Grand Canyon

Aos que me perguntam sobre a foto do banner de meu blog aqui no WordPress, a resposta é positiva: sim, a foto é minha. Adiciono agora reflexões antigas sobre o meu primeiro encontro com o Canyon (chance de fazer a foto do banner deste blog, porque  elas continuam válidas:

Lições de Abismo

Diante do monumento que é o Grand Canyon, a primeira atitude que tive foi respirar fundo e rezar. Rezei silencioso um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, em meio ao burburinho dos turistas, ecoando para sempre na distância.

E o título do livro de Júlio Verne, que serviu de inspiração à história de Gustavo Corção, agora me ampara como a legenda da grandiosidade do Cannyon. Vejo homens e mulheres que descem às profundidades e que são na encosta pouco mais do que formigas no cenário.

Lembro-me do professor Lindenbrock e seu sobrinho Axel no rigoroso treinamento contra as vertigens: “antes de descer às profundezas, ele ensinava a galgar as alturas”, subindo uma estreita escada de uma antiga torre de igreja, em cima de um abrupto penhasco. A esses salutares exercícios o professor dava o nome de lições de abismo.

– E a nós, turistas embevecidos, quem dará as lições de abismo?gcanyon_2006
Eis que soam em meu coração, as palavras de Ecos Eternos, trocando a paisagem do oeste da Irlanda de O´Donohue pela paisagem única deste pedaço do Arizona:

Quando encontramos um lugar na Natureza em que a mente e o coração encontram sossego, então descobrimos um santuário para a nossa alma.

“Não se verá nada dos vinte séculos. Há somente a escultura sutil que a chuva e o vento entalharam na pedra. Quando a luz surge, a pedra fica branca e lembramos que essa é pedra viva do fundo de um oceano antigo. (…)

Nosso anseio purifica-se e ganhamos força para voltar reanimados à vida e refinar nossas maneiras de nos integrarmos ao mundo. A Natureza nos chama para a tranquilidade e o ritmo.”

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Post-post: concordo com Paulo Hecker Filho (não na mesma intensidade) que Lições de Abismo não é um grande romance, nem está à altura de “A Descoberta do Outro“, no conjunto da obra de Gustavo Corção.

Paulo Hecker Filho (1)

Lendo com encantamento “A Alguma Verdade”.
Enfim, encontro alguém que leu, entendeu e amou (1) Bloy, Schmidt, Jorge de Lima, Unamuno, Pascal, Scheler, Dostoievski, Gide, Otávio de Faria et beaucoup d´autres, entre nós, brasileiros…
Um crítico que é difícil de ser clonado ou reeditado no cenário da literatura atual (2).
Post-post :
(1) A frase deveria ser “parece ter lido“, mas a empolgação do início da releitura me fez gravá-la (e grafá-la) assim e assim fica.
(2) Que crítica? A pergunta ficou ecoando em minha mente por muito tempo, mas fica também a idéia de que a formação literária, a generosidade e a independência de PHF é única e não tem ambiente para ser reproduzida. Como acho difícil reproduzir o modelo literário dos escritores citados logo no início de “A Alguma Verdade” – que tanto me entusiasmaram a continuar na (re)leitura (alguns trechos novos; outros dos anos 80): Bloy, Schmidt, Jorge de Lima, Unamuno, Pascal, Scheler, Dostoievski, Gide…
(3)Depois desse micro-post inicial, que deveria ser quase uma legenda para uma entrada da “blipfm” (na verdade um reblip), achei um conhecido de muitos anos atrás (diria um conhecido de minha juventude), ambos cinquentões hoje e distantes há muito tempo, que é um verdadeiro escriba e que tem (ele sim) o que dizer de Paulo Hecker – e o faz com muita propriedade. Deliciem-se meus 3 leitores com esse texto: PAULO HECKER FILHO OU A ÉTICA DO NÃO.
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Op.Cit.: HECKER Fº, Paulo. A Alguma Verdade: Crítica e autocrítica, Porto Alegre, Ed. do Autor, 1952.

Emily Dickinson, 16/100*

When one has given up One´s life
The parting with the rest
Feels easy, as when Day lets go
Entirely the West.

The Peaks, that lingered last
Remain in Her regret
As scarcely as the Iodine
Upon the Cataract.

