Semana Santa, 2010

Transcrevo trechos da pregação de Bento XVI neste Domingo de Ramos, cfme. Zenit:

Paul Claudel - Le chemin de la Croix


Com a celebração do Domingo de Ramos,

começou “esta semana grande e santa, na qual celebraremos os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do nosso Senhor”, explicou o Papa depois da Missa, ao introduzir o Ângelus.O Papa convidou a “participar com especial fervor das celebrações litúrgicas dos próximos dias, para experimentar e alegrar-se com a infinita misericórdia de Deus, que, por amor, nos liberta do pecado e da morte”.

Com a celebração deste domingo, o Pontífice iniciou o que poderia ser chamado de “maratona litúrgica” da Semana Santa: mais de duas horas de celebrações nesta manhã, as duas celebrações da Quinta-Feira Santa, as duas celebrações da Sexta-Feira Santa, a Missa da vigília pascal – com Batismo de adultos – e a celebração da manhã da Páscoa, com a bênção Urbi et Orbi.

Além disso, este ano haverá outra celebração importante: a Missa de aniversário do “nascimento no céu” de João Paulo II, que será realizada amanhã, 29 de março, às 18h, em São Pedro, de forma antecipada, já que o papa polonês faleceu no dia 2 de abril de 2005 (que neste ano coincide com a Sexta-Feira Santa).

Ler mais.

Para ouvir na Quaresma (3)

Anton Bruckner – compositor austríaco (1824-1896).

Em tudo que fez, escreveu – Missas, Sinfonias – Deus é a grande presença. Talvez a respeito de Bruckner mais do que de qualquer outro compositor possamos falar das relações da música com a Teologia como duas esferas intimamente ligadas. ´Músico de Deus` era o seu epíteto e talvez fosse por isto que mais do que qualquer outro romântico, ele fundava sua sinfonia no puro som. (…)
a profunda fé religiosa de Bruckner era destituída de escolasticismo: era na sua simplicidade a fé do “cristão das catacumbas” como acentua numa imagem feliz Otto Maria Carpeaux… O barroco de Bruckner é o católico…
E se de sua 4a. sinfonia se pode dizer (repetindo Mahler, apud Franklin de Oliveira): “música dos anjos para os homens atormentados” muito mais, por certo, se aplicaria à sua música sacra.
(cit. tirada de A Fantasia Exata, Franklin de Oliveira, Zahar, RJ, 1959, p. 68-70)

Para ouvir na Quaresma (2)

Se este é o período em que “…a fibra cristã compreende em que modo revigorar-se…”, a boa Música pode ser a melhor aliada. Eis uma amostra: Quatuor pour la Fin du Temps, de Olivier Messiaen. Claude Desurmont (clarinete) , Luben Yordanoff (violino), Albert Tetard (violoncelo), Daniel Barenboim (piano). Deutsche Grammophon, 1990.

Para download, a pista de MR é essa.

É preciso dizer que Messiaen tem uma história vinculada à II Guerra e em se acreditando na Wikipedia, esta obra em 8 movimentos foi composta na prisão, pois OM fora feito prisioneiro pelos alemães, e teve como parceiros Jean le Boulaire e Étienne Pasquier, companheiros de desventura.

Outro movimento e mais história: Louange à l’éternité de Jésus:

Outra versão da Louange:

++++

Com este post quero expressar meu reconhecimento à amizade de Milton Ribeiro, ele próprio amigo de um grande especialista em música erudita: Monsieur P.Q.P.Bach. a quem agradeço tantas informações e fontes de boa música!

Sábado com Emily Dickinson Ou 35/100*

Mes chers amis:
Que o vosso fim-de-semana seja de bom repouso e alegrias em família.

A Spider sewed at Night
Without a Light
Upon an Arc of White.

If Ruff it was of Dame
Or Shroud of Gnome
Himself himself inform.

Of Imortality
His Strategy
Was Physiognomy.
(1138)

Durante a noite a aranha
Teceu sem nem uma lâmpada
Sobre uma arcada branca.

Se rufo que a dama orna,
Ou se mortalha de gnomo –
Ela, ao se enformar, se informa.

