Salve, Antonio Tabucchi (I)

Num pequeno período de férias, em dezembro passado, fui à biblioteca do hotel em que estava hospedado com a família, quando encontrei “Réquiem: Uma Alucinação”, livro de A.Tabucchi escrito pelo italiano, originalmente, em língua portuguesa. As poucas páginas do romance foram lidas com voracidade e entusiasmo crescente a cada página. Nem me lembrava que na juventude eu fui o que designavam ‘rato de biblioteca`. O tempo passa depressa demais e fiquei com a impressão de que havia descoberto um escritor para ficar em minha vida de leitor indisciplinado.
Lembro-me que quando conheci o escritor pernambucano Hermilo Borba Filho, no final da déc. de 70/início dos 80, foi uma alegria similar. Queria ler tudo, ter todos os livros. Assim também com o judeu-sefardin, búlgaro, Elias Canetti. Com Santa Teresa D’Ávila, com Emily Dickinson, com Paul Auster… Era como “se não tivesse livro novo” deste(a) ou daquele(a) escritor(a) não estivesse feliz.
Com Antonio, repete-se este meu hábito (vício?) de conhecer, apaixonar-me pela leitura e querer ter (ler) tudo de um escritor –
nem sempre se lê o que se compra, de pronto – pois, afinal, o objeto livro é como uma prataria, dizia um certo francês, não se usa todo dia (discordo dos que pensam, ao visitar minha biblioteca, que tenho a obrigação de ter lido os mais de 3mil livros aqui reunidos). Uma outra coisa que me marcou todo tempo, de meus bem vividos cinquenta-e-oito anos, é que o desaparecimento (a passagem) de um escritor é como se fosse a perda de um ente querido, um parente, um próximo. Foi assim com Clarice, com Quintana, com o Érico, com Hermilo, com Ítalo Calvino e tantos outros.
Tendo conhecido Antonio, depois que a morte o levou, ficarei procurando livros dele em português, italiano, inglês (no meu Kindle no meu tablet Android) por todo o sempre, sem que jamais o possa vê-lo atuando neste planeta de provações.
Alguém já disse que os personagens de um escritor amado são como amigos íntimos. Com eles se conversa em silêncio, eles aparecem em sonhos, eles são exemplos quando o leitor está diante de um desafio cotidiano. É, pois, como se Antonio aqui estivesse. É também como se entre nós um “pacto” se estabelecesse silenciosamente. Ficam os livros à cabeceira ou na pasta para que sempre voltemos a conversar. Ele tendo escrito nas páginas. Eu,de cá, falando em silêncio as palavras que ele descobriu comunicar, gravar para sempre num livro.
Fico sabendo que Tabucchi amava Portugal e seus escritores, que aprendeu português para melhor conhecer a literatura construída na língua de Camões. A paixão primeira tendo sido o poeta Fernando Pessoa, a cidade que amou e por onde andou e eternizou em Réquiem sendo a capital portuguesa – a nossa “Lisboa dos manjericos”. Não tenho o Réquiem em mãos para citar algum dos muitos trechos saborosíssimos em que Lisboa está no centro, em que até o diário do futebol é lido, em que a sombra do que somos se materializa num sonho. O sonho que é a ficção.
De volta a Goiânia, comecei a minha busca por outros livros de A.T. Os sebos do centro da cidade não tinham nada. A Estante Virtual me pedia muitos dias para entrega. Não aguentaria tanta espera. Achei o “Noturno Indiano”numa livraria de shopping. Comprei-o. Leituras rápidas, os dois livros me levaram a Fnac, onde encontrei “O Tempo Envelhece Depressa”e, na Saraiva, “Autobiografie Altrui: Poetiche a posteriori”(que vou lendo devagar e com o apoio do dicionário italiano-português da martins fontes).

© Foto de Antonio Tabucchi extraída do site d’ O Público, jornal português, AT tinha 68 anos quando faleceu em Lisboa, 2012 (by CARLOS LOPES).

