Saudades de Jorge de Lima

Os Vôos eram Fora do Tempo

1º. – AS MÁGICAS que a Graça do Senhor faz são Poesia.
2º. – Vi dos centauros caírem cascos,
saírem asas.
3º. – As mágicas que a Graça do Senhor faz são Poesia.
Vi o ladrão entrar com o Filho de Deus na Luz.
4º. – Um homem ficou cego, ficou sábio, ficou santo
indo para Damasco.
5º. – A Graça do Senhor, a Musa do Senhor, a Poesia do Senhor
são além do espaço, além do tempo.
Bendita a eterna Poesia.
6º. – A vaga insolente subiu. A Graça do Senhor me defenda.
7º. – Vi as praias cheias de ossos estranhos. Ainda estou
de pé pela Graça de Deus. As árvores estão de pé,
as montanhas estão de pé, a igreja do Senhor estará de pé.
8º. – Um cego viu a Luz, um mudo falou Poesia, um
[surdo ouviu Poesia.
9º. – Uma camponesa viu a Virgem. Então nasceu uma fonte.
10º. Espreitemos o movimento das águas. Eu tenho o
[gosto da morte na boca.
Quero dobrar os meus joelhos e o meu espírito.
11º. A Graça me concedeu o gosto da Vida, a vida
[ que nomeio não é daqui.
As mágicas que a Graça do Senhor faz são Poesia.
12º. – Vi dos centauros caírem cascos, saírem asas.
13º. – Das asas saírem vôos.
Os vôos eram fora do mundo.

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Fonte: “Tempo e Eternidade”, in Jorge de Lima Obra Completa, vol I, Aguilar, 1958, p.413/4.

Emily Dickinson, 19/100*

The Soul unto itself
Is an imperial friend –
Or the most agonizing Spy –
An Enemy – could send –

Secure against its own –
No treason it can fear

Itself – its Sovereign – of itself
The Soul should stand in Awe

A alma para si mesma
É imperial companhia –
Ou – como se de inimigo –
Ela é torturante espia.

Segura contra si mesma
Trair-se não é de supor –
Mas sendo de si rainha –
Ela se infunde terror.

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(*)Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas“ (383). Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 100/101.
Se o leitor nota uma certa ” traição” (na tradução) ao sentido do verso original nessas duas linhas:
Or the most agonizing Spy –
An Enemy – could send –

Traduzido por dona Aíla com certa liberdade poética ou, ainda, nas duas últimas linhas que se apresentam como recriação do poema original, apresso-me a trazer a explicação da página 202 (op.cit.) – ricos comentários sobre as traduções quase sempre magníficas de Aíla:
Adaptação aproximada, que não trai o sentido; não se pôde evitar que fosse diminuída a majestade da expressão no fechamento do poema, onde as duas últimas linhas como que solenemente se perfilam e se põem de pé.
“Uniformizou-se o setissílabo para o poema todo, embora, no original, os terceiros versos se alonguem.

É interessante notar que sou tomado pela mesma obsessão da tradutora, que confessa ter começado essa empreitada “a princípio, como um simples entretenimento do espírito“. Depois, no entanto, essas transformaram-se “numa quase obsessão: ilusão, talvez, de estar-se poetando num estilo que se escolheria para poetar.”
Eis o mistério e a provocação dessas transcrições que enriquecem minhas manhãs de sábado.

O livro escrito para mim

3 Alqueires + 1 vaca.
Essa fórmula romântica de um distributivista de direita tem mais dicas de vida e ficção do que de economia.
Convenhamos, há que se considerar como verdade absoluta que o leitor desejado pelo escritor é o que recebe o livro como carta que esperasse há muito tempo“.
É claro que um  livro nem sempre “traz a força de uma resposta” – como pretende Corção.

Partindo da frase de Stevenson de que “o livro é uma carta particular aos amigos do escritor… e o público é apenas o generoso patrocinador das despesas postais“, Corção elabora sobre os segredos da escrita…

O leitor desejado pelo escritor é, pois, o que recebe o livro como uma carta pessoal, que esperasse há muito tempo… Então, quando isso acontece (eu o digo como testemunha desse evento, não só com este livro, mas principalmente “A Descoberta do Outro“), “uma profunda reorganização se opera em nossa vida“.