Para a Imortalidade –
Sua Estratégia –
(Era) A Fisionomia.
(1138)

Fonte: Dickinson, Emily (1830-1886). “Uma Centena de Poemas“. P.136/7.
Trad., intr. e notas por Aíla de Oliveira Gomes. Obs.: não me contive e adicionei o apodo (Era) no último verso.
Mea culpa. Poética culpa.
Post-post: Os comentários da tradutora são outro Poema – confira no texto abaixo (op.cit, p. 227/9):
“Se nas adaptações para a língua portuguesa não se apensassem comentários, que são em grande parte justificativas do tradutor, esse poema teria de ser excluído, porque é praticamente intraduzível. De princípio a fim ele resiste a adaptações.
Logo na primeira estrofe, perdeu-se a tríplice rima, em luminoso ditongo, e, na terceira, a outra tríade rímica de rara leveza e com instabilidade de acentuação particularmente sugestivas; na segunda estrofe, evolou-se a música das assonâncias. Problemas maiores, porém – e insolúveis – estavam nas palavras “inform” (verso 6) e “Physiognomy” (verso 9).
Os dicionários ingleses mais modernos geralmente só trazem os sentidos correntes, atuais, do verbo ‘inform'(dar informação a respeito de alguma coisa; apresentar infromes contra alguém); mas o Webster de Emily, bem como o Shorter Oxford, realçam o sentido etimológico de ‘dar forma ou feição’, registrável, inclusive, em Shakespeare. A autora pode, em consequência, superpor as duas acepções da palavra (informar e enformar), obtendo com isso um sagaz trocadilho, que permite leitura concomitante em duas chaves: só a aranha pode informar – e informa-se – sobre o que representa o desenho de sua teia; ao mesmo tempo, entende-se que o que está ali criado é a sua própria forma ou feição – ela a si própria se dá forma a seu gosto, se enforma através do’pattern’que teceu. Ao enformar-se, informa-se a seu próprio respeito: conhece-se no espelho de sua arte.
Em português, seria preciso optar por uma de duas formas, com diferentes significados, na certeza de que uma excluiria a outra. Com ou sem razão – ao leitor fica o julgamento, – arranjou-se um meio de usar (no verso 6) as duas formas, a do verbo informar e a que guarda o sentido etimológico, mas adentrado no pensamento do poema (enformar).
Outro impasse foi a palavra-fecho – “Physiognomy”. Cf. Webster:
“[<Gr.physiognomonia <physis + gnomon].
1.Art of discovering temperament and characer from outward appearance, esp. from facil features.
2.Face or contenance.
3. External aspect; hence, inner character as revealed outwardly.”
O Novo Dicionário Aurélio abre um item para “fisionomia”, que corresponde à definição 1. acima, – termo de que não se poderia cogitar, dada a raridade de seu emprego e estranheza da forma.
Não há dúvida, entretanto, de que E.D. há de ter tido em mente o sentido original (sem forma diversa em inglês). “Fisionomia”, conforme se emprega no poema, é aquela que a aranha cria para a projeção de sua imagem, tal como a deseja, e tal como quer deixá-la para a posteridade (imortalidade artística).
É assim que, com versos elípticos, deliberadamente obscuros, e com termos equívocos, Emily nos confidencia, “em oblíquo”, a respeito de sua própria estratégia: sua fisionomia, diferente da que ela descreve em cara a Higginson, a mais real e verdadeira, a que ela queria saber perpetuada, como num retrato, é a dos poemas elaborados com a seda de suas entranhas espirituais. A nota de ironia está na imagem de fragilidade escolhida. Outros poemas lamentam a indiferença com que se espanam as teias de aranha – “an Artist” (cfme. 1275, op. cit.) e também 605 e 1423).
Ao poema em discussão caberiam as críticas às vezes feitas a poetas modernos muitos herméticos, cuja leitura exige prévia decifração; a insistëncia em inclui-lo explica-se pelo desejo de apresentar Emily Dickinson em todas as suas facetas, – entre elas, a sua espantosa atualidade na arte de poetar.

(Op. cit – p.228/229).