Quando a Poesia é uma forma de oração (I)

HÁ POETAS PARA QUEM escrever é uma forma de rezar.
Um exemplo evidente do que estou dizendo vem de boa parte da poesia de Jorge de Lima. E se cantar é rezar duas vezes,  diria que fazer (ou ler) poemas dessa natureza é, sim, uma forma de prece silenciosa.

“Para Claudel, o poeta cristão está em contínua celebração, pois é por ela que expressa o desejo mais profundo: “A louvação, a celebração é talvez a maior elevação da poesia, porque ela é a expressão do desejo mais profundo da alma, a voz da alegria e da vida. O dever de toda criação. Aquele que cada criatura tem desejo de todos os outros.” (de Gilberto Mendonça Teles, na Revista da PUC, Rio, Poesia e Religião. (2)

Poema do Cristão – Jorde de Lima*

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.|
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas,
que eu decomponho e absorvo com os sentidos,
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros como as estrelas-do-mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém.
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas,
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo com a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita,
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais,
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega,
[peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou
[tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado,
[tenho mantos de púrpura, e de estamenha, sou burríssimo
[como São Cristóvão, e sapientíssimo como Santo Tomás.
[E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para
[todos os séculos, louco de Deus, amém!

E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem
[e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!

Anoto algumas amostras de como a poesia de Jorge alcança o estado de prece. Não sem razão isso o faz distinguir de tantas outras vozes poéticas brasileiras, pois, seg. Gilberto Mendonça Teles
se houve poeta visceralmente religioso em nossa poesia, se houve escritor cuja obra foi toda penetrada de uma substância mística, foi sem dúvida alguma Jorge de Lima…” E, isso, o destaca mesmo entre os membros da ilustre “trindade sagrada da Poesia Católica Brasileira” – ele, Jorge de Lima, Murilo – que Jorge considerava “o Grade Poeta Amigo –, e Augusto Frederico Schmidt. Fico com Jorge:

a) De “A Túnica Inconsútil” – onde se encontra esta espécie de “valor de eternidade, de permanência” que destacou Mário de Andrade, em Nota Preliminar à edição da Aguilar (1958). Queria ele, Jorge de Lima que “A Túnica…” fosse considerado “um poema só” e não um livro de poemas.

Pois bem, um ou muitos poema(s), o valor ali está, assinalado por Mário, no ato de o Poeta “rastrear, poética e tematicamente a Bíblia”; e este valor aumenta com o preenchimento com “pouca sonoridade” (diz Mário), mas “cheio da mais rica e mesmo surpreendente imaginação” poética.

“Poema do Cristão” – a leitura de todo o(s) poema(s) de “A Túnica…” pressupõe mais do que o sr. Mário de Andrade, do alto de seu posto de crítico literário pôde ver, naquele artigo de 1938, publicado n’O Estadão e que virou prefácio do livro.
O mais é a possibilidade de descortinar a visão do Jorge de Lima, místico.

Ao abrir o livro, Jorge nos lança uma dicotomia que nos dá pistas importantes para a leitura do poema como forma de oração:

(1) “sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas…
que decomponho e absorvo com os sentidos”

E de outra parte:

(2) “e compreendo com a inteligência
      transfigurada em Cristo.”

(3) E conduz o leitor à conclusão mais pertinente da adoção desta postura de Fé:
”Tenho os movimentos alargados.”

Analisemos a expressão “inteligência transfigurada”.

Segundo a The Catholic Encyclopedia,

“…a Transfiguração de Cristo é o ponto culminante de sua vida pública, como o Seu batismo é o seu ponto de partida, e Sua Ascensão ao fim. Além disso, este glorioso evento tem sido relacionada em detalhes por S.Mateus ( 17:1-6 ), S. Marcos ( 9:1-8 ), e S. Lucas ( 9:28-36 ), enquanto S. Pedro ( 2 Pedro 1:16-18 ) e S. João ( 01:14 ), duas das testemunhas privilegiadas, fazem alusão a ela.

