Lua cheia sobre o meu jardim

Ontem à noite, a lua cheia apareceu no alto do nosso jardim, democraticamente dividida entre os poetas, os apaixonados e alguns vampiros modernos.

lua cheia no aldeia 2 Assim que ela se exibiu para nós, desatou em mim aquele desejo de saber fotografar, mas minhas retinas cansadas já tinham registrado o que o iPhone (com este inabilidoso usuário) não podia fazer com maior mestria.
Deu-se que comecei a pensar em algumas referências poéticas à lua, que veio me iluminando os dias, ao longo desses 57 anos. Algumas vêm da música popular e, da literatura, as mais caras ao meu acervo emocional. Como se sabe, desde o tempo de nossos avoengos, a lua exerceu ao longo da história humana um grande feitiço como neste exemplo de post: A lua no imaginário popular.

E para os amantes (com ou sem vinho ou conhaque), como este bloguero, a primeira grande referência poética é mesmo a de Carlos Drummond de Andrade (no famoso Poema de 7 Faces):

Eu não devia te dizer , mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo…

Eu nem mesmo sei se o diabo é um sujeito comovido ou não, mas estou certo de que a lua exerce uma verdadeiro fascínio sobre os poetas em especial os brasileiros.
Mas a expressão poética me remete aqueles (e àquelas) poetas que tem “fases como a lua”, feito Cecília Meireles e o poeta irlandês  W.B. Yeats que nos legou o livro dos livros sobre as fases da lua.
De Cecília assim entendemos suas “fases” (enquanto em Yeats há mais segredos a desvendar em sua prosa-poética:

Tenho fases como a lua

Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

(…)
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…”

Nessas fases ando interessado,  como W.B. Yeats em seu estudo “A Vision” – por isso deposito meu cansaço em olhar perdido para a lua nesse final de ano, que me faz pensar que o Poema 20 de Pablo Neruda, só poderia ter sido escrito com o olhar para uma noite de lua cheia, embora só haja referência a “la noche estrellada” onde “brilham os astros, azuis, à distância…”
E assim o poeta  sente a imaginação que criadora do antológico
“Puedo escribir los versos más tristes esta noche”
— Sinceramente, parece-me quase impossível que aí no nascedouro desse poema (sobre uma perda amorosa) não houvesse uma lua cheia.

Há ainda o delicioso Poema 184 de W.B.Yeats The Cat and The Moon (para os anglófonos):

THE CAT AND THE MOON

The cat went here and there
And the moon spun round like a top,
And the nearest kin of the moon,
The creeping cat, looked up.
Black Minnaloushe stared at the moon,
For, wander and wail as he would,
The pure cold light in the sky
Troubled his animal blood.
Minnaloushe runs in the grass
Lifting his delicate feet.
Do you dance, Minnaloushe, do you dance?

When two close kindred meet,
What better than call a dance?
Maybe the moon may learn,
Tired of that courtly fashion,
A new dance turn.
Minnaloushe creeps through the grass
From moonlit place to place,
The sacred moon overhead
Has taken a new phase.
Does Minnaloushe know that his pupils
Will pass from change to change,
And that from round to crescent,
From crescent to round they range?
Minnaloushe creeps through the grass
Alone, important and wise,
And lifts to the changing moon
His changing eyes.

E se a memória já se vai esvaindo (em busca de tantas outras referências poéticas à irmã Lua – pobre irmão Sol, Francisco); a visão abençoada da lua cheia me faz reler Mário Quintana:

A LUA DE BABILÔNIA

Numa esquina do Labirinto
às vezes
avista-se a Lua.
“Não! como é possível uma lua subterrânea?”

(Mas cada um diz baixinho:
Deus te abençoe, visão…)
~~
Mário Quintana

E encerro essa primeira busca ouvindo “A Lua é dos Namorados” (marchinha com Ângela Maria, que inclui na minha seleção “Canto do Beto 5.7” para uns poucos (e valiosos) amigos que me vieram cumprimentar no último 5 de fevereiro; de ouvido atento ao Caetano de “Lua de São Jorge”. E injustiça seria encerrar esse primeiro post sobre o tema, sem lembrar do velho Catulo da Paixão Cearense e o seu luar do sertão.
Até a próxima lua cheia, amigos.
++++
Fontes: NERUDA, Pablo. “20 Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada”; DRUMMOND, Carlos. “Seleta em Prosa e Verso”.  W.B.YEATS. “The Colected Poems”, p. 167,  Simon & Schuster. Scribner Paperback Poetry. Cecília, Quintana e outros poetas brasileiros embevecidos pela lua podem ser lidos neste link.

Eu ouço música, Quintana

Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo…

Eu ouço música como quem está morto
e sente

um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá…

Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.
+++
Fonte: Quintana, Mário. “Apontamentos de história sobrenatural”. P.Alegre, Globo/IEL/SEC, RS, 1976, pág. 51

Abel e a Máquina Tricolor revivida

A “Máquina Tricolor” em 75, diz Nélson Motta em seu livro sobre o Fluminense: “…tinha uma boa defesa, sólida e vigorosa, mas Travaglini (o técnico, n.d.b.) acreditava que o seu ponto fraco era justamente o que deveria ser o mais forte. O zagueiro Abel, também da Seleção Brasileira, jogava duro e era implacável, muitas vezes até violento na marcação dos adversários, como deve ser um bom xerife da grande área.
Era alto e forte e muito querido e respeitado pelos companheiros. Na concentração era suave e discreto, gostava de ficar dedilhando o piano romanticamente. Abel era louco pelo Fluminense, tricolor doente desde criança, e a cada falha sua ou derota do time sofria duplamente, como profissional e principalmente como torcedor. Chorava no vestiário, amargava culpas atrozes, sofria como um condenado. Seu coração grande e mole estava prejudicando seu futebol. Abel era sentimental e e tricolor demais para a “Máquina Tricolor” e Travaglini [o técnico] queria um tão bom quanto ele mas sem esses vínculos sentimentais…”

E agora, Abel, nosso “Travaglini” do Tetra Tricolor deve pensar a cada entrada em campo como o menino Tricolor deve saudar o passado com o bordão:
– Saudações Tricolores!
É assim que se faz, mr. Abel e
Viva o Fluminense. Viva ABEL.
Flu: Campeão do Brasileiro 2012!

Kit básico para comemorar o título amanhã:
Flu 2012

++++
Fonte: MOTTA, Nelson (com Pedro Motta Gueiros). Fluminense: A Breve e Gloriosa História de uma Máquina de Jogar Bola, Ediouro, RJ, 2004, pág. 22/23.

Viva a República do Brasil

Visita Virtual ao Museu da República.

Embora eu seja muito simpático à Monarquia, somos um país republicano. Portanto, só me cabe dizer um viva à República F. do Brasil e deixar a quem interessar possa uma dose de polêmica do blog Monarquia x República: http://monarquiaxrepublica.blogspot.com.br/

Retorno a Emily Dickinson

Nature — the Gentlest Mother is,
Impatient of no Child —
The feeblest — or the waywardest —
Her Admonition mild —

In Forest — and the Hill —
By Traveller — be heard —
Restraining Rampant Squirrel —
Or too impetuous Bird —

How fair Her Conversation —
A Summer Afternoon —
Her Household — Her Assembly —
And when the Sun go down —

Her Voice among the Aisles
Incite the timid prayer
Of the minutest Cricket —
The most unworthy Flower —

When all the Children sleep —
She turns as long away
As will suffice to light Her lamps —
Then bending from the Sky —

With infinite Affection —
And infiniter Care —
Her Golden finger on Her lip —
Wills Silence — Everywhere —