Voegelin e a consciência do tempo

ERIC VOEGELIN (*1901/+1985) – filósofo nascido em Colônia (Alemanha), formado na Universidade de Viena (d’Áustria) e que passou grande parte da vida nos EUA, para onde emigrou em 1938 e se tornou cidadão norte-americano em 1944. Voegelin começou a ser lido no Brasil por um grupo restrito de pessoas ligadas à Filosofia e à Crítica, até que a É Realizações fez um trabalho de divulgação da obra do filósofo austríaco que nos possibilitou aos simples interessados e não-profissionais da Filosofia conhecer o pensamento extraordinário desse homem fora do mainstream do pensar, que passou grande parte de sua vida ensinando na Universidade Estadual da Louisiana, em Munique e no Instituto Hoover da Univ. Stanford.
Sobre Voegelin, já publiquei algumas notas de leituras (Voegelin) de edições de seus livros em inglês, bem como uma entrevista com o tradutor de ANAMNESE (e outros) para o português, Elpídio Mário Dantas Fonseca.

O que me interessa bastante em Voegelin não é nem tanto sua abordagem da Política – sua teoria da Ordem na História, que me agarra, sim; mas para além disso são suas memórias, onde engendra seu processo de Anamnese, título do livro em referência. O próprio editor brasileiro anota que

“Anamnese é uma obra central dentro da odisseia intelectual de Voegelin. Marca a mudança, da filosofia da história esboçada em “A Nova Ciência da Política” e desenvolvida nos três primeiros volumes de “Ordem e História”, para a preocupação com a filosofia da consciência dos dois últimos volumes, “A Era Ecumênica”e “Em Busca da Ordem”
(…)
A “natureza peculiar da obra” decorre de que ”Anamnese é o único entre os livros de Voegelin”, [que] “revela um autor olhando para trás e inventariando seu crescimento, em vez de avançar rapidamente em novas regiões e novos problemas. Anamnese é, pois, como que um afastamento dos hábitos eruditos de Voegelin. “

São as lembranças anotadas, após esboçar a Teoria da Consciência e sua leitura da obra de Edmund Husserl que é o foco deste post.
Sem me dar ao trabalho de redigitar, fiz uma figura em scanner de alguns textos do cap.4 – Anamnese. São lembranças do filósofo datadas de antes de seus dez anos de idade. Foram escolhidos “casos”, segundo Voegelin, “em razão de seu conteúdo e seu lugar no tempo. Casos relevantes em termos de conteúdo são os que têm que ver com os estímulos da experiência de uma transcendência no espaço, no tempo, na matéria, na história, nos sonhos desejosos e nos tempos desejosos…” As experiências posteriores aos 10 anos de idade do filósofo “não foram selecionadas, primeiro de tudo, porque elas foram complicadas através do trauma da emigração, e, segundo, porque as experiências de tempos posteriores já não têm o caráter natural das mais antigas, mas, ao contrário, estão estruturadas pelas mais antigas, o que introduz complicações para uma análise”.

Para o leigo em filosofia, como este bloguero, o sabor da leitura desses “casos” nos traz uma face humana de um erudito que parece distante do comum dos homens, mas que então se mostra franco e transparente como uma criança.rouxinol-imperador 2

Essas memórias do pensador – ou suas “experiências anamnésicas” são úteis porque são “experiências que abriram fontes de estímulo, de onde resultou a vontade para mais reflexão filosófica”. Devemos, portanto, a estes exercício de lembrar o posterior “elaborar” da consciência do filósofo porque essas memórias “excitaram a consciência para a ‘dor’ da existência”.
Portanto, assim como na poesia a reflexão (poema) e dor se interligam no “radicalismo e na largueza da reflexão filosófica” de Eric Voegelin.

O Rouxinol do Imperador*

O Rouxinol do Imperador_Voegelin

Leia o “Rouxinol”, Conto de Andersen, na íntegra.Citação de Voegelin_Rouxinol

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Fonte: VOEGELIN, Eric. “Anamnese: da teoria da história e da política”.  trad. Elpídio Mário Dantas Fonseca. S.Paulo, É Realizações, 2009. 544 pp.

