Voegelin e a consciência do tempo

ERIC VOEGELIN (*1901/+1985) – filósofo nascido em Colônia (Alemanha), formado na Universidade de Viena (d’Áustria) e que passou grande parte da vida nos EUA, para onde emigrou em 1938 e se tornou cidadão norte-americano em 1944. Voegelin começou a ser lido no Brasil por um grupo restrito de pessoas ligadas à Filosofia e à Crítica, até que a É Realizações fez um trabalho de divulgação da obra do filósofo austríaco que nos possibilitou aos simples interessados e não-profissionais da Filosofia conhecer o pensamento extraordinário desse homem fora do mainstream do pensar, que passou grande parte de sua vida ensinando na Universidade Estadual da Louisiana, em Munique e no Instituto Hoover da Univ. Stanford.
Sobre Voegelin, já publiquei algumas notas de leituras (Voegelin) de edições de seus livros em inglês, bem como uma entrevista com o tradutor de ANAMNESE (e outros) para o português, Elpídio Mário Dantas Fonseca.

O que me interessa bastante em Voegelin não é nem tanto sua abordagem da Política – sua teoria da Ordem na História, que me agarra, sim; mas para além disso são suas memórias, onde engendra seu processo de Anamnese, título do livro em referência. O próprio editor brasileiro anota que

“Anamnese é uma obra central dentro da odisseia intelectual de Voegelin. Marca a mudança, da filosofia da história esboçada em “A Nova Ciência da Política” e desenvolvida nos três primeiros volumes de “Ordem e História”, para a preocupação com a filosofia da consciência dos dois últimos volumes, “A Era Ecumênica”e “Em Busca da Ordem”
(…)
A “natureza peculiar da obra” decorre de que ”Anamnese é o único entre os livros de Voegelin”, [que] “revela um autor olhando para trás e inventariando seu crescimento, em vez de avançar rapidamente em novas regiões e novos problemas. Anamnese é, pois, como que um afastamento dos hábitos eruditos de Voegelin. “

São as lembranças anotadas, após esboçar a Teoria da Consciência e sua leitura da obra de Edmund Husserl que é o foco deste post.
Sem me dar ao trabalho de redigitar, fiz uma figura em scanner de alguns textos do cap.4 – Anamnese. São lembranças do filósofo datadas de antes de seus dez anos de idade. Foram escolhidos “casos”, segundo Voegelin, “em razão de seu conteúdo e seu lugar no tempo. Casos relevantes em termos de conteúdo são os que têm que ver com os estímulos da experiência de uma transcendência no espaço, no tempo, na matéria, na história, nos sonhos desejosos e nos tempos desejosos…” As experiências posteriores aos 10 anos de idade do filósofo “não foram selecionadas, primeiro de tudo, porque elas foram complicadas através do trauma da emigração, e, segundo, porque as experiências de tempos posteriores já não têm o caráter natural das mais antigas, mas, ao contrário, estão estruturadas pelas mais antigas, o que introduz complicações para uma análise”.

Para o leigo em filosofia, como este bloguero, o sabor da leitura desses “casos” nos traz uma face humana de um erudito que parece distante do comum dos homens, mas que então se mostra franco e transparente como uma criança.rouxinol-imperador 2

Essas memórias do pensador – ou suas “experiências anamnésicas” são úteis porque são “experiências que abriram fontes de estímulo, de onde resultou a vontade para mais reflexão filosófica”. Devemos, portanto, a estes exercício de lembrar o posterior “elaborar” da consciência do filósofo porque essas memórias “excitaram a consciência para a ‘dor’ da existência”.
Portanto, assim como na poesia a reflexão (poema) e dor se interligam no “radicalismo e na largueza da reflexão filosófica” de Eric Voegelin.

O Rouxinol do Imperador*

O Rouxinol do Imperador_Voegelin

Leia o “Rouxinol”, Conto de Andersen, na íntegra.Citação de Voegelin_Rouxinol

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Fonte: VOEGELIN, Eric. “Anamnese: da teoria da história e da política”.  trad. Elpídio Mário Dantas Fonseca. S.Paulo, É Realizações, 2009. 544 pp.