Quando se renunciou à vida
Despedir-se do resto
É fácil: – quando o Dia solta
Até o fim o Oeste

Os Picos, últimos que ficam,
Tardam naquela mágoa
Só escassamente – como o iodo
Vertido em queda d´água.
(853)


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*Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas“. Trad. Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 116/117. O tema da renúncia, quase obssessivo para Emily… “Renunciation is a piercing Virtue”. O leitor fica matutando sobre a força de uma imagem como a do “iodo na queda d´água” não sem pensar nos rios de nossos garimpos, de nossos bugres que não desistem de nada, que não renunciam a nada… e uma vontade imensa de trocar peaks por cimos na sua tradução particular. Ainda bem que a própria Aíla nos explica que ela própria teve suas dúvidas, na tentação de traduzir “Oeste” de Emily por “ocaso, arrebol, sol-pôr, ou semelhante”, mas – ressalta: “East” e “West” são termos favoritos na lírica inglesa, principalmente dentro do veio da poesia metafísica do séc. XVII, que marcou bastante Emily Dickinson” – ensina Aíla.

François Mauriac, aos jovens do Grand Lebrun

“…o ensinamento que vocês recebem aqui, não não é o que  se ensina aqui, mas sim o murmúrio em seus ouvidos dos cimos tormentosos do parque, neste lamento ao qual vocês quase não dão atenção hoje, mas que voltarão a ouvir mais tarde, muitos anos depois, quando tiverem chegado à minha idade; vocês escutarão, dentro de vocês, esta voz de sua infância feliz e abençoada.
“E, então, no crepúsculo de uma vida, sentindo sua alma ardente, como aqueles dois discípulos na Estrada de Emaús, vocês se lembrarão que este homem e que este Deus, seu companheiro durante a peregrinação pela Terra,
vocês já O conheciam, vocês já O amavam
, antes mesmo de terem começado a viver, desde que seus mestres lhes falavam d´Ele na capela do Liceu Grand Lebrun“.
(François Mauriac, em alocução aos formandos do Liceu Sainte-Marie-Grand-Lebrun – Bordeaux (Fr). Tradução minha com correção da mestra M.E.)

Emily Dickinson 15/100*

I asked no other thing –
No other – was denied –
I offered Being – for it –
The Mighty Merchant sneered –Brazil? He twirled a Button –
Without a glance my way –
“But – Madam – is there nothing else –
That We can show – Today?”
(621)

Foi só aquilo que pedi.
E nada mais me era negado:
Ofereci o Ser por isto
O Mercador sorriu com enfado:
“Brazil?” Fez girar um botão
(Sem nem sequer me olhar!)
“Mas, Madame, nada mais, hoje,
Do que temos, vai-lhe agradar?”
+++
Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas“, Trad. Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 90/91.
Comentário da Tradutora: “Não podia faltar nesta coletânea o poema do encantamento de Emily pelo Brasil, mercadoria única de um desejo absoluto, que figura em seu mundo imaginativo ao lado de Veneza, Nápoles, Tunísia, México, Himalaia, Canaã etc. Em outro poema (841) ela imagina a natureza, no Brasil, fazendo experimentos inédtiso com a cor vermelha, no matiz de uma certa mariposa que freqüenta a luz dos lampiões (A Moth the hue of this / Haunts Candles in Brazil / Nature´s Experience would make / Our reddest second pale.)
“O metro é difícil de igualar; todos os versos do original se mantêm em 3 acentos, exceto o sétimo. Tentou-se o mesmo número, em termos de acentos tônicos mais salientes. As rimas se arrumaram nas mesmas posições. Um adjetivo foi abandonado (“Mighty”, v.4); talvez a maiúscula de “Mercador” possa supri-lo. Uma modulação de ponto de vista pareceu infoensiva (“sneer”, igual a “sorrir com escárneo, zombaria”, por “sorrir com enfado”). ”
(Aíla de Oliveira Gomes, op. cit., pág. 195). Ok, F., aí está o outro poema com referência ao BRAZIL:
A Moth the hue of this
Haunts Candles in Brazil.
Nature´s Experience would make
Our Reddest Second pale.

Nature is fond, I sometimes think,
Of Trinkets, as a Girl.
(841)

Mariposas desse matiz
Assombram velas no Brasil.

A Natureza cria ali
Um tom rubi que empalidece
A cor de nossas mariposas.Parece até que a Natureza gosta
De usar bijuteria, como as moças.
(841)

*(841)- op.cit. pág. 116/117.