“Cerca de uma semana depois de sua estada em Cesaréia de Filipe , Jesus tomou consigo Pedro e Tiago e Joãoe levou-os a um alto monte, onde Ele foi transfigurado diante de seus olhos violadas. S. Mateus e S. Marcos expressarem este fenômeno pela palavra metemorphothe , que a Vulgata torna transfiguratus est. Os evangelhos Sinópticos explicam o verdadeiro significado da palavra, acrescentando “o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a neve“, segundo a Vulgata , ou “como a luz“, segundo o texto grego.

“Este deslumbrante brilho que emana de todo o Seu corpo foi produzido por um brilhante interior de sua Divindade. O falso judaísmo havia rejeitado o Messias , e agora o verdadeiro judaísmo , representado por Moisés e Elias , a Lei e os Profetas , o reconhece e adora o Cristo, enquanto no o “Segundo tempo” Deus Pai proclamou Seu unigênito e bem-amado Filho .

Por esta manifestação gloriosa do Divino Mestre , que tinha recém-anunciado sua paixão ao Apóstolos ( Mateus 16:21 ), e que falou com Moisés e Elias antes dos julgamentos que Ele esperara em Jerusalém , fortaleceu a de seus três amigos (Pedro, Tiago e João) e preparou-os para a luta terrível de que eles deveriam ser testemunhas em Gethsemani , dando-lhes uma antecipação da glória e celeste se deleita em que alcançamos pelo sofrimento.”

Parece-nos que o Poeta quer buscar esse momento culminante da vida pública de Jesus para trazer à página poética uma expressão que trará o brilho que a compreensão “dos sentidos” seria incapaz de fazer.

Etimologicamente, a palavra “transfigurado” provém do grego: “metemorphothe”, donde decorre metamorfose. Nós usamos esta palavra para descrever a mudança que ocorre, p.ex., quando uma lagarta se torna uma borboleta. Analistas dizem que Jesus tranfigurado é descrito nos evangelhos de forma similar ao que fora Moisés no Sinai: “a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante a sua conversa com o Senhor; (…) todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele (…) e havia um véu no seu rosto. Mas, entrando Moisés diante do Senhor para falar com ele, tirava o véu até sair. E, saindo, transmitia aos israelitas as ordens recebidas. Estes viam irradiar a pele de seu rosto; em seguida Moisés recolocava o véu no seu rosto até a próxima entrevista com o Senhor.”
(Êxodo, 34:29-35).

Que metamorfose(s) procura o poeta? Seria (a) luz que aos olhos do leitor possa iluminar territórios nunca vistos? Deixaria, em meio à transfiguração, véus que haveremos de desvelar para entender toda a Poema do Cristão Jorge?

Encontramos alguns porquês e algumas mais de (suas) decorrências ou consequências – que são deliberados vôos, na poesia de Jorge (e de resto na Poesia tout court); e a razão (esses tantos porquês) às vezes faz despencar do alto vôo em nossa pobre humanidade. Por certo, mesmo na escuridão da busca de entendimento, pode-se entender que uma coisa é do estado larval (a lagarta que sonha em alçar vôo) e o Poeta-pássaro capaz de vôos – “vôos eram fora do mundo”. Vôos que são a própria finalidade

– “Não há escuridão mais para mim.” Declara aquele que “compreende” com a “inteligência transfigurada em Cristo”.

Por isso mesmo, talvez, é que possa o poeta “transfigurado” afirmar:

“Opero transfusões de luz nos seres opacos”.

Eis-me opaco para tão alta compreensão, diria o leitor; para quem armar-se da mera inteligência (Razão) diante da Poesia é sempre pouco – tal como os apenas os sentidos o são para, depois de “decomposto e absorvido” transformar num caldo tão rico de místicos vôos…

É preciso mais ao poeta e sua “inspiração” em direção ao fecho do poema, a prece:

”Nada sou.
”Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!”
[Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo sua misericórdia infinita].

(*) No próximo post, a releitura do poema “Confissões, Lamentações e Esperança a Caminho de Damasco” e no terceiro da série falarei sobre os (b) De “Tempo e Eternidade”.
+++++
Fontes:
(1) LIMA, Jorge de. “A Túnica Inconsútil”, Edit. Aguilar, “Jorge de Lima: Obra Completa”, Rio de Janeiro, 1958, p. 425/6.
(2) REVISTA MAGIS – CADERNOS DE FÉ E CULTURA, Ed. 2006.
(3) The Catholic Encyclopedia – verbete Transfiguration.

Quando a Poesia é uma forma de oração (I)

HÁ POETAS PARA QUEM escrever é uma forma de rezar.
Um exemplo evidente do que estou dizendo vem de boa parte da poesia de Jorge de Lima. E se cantar é rezar duas vezes,  diria que fazer (ou ler) poemas dessa natureza é, sim, uma forma de prece silenciosa.

“Para Claudel, o poeta cristão está em contínua celebração, pois é por ela que expressa o desejo mais profundo: “A louvação, a celebração é talvez a maior elevação da poesia, porque ela é a expressão do desejo mais profundo da alma, a voz da alegria e da vida. O dever de toda criação. Aquele que cada criatura tem desejo de todos os outros.” (de Gilberto Mendonça Teles, na Revista da PUC, Rio, Poesia e Religião. (2)

Poema do Cristão – Jorde de Lima*

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.|
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas,
que eu decomponho e absorvo com os sentidos,
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros como as estrelas-do-mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém.
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas,
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo com a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita,
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais,
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega,
[peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou
[tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado,
[tenho mantos de púrpura, e de estamenha, sou burríssimo
[como São Cristóvão, e sapientíssimo como Santo Tomás.
[E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para
[todos os séculos, louco de Deus, amém!

E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem
[e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!

Anoto algumas amostras de como a poesia de Jorge alcança o estado de prece. Não sem razão isso o faz distinguir de tantas outras vozes poéticas brasileiras, pois, seg. Gilberto Mendonça Teles
se houve poeta visceralmente religioso em nossa poesia, se houve escritor cuja obra foi toda penetrada de uma substância mística, foi sem dúvida alguma Jorge de Lima…” E, isso, o destaca mesmo entre os membros da ilustre “trindade sagrada da Poesia Católica Brasileira” – ele, Jorge de Lima, Murilo – que Jorge considerava “o Grade Poeta Amigo –, e Augusto Frederico Schmidt. Fico com Jorge:

a) De “A Túnica Inconsútil” – onde se encontra esta espécie de “valor de eternidade, de permanência” que destacou Mário de Andrade, em Nota Preliminar à edição da Aguilar (1958). Queria ele, Jorge de Lima que “A Túnica…” fosse considerado “um poema só” e não um livro de poemas.

Pois bem, um ou muitos poema(s), o valor ali está, assinalado por Mário, no ato de o Poeta “rastrear, poética e tematicamente a Bíblia”; e este valor aumenta com o preenchimento com “pouca sonoridade” (diz Mário), mas “cheio da mais rica e mesmo surpreendente imaginação” poética.

“Poema do Cristão” – a leitura de todo o(s) poema(s) de “A Túnica…” pressupõe mais do que o sr. Mário de Andrade, do alto de seu posto de crítico literário pôde ver, naquele artigo de 1938, publicado n’O Estadão e que virou prefácio do livro.
O mais é a possibilidade de descortinar a visão do Jorge de Lima, místico.

Ao abrir o livro, Jorge nos lança uma dicotomia que nos dá pistas importantes para a leitura do poema como forma de oração:

(1) “sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas…
que decomponho e absorvo com os sentidos”

E de outra parte:

(2) “e compreendo com a inteligência
      transfigurada em Cristo.”

(3) E conduz o leitor à conclusão mais pertinente da adoção desta postura de Fé:
”Tenho os movimentos alargados.”

Analisemos a expressão “inteligência transfigurada”.

Segundo a The Catholic Encyclopedia,

“…a Transfiguração de Cristo é o ponto culminante de sua vida pública, como o Seu batismo é o seu ponto de partida, e Sua Ascensão ao fim. Além disso, este glorioso evento tem sido relacionada em detalhes por S.Mateus ( 17:1-6 ), S. Marcos ( 9:1-8 ), e S. Lucas ( 9:28-36 ), enquanto S. Pedro ( 2 Pedro 1:16-18 ) e S. João ( 01:14 ), duas das testemunhas privilegiadas, fazem alusão a ela.

“Cerca de uma semana depois de sua estada em Cesaréia de Filipe , Jesus tomou consigo Pedro e Tiago e Joãoe levou-os a um alto monte, onde Ele foi transfigurado diante de seus olhos violadas. S. Mateus e S. Marcos expressarem este fenômeno pela palavra metemorphothe , que a Vulgata torna transfiguratus est. Os evangelhos Sinópticos explicam o verdadeiro significado da palavra, acrescentando “o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a neve“, segundo a Vulgata , ou “como a luz“, segundo o texto grego.

“Este deslumbrante brilho que emana de todo o Seu corpo foi produzido por um brilhante interior de sua Divindade. O falso judaísmo havia rejeitado o Messias , e agora o verdadeiro judaísmo , representado por Moisés e Elias , a Lei e os Profetas , o reconhece e adora o Cristo, enquanto no o “Segundo tempo” Deus Pai proclamou Seu unigênito e bem-amado Filho .

Por esta manifestação gloriosa do Divino Mestre , que tinha recém-anunciado sua paixão ao Apóstolos ( Mateus 16:21 ), e que falou com Moisés e Elias antes dos julgamentos que Ele esperara em Jerusalém , fortaleceu a de seus três amigos (Pedro, Tiago e João) e preparou-os para a luta terrível de que eles deveriam ser testemunhas em Gethsemani , dando-lhes uma antecipação da glória e celeste se deleita em que alcançamos pelo sofrimento.”

Parece-nos que o Poeta quer buscar esse momento culminante da vida pública de Jesus para trazer à página poética uma expressão que trará o brilho que a compreensão “dos sentidos” seria incapaz de fazer.

Etimologicamente, a palavra “transfigurado” provém do grego: “metemorphothe”, donde decorre metamorfose. Nós usamos esta palavra para descrever a mudança que ocorre, p.ex., quando uma lagarta se torna uma borboleta. Analistas dizem que Jesus tranfigurado é descrito nos evangelhos de forma similar ao que fora Moisés no Sinai: “a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante a sua conversa com o Senhor; (…) todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele (…) e havia um véu no seu rosto. Mas, entrando Moisés diante do Senhor para falar com ele, tirava o véu até sair. E, saindo, transmitia aos israelitas as ordens recebidas. Estes viam irradiar a pele de seu rosto; em seguida Moisés recolocava o véu no seu rosto até a próxima entrevista com o Senhor.”
(Êxodo, 34:29-35).

Que metamorfose(s) procura o poeta? Seria (a) luz que aos olhos do leitor possa iluminar territórios nunca vistos? Deixaria, em meio à transfiguração, véus que haveremos de desvelar para entender toda a Poema do Cristão Jorge?

Encontramos alguns porquês e algumas mais de (suas) decorrências ou consequências – que são deliberados vôos, na poesia de Jorge (e de resto na Poesia tout court); e a razão (esses tantos porquês) às vezes faz despencar do alto vôo em nossa pobre humanidade. Por certo, mesmo na escuridão da busca de entendimento, pode-se entender que uma coisa é do estado larval (a lagarta que sonha em alçar vôo) e o Poeta-pássaro capaz de vôos – “vôos eram fora do mundo”. Vôos que são a própria finalidade

– “Não há escuridão mais para mim.” Declara aquele que “compreende” com a “inteligência transfigurada em Cristo”.

Por isso mesmo, talvez, é que possa o poeta “transfigurado” afirmar:

“Opero transfusões de luz nos seres opacos”.

Eis-me opaco para tão alta compreensão, diria o leitor; para quem armar-se da mera inteligência (Razão) diante da Poesia é sempre pouco – tal como os apenas os sentidos o são para, depois de “decomposto e absorvido” transformar num caldo tão rico de místicos vôos…

É preciso mais ao poeta e sua “inspiração” em direção ao fecho do poema, a prece:

”Nada sou.
”Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!”
[Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo sua misericórdia infinita].