Voegelin e a consciência do tempo

ERIC VOEGELIN (*1901/+1985) – filósofo nascido em Colônia (Alemanha), formado na Universidade de Viena (d’Áustria) e que passou grande parte da vida nos EUA, para onde emigrou em 1938 e se tornou cidadão norte-americano em 1944. Voegelin começou a ser lido no Brasil por um grupo restrito de pessoas ligadas à Filosofia e à Crítica, até que a É Realizações fez um trabalho de divulgação da obra do filósofo austríaco que nos possibilitou aos simples interessados e não-profissionais da Filosofia conhecer o pensamento extraordinário desse homem fora do mainstream do pensar, que passou grande parte de sua vida ensinando na Universidade Estadual da Louisiana, em Munique e no Instituto Hoover da Univ. Stanford.
Sobre Voegelin, já publiquei algumas notas de leituras (Voegelin) de edições de seus livros em inglês, bem como uma entrevista com o tradutor de ANAMNESE (e outros) para o português, Elpídio Mário Dantas Fonseca.

O que me interessa bastante em Voegelin não é nem tanto sua abordagem da Política – sua teoria da Ordem na História, que me agarra, sim; mas para além disso são suas memórias, onde engendra seu processo de Anamnese, título do livro em referência. O próprio editor brasileiro anota que

“Anamnese é uma obra central dentro da odisseia intelectual de Voegelin. Marca a mudança, da filosofia da história esboçada em “A Nova Ciência da Política” e desenvolvida nos três primeiros volumes de “Ordem e História”, para a preocupação com a filosofia da consciência dos dois últimos volumes, “A Era Ecumênica”e “Em Busca da Ordem”
(…)
A “natureza peculiar da obra” decorre de que ”Anamnese é o único entre os livros de Voegelin”, [que] “revela um autor olhando para trás e inventariando seu crescimento, em vez de avançar rapidamente em novas regiões e novos problemas. Anamnese é, pois, como que um afastamento dos hábitos eruditos de Voegelin. “

São as lembranças anotadas, após esboçar a Teoria da Consciência e sua leitura da obra de Edmund Husserl que é o foco deste post.
Sem me dar ao trabalho de redigitar, fiz uma figura em scanner de alguns textos do cap.4 – Anamnese. São lembranças do filósofo datadas de antes de seus dez anos de idade. Foram escolhidos “casos”, segundo Voegelin, “em razão de seu conteúdo e seu lugar no tempo. Casos relevantes em termos de conteúdo são os que têm que ver com os estímulos da experiência de uma transcendência no espaço, no tempo, na matéria, na história, nos sonhos desejosos e nos tempos desejosos…” As experiências posteriores aos 10 anos de idade do filósofo “não foram selecionadas, primeiro de tudo, porque elas foram complicadas através do trauma da emigração, e, segundo, porque as experiências de tempos posteriores já não têm o caráter natural das mais antigas, mas, ao contrário, estão estruturadas pelas mais antigas, o que introduz complicações para uma análise”.

Para o leigo em filosofia, como este bloguero, o sabor da leitura desses “casos” nos traz uma face humana de um erudito que parece distante do comum dos homens, mas que então se mostra franco e transparente como uma criança.rouxinol-imperador 2

Essas memórias do pensador – ou suas “experiências anamnésicas” são úteis porque são “experiências que abriram fontes de estímulo, de onde resultou a vontade para mais reflexão filosófica”. Devemos, portanto, a estes exercício de lembrar o posterior “elaborar” da consciência do filósofo porque essas memórias “excitaram a consciência para a ‘dor’ da existência”.
Portanto, assim como na poesia a reflexão (poema) e dor se interligam no “radicalismo e na largueza da reflexão filosófica” de Eric Voegelin.

O Rouxinol do Imperador*

O Rouxinol do Imperador_Voegelin

Leia o “Rouxinol”, Conto de Andersen, na íntegra.Citação de Voegelin_Rouxinol

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Fonte: VOEGELIN, Eric. “Anamnese: da teoria da história e da política”.  trad. Elpídio Mário Dantas Fonseca. S.Paulo, É Realizações, 2009. 544 pp.

Colaboração: Economia em Mutação exige Líderes Colaborativos

Colaboração: Economia em Mutação exige Líderes Colaborativos

CRIEI um novo blog, dedicado aos meus temas profissionais prediletos.
Colaboração, comunicação e produtividade serão os motes para analisar as formas como as pessoas colaboram no Trabalho e fora dele (nas organizações sem fins lucrativos, associações e 3o. setor). Meu “mentor virtual” é o professor Morten T. Hansen, da University of California, Berkeley (School of Information) and at INSEAD, France. Com ele aprofundei meu interesse sobre como o líder pode se construir e se moldar através da colaboração.
Para saber mais sobre o meu Novo blog, clique na figura acima ou no link de “Colaboração no Trabalho“.