A voz do dono do blog

Nem sempre a voz que aqui se expressa é a minha.
Hoje, mais do que nunca desde 2003, recebo cobranças do tipo:
Hey, por que você não expressa suas idéias no blog ?
[É como compreendo, porque o jeito que dizem é outro, mais intimista, do tipo: “deixa de ser preguiçoso e escreve! Olha, o César!
Ao texto o que é do César, que é um gênio! Etc. e tal – respondo evasivo]

Mas nem sempre cedo (nem tarde) ao texto que seria meu.
Há muitos bons textos prontos no mundo. É só saber escolhê-los.
JGM já dizia: “duas ou três idéias originais, não mais…”
Eu sou o que Pessoa com toda licença poética diria como o médio em tudo, portanto, dou-me ao direito de ficar em silêncio, transcrevendo bons textos.
Convenhamos, é de um conforto enorme transcrever: menos para os dedos cansados, ao cair da noite, pois digitar dá muito trabalho.
Abro um livro qualquer de meus autores prediletos e lá está o texto.
– Pra que reinventá-lo, penso?
Eu me faço as mesmas e antigas perguntas, como GB:
– “Mon pays vaut-il la peine d´être sauvé? A quoi bon?

A quem serve denunciar que o país em que vivo, o país que amo é lugar de enormes atrocidades? A quem serve, pra que serve uma tribuna sem ouvintes? O sujeito que está no topo alimenta toda a sorte de ação que não incentiva a pensar em salvar o país e sim em destruí-lo, a começar pela língua. A começar pelo comportamento. Eu próprio, começo a achar normal que as pessoas passem o feriado destruindo um campo de árvores, uma plantação de eucaliptos (embora estes sejam ´brotos` ou bebês, como os que são incentivados a ser natimortos, pelo próprio ministro da Saúde). Quem destrói embriões de humanos, a quoi ça sert des plantes? A quoi bon?
Os moços se matam em acrobacias de bikes… as meninas que são incentivadas a se mostrarem antes da hora de sua floração e são defloradas). A quoi bon?

Não há orgulho em ser brasileiro: só trabalho e muita ´pena`, muita pena de ser o que somos. E, no entanto, não deixo de ver que sorrimos como massa nos estádios, nos orgulhamos de 4 em 4 anos, sem que tenhamos certeza da vitória. Temos alegria de nunca estarmos tristes e de mantermos o maior circo carnavalesco do mundo. Nós, os brasileiros…
Os alemães têm sua floresta, os franceses, seus vinhos; massa e poder para cada um em suas imagens do que são. Da imagem do que são. Nós: o estádio. A massa amorfa. Os que sobem e descem. Eu, que amo tanto o futebol, cada vez mais desprezo o movimento das massas no estádio: essa nossa aparente imagem do que somos (ou do que fomos!).
Nós ainda temos nossos rios, onde a coacla da indústria despeja incólume seus dejetos. Onde uma criança pode urinar, mas não aprender a nadar.
Nós, os brasileiros. Eu no meio. Infeliz com o que nos ensinam. Infeliz com o que nos cobram todo dia (1/4 da pizza, 1/4 do vinho, grande quinhão do entusiasmo ou desânimo que dividimos com os amigos ao cair da tarde).

O dono do blog não tem ânimo de responder com sua voz, mas popula seu espaço com respostas que são vozes audiveis: De dúvidas.
De amor contra o desespero. De ânimo e força para não desistir.
De visão antecipatória. De poesia…e sobretudo de Esperança.
O dono do blog continua acreditando nas 2 legendas que o movem há alguns anos: “Fé: 24 horas de dúvida, menos 1 minuto de Esperança” (que poderia ter sido a frase de São Dimas). E a atual: “Nossa felicidade interior não nos pertence mais do que a obra que ela motiva
(G. Bernanos).

Copyright © 2009 Adalberto de Queiroz. Todos os direitos reservados. Republicação ou redistribuição do conteúdo produzido pelo Autor é expressamente proibido sem autorização prévia por escrito.

A voz do apaixonado

“Sol, lua, estrelas podem seguir tranquilas a sua órbita, que para mim já não há mais dia nem noite, e o mundo inteiro dissipou-se à minha volta”
(Goethe, in Werther)

A Ressurreição, mirada poética

Descalçando a morte, dos infernos vindo,
Rompe a dura matéria do universo
O Cristo. Unido ao Pai celeste no jardim
Prepara a coroa do homem novo.