Como este espaço é feito de resenhas destrambelhadas: falo o que quero, sobre os autores de que gosto mais, sem muita frequência, mas quando escrevo, gosto de me expressar como se conversasse com o leitor. Eia, pois, que lhe digo, se resistiu até agora a essa resenha, digo-lhe: vale muito a pena ler Antonio Tabucchi.

Difícil é separar trechos da sua escrita para encantar você, leitor,Tabucchie fazê-lo sair correndo pra livraria ou para um site de compras, atrás dos livros dele. Mas, vá lá, que transcrevo alguns que me estão a mão, aqui do lado.

Do “Réquiem”nada tenho posto que lido numa biblioteca.

Do “Noturno”:

“- O que fazemos dentro destes corpos – disse o senhor que se preparava para deitar-se na cama perto da minha.
“Sua voz não tinha um tom interrogativo, talvez não fosse uma pergunta, era apenas, a seu modo, uma constatação; de qualquer forma seria uma pergunta a que eu não poderia responder. A luz que vinha da plataforma da estação era amarela e desenhava nas paredes descascadas sua sombra magra, que se movia com leveza, com prudência e discrição, me pareceu, como se movem os indianos. De longe vinha uma voz lenta e monótona, talvez uma prece ou um lamento solitário e sem esperança, como os lamentos que exprimem só a si mesmos, sem pedir nada. Para mim era impossível decifrá-lo. A Índia era também isto: um universo de sons monótonos, indiferenciados, indistintos.
“- Talvez viajemos dentro deles – eu disse…”(IV/p.32)

“Tudo pode acontecer na vida, até mesmo dormir no hotel Zuari. Na ocasião, pode parecer um acontecimento não muito feliz; mas na lembrança, como sempre nas lembranças, decantadas das sensações físicas imediatas, dos odores, da cor, da visão de algum bichinho debaixo da pia, a circunstância assume uma imprecisão que melhora a imagem. A realidade passada é sempre menos má do que foi efetivamente: a memória é uma formidável falsária. Certas contaminações são feitas, mesmo sem querer. Hotéis assim povoam a nossa imaginação: já os encontramos nos livros de Conrad ou de Maugham, em algum filme americano extraído dos romances de Kipling ou de Bromfield: parecem-nos quase familiares”(IX, p.68 – tradução de Wander M.Miranda).

De “O Tempo…”

“E se jogássemos o jogo do se? A lembrança chegou com uma voz da mesinha do lado, como se o tio estivesse ali escondido, atrás das sebes que delimitavam o terraço do café. Desta vez era a voz do tio e além disso aquele jogo havia sido inventado por ele. Por quê? Porque o jogo do se faz bem à imaginação, sobretudo em certos dias de chuva … é setembro, e em setembro às vezes chove, paciência, em sua casa, se chover, um menino tem tantas coisas para fazer, mas nestas férias forçdas, sobretudo numa casinha alugada e bem decorada, ou pior ainda numa pensão, se chover vem o tédio, e com ele a melancolia. Por sorte, existe o jogo do se, assim a imaginação trabalha, e o melhor é quem propõe coisas de doido, doido de pedra, mamma mia, que risadas, ouçam esta: e se o papa desembarcasse em Pisa?” (p.42 – trad. Nilson Moulin).

De “Autobiographie…”:

“Secondo le indicazioni di una certa critica, forse un poco rigide ma non per questo meno utili, potremmo dire che il romanzo, anziché stabilire tra l’autore e il lettore un ‘patto autobiografico’’ (nel senso che il lettoree accetta che ciò che l’autore ha scritto sia un’autobiografia), stabilisce ciò che si definisce un ‘patto romanzesco’: il lettore sa che quello che sta leggendo proviene dal vissuto dell’autore, ma è al tempo stesso consapevole che tale vissuto è stato transformato in finzione, cìoè in romanzo.” (p.21)

No próximo post, conto-lhes porque Tabucchi não veio a uma Festa do Livro no litoral do Rio de Janeiro.
+++++
Fontes: “O Tempo…” é da Ed. Cosac Naïf (2012), assim como o Noturno (2010); enquanto o “Autobiografie Altrui” é da Feltrinelli, 2003.