Papa Francisco e a Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, nov-2013

Papa_Sorrindo“Evangelii Gaudium”:

Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (24 de novembro de 2013).

Para Ler na Quaresma 2014 (II)

 

Manuel Bandeira –

Poeta amado na minha juventude, foi por um tempo esquecido, até que Edson Nery da Fonseca me fez redescobrir seus poema (dele, Bandeira), num volumezinho primoroso (como quase todos) da Editora Cosac Manuel BandeiraNaify.

Antes, confesso, na longa temporada em que passei lendo (e apreciando J.G. Merquior, apareceu-me um Bandeira diferente (o crítico) que escolhera o jovem Merquior como co-Autor da Antologia da Poesia Brasileira, 1963. Mas isso isso é assunto para outro post. Agora, para esta Leitura de Quaresma (2014), selecionei alguns poemas do volume e referência de um bom site, onde o leitor encontrará mais poemas de Bandeira.

UBIQÜIDADE

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)
Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

– Da seção Deus, p.9, vol. cit, vide Fontes abaixo*


SantasORAÇÃO A TERESINHA DO MENINO JESUS
(da seção As Santas, op. cit. ver fontes* – duas orações)

Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha…
Teresinha… Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.

Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No
Pelo sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!…
Santa Teresa não, Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.


ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DA BOA MORTE

Fiz tantos versos a Teresinha…
Versos tão tristes, nunca se viu!
Pedi-lhe coisas. O que eu pedia
Era tão pouco! Não era glória…
Nem era amores… Nem foi dinheiro…
Pedia apenas mais alegria:
Santa Teresa nunca me ouviu!
Para outras santas voltei os olhos.
Porém as santas são impassíveis
Como as mulheres que me enganaram.
Desenganei-me das outras santas
(Pedi a muitas, rezei a tantas)
Até que um dia me apresentaram
A Santa Rita dos Impossíveis.
Fui despachado de mãos vazias!
Dei volta ao mundo, tentei a sorte.
Nem alegrias mais peço agora,
Que eu sei o avesso das alegrias.
Tudo que viesse, viria tarde!
O que na vida procurei sempre,
— Meus impossíveis de Santa Rita, —
Dar-me-eis um dia, não é verdade?
Nossa Senhora da Boa Morte!


E por fim, um link para que você possa continuar lendo poemas de Manuel Bandeira, seleção do site A Voz da Poesia.
+++++
Cosac Naify(*) Fontes:
BANDEIRA, Manuel. “Poemas Religiosos e Alguns Libertinos”. Seleção e posfácio: Edson Nery da Fonseca. Título original: “Poemas de Manuel Bandeira com motivos religiosos. Texto do Prefácio da 1a. edição por Gilberto Freyre. 2a. ed. revista e ampl. – S.Paulo: Cosac Naify, 2007, 112 pp. 9 ils. ISBN 978-85-7503-581-8.
Ubiquidade é da pág. 9.
Oração a Nossa Senhora da Boa Morte, pág. 26.
Oração a Teresinha do Menino Jesus, pág. 50.

Para Ler na Quaresma

JORGE DE LIMA,
– como sabem meus seis leitores,
é membro do triunvirato de poetas católicos
do Brasil, ao lado de Murilo Mendes
e Augusto F. Schmidt.

 Pequena Notícia biográfica.

Abaixo, transcrevo mais um poema deste católico exemplar e meu poeta predileto quando o tema é o Sagrado!

 


Confissões, Lamentações e Esperança a Caminho de Damasco.(*)

O MUNDO precisava de amor:
na véspera de Vossa Morte nos deixastes um legado:
a Hóstia para matar fome e sede.
E vossa Missão terminada subistes para a direita do Pai
e Lhe mostrastes as cicatrizes que Vos deixamos no corpo.
Pai Amado, eu que sou a realização de Vosso Pensamento,
dai-me complacências.
Senhor, minha Fé é diminuta: aumentai-a.
Dai-me olhos de contemplação,
dai-me respostas,
dai-me um cavalo de Vosso Reino
que tomando as rédeas de minha mãome leve para Damasco.
Pai Amado, sou cego, aleijado, e paralítico:
meus membros não darão na Cruz.
Estou calejado de perenes quedas:
Curai-me todo.
Transformai-me como transformastes o vinho.
Não me abandoneis em interrogação permanente.
Dei-vos uma costela para fazerdes Eva
e as 23 restantes a Satã para corrompê-la.
Sou colono e amicíssimo de Lúcifer.
Sou da primeira serpente, sou um prisioneiro da primeira guerra.
Dai-me um cavalo de Vosso Reino para ir a Damasco!
Sou fornecedor de armas para os filisteus.
Sou o que torpedeia a Arca e a Barca.
Sou o reconstrutor de Babel.
Sou bombeiro do incêndio de Sodoma.
Fui demitido da Vida.
e Vós me enviastes outra vez.
Demiti-me de novo que errei mais!
Sou o assassino de Lázaro,
sou plantador de joio:
Dai-me um cavalo para eu fugir!
Quis afogar São Crisóvão,
transformei as algas em micróbios
e as asas em aviões de guerra!
Deu Amado, Vós que tendes sido meu pára-quedas,
meu ascensor, minha escada, minha ponte,
segurai-me para que eu não me precipite dos arranha-céus!
Dai-me um cavalo para eu fugir!
Dai-me um cavalo de Vosso Reino
e que eu sem querer vá para Damasco.
Amado Pai, no caminho de Damasco
basta uma sílaba para eu enxergar de novo,
ou um coice de Vosso cavalo para eu despertar na Luz!
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(*) © Família J.L. Fonte: LIMA, JORGE de. “OBRA COMPLETA, vol.I – “A Túnica Inconsútil”, Aguilar, Rio de Janeiro, 1958, p.441/2.Jorge de Lima_Relançamento_Recorte
Post-Post: Uma boa notícia é que foi relançada a obra “Invenção de Orfeu”, por muitos críticos considerada como “o primeiro [grande] poema da brasilidade” (J.G. Simões, 1952).
E Murilo Mendes, cit. por J.G. Simões, no prefácio à 1a. edição da Invenção de Orfeu, diz:
”O trabalho de exegese do livro terá que ser lentamente feito, através dos anos, por equipes de críticos que o abordem com amor, ciência e intuição, e não apenas com um frio aparelhamento erudito”. (p.609 da OC).
Para ler mais poesias de Jorge de Lima, clique aqui.

Da Mudança: Mo Yan*

[bookcover:Mudança|18243150]
”MUDANÇA”: LIVRO LIDO de um só fôlego, nas férias do último verão, em Recife. Dito assim, parece que a apreciação crítica ficaria diferenciada, se lido em uma gélida biblioteca de Oslo ou Nuremberg.
– Fica, sim sr. Leitor, respondo silencioso.MoYan_CapaMudanca

Primeiro, porque a lassidão se vai esvaindo com a visão do mar e
os dias de relaxamento, com o ameno relacionamento entre os membros da família (em veraneio); o distanciamento das rotinas, e até do descumprimento dessas; depois, estar à beira-mar é como se a imaginação mais se dispusesse a deixar-se levar pela leitura.

Porém é certo ainda que, se estivesse condenado ao frio de Oslo ou à solenidade vetusta de Nuremberg, por certo eu acharia outas razões para ler e escapar do real pela janela da imaginação…

Na leitura, manda o Autor. A força de seu texto é que faz toda a diferença, muito além (e antes) do clima ou do estado de espírito (ou do conforto) do Leitor. Mas é o Leitor a autoridade absoluta, quem decide ir à biblioteca, à livraria, ao sebo ou ao website. Aí, corre os olhos às lombadas de volumes sem fim, até que uma capa ou um título o agarra (há quem os furte!) e assim procura um banco, uma mesa, em sua casa, ou hotel e se enfurna para ler. Há os que lêem no ônibus, no metrô, a caminho de casa, como o destinatário de uma carta, impaciente para ler notícias da família distante.

Sob a demanda de escrever uma espécie de documentário, Mo Yan, o prêmio Nobel de 2012, nos presenteia com uma série de estórias entrelaçadas que nos deixam ver para além do véu da antiga censura maoista, como uma janela aberta ao ocidental sob o olhar e a experiência de vida de um “poeta” cinquentão (Mo Yan nasceu no mesmo ano deste resenhista: 1955) – a se lembrar da infância, da juventude, da vida inteira, enquanto seu país vai aos poucos se modernizando e se abrindo aos costumes ocidentais.

MO YAN pega o Leitor pela gola, segura-o firme, e – ao contrário do seu professor que o expulsa a chutes da classe, vai conquistando o Leitor pouco a pouco, encantando-o com a mágica da escrita –; o que ele faz pela construção apropriada de seus ‘personagens’.