Colaboração: Economia em Mutação exige Líderes Colaborativos

Colaboração: Economia em Mutação exige Líderes Colaborativos

CRIEI um novo blog, dedicado aos meus temas profissionais prediletos.
Colaboração, comunicação e produtividade serão os motes para analisar as formas como as pessoas colaboram no Trabalho e fora dele (nas organizações sem fins lucrativos, associações e 3o. setor). Meu “mentor virtual” é o professor Morten T. Hansen, da University of California, Berkeley (School of Information) and at INSEAD, France. Com ele aprofundei meu interesse sobre como o líder pode se construir e se moldar através da colaboração.
Para saber mais sobre o meu Novo blog, clique na figura acima ou no link de “Colaboração no Trabalho“.

Papa Francisco e a Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, nov-2013

Papa_Sorrindo“Evangelii Gaudium”:

Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (24 de novembro de 2013).

Para Ler na Quaresma 2014 (II)

 

Manuel Bandeira –

Poeta amado na minha juventude, foi por um tempo esquecido, até que Edson Nery da Fonseca me fez redescobrir seus poema (dele, Bandeira), num volumezinho primoroso (como quase todos) da Editora Cosac Manuel BandeiraNaify.

Antes, confesso, na longa temporada em que passei lendo (e apreciando J.G. Merquior, apareceu-me um Bandeira diferente (o crítico) que escolhera o jovem Merquior como co-Autor da Antologia da Poesia Brasileira, 1963. Mas isso isso é assunto para outro post. Agora, para esta Leitura de Quaresma (2014), selecionei alguns poemas do volume e referência de um bom site, onde o leitor encontrará mais poemas de Bandeira.

UBIQÜIDADE

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)
Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

– Da seção Deus, p.9, vol. cit, vide Fontes abaixo*


SantasORAÇÃO A TERESINHA DO MENINO JESUS
(da seção As Santas, op. cit. ver fontes* – duas orações)

Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha…
Teresinha… Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.

Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No
Pelo sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!…
Santa Teresa não, Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.


ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DA BOA MORTE

Fiz tantos versos a Teresinha…
Versos tão tristes, nunca se viu!
Pedi-lhe coisas. O que eu pedia
Era tão pouco! Não era glória…
Nem era amores… Nem foi dinheiro…
Pedia apenas mais alegria:
Santa Teresa nunca me ouviu!
Para outras santas voltei os olhos.
Porém as santas são impassíveis
Como as mulheres que me enganaram.
Desenganei-me das outras santas
(Pedi a muitas, rezei a tantas)
Até que um dia me apresentaram
A Santa Rita dos Impossíveis.
Fui despachado de mãos vazias!
Dei volta ao mundo, tentei a sorte.
Nem alegrias mais peço agora,
Que eu sei o avesso das alegrias.
Tudo que viesse, viria tarde!
O que na vida procurei sempre,
— Meus impossíveis de Santa Rita, —
Dar-me-eis um dia, não é verdade?
Nossa Senhora da Boa Morte!


E por fim, um link para que você possa continuar lendo poemas de Manuel Bandeira, seleção do site A Voz da Poesia.
+++++
Cosac Naify(*) Fontes:
BANDEIRA, Manuel. “Poemas Religiosos e Alguns Libertinos”. Seleção e posfácio: Edson Nery da Fonseca. Título original: “Poemas de Manuel Bandeira com motivos religiosos. Texto do Prefácio da 1a. edição por Gilberto Freyre. 2a. ed. revista e ampl. – S.Paulo: Cosac Naify, 2007, 112 pp. 9 ils. ISBN 978-85-7503-581-8.
Ubiquidade é da pág. 9.
Oração a Nossa Senhora da Boa Morte, pág. 26.
Oração a Teresinha do Menino Jesus, pág. 50.

Para Ler na Quaresma

JORGE DE LIMA,
– como sabem meus seis leitores,
é membro do triunvirato de poetas católicos
do Brasil, ao lado de Murilo Mendes
e Augusto F. Schmidt.

 Pequena Notícia biográfica.

Abaixo, transcrevo mais um poema deste católico exemplar e meu poeta predileto quando o tema é o Sagrado!

