin. “Literatura e Civilização”, Ed. Difel-INL/Mec, S. Paulo, 1978. p.18/19.
…Idade Média: esta nova aetas, que Melchior Goldast, em 1604 denominou medium aevum e Joachim von Watt media aetas – nesta linha de seccionamento da unidade do fluxo histórico navegaram Beatus Rhenanus e Heerwegwn, utilizando-se em Basiléia dos conceitos de media antiquitas e media tempora, e Georg Horn, em Leiden, que incorporaram em 1665 o período à historia recentior em oposição à historia antiqua…”
(**) Mestre Eckhart nasceu por volta de 1260 e faleceu em 1327/8.

(2) McGINN, Bernard. Obra completa – veja link – Amazon. Ref. cit. acima (link).
Folheto do evento – com os agradecimentos aos patrocinadores.

A Fé e o Amor

Santo Tomás de Aquino a todas as mães, filhos e filhas.
A Fé e Amor neste dia especial.
[Com um Adendo sobre o Amor no Casamento].
Quote for May 8th – A Fé, seg. Santo Tomás, para aquele que crê e para o ateu

I. A FÉ.
“To one who has faith, no explanation is necessary. To one without faith, no explanation is possible.”

. – St. Thomas Aquinas Foto: Quote for May 8th
[Para aquele que tem Fé, nenhuma explicação é necessária.
Para o que não tem Fé, nenhuma explicação basta…”]

II. O Amor, seg. o Cardeal Cantalamessa.
(o Amor no casamento – Título do sermão: “Marriage and Family: the Divine Project)” – o Cardeal Cantalamessa em uma homília recente disse:

“The secret to getting access to these splendors of Christian love is to give Christ space within the life of the couple. In fact, the Holy Spirit that makes all things new, comes from him. A book by Fulton Sheen, popular in the 50s, reiterated this with its title: “Three to Get Married.”[12] From a deeper point of view Teilhard de Chardin had arrived to the same conclusion: “Love is a function between three terms: man, woman and God”. (1).

(…) “Termino com algumas palavras tiradas mais uma vez de ‘O sapato de cetim’, de Claudel. É um diálogo entre a mulher do drama e seu anjo da guarda. A mulher luta entre o medo e o desejo de entregar-se ao amor:
– Então, esse é o amor das criaturas, um para o outro, permitido? Deus não é ciumento?
– Como Ele poderia ter ciúmes do que ele mesmo fez?
– Mas o homem, nos braços da mulher, se esquece de Deus …
– Como eles podem esquecê-Lo quando estão com Ele, participando do mistério da sua criação? (2).

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FONTES: Refs. cit. no sermão do Cardeal: (1) P. Teilhard de Chardin, ‘Esquisse d’un Univers personnel’, 1936; (2)”O Sapato de Cetim”, Paul Claudel, a.III. sc.8 (éd. La Pléiade, II, Paris 1956, pp. 804) – Tudo originado por (c)Zenit.org.