Seguramente, mesmo num livro de encomenda, estes não são homens de palha: o professor, o aluno (narrador), a colega bonita, que se sentava a seu lado na escola; o brioso caminhão Gaz ‘51; seu colega que se enriquece com o advento das regras de mercado à China – todos com seus nomes difíceis de se guardar, mas que são caracteres bem definicos. Da China fechada em si mesma, sob o domínio dos comunistas de aldeia e dos comissários que em tudo mandavam, incluindo a inscrição militar e suas vantagens; da China dos tempos de seus (dele) avós… até a China dos arranha-céus e do moderno ensino superior; da revolução no campo (e “todo o poder ao partido comunista”), dos camponeses aos militares, é a vida na China que passa nessa janela de leitura. MO YAN nos convida e nos transporta com maestria de Narrador:

O que quero narrar deve ter acontecido depois de 1979, mas o fio do meu pensamento teima em ignorar esse limite e volta àquele outono de 1969, com seu sol radiante, seus crisântemos dourados e seus gansos migrando para o sul. Nesse ponto, já não distingo de minha lembrança. Meu pensamento, ou aquele eu que fui um dia, um menino solitário expulso da escola, mas ainda atraído pelo vozerio que vinha lá de dentro …” (Leia mais)

O que me atrai em MO YAN é essa capacidade de imaginar e narrar com uma naturalidade própria de quem rememora fatos antigos, não como um historiador ou um cronista do passado (com textos acadêmicos ou laudatórios). É como se estivesse àmesa com o Leitor, contando-lhe fatos antigos, saborosos, divididos com uma alegria inenarrável – desnudando-se, como só os mestres da narrativa e os verdadeiros escritores sabem fazer.

O Autor volta a ser o “menino expulso da escola”, aquele “pequeno atrevido e bocudo” – como o “professor Boca Grande”, visto cinquenta e tantos anos depois, está lá vivo na memória de MO YAN:

“Desde pequeno sou atrevido, desde pequeno sou desastrado, desde pequeno sou mestre em arranjar sarna para me coçar. Muitas vezes eu só queria puxar o saco do professor, mas ele logo imaginava que ali tinha armadilha. MInha mãe Mo-Yan-escritor-nobel-2012suspirava: ‘Ai, filho, você é uma coruja de bom agouro, não faz jus à fama’. (…) Muita gente achava que eu tinha um parafuso a menos, que era um cabeça-dura e que odiava a escola e os professores. Total equívoco. Na verdade, eu nutria um sentimento profundo por minha escola, em especial pelo professor Boca Grande. Porque eu também era um menino de boca grande. O menino em meu conto ‘Boca Grande’ foi inspirado em mim. O professor Liu Boca Grande e eu estávamos, na verdade, unidos pelo infortúnio. Devíamos ter mais compaixão um pelo outro. Bem diz o ditado: quem sofre a mesma doença, sente a mesma dor.” (p.13).

Pensando nas pequenas narrativas ao longo do livro, concluo que a encomenda do sr. Naveen Kishore, feita em 2009 a Mo Yan – “um texto sobre as grandes tranformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas…” – nos propiciou acesso a algo saboroso que nos faz desejar ler mais do autor. Esta resenha não se ocupa de posicionar a Mudança do ponto de vista político-social, coisa que já foi muito bem feita pelos veículos do jornalismo diário ou semanal: a cobertura de Veja , para mim, nesse sentido é exemplar.

Desejoso de ler mais da obra de Mo Yan, constato que, além da referência a “Sorgo Vermelho” – o clássico que se transformou em filme e em episódio recontado pelo autor em “Mudança” – há muito pouco do autor publicado em português. Essa lacuna deve ser preenchida ao longo de 2014, depois da repercussão dos prêmios concedidos a MO YAN. Para quem está habilitado, há muito de Mo Yan a ler. Confira nos links em Inglês e em Francês.

Dos livros comprados e lidos nas férias deste verão, dias depois da leitura, comparando “Mudança” (YAN), com “Fim” (Fernanda Torres) e pensei: eis a diferença entre dois livros – impossível comparar mudança com fim. Afinal, um foi composto por alguém que é do ramo. Vemos aí um literato versus uma (boa) atriz – como escritora, uma excelente humorista, que até tem uma queda para redigir scripts e sketchs – mais que no livro não faz senão confirmar escrita de algo esboçado, personagens sem alma, ocos, homens de palha. Fim não é narrativa que mereça o aplauso deste leitor, apesar do ruidoso barulho da mídia brasileira.
Conclui o blogueiro que é impossível comparar “Fim” com “Mudança”.

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Fonte: MO YAN, “Mudança”. S. Paulo, Cosac Naif, 2012. 128 pp.