Le Chemin de la Croix (P.Claudel) – 1

capa-claudel

Encontrei este livrinho num sebo em B. Horizonte e agora o texto de Paul Claudel num site francês.
Eis um texto muito  adequado à semana que irá se iniciar, mas não pude esperar para publicá-lo.
Eis, pois, para os francófonos, boa opção esta de meditar sobre o poema enquanto aguardamos a semana Santa.
Tomo conhecimento, após ter publicado a primeira versão deste post, que um compositor de renome [Marcel Dupré (1886-1971), um dos mais famosos organistas do período em que viveu], criou uma peça baseada nos 14 poemas de Claudel e a executou a cada Quaresma, no período de 1934 até sua morte em 1971.
As referências na web me levaram a saber que a peça de Dupré continua uma referência ao mundo do órgão e que até hoje são realizadas apresentações desta peça, durante a Quaresma, em França e ao redor do mundo.
Jean Marchand première station

Bernanos no Brasil (I)

Enquanto preparo um artigo intitulado “Presença e Permanência de Bernanos”, em que busco resposta a uma questão de Juan Asensio, vou anotando leituras ao longo da caminhada.

Em um passeio matinal, minha mulher  me surpreende com outra pergunta mais simples: “como você descobriu Bernanos?” