A experiência da música compartilhada

Como se sabe, a França tem se mobilizado em batalhas campais contra a música compartilhada, nos moldes atuais de distribuição pela internet. A Sacem, a poderosa sociedade dos direitos autorais tem ganho sucessivas vezes, a ponto de um website como Paroles.net ter jogado a toalha.

Agora, temos a BlipFm que nem sempre tem o áudio, mas recorre ao YouTube, para possibilitar compartilhamento de vídeos.

Faço agora a experiência abaixo com o Dropbox, que me pareceu intuitivo, fácil de usar para leigos como este bloguero. Se der certo, vou nessa linha de Blipfm + streams de áudio aqui.

Profitez-en:

Françoise Hardy

Lucienne Boyer

Emily Dickinson, 21/100*

The Brain – is wider than the Sky –
For – put them side by side
The one the other contain
With ease – and You – beside

The Brain is deeper than the sea
For – hold them – Blue to Blue –
The one the other will absorb
As Sponges – Buckets – do

The Brain is just the weight of God –
For – Heft them- Pound for Pound-
And they will difer – if they do –
As Syllable from Sound

O cérebro é mais vasto que o céu
Pois se os pomos lado a lado –
Aquele o outro contém –
Fácil – e a você também –

O cérebro é mais fundo que o mar –
Ponha-se azul contra azul –
Aquele o outro absorve –
Como a esponja baldes sorve –

O cérebro é do peso de Deus –
Sopese-os com precisão –
E vão diferir, se é o caso,
Como a sílaba do som.

Comentários de Aíla (pág. 195-6, op. cit.):
“Ilustra-se o encantamento “transcendentalista”de E.D. ante a potência inaudita da mente humana, aqui mencionada através de figura concreta, o cérebro. A identidade, assegurada por aquela consciência mental, devia ser “o presente que lhe deram os deuses quando ela era pequenina“, mencionado em outro poema. Insaciável, a mente alarga sua circunferência para abranger sempre mais, apossar-se do não-eu. Aqui se relembra uma velha balada popular inglesa “Riddles Wisely Expounded“. “Mais um teorema que um poema“, diz Anderson (Charles R. Anderson, Emily Dickinson’s Poetry – Stairway of Surprise, p.265).
A conclusão pode variar segundo a interpretação do leitor que considere maior, ou menor, a diferença entre a sílaba e o som. Enquanto o céu e o mar podem ser abarcados em sua aparência, Deus não é algo da mesma natureza; um parentético – “if they do” – pode significar “se há diferença“, ou “se há possibilidade de falar-se em diferenças“.
O original não coube táo fácil na forma da tradução, a começar pela diferença silábica de ‘brain’ e ‘cérebro. Novamente se metamorfoseia o ‘common measure’, agora em 9-7-7-7 sílabas. As rimas se arranjaram como foi possível.”

Eu, de minha parte, pensei neste poema por um longo tempo, na linha do que havia lido nas memórias do Papa Bento XVI, sobre “uma lenda, segundo a qual Santo Agostinho, meditando sobre o mistério da Trindade, viu na praia uma criança brincando com uma concha, com a qual ela tentava jogar a água do mar em um pequeno buraco. Então lhe teria sido dito: “assim como este buraco não pode conter a água do mar, a tua inteligência tampouco pode abranger o mistério de Deus”.  Assim, a concha me lembra meu grande mestre Agostinho, me lembra o meu trabalho teológico, me lembra a grandeza do mistério que ultrapassa todo o nosso saber“, conclui Ratzinger.

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(*) Fontes: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas” . Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Editor/Edit. Usp, 1985, pág. 90/91; p.195/196.
Ratzinger, J. (Papa Bento xvi). “Lembranças da minha vida: vol.1 (1927-1977). S.Paulo, Paulinas, 2006. Trad. Frederico Stein, pág. 137.

Reflexões (Bernanos)

De que vale ter razão em um jornal sem leitores”

(“Qu´importe d´avoir raison dans un journal sans lecteurs?”)

G. Bernanos, em carta à François Coty, em “Correspondences” 1904-1934, Plon, 1932, pág. 455 – tomo I .

“Le péché est froid et noir. La volupté un amoindrissement, un arrachment. Satan un maître en supplices… Qui vous attire ? Qui nous retient ?
Mais quoi ! Mais il faut humilier son âme !”

G. Bernanos, em carta à Un Ami (non identifié), em “Correspondences”, 1904-1934, Plon, 1932, pág. 230 – tomo I .

*O pecado é frio e negro. A volúpia é uma forma de se apequenar e se afligir. Satanás é mestre do suplício… Quem vos atrai, quem nos retém… Finalmente, o quê? No fundo o que ele quer  é humilhar sua alma.”

[O pecado como algo “frio e escuro n´alma” me lembra Julien Green em seu Mont Cinère. O fogo (la flamme infernale) consumindo tudo. O pecador em meio ao frio e à avareza de não aquecer a casa…]
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Réellement, je ne suis pas à l´aise dans la joie : j´ai toujours besoin de m ´arracher.”

[“De fato, nunca fico muito à vontade com a felicidade. Tenho sempre a necessidade de me afligir”]

G. Bernanos, em carta à Un Ami (non identifié), em Correspondences, 1904-1934, Plon, 1932, pág. 230 – tomo I .

J´ai été à Lourdes. Je n´y ai pas trouvé beaucoup d´apaisement, mais cela même était prévu. Je ne veux pas faire toilette pour Notre-Dame, me me suis présenté tel quel, et si misérable et angoissé qu´elle a pu me prendre, peut-être en pitié”

[“Estive em Lurdes. Lá não encontrei a pacificação de minha alma, mas isso já era previsto. Não quero me arrumar pra Nossa Senhora. Eu me apresentei como sou: tão miserável e angustiado que Ela pôde me tomar em suas mãos e, quem sabe, em sua  Piedade!”]
G. Bernanos, em carta à Henri Massis, em “Correspondences”, 1904-1934, Plon, 1932, pág. 249/250 – tomo I .

“Mouchette… cette petite âme écrasée” (Paul Claudel, embaixador da França no Japão, em carta a Bernanos, 1926, sobre Le Soleil de Satan… prometo reproduzir a carta inteiramente, em breve!)

Eu afirmo: Ô ! Grand frère Georges, “Je crois en vous plus que jamais…” (Jul.09).

Escritos antigos: achados & perdidos

Estavas aqui há pouco e brincávamos de caça-palavras.
Estavas aqui e, há pouco ainda, via tuas mãos alvíssimas.
Sim, eu estava ao teu lado de torso nu, colhendo conchas na praia.
Era como se só me interessassem as conchas e pedrinhas perfeitas.
Cioso as escolhia, sob seu olhar terno, e as guardava no embornal que eu trazia ao ombro.

Estavas aqui há pouco e eu comia doce de leite e toda a mais funda lembrança da infância no mais fundo dos Brasis ainda vivendo em paz.
Ah, e tomava leite de cabra e nadava no riacho e a tudo assistias.

E tudo era como se eu me arrumasse para ir à escola, a escola mais distante no mais distante pasto a se atravessar. E nem medo nenhum eu tinha de vaca doida e boi da cara-preta…

Estavas aqui há pouco e não havia mistério nas matemáticas que não decifrássemos num átimo.

Estavas aqui há pouco. Entre as palavras me divertia: jade, rocio, tez, altar, pistilo, éter, riacho, sanga, jã-de-louçã, jaez, adestro, terrina, absoluto, devido, lápis lazuli…
E lembrei-me do amigo, o caçador de palíndromos.
Dentre mil imagens, a da catedral agora visível, donde provêem sons de um órgão que jamais ouvi. E uma cornucópia de frutas e moedas que valiam o ouro de pensamentos mais cristalinos.

Estavas aqui há pouco e o mais ditoso era falar em lí­nguas.
Eu dizia sem entender:
eudamoní­a, tu dizias: makarí­a, makariótes…makarí­zein.
E eu:
mákar o que é?
– Tu respondias: beatitude.Bem-aventurança e lias o evangelho de Mateus e eu me sentia
heureux qui comme Ulisse…
Tu dizias:
felix, venturus, felicitas. Eu solfejava de mansinho, lembrando-me da melodia:
“Beatus, beatus, beatus vir…”
Tu dizias em resposta: ventura, ventura.

Essa palavra à liberdade atada: “Tu mesmo forjaste tua ventura”, repetias, cantando a admirável palavra cervantina”.
– Ventura, venturoso, venturança, o bom amigo e o Sancho Pança…
Eu dizia e sorria…

Tu nomeavas, eu repetia: felicità é ventura, é bonheur.
– Ah, essa eu já a conhecia, dizia todo feliz. E lembrava-me de todas as manhãs de quando o orvalho luzia sobre o cerrado goyano (o capim meloso) ou sobre o campo de alfazema, en Provence. E entanto
Glück é novo pra mim, eu repetia:
– Ah,
happiness e também luck, a “sorte” grande (só pode ser boa) e não é loteria. Há Glück, tu dizias e há também Seligkeit, ou uma conjunção dessas duas: Glückseligkeit (eu me atropelava, mas repetia; e lograva entender: Glück-Selig-Keit, que era pra mim um latino aprendendo a lí­ngua de Goethe e Silesius e Schiller).

Oh, Princesa de todas as princesas; oh, Mãe de todas as mães, tu estavas aqui…

Agora, no albor da alvorada, ao me deixares, fiquei com a surpresa e a ventura de mais um dia que recebo de presente.

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(*) Este texto foi inspirado na leitura do livro de Julián Marí­as, “A Felicidade Humana“, Livraria Duas Cidades, 1989.

Les souvenirs d´Apollinaire

Cors de Chasse                                                      Hunting Horns

Notre histoire est noble et tragique
Comme le masque d´un tyran
Nul drame hasardeux ou magique
Aucun détail indifférent
Ne rend notre amour pathétique


Et Thomas de Quincey buvant
L´opium poison doux et chaste
A sa pauvre Anne allait rêvant
Passons passons puisque tout passe
Je me retournerai souvent

Les souvenirs sont cors de chasse
Dont meurt le bruit parmi le vent

Our story is noble, tragic
as the mask of a tyrant
No dangerous drama or magic
no indifferent detail
can make our love pathetic
And Thomas de Quincey drinking
opium poison mild and chaste
to his poor Anne went dreaming
Let´s go, let´s go, everything goes
I shall return often

Memories are hunting horns
whose sounds die along the wind

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(*)Fonte: The Random House Book of Twentieth Century French Poetry, edited by Paul Auster. Pág. 20/21.  Trad. deste poema por Paul Blackburn.