Emily Dickinson, 29/100*

Some things that fly there be
Birds – Hours – the Bumblebee
Of these no Elegy.

Some things that stay there be –
Grief – Hills – Eternity
Nor this behooveteh me.

There are that resting, rise.
Can I expound the skies?
How still the Riddle lies!


Há certas coisas de voar –
Aves – Abelhas – horas do dia –
Delas nenhuma elegia –

Há outras coisas de ficar –
Dor – Colinas – Eternidade.
Não me competem, em verdade.

E há outras que o repouso re-anima –
O arcaz dos céus posso eu expor?
Tão quieto jaz o enigma!

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(*) Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas” (656).
Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 40/41.

Adeus, Poesia*

Jorge de Lima*

SENHOR JESUS, o século está podre.
Onde é que vou buscar poesia ?
Devo despir-me de todos os mantos,
os belos mantos que o mundo me deu.
Devo despir o manto da poesia.
Devo despir o manto mais puro.
Senhor Jesus, o século está doente,
o século está rico, o século está gordo.
Devo despir-me do que é belo,
devo despir-me da poesia,
devo despir-me do manto mais puro
que o tempo me deu, que a vida me dá.

Quero a leveza  no vosso caminho.
Até o que é belo me pesa nos ombros,
até a poesia acima do mundo,
acima do tempo, acima da vida,
me esmaga na terra, me prende nas coisas.

Eu quero uma voz mais forte que o poema,
mais forte que o inferno, mais dura que a morte:
eu quero uma força mais perto de Vós.
Eu quero despir-me da voz e dos olhos,
dos outros sentidos, das outras prisões,
não posso Senhor: o tempo está doente.

Os gritos da terra, dos homens sofrendo
me prendem, me puxam – me dai  Vossa mão.

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Fonte: DE LIMA, Jorge. “Tempo e Eternidade”, Obra Completa, vol.1, p.412/413. Aguilar, 1959.
Um poema assim pode ter influenciado G.Bernanos a escrever o excelente texto transcrito em “Brésil, terre d´Amitié” (La Table Tonde, Sébastien Lapaque, 2009), sobre o poeta e amigo de G.B., cuja poesia o francês conheceu na tradução de Robert Garric. O texto “Jorge de Lima” foi prefácio a uma edição em espanhol dos poemas de Jorge de Lima, sob o título “Poemas” (Oficinas Gráficas A Noite, RJ, 1939, seg. relato de Lapaque).
Com certeza, tenho que o Poema do Cristão encantava G.B. Espero encontrar poemas em francês na tradução de R. Garric e volto em breve (aliás duas coisas difíceis de se encontrar: estes poemas em francês e a tradução para nosso idioma que dizem teria sido feita por Jorge de Lima para ” Sob o Sol de Satã”, de G.B.).
Por ora, ficam essas referências que dizem provam por si mesmas que: “Que cette poésie soit chrétienne, nul ne saurait s´en féliciter plus fraternellement que moi. Elle l´est comme elle droit l´être, librement. Dieu nous garde des poètes apologistes!…” (G.B., transcrito por Lapaque, op.cit, pág. 51).