(*) No próximo post, a releitura do poema “Confissões, Lamentações e Esperança a Caminho de Damasco” e no terceiro da série falarei sobre os (b) De “Tempo e Eternidade”.
+++++
Fontes:
(1) LIMA, Jorge de. “A Túnica Inconsútil”, Edit. Aguilar, “Jorge de Lima: Obra Completa”, Rio de Janeiro, 1958, p. 425/6.
(2) REVISTA MAGIS – CADERNOS DE FÉ E CULTURA, Ed. 2006.
(3) The Catholic Encyclopedia – verbete Transfiguration.

Uma Excursão Aventurosa

Seguindo o conselho do poeta gaúcho, poeta do mundo, Augusto Meyer, preparei-me para uma “excursão aventurosa” nos territórios do mais famoso florentino (e expatriado) Dante Alighieri, poeta da Humanidade.

O poeta gaúcho A.Meyer
Augusto Meyer, foto-autógrafo, ABL

E PARA SEGUIR o conselho do mestre Meyer à risca, tomei o atalho dessa viagem, como prescrito:

No caso de Dante, sempre me pareceu que valia a pena tentar a experiência que o reparo de Eliot* sugere. Em meu curso de Teoria Literária, mais uma vez recomendei essa excursão aventurosa, não digo pelo Inferno, sem Virgílio e sem guia turístico, mas pela Vita Nuova. Mais precisamente: recomendei, com ou sem preparo, a leitura de alguns sonetos e trechos de prosa do singular livrinho”.

Na minha última viagem aos EUA, tive a chance de incluir essa “excursão aventurosa” nas minhas visitas à Universidade do Novo México (UNM), onde descobri um paraíso chamado Zimmerman Library.

Lá, além de poder ler, adquiri o direito que toda a comunidade de Albuquerque (NM) tem de se tornar leitor frequente da biblioteca ZL e retirar livros, como o recomendado por Augusto Meyer, nos anos ‘60…
e continuamente recomendado pelos bons críticos da obra do ‘florentino’, como mr. Dreher no carderno de literatura do WSJ / Review do sábado pascoal de 2014 – e que já referenciei aqui (vide foto abaixo).

Este “singular livrinho” de Dante me deu aquela alegria que Meyer chama de uma dádiva especial ao “leitor comum” (por oposição ao ‘letrado’); com a sua fruição que traz uma “colaboração emotiva”, por causa do “frescor da sensibilidade” do leitor apaixonado pela Poesia. Só na pele de leitor desarmado temos a “tonalidade emotiva” onde fala mais alto a linguagem do sentimento.

Desejo, pois, que você, leitor, aproveite o soneto que não poucos críticos catalogam como dos melhores na história da literatura mundial (Musa). Trago o dito soneto “Tanto gentile…” – o famoso Soneto XV de “Vita Nuova”, em 3 versões.
Num próximo post, pretendo supreender-lhe, dileto leitor, com algumas notas de Augusto Meyer sobre a tradução deste famoso soneto.

Aqui o original italiano e a tradução de Mark Musa (que se nega a aplicar rimas em inglês, ao traduzir a obra de Dante para a língua de Shakespeare – sábia decisão, pois que aí muitos tropeçam).

Abaixo, a transcrição em português, de uma das tantas traduções do famoso soneto de Vita Nuova –autoria de Eliane A. Zucculin Nucci; não se esquecendo de anotar o que Dante (o nosso) Milano disse, ao traduzir 3 cantos do “Inferno”:
“É enorme a diferença entre o verbo forte e áspero de Dante e a nossa língua de índole branda” (isso aplicável aos cantos do Inferno, seria cabível a este doce soneto?
– “A linguagem de um poeta não pode ser trasladada a outro idioma; pode-se traduzir o que ele quis dizer, mas nunca o que ele disse…”(D.M.):

Trad. do Soneto XV de Vita Nuova - Dante, by Zucculin Nucci
Dificuldades da tradução em Dante, (c) : Eliane A. Zucculin Nucci

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Uma Excursão Aventurosa

Seguindo o conselho do poeta gaúcho, poeta do mundo, Augusto Meyer, preparei-me para uma “excursão aventurosa” nos territórios do mais famoso florentino (e expatriado) Dante Alighieri, poeta da Humanidade.