Então, é o momento que o leitor termina a leitura saboreando a frase inaudita: “eis o livro que eu queria ter escrito”. Ou, frase ainda mais generosa e grata: “este é o livro que foi escrito PARA MIM…”

Há ainda, nas obras ditas por Corção ( e válidas para todos nós ainda hoje ) como GENUÍNAS uma espécie de REFRAÇÃO, quando nós leitores autênticos vemos no que lemos um reflexo dos livros que já temos como LIDOS e ASSIMILADOS.

O fato final, diz GC, é que “na cultura universal corre uma seiva comum, tornando as obras comunicantes e comunicadas“.

No entanto, este livro lido e amado continua decisivo e interessante porque situado como todo livro deveria ser “um objeto situado no mundo espírito” . Corção sempre viveu na contra-corrente e afirmar que obras de arte formam uma “trama orgânica”, citando obras díspares e autores de espectros políticos diversos mostra a generosidade e capacidade crítica de GC, juntando no mesmo pack da obra de Otávio Faria (tão esquecido!): Homero, Tertuliano, Santo Agostinho, Erasmo e Pascal, Verlaine e Proust…

Essa a essência do capítulo “Há uma carta em cada livro”. Essa a essência da leitura em todos os livros essenciais.

Por tudo isso e muito mais para quem achar e ler esse opúsculo, esse livro foi escrito pra mim… nascido 2 anos depois de sua edição (53) e lido bem recentemente, com muita emoção. Como quem repetisse o bordão: esse livro foi escrito para mim!

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Fonte: CORÇÃO, Gustavo. “Três Alqueires e Uma Vaca”. Ed. Agir, RJ, 1953. pág. 26 e ss.

Adeus a Mario Benedetti

PRONÓSTICOS

No quiero hacer pronósticos sobre mí mismo
prefiero hacerlos sobre mis apariencias
los pronósticos sobre mí mismo
son pálidos mordientes e inseguros
en cambio a las primeras apariencias
consigo doblegarlas
meterlas en un brete
llevarlas al espejo

en los pronósticos sobre mí mismo
siempre le erro como a las peras
pero en las apariencias me reencuentro
de a poco se convierten en algo de mí mismo
y sólo entonces pasan los pronósticos
a ser inesperada profecía.

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Fonte: BENEDETTI, Mario. El Mundo que respiro. Seix Barral, B. Aires, 2001.
Post-Post: Como sempre a capacidade de pesquisa de meu amigo Flamarion me provê um link para enriquecer este post, embora não tenha este poema transcrito neste post, há bons poemas falados pelo Autor neste link. E eu, pessoalmente, adoro dizer poemas (sem decorá-los!).

O sentido do termo ‘saudade’, par Sébastien Lapaque

…Saudade Ce mot, que le Français ‘melancolie’ traduit mal, revient dans toutes les conversations, à Lisbonne, au Cap-Vert, à Belém et Goa, dans les huitains de Camões, le fado de Maria Severa Onofriana et la bossa nova de Vinícius de Moraes. Il manifeste le génie d’une civilisation où l’essentiel n’est pas de vaincre, mais de survivre. La saudade, c’est la présence de l’absence, un désir de bonheur hors du monde mêlant la tristesse de ce qui n’es déjà plus à l’attente de ce qui sera. Ainsi la définissait dom Francisco Manuel de Melo, grand poète de l’âge baroque : “La saudade est une délicate passion de l’âme, et pour cela, si subtile que nous l’éprouvons seulement de manière ambiguë, sans pouvoir bien distinguer la douleur de la satisfaction. C’est un mal qu’on aime et un bien qu’on subit.
(…) Elle est le propre des êtres de raison, en vertu de ce qui existe en nous de plus élevé; et elle est un légitime argument de l’immortalité de notre esprit, à cause de cette muette suggestion qu’elle ne cesse de nous faire intérieurement, à savoir que, en dehors de nous, il y a quelque chose de meilleur que nous-mêmes, avec lequel nous désirons nous unir.”
(Soustraites au verdict de l’Histoire, les espérances portugaises trouvèrent donc refuge dans le mythe et la saudade).

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Fonte: LAPAQUE, Sébastien. Sous le Soleil de L’Exil. Grasset, Paris, 2003, pág. 89/90.

Emily Dickinson, 18/100*

I reason, Earth is short  –
And Anguish – absolute –
And many hurt,
But, what of that?

