Ainda e sempre, é Natal*

Em meio à noite, eu me recordo das palavras de um velho escritor português e seu tom arcaico, pronunciado em crônica datada de 1886, a frase não me chega inteiramente como deve ser agora lembrada aos leitores:

“…Dia seguido a dia, melancolicamente, esterilmente, nos foge o tempo… O dia de Natal vai de novo chegar. Com quanta saudade do doce e risonho tempo da minha infância eu o digo! Vai dar a hora de se retirar do presépio iluminado e florido, do centro do grupo orante dos pastores e dos Reis Magos, a sorridente imagem do mimoso e terno Menino destinado a padecer e a morrer crucificado para remir os homens”.
(*) Texto originalmente publicado em 2004, no site Oito Colunas.

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À (La) Table O&Co.

Estamos no restaurante La Table O & Co., em Sampa, jantando com nossa filha Cecilia. Tin-tin!

Cecilia, Crisma DEZ2009

O motivo de nosso afeto é essa senhorita das fotos.
O evento: a sua Crisma.
Estamos (mamãe, sua sister e eu) muitos felizes!

Benza Deus!

Feliz Natal

Wordle: Feliz Natal

Natal!
O Natal de Cristo representa (e deve nos relembrar) a Encarnação de Deus no meio dos homens.
Jesus Cristo, o Nazareno, nasceu numa manjedoura, em Belém da Judéia, como um pequenino ser Humano, que veio para salvar os filhos de Adão.
Sua mãe, Maria Santíssima, interecede junto ao Trono do Altíssimo por nós, os degredados filhos de Eva.
É tempo de se entender melhor o aforisma: “non coerceri maximo, contineri tamen a minimo, divinum est – não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino
Desejo um Feliz & Santo Natal aos poucos mas sempre frequentes leitores deste blog.

Imaginário Poético

Quero dar meu mais caloroso Boas-Vindas a ….

Um lugar simples, arejado, bonito, de classe: “Imaginário Poético”.

E ainda que tem César Miranda nos arranjos musicais

Um desses oásis que vale a pena neste “mar de conhecimento compartilhado“.

Uma boa resposta à questão fundamental:
– Que futuro estará reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar de a civilização da imagem?
SE a imaginação é um lugar dentro do qual chove“? (sem ser S.Paulo – SP, biensur!) (Starobinski/Dante) – sentença 1
SE imaginação é o motor da Poesia, bem como razão de ser dos exercícios do espírito! – sentença 2.

Conclusão:

– Recomendo com entusiasmo o “Imaginário Poético: revista eletrônica de artes, música, literatura e filosofia.
++++

Emily Dickinson, 31/100*

Shall I take thee, the Poet said
To the propunded word?
Be stationed with the Candidates
Til I have finer tried –

The Poet searched Philology
And when about to ring
For the suspended Candidate
There came unsummoned in –

That portion of the Vision
The World applied to fill
Not unto nomination
The Cherubim reveal –

—–A tradução de Dona Aíla—–

“Escolho-te?” indaga o poeta
À palavra antes proposta –
“Fique ali com as candidatas,
Até que eu as ponha à prova”.

Consulta a Filologia –
Quando vai ser convocada
A candidata em suspenso,
Entra sem ser chamada

A parcela da Visão
Que meu mundo pede e espera –
Não vem por nomeação –
O anjo é que a revela.

++++
Fonte: DICKINSON, Emily. “Uma Centena de Poemas”. Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 134/135.

Da série poemas em draft (1)

trago comigo esse búzio oco
tenho comigo esse busílis
que levo ao ouvido tosco
quando stress por um triz

tenho comigo esse búzio
que levo ao ouvido
se estou triste…
e de tanto ouvir-nos
ele me assiste:

na pressa da cidade
nas agruras do comércio:
tenho esse buziozinho
que me põe feliz, feliz…

Emily Dickinson, 30/100*

I sing to use the Waiting
My Bonnet but to tie
And shut the Door unto my House
No more to do have I
Till His best step approaching
We journey to the Day
And tell each other how We sung
To keep the Dark away

Canto para usar a Espera.
É só atar o chapéu
E fechar a porta da casa –
Nada mais preciso eu,

Até que Ele, enfim, chegando,
Viajemos para o Dia,
Contando-nos como espantamos
O Escuro com cantoria.