 


Confissões, Lamentações e Esperança a Caminho de Damasco.(*)

O MUNDO precisava de amor:
na véspera de Vossa Morte nos deixastes um legado:
a Hóstia para matar fome e sede.
E vossa Missão terminada subistes para a direita do Pai
e Lhe mostrastes as cicatrizes que Vos deixamos no corpo.
Pai Amado, eu que sou a realização de Vosso Pensamento,
dai-me complacências.
Senhor, minha Fé é diminuta: aumentai-a.
Dai-me olhos de contemplação,
dai-me respostas,
dai-me um cavalo de Vosso Reino
que tomando as rédeas de minha mãome leve para Damasco.
Pai Amado, sou cego, aleijado, e paralítico:
meus membros não darão na Cruz.
Estou calejado de perenes quedas:
Curai-me todo.
Transformai-me como transformastes o vinho.
Não me abandoneis em interrogação permanente.
Dei-vos uma costela para fazerdes Eva
e as 23 restantes a Satã para corrompê-la.
Sou colono e amicíssimo de Lúcifer.
Sou da primeira serpente, sou um prisioneiro da primeira guerra.
Dai-me um cavalo de Vosso Reino para ir a Damasco!
Sou fornecedor de armas para os filisteus.
Sou o que torpedeia a Arca e a Barca.
Sou o reconstrutor de Babel.
Sou bombeiro do incêndio de Sodoma.
Fui demitido da Vida.
e Vós me enviastes outra vez.
Demiti-me de novo que errei mais!
Sou o assassino de Lázaro,
sou plantador de joio:
Dai-me um cavalo para eu fugir!
Quis afogar São Crisóvão,
transformei as algas em micróbios
e as asas em aviões de guerra!
Deu Amado, Vós que tendes sido meu pára-quedas,
meu ascensor, minha escada, minha ponte,
segurai-me para que eu não me precipite dos arranha-céus!
Dai-me um cavalo para eu fugir!
Dai-me um cavalo de Vosso Reino
e que eu sem querer vá para Damasco.
Amado Pai, no caminho de Damasco
basta uma sílaba para eu enxergar de novo,
ou um coice de Vosso cavalo para eu despertar na Luz!
+++++
(*) © Família J.L. Fonte: LIMA, JORGE de. “OBRA COMPLETA, vol.I – “A Túnica Inconsútil”, Aguilar, Rio de Janeiro, 1958, p.441/2.Jorge de Lima_Relançamento_Recorte
Post-Post: Uma boa notícia é que foi relançada a obra “Invenção de Orfeu”, por muitos críticos considerada como “o primeiro [grande] poema da brasilidade” (J.G. Simões, 1952).
E Murilo Mendes, cit. por J.G. Simões, no prefácio à 1a. edição da Invenção de Orfeu, diz:
”O trabalho de exegese do livro terá que ser lentamente feito, através dos anos, por equipes de críticos que o abordem com amor, ciência e intuição, e não apenas com um frio aparelhamento erudito”. (p.609 da OC).
Para ler mais poesias de Jorge de Lima, clique aqui.

Da Mudança: Mo Yan*

[bookcover:Mudança|18243150]
”MUDANÇA”: LIVRO LIDO de um só fôlego, nas férias do último verão, em Recife. Dito assim, parece que a apreciação crítica ficaria diferenciada, se lido em uma gélida biblioteca de Oslo ou Nuremberg.
– Fica, sim sr. Leitor, respondo silencioso.MoYan_CapaMudanca

Primeiro, porque a lassidão se vai esvaindo com a visão do mar e
os dias de relaxamento, com o ameno relacionamento entre os membros da família (em veraneio); o distanciamento das rotinas, e até do descumprimento dessas; depois, estar à beira-mar é como se a imaginação mais se dispusesse a deixar-se levar pela leitura.