O poeta gaúcho A.Meyer
Augusto Meyer, foto-autógrafo, ABL

E PARA SEGUIR o conselho do mestre Meyer à risca, tomei o atalho dessa viagem, como prescrito:

No caso de Dante, sempre me pareceu que valia a pena tentar a experiência que o reparo de Eliot* sugere. Em meu curso de Teoria Literária, mais uma vez recomendei essa excursão aventurosa, não digo pelo Inferno, sem Virgílio e sem guia turístico, mas pela Vita Nuova. Mais precisamente: recomendei, com ou sem preparo, a leitura de alguns sonetos e trechos de prosa do singular livrinho”.

Na minha última viagem aos EUA, tive a chance de incluir essa “excursão aventurosa” nas minhas visitas à Universidade do Novo México (UNM), onde descobri um paraíso chamado Zimmerman Library.

Lá, além de poder ler, adquiri o direito que toda a comunidade de Albuquerque (NM) tem de se tornar leitor frequente da biblioteca ZL e retirar livros, como o recomendado por Augusto Meyer, nos anos ‘60…
e continuamente recomendado pelos bons críticos da obra do ‘florentino’, como mr. Dreher no carderno de literatura do WSJ / Review do sábado pascoal de 2014 – e que já referenciei aqui (vide foto abaixo).

Este “singular livrinho” de Dante me deu aquela alegria que Meyer chama de uma dádiva especial ao “leitor comum” (por oposição ao ‘letrado’); com a sua fruição que traz uma “colaboração emotiva”, por causa do “frescor da sensibilidade” do leitor apaixonado pela Poesia. Só na pele de leitor desarmado temos a “tonalidade emotiva” onde fala mais alto a linguagem do sentimento.

Desejo, pois, que você, leitor, aproveite o soneto que não poucos críticos catalogam como dos melhores na história da literatura mundial (Musa). Trago o dito soneto “Tanto gentile…” – o famoso Soneto XV de “Vita Nuova”, em 3 versões.
Num próximo post, pretendo supreender-lhe, dileto leitor, com algumas notas de Augusto Meyer sobre a tradução deste famoso soneto.

Aqui o original italiano e a tradução de Mark Musa (que se nega a aplicar rimas em inglês, ao traduzir a obra de Dante para a língua de Shakespeare – sábia decisão, pois que aí muitos tropeçam).

Abaixo, a transcrição em português, de uma das tantas traduções do famoso soneto de Vita Nuova –autoria de Eliane A. Zucculin Nucci; não se esquecendo de anotar o que Dante (o nosso) Milano disse, ao traduzir 3 cantos do “Inferno”:
“É enorme a diferença entre o verbo forte e áspero de Dante e a nossa língua de índole branda” (isso aplicável aos cantos do Inferno, seria cabível a este doce soneto?
– “A linguagem de um poeta não pode ser trasladada a outro idioma; pode-se traduzir o que ele quis dizer, mas nunca o que ele disse…”(D.M.):

Trad. do Soneto XV de Vita Nuova - Dante, by Zucculin Nucci
Dificuldades da tradução em Dante, (c) : Eliane A. Zucculin Nucci

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O alimento quotidiano

“A Oração ao romper da alva (*)

A oração ocupava um lugar prioritário na sua ordem do dia. Fazia-a, habitualmente, logo de manhã cedo. Excepcionalmente, ia à capela durante a noite. “Era quase sempre difícil – escreveu – permanecer imóvel a contemplar Deus no silêncio e na aridez da fé”.
Mas confiava em Deus, pois a sua graça, para além da nossa sensibilidade e reações, atua em nós mesmo sem nos darmos conta.
Uma vez recomendou a uma pessoa que lhe era próxima, que “expusesse a alma ao sol de Deus e que não receasse perder o seu tempo permanecendo na capela mesmo que nada sentisse. É preciso dar tempo ao sol para nos bronzear, o que requer um pouco de paciência”.
A oração matutina levava o Rei a adotar uma atitude de escuta e de disponibilidade diante de Deus, para depois servir melhor os homens. Era a audiência que o Senhor lhe concedia e que o ajudava a estar atento às pessoas com quem iria se encontrar.
Na oração, apresentava a Deus o dia inteiro. Por isso, ali procurava o alimento diário. Antes de ser “pedido”, a oração é “escuta”. Não temos que rezar até Deus nos ouvir, mas até ouvirmos o que Deus quer de nós.”