+++++
(*) Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas”.
Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 116/117.

T.S. Eliot (1)

Um trecho de East Coker (T.S.Eliot)*

II
Que anda fazendo novembro tardio
Com tanto frêmito primaveril
E criaturas do inflamado estio
E anêmonas que sob os pés se agitam
E malva-rosas que o infinito miram
Vermelho derramado sobre cinza
E essas rosas tardias que ainda viçam
Cheias da neve dos primeiros dias?
Trovão que os astros pelo espaço arrastam
A simular vanguardas triunfais
Dispostas para embates constelados
O Escorpião combate contra o Sol
Até que o Sol e a Lua se tresmalham
Choram cometas e voam Leônidas
Caçadores de abismos e planuras
Dentro de um vórtice que arrojará
O mundo àquele fogo arrasador
Cujas centelhas se antecipam ao gelo
Que na calota polar ainda flameja.

Este era um meio de expor as coisas, mas não muito satisfatório:

1888-1965
T.S. Eliot: a sabedoria da Humildade

Um estudo perifrásico sob forma poética exaurida,
Que mesmo assim nos deixa em luta insuportável
Com palavras e significados. A poesia não importa.
Não era (para recomeçar) o que antecipadamente se aguardava.
Que valor pode ter a calma tão longamente esperada,
Com tanto ardor desejada, a serenidade outonal
E a sabedoria da velhice? Teriam eles nos logrado
Ou lograram-se a si próprios, os mais velhos de fala comedida,
Que nos legaram apenas o recibo de uma fraude?
A serenidade não passa de um embrutecimento voluntário,
A sabedoria encerra apenas o conhecimento de segredos mortos
Inúteis na escuridão a que assomaram
Ou daquela de que seus olhos se esquivaram. Há, nos parece,
Em suma, apenas um limitado valor
No conhecimento que deriva da experiência.
O conhecimento impõe um modelo, e falsifica,
Porque o modelo é vário para cada instante,
E cada instante uma nova e penosa
Avaliação de tudo quanto fomos.
Apenas não nos decepcionaremos
Com tudo o que, decepcionando, já não causa mais dano.
Na metade, não apenas na metade do caminho
Mas ao longo de todo o caminho, numa floresta escura, num
carrascal,
À beira de um abismo, onde o pé jamais logra equilíbrio,
E ameaçados por monstros, luzes fantasmagóricas,
Na perigosa fímbria do encantamento. Que não me falem
Da sabedoria dos velhos, mas antes de seu delírio,
De seu medo ao medo e do frenesi, do medo de serem
possuídos,
De pertencerem a outro, ou a outros, ou a Deus.
A única sabedoria a que podemos aspirar
É a sabedoria da humildade: a humildade é infinita.

Todas as casas submergiram no mar.

Todos os bailarinos submergiram na colina.

++++
Fonte:  ELIOT, T.S. “Poemas”, Nova Fronteira, Rj, 1981. Trad., intr. e notas de Ivan Junqueira.
Traduzido de “Collected Poemas, 1909-1962”.

Post-post: Já no divã da analista, há meses atrás, essa questão me ocorrera. Vivendo meu cinquentenário, continuo tendo reações (menos frequentes do que na juventude, mas ainda recorrentes) de fúria e destemperança. Como encontrar a sabedoria e a serenidade que dizem ser frutos da maturidade?

A gente lê e esquece e daí a desculpa (e a satisfação) da releitura de textos antigos.

Esse de T.S. Eliot (de quem confesso nunca guardei a nacionalidade, sempre o imaginei inglês dos bons*) é texto que se perdeu nas brumas da vida. Eliot é obrigatório em meu mapa mental de poesia, então fui procurar em minhas estantes. E o reencontrei em duas traduções. Preferi a do poeta Ivan Junqueira. Transcrevo, enquanto continuo meditando sobre o tema.
*Fica perdoado que o catalogador do volume tenha dito “poesia estadunidense” (detesto esse fonema)… “My poetry wouldn’t be what it is if I’d been born in England, and it wouldn’t be what it is if I’d stayed in America. It’s a combination of things. But in its sources, in its emotional springs, it comes from America.” (cfme. Paris Review.com).