Maria Madalena em véus azuis
Pensa ver o hortelão, mas logo O vê:
Quem Lázaro da cova levantou,
Diante dela agora se levanta.

O Mestre diz: “Maria não me toques.
Subo para meu Pai e vosso Pai,
Para o meu Deus e vosso Deus”. Ressurge

Dentre os mortos, com Ele ressurgimos
Que já nos precedeu na Galiléia
Eterna, vida nossa e nostalgia.

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Fonte: Mendes, Murilo. “Sonetos Brancos”, in: Murilo Mendes: Poesia Completa e Prosa. Aguilar, 1995, pág. 453/4.

Emily Dickinson, 14/100*

I´m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there´s a pair of us?
Dont´ tell! they´d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a frog –
To tell one´s name – the livelong June –
To an admiring Bog!
(288)
Eu sou Ninguém. E você?
É Ninguém também?
Formamos par, hein? Segredo –
Ou mandam-nos p´ro degredo.

Que enfadonho ser alguém!
Tão público – como o sapo
Coaxando seu nome, dia vai, dia vem
Para um boquiaberto charco.

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Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas“, Trad. Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 60/62.

Le Chemin de la Croix (P.Claudel) – 3 e 4

Hoje, transcrevo  duas estações deste caminho doloroso.

“Troisième Station (Terceira Estação) – Jésus tombe une première fois

En marche! victime et bourreaux à la fois, tout s’ébranle vers le Calvaire.
Dieu qu’on tire par le cou tout à coup chancelle
et tombe à terre.

Qu’en dites-vous, Seigneur, de cette première chute?
Et puisque maintenant vous savez, qu’en pensez-vous? cette minute
Où l’on tombe et où le faix mal chargé vous précipite!
Comment la trouvez-vous, cette terre que vous fîtes?
Ah! ce n’est pas la route du bien seulement qui est raboteuse.
Celle du mal, elle aussi, est perfide et vertgineuse!
Il n’est pas que d’y aller tout droit, il faut s’instruire pierre à pierre,
Et le pied y manque souvent, alors que le coeur persévère.
Ah, Seigneur, par ces genoux sacrés, ces deux genoux qui vous ont fait faute à la fois,
Par le haut-le-coeur soudain et la chute à l’entrée de l’horrible Voie,
Par l’embûche qui a réussi, par la terre que vous avez apprise,
Sauvez-nous du premier péché que l’on commet par surprise!

Quatrième Station (Quarta Estação) – Jésus rencontre sa Très Sainte Mère.

O mères qui avez vu mourir le premier et l’unique enfant,
Rappelez-vous cette nuit, la dernière, auprès du petit être gémissant,
L’eau qu’on essaye de faire boire, la glace, le thermomètre,
Et la mort qui vient peu à peu et qu’on ne peut plus méconnaître.
Mettez-lui ses pauvres souliers, changer-le de linge et de brassière.
Quelqu’un vient qui va me le prendre et le mettre dans la terre.
Adieu, mon petit enfant! adieu, ô chair de ma chair!

La quatrième Station est Marie qui a tout accepté.
Voici au coin de la rue qui attend le Trésor de toute Pauvreté.
Ses yeux non point de pleurs, sa bouche n’a point de salive.
Elle ne dit pas un mot et regarde Jésus qui arrive.
Elle accepte. Elle accepte encore une fois.
Le cri
Est sévèrement réprimé dans le coeur fort et strict.
Elle ne dit pas un mot et regarde Jésus-Christ.
La Mère regarde son Fils, l’Église son Rédempteur,
Son âme violemment va vers lui comme le cri du soldat qui meurt!
Elle se tient debout devant Dieu et lui offre son âme à lire.
Il n’y a rien dans son coeur qui refuse ou qui retire,
Pas un fibre de son coeur transpercé qui n’accepte et ne consente.
Et comme Dieu lui-même qui est là, elle est présente.
Elle accepte et regarde ce Fils qu’elle a conçu dans son sein.
Elle ne dit pas un mot et regarde le Saint des Saints.

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Fonte: CLAUDEL, P. “Le Chemin de la Croix”, Librairie de l´Art Catholique, Paris, 1955.