I reason, we could die –
The best Vitality
Cannot excel Decay,
But, what of that?

I reason, that in Heaven –
Somehow, it will be even –
Some new Equation, given –
But, what of that?

Raciociono: a terra é curta
E a angústia absoluta,
Tanta coisa nos desgosta –
Mas que importa?

Raciocino: há o morrer –
O mais vital não sustém
Uma força que se esgota –
Mas que importa?

Raciocino que no céu
Nova equação se coloca;
De algum jeito vai dar certo –
Mas que importa?


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*Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas“(301).
Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 60/61.

Livros

Livros novos e antigos, lado a lado na estante ou na mesa de leitura aguardam o ânimo e o tempo do dono para que demonstre maior amor pela leitura do que pelo objeto livro. E, depois de lidos, aguardarão ser ruminados para que o caldo seja a reflexão e a resenha…

Leia Mais...

Léon Bloy (I)

« Le tissu léger capa_bloy1de son langage, qui laissait voir les formes pures de sa pensée, n´était presque rien de plus qu´un rappel constant des humbles choses de la nature qu´elle avait pu voir »

Fonte: Léon Bloy, La Femme Pauvre, Editions La Part Commune, Paris, 2004, pág. 97.
**Veja este post no caótico Wordle
Mais sobre BLOYWordle: Bloy em Wordle

Paulo Hecker Filho (2)

“Sei que os fatos nos atravessam como a água aos campos – sumindo… Mas deixam atrás uma verde novidade, delícia dum momento, embora! delícia.

“Cadernetas [em viagens]… são ladras da vida.
“[se]só restar da vida o que ficou nas cadernetas, ou muito pouco, sensações esparsas surgindo súbito em recordações que as desfiguram, manchando-as da emoção de as termos tido nalgum dia irrecuperável.

“Só me consolava a frase de Ciro dos Anjos:  `Carlota, a vida é um tecido de equívocos`…

“Sinto-me em estado de prece, isto é, cansado. Menos corporalmente que no tempo.

“A cidade está cheia de gente. Pela primeira vez [viagem a B.Aires]. Dizer que está cheia de gente, que chuva de êxtases! Sou capaz de ser Buenos Aires inteira; e como te agradeço a sensação, meu ilimite.

“A amizade também amanhece com o dia.
“Agora no avião não há mais nada; Buenos Aires cada vez mais longe, mais longe… Enxuga-se meu lirismo da noite de ontem, hoje de madrugada, assobiando aquele blue pelas ruas frias, apalpando sôfrego as paredes, espetada na garganta a angústia de deixar tudo aquilo, de partir…Ah, não estar mais ali, nunca mais, ainda que volte outra vez e espalme de novo a mão numa das janelas da Confiteria Cabildo – essa mesma em que escrevi que ia ver “Las Burlas Veras” de Lope [de Vega], todo trêmulo da emoção de conhecer – e recolha a mão cheia de pó, bendito pó de saudade e distância, estrangeiro e noite, e a deixe sem limpar imediatamente, sentindo-a pesada dum querido resquício da cidade que ia me escapar, que me escapava…
“Balbuciava “Buenos Aires… Buenos Aires…” entre os gritos que o blue plantava em minha alma. E nas lágrimas que eu não vertia se concentrava um amor que alguns dos teus filhos, cidade, terão tido por ti. Alguns dos teus filhos…
“E eu ia me embora, já estava indo, algumas horas, instantes nos enlaçavam! E tudo que eu não mordera em ti, cidade, tudo que não soubera ver e nem sequer tive tempo de olhar, parecia se transformar nos olhos úmidos das tuas lâmpada num último apelo de amante sequiosa, num desnudar-te, num ferir em mim a fraqueza destes braços que impossivelmente te abraçariam! (…)
ψ
“Ficção é exemplo, e a razão do romance exemplificar com a verdade. Um Madame Bovary é uma encruzilhada de caminhos heróicos, em que os próprios Homais o são até o heroísmo, até a arte. Por que escrever romances senão para transcender a realidade numa atmosfera respiravelmente heróica? Para que escrevê-los senão para ensinar aos homens um modo de respirá-la?
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Fonte:
HECKER Filho, Paulo. A Alguma Verdade: Crítica e autocrítica, Porto Alegre, Ed. do Autor, 1952.