+++++
Fonte: 
(*) SUENENS
, Cardeal. “”, Editorial A.O., Braga, Portugal, 2a. ed., 1995, trad. Margarida Osório Gonçalves, p.65.

Um tempo Cinzento: Brasil 2014–a transparência do Mal…Misererê!

Com Licença Poética, eis que se anuncia a lucidez da poetisa mineira Adélia Prado!
A seguir, neste link, veja a entrevista completa de dona Adélia Prado: é lucidez de Poeta-Profeta!

ADÉLIA nos alerta que estamos vivendo “um tempo cinzento… em que o Mal está em toda parte, por todo canto dos poderes do Brasil e isso gera um país triste…

“Nós estamos vivendo um momento muito esquisito, um momento muito triste. É uma ditadura disfarçada. Não me sinto em um país democrático. (…) Na ditadura (militar) nós estávamos mais vivos do que estamos agora.”

“Eu não me sinto vivendo numa democracia” (Adélia Prado).
“Ai, a ausência de Qualidade do nosso Parlamento…”

Sobre a omissão dos intelectuais, ditos de esquerda: “Os intelectuais estão ausentes… os ditos artistas, intelectuais de esquerda…essas pessoas se calaram”.
”Os que faziam o panegírico
do PT, não tiveram a humildade de dizer: ERRAMOS!”
O País está naquele estágio em que Jean Braudillard chamava de
transparência do Mal”…
Ele, o Mal, está por toda a parte, em todos os poderes da República, na vida do país.

Vivemos num país que é como “comida envenenada”.
“Isso tudo me dá uma ‘aflição danada’…”

Será que só a Poetisa sente isso?

A banalidade do Mal tirou da República sua face alegre…
Talvez por isso mesmo as bandeiras verde-amarelas não tremulam a 25 dias da Copa do Mundo.

A honestidade intelectual e a coragem desta poetisa mineira já vem de longe, no livro de estréia:

“Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.”

(Com Licença Poética, Adélia Prado)

Um desabafo tão lúcido assim tem a ver com um tema histórico, recorrente na história da humanidade: a banalidade do Mal.

Um tempo Cinzento: Brasil 2014–a transparência do Mal…Misererê!

Com Licença Poética, eis que se anuncia a lucidez da poetisa mineira Adélia Prado!
A seguir, neste link, veja a entrevista completa de dona Adélia Prado: é lucidez de Poeta-Profeta!

ADÉLIA nos alerta que estamos vivendo “um tempo cinzento… em que o Mal está em toda parte, por todo canto dos poderes do Brasil e isso gera um país triste…

“Nós estamos vivendo um momento muito esquisito, um momento muito triste. É uma ditadura disfarçada. Não me sinto em um país democrático. (…) Na ditadura (militar) nós estávamos mais vivos do que estamos agora.”

“Eu não me sinto vivendo numa democracia” (Adélia Prado).
“Ai, a ausência de Qualidade do nosso Parlamento…”

Sobre a omissão dos intelectuais, ditos de esquerda: “Os intelectuais estão ausentes… os ditos artistas, intelectuais de esquerda…essas pessoas se calaram”.
”Os que faziam o panegírico
do PT, não tiveram a humildade de dizer: ERRAMOS!”
O País está naquele estágio em que Jean Braudillard chamava de
transparência do Mal”…
Ele, o Mal, está por toda a parte, em todos os poderes da República, na vida do país.

Vivemos num país que é como “comida envenenada”.
“Isso tudo me dá uma ‘aflição danada’…”

Será que só a Poetisa sente isso?

A banalidade do Mal tirou da República sua face alegre…
Talvez por isso mesmo as bandeiras verde-amarelas não tremulam a 25 dias da Copa do Mundo.

A honestidade intelectual e a coragem desta poetisa mineira já vem de longe, no livro de estréia:

“Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.”

(Com Licença Poética, Adélia Prado)

Um desabafo tão lúcido assim tem a ver com um tema histórico, recorrente na história da humanidade: a banalidade do Mal.