Porém é certo ainda que, se estivesse condenado ao frio de Oslo ou à solenidade vetusta de Nuremberg, por certo eu acharia outas razões para ler e escapar do real pela janela da imaginação…

Na leitura, manda o Autor. A força de seu texto é que faz toda a diferença, muito além (e antes) do clima ou do estado de espírito (ou do conforto) do Leitor. Mas é o Leitor a autoridade absoluta, quem decide ir à biblioteca, à livraria, ao sebo ou ao website. Aí, corre os olhos às lombadas de volumes sem fim, até que uma capa ou um título o agarra (há quem os furte!) e assim procura um banco, uma mesa, em sua casa, ou hotel e se enfurna para ler. Há os que lêem no ônibus, no metrô, a caminho de casa, como o destinatário de uma carta, impaciente para ler notícias da família distante.

Sob a demanda de escrever uma espécie de documentário, Mo Yan, o prêmio Nobel de 2012, nos presenteia com uma série de estórias entrelaçadas que nos deixam ver para além do véu da antiga censura maoista, como uma janela aberta ao ocidental sob o olhar e a experiência de vida de um “poeta” cinquentão (Mo Yan nasceu no mesmo ano deste resenhista: 1955) – a se lembrar da infância, da juventude, da vida inteira, enquanto seu país vai aos poucos se modernizando e se abrindo aos costumes ocidentais.

MO YAN pega o Leitor pela gola, segura-o firme, e – ao contrário do seu professor que o expulsa a chutes da classe, vai conquistando o Leitor pouco a pouco, encantando-o com a mágica da escrita –; o que ele faz pela construção apropriada de seus ‘personagens’.

Seguramente, mesmo num livro de encomenda, estes não são homens de palha: o professor, o aluno (narrador), a colega bonita, que se sentava a seu lado na escola; o brioso caminhão Gaz ‘51; seu colega que se enriquece com o advento das regras de mercado à China – todos com seus nomes difíceis de se guardar, mas que são caracteres bem definicos. Da China fechada em si mesma, sob o domínio dos comunistas de aldeia e dos comissários que em tudo mandavam, incluindo a inscrição militar e suas vantagens; da China dos tempos de seus (dele) avós… até a China dos arranha-céus e do moderno ensino superior; da revolução no campo (e “todo o poder ao partido comunista”), dos camponeses aos militares, é a vida na China que passa nessa janela de leitura. MO YAN nos convida e nos transporta com maestria de Narrador:

O que quero narrar deve ter acontecido depois de 1979, mas o fio do meu pensamento teima em ignorar esse limite e volta àquele outono de 1969, com seu sol radiante, seus crisântemos dourados e seus gansos migrando para o sul. Nesse ponto, já não distingo de minha lembrança. Meu pensamento, ou aquele eu que fui um dia, um menino solitário expulso da escola, mas ainda atraído pelo vozerio que vinha lá de dentro …” (Leia mais)

O que me atrai em MO YAN é essa capacidade de imaginar e narrar com uma naturalidade própria de quem rememora fatos antigos, não como um historiador ou um cronista do passado (com textos acadêmicos ou laudatórios). É como se estivesse àmesa com o Leitor, contando-lhe fatos antigos, saborosos, divididos com uma alegria inenarrável – desnudando-se, como só os mestres da narrativa e os verdadeiros escritores sabem fazer.

O Autor volta a ser o “menino expulso da escola”, aquele “pequeno atrevido e bocudo” – como o “professor Boca Grande”, visto cinquenta e tantos anos depois, está lá vivo na memória de MO YAN:

“Desde pequeno sou atrevido, desde pequeno sou desastrado, desde pequeno sou mestre em arranjar sarna para me coçar. Muitas vezes eu só queria puxar o saco do professor, mas ele logo imaginava que ali tinha armadilha. MInha mãe Mo-Yan-escritor-nobel-2012suspirava: ‘Ai, filho, você é uma coruja de bom agouro, não faz jus à fama’. (…) Muita gente achava que eu tinha um parafuso a menos, que era um cabeça-dura e que odiava a escola e os professores. Total equívoco. Na verdade, eu nutria um sentimento profundo por minha escola, em especial pelo professor Boca Grande. Porque eu também era um menino de boca grande. O menino em meu conto ‘Boca Grande’ foi inspirado em mim. O professor Liu Boca Grande e eu estávamos, na verdade, unidos pelo infortúnio. Devíamos ter mais compaixão um pelo outro. Bem diz o ditado: quem sofre a mesma doença, sente a mesma dor.” (p.13).

Pensando nas pequenas narrativas ao longo do livro, concluo que a encomenda do sr. Naveen Kishore, feita em 2009 a Mo Yan – “um texto sobre as grandes tranformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas…” – nos propiciou acesso a algo saboroso que nos faz desejar ler mais do autor. Esta resenha não se ocupa de posicionar a Mudança do ponto de vista político-social, coisa que já foi muito bem feita pelos veículos do jornalismo diário ou semanal: a cobertura de Veja , para mim, nesse sentido é exemplar.

Desejoso de ler mais da obra de Mo Yan, constato que, além da referência a “Sorgo Vermelho” – o clássico que se transformou em filme e em episódio recontado pelo autor em “Mudança” – há muito pouco do autor publicado em português. Essa lacuna deve ser preenchida ao longo de 2014, depois da repercussão dos prêmios concedidos a MO YAN. Para quem está habilitado, há muito de Mo Yan a ler. Confira nos links em Inglês e em Francês.

Dos livros comprados e lidos nas férias deste verão, dias depois da leitura, comparando “Mudança” (YAN), com “Fim” (Fernanda Torres) e pensei: eis a diferença entre dois livros – impossível comparar mudança com fim. Afinal, um foi composto por alguém que é do ramo. Vemos aí um literato versus uma (boa) atriz – como escritora, uma excelente humorista, que até tem uma queda para redigir scripts e sketchs – mais que no livro não faz senão confirmar escrita de algo esboçado, personagens sem alma, ocos, homens de palha. Fim não é narrativa que mereça o aplauso deste leitor, apesar do ruidoso barulho da mídia brasileira.
Conclui o blogueiro que é impossível comparar “Fim” com “Mudança”.

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Fonte: MO YAN, “Mudança”. S. Paulo, Cosac Naif, 2012. 128 pp.

Alta lucidez do papa emérito… – Adalberto De Queiroz

À coragem, que é uma virtude que sempre caracterizou J. Ratzinger como papa Bento XVI, soma-se agora a (re)afirmação da Lucidez. O decano papa Emérito o mostra em Crítica à Teologia da Libertação, na primeira entrevista, desde a sua renúncia.
(*)“A fé cristã era usada como motor por esse movimento revolucionário, transformando-se assim em uma força política. Naturalmente, essas ideias se apresentavam com diversas variantes e nem sempre se mostravam com absoluta clareza, mas, no todo, essa era a direção. A uma símile falsificação da fé cristã era necessário se opor até mesmo por amor aos pobres e em prol do serviço que deve ser feito para eles”.
Vale a pena conferir a entrevista inteira no website da revista Exame.

Em sua primeira entrevista
O papa emérito Bento XVI

Além de Coragem, Papa Emérito mostra altíssima lucidez, o papa emérito… – Adalberto De Queiroz.

Lua sobre o meu jardim (2)

ules Laforgue escreveu, em 27 anos de existência, cerca de duas centenas de poemas – além de prosa criativa e prosa crítica”, revela-nos Régis Bonvicino, tradutor e organizador de “Litanias da Lua”, que traz 21 poemas e 4 pequenos ensaios de Jules, além do ensaio citado acima. Apesar de tão pouco tempo de vida e atividade poética, Laforgue influenciou gente do calibre de T.S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp. Sua mágica poética laçou Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade etc.

Leia Mais...

Saudades do Carnaval*

Agora sim, é Carnaval.Imagem Vive-se no país inteiro o Carnaval – festa pagã, com um pé na concessão cristã de a `Carne-Vale´, festa descendente das saturnais antigas do paganismo. Para mim, hoje não vale mais o grito da escola de Samba, mas o ” Carnaval dos Animais”, do compositor Camile Saint-Saëns. O leitor-ouvinte pode começar com a abertura do rei Leão e escolher entre as faixas: Galinhas e Galos, Antílopes, Tartarugas, Elefante, Cangurus, Aquário, Personagens orelhudos, O cuco no fundo do bosque, O cisne, pianistas etc. Enjoy it. Bom Carnaval. Aos interessados, uma reflexão de J.G. Merquior (*) no rodapé deste post.
ADENDO AO POST (em 04/03/2014).


Caros Amigos –
No momento político do Brasil, uma conclusão: a prática marxista que faz o PT agir na sombra (ou à luz do dia) nos leva a crer que não se trata de um bloco de mensaleiros, mas sim de um bando de ‘revolucionários oportunistas’ a fornicar com a Pátria…
Capa_VejaCarnaval'14A capa da revista VEJA, que me chegou às mãos com atraso de 24 horas, me azedou meu Carnaval em Paz. A gravidade da situação política do país deve afligir os homens de bem.
A ‘virada’ na votação do STF me dá a dimensão exata do poder que os petistas tem na República hoje. A desfaçatez com que a Presidente tira recursos de investimentos no país para aplicar em Cuba, Venezuela e ditaduras outras, somada à manipulação das instâncias diversas do Poder, nos dão a exata dimensão de que vivemos numa ditadura do partido dos Trabalhadores.
E isso parece não ter um fim próximo. Talvez por isso o ministro Gilberto Carvalho fique tão a cavalheiro para dizer que “continuaremos investindo” na baderna, enquanto minguam os recursos para a Produção… Pobre país alucinado enquanto sambam todos uns poucos fazem de Brasília uma verdadeira pocilga.


Le Carnaval des Animaux: I. Introduction et Marche Royal du Lion

Para entender melhor a obra de Saint-Saëns, explicações do blog do Maestro EMANUEL MARTINEZ, a melhor info em português sobre esta obra: http://bit.ly/ONZu7a

  • REPERTÓRIO: SAINT-SAËNS, Camille – Carnaval dos animais
    repertoriosinfonico.blogspot.com

  • Pianistas, entre os animais? Pode parecer-lhe estranho, dileto leitor, mas quem explica é o Maestro Martinez :
    – “De repente aparecem dois pianistas que também querem participar da festa do zoológico. Eles vão tocar para vocês, mas não reparem: são principiantes e a única coisa que sabem tocar, mais ou menos, é um certo exercício de piano. Por favor, perdoem os erros…”

  • Eu que amava a Marcha Real do Leão…já estou repensando minha predileção, diante do movimento “O Cisne”.
    Ainda o Maestro Martinez:
    “CISNE – Chegamos ao lago de nosso zoológico. Bem no meio, nobre e tranqüilo, um belo cisne branco desliza sobre as águas. Ninguém melhor que o naipe das cordas para representar a calma, a solitária elegância do cisne, que lentamente desaparece ao nosso olhar.”
    (cit. do blog REPERTÓRIO SINFONICO do Maestro Emanuel Martinez).
  • há 21 horas: © um Poeta pensava: Já o rufar dos tambores se fazia ouvir nos morros do Brasil afora… Outros locais menos afeitos às tradições do Carnaval, preparavam-se para retiros espirituais ou longas sonecas nas tardes vazias; longos passeios nas ruas desertas; pequenos furtos nas casas à vista – com suas luzes permanentes na varanda; os amantes se preparavam para desfazer o mal-estar da ausência do Eros durante as longas jornadas de trabalho; um esguio senhor magro como tantos, amarelo como todos no escritório, deixava seu subsolo para se mostrar como Juscélia num bloco que saía há 30 anos em seu bairro… e outros cristãos cruzavam a solidão dos dias do reinado de Momo olhando de esguelha pela janela aberta e excitados com o neon do aparelho de TV sempre ligado…
    “Saudades do Carnaval era o pensavam o escritor sem assunto, o repórter sem matéria, o político sem palanque, a mulher que estreita as coxas – sem a presença do amante… Saturnais, “carnaval, ah, desengano!” – soa
    a canção antiga na mente dos solitários.”

  • (*) Reflexões sobre o Carnaval, do pensador J.G. Merquior:
    Esse psiquismo reprimido, de manifestação cuidadosamente restrita a determinados momentos do calendário tradicional, se alimentava do orgiástico – daquele ´êxtase agudo´que Weber distinguiu do crônico estado de santidade proporcionado pelas éticas rigoristas. O delírio orgiástico, a celebração dionisíaca, o transe coletivo, são válvulas plenamente reconhecidas (embora enquadradas) pelas culturas de tipo arcaico; elas permitem ao indivíduo e aos grupos sociais um periódico desforrar-se das suas opressões e frustrações. Na festa orgiastíca – saturnais, carnaval –, a sociedade vivia o reconhecimento da sua própria contestação (esse poder institucional de subversão singulariza o impulso carnavalesco na libido lúdica da sociedade. Sem ele, o ludismo cultural descrito por Huizinga fica condenado às sublimações mais ou menos conformistas – erro evitado por G. Bataille).Imagem
      • Vem assim, “em seguida, o espírito da máscara – ou, na fórmula de Mikhail Bakhtin, da ´negação da estúpida coincidência consigo mesmo´; a rebelião contra o ego submetido a uma continuidade dócil à repressão. A máscara princípio de metamorfose, antítese da persona sufocante. Segundo Walter F. Otto, vários cultos gregos utilizavam máscaras, mas só no de Diônisos existia uma relação íntima entre máscara e teofania; Diônisos, o deus da alteridade radical, fazia coincidir sua presença com a ausência de toda imagem fixa: com o rosto vazio a ser preenchido pelo Outro. A 3a. característica maior do saturnalismo é a profanação sisstemática, as aproximações excêntricas (do baixo com o sublime, do sábio com a insensatez etc.) signo da consciência protéica do inacabamento do universo. Na visão do mundo carnavalesca, a realidade é uma transformação incessante.
        “No centro do carnaval se situa o rito que Bakhtin chamou de felicidade de ´endestronização´: a elevação ao trono de um rei-bufão, senhor-escravo, velho-criança; de um rei Momo, abbas stultorum, lord of misrule, abbot of unreason. Na posse de tal monarca já transparece a sua deposição; o gesto da coroação significa ironicamente um veto radial a todo poder estabelecido ou por estabelecer – uma relativização de todo valor instalado ou instalável, uma Welt-Verlachung (J-P.), ridicularização do mundo inteiro. O cetro do rei Momo é pura parõdia. Mas essa paródia zomba de si mesma: a relativização saturnal não é negativa absoluta, é antes a consagração do sentimento do ciclo, da lei da perecibilidade de toas as condensações culturais, da sequência necessária de morte-e-regeneração. A paródia carnavalesca relembra a finitude, mas conjura a imortalidade. O riso de entrudo descende do escárnio ritual que, na sociedade primitiva, castigava deuses e soberanos, a fim de pô-los em brios e de obrigá-los  a renovar-se, promovendo a fecundação da terra e da raça. É uma gargalhada cosmogônica praticada em tempos de crise. Riso instigador da vitalidade, porque ele próprio é símbolo da exuberância da libido: Freud ligaria a consciência do cômico ao senso da energia psíquica economizada. (…)
        “…O carnaval é, a rigor mais festa do que espetáculo; seu palco é o mundo, seu protagonista é toda gente, ou o bufão que não é ator, e sim continuamente, cotidianamente bobo.
        “(…) Seria triste que o Brasil, sendo, por sua formação, depositário de paradigmas culturais que mal ou bem resistiram a algumas das mutilações humanas provocadas pela racionalização da vida, abdicasse de seu passado no exato instante em que o futuro lhe confere tanto sentido. Triste e irônico – porque a guinada que sufocasse em nós o espírito do carnaval, o espírito lucidamente ´amoral´ de Macunaíma, em proveito de não-sei-que forçada compostura, conseguiria tão-somente nos colocar na órbita sombria do atraso cultural. E então, só restaria rezar para que o gênio da avacalhação – esse saci verde-amarelo – nos restituísse a nós mesmos, à nossa autêntica ´inautenticidade´ ética.”

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Fonte:
MERQUIOR, J.G. “Saudades do Carnaval. Introdução à Crise da Cultura”. Forense. Rio de Janeiro, 1971. p.183 e seguintes; p.243.