 

Bem-vindo, Papa Francisco

Caríssimos leitores,

Desculpem-me por ficar tanto tempo sem postar. Desde então, fiz uma porção de coisas interessantes. Como este blog não é confessional no sentido de dizer tudo, vou atualizá-los quanto aos meus sentimentos.

O fato é que o mundo deu uma ‘balançada’ bem extraordinária. Um papa renunciou depois de 600 anos. A Igreja Católica não se baliza por décadas, como sabemos (os católicos),; mas Bento XVI é protagonista de um ato inusitado se pensarmos em cronologia. É verdade que a Igreja não pensa em anos, pensa em séculos…

Eu sou formalmente um católico muito ‘recente’. Eu fui criado no ambiente do Protestantismo moderado no Brasil, com influência norte-americana.

Eu me converti ao Catolicismo aos 49 anos, embora já convencido de que era a religião (e a celebração/denominação) mais adequada há alguns anos antes em minha vida. Faltava a decisão espiritual, muito por conta da disciplina que o Catolicismo exige de nós.

Eis-me aqui! Quase 10 anos depois, tendo vivido a orientação espiritual de meus sacerdotes locais, e a inspiração do Papa João Paulo II, de Bento XVI; diante do Papa Francisco.

.

O que dizer deste “Servo do Senhor” ?
– Que Deus o abençôe, Papa Francisco.
A Igreja espera muito do Senhor. A Juventude espera muito do Senhor. A Vida espera tudo do Senhor.
O Bispo de Roma, Francisco, é o nosso Pastor. Cuide bem da Igreja. A Ordem de onde (no fim-do-mundo) os Cardeais (inspirados pelo Espírito Santo) te acharam e o Lugar (Argentina) não me importam inicialmente (pois o Papa não tem Nacionalidade).
És Francisco, como o Poverello de Assis. És o nosso Pastor. Deus te Abencôe. Nossa Senhora te Proteja (que lindo ver o Senhor rezando o que rezamos em nossas paróquias e nossas casas quando estamos diante de desafios bem menores do que Sua Santidade!). Rezo por Francisco. Deus proteja o Papa Francisco. Papai Francesco!

Giuseppe Sarto, a eleição de um santo (I).

Enquanto esperamos a decisão dos Cardeais da Igreja sobre o novo papa, aproveitemos essa série do blog Fratres in Unum e rezemos para que o Espírito Santo oriente os votantes.
Amitiés,
Beto.

Fratres in Unum.com

Iniciamos hoje uma série sobre a eleição ao Sólio Pontifício de São Pio X, que esperamos concluir até a eleição do novo Sumo Pontífice.

sartoOs eleitores entraram em conclave na sexta-feira, 31 de julho de 1903, às 5 da tarde. Os cardeais poderiam ser acompanhados por duas pessoas, diante dos quais eles manteriam o mais absoluto sigilo: um “conclavista” e um “guarda nobre”. O Cardeal Sarto escolheu Monsenhor Bressa como seu conclavista e o Conde Stanislao Mucciolli como seu guarda nobre.

A cargo do conclave estavam o Decano do Sagrado Colégio e Camerlengo, Cardeal Oreglia de San Stefano, o único purpurado vivo criado por Pio IX. Monsenhor Merry del Val, presidente da Academia de Nobres Eclesiásticos, era o secretário do conclave. Monsenhor Cagiado de Azevedo e o Príncipe Mario Chigi eram, respectivamente, governador e marechal do conclave.

Sessenta e dois cardeais se reuniram na Capela Sistina para proferir o juramento

Ver o post original 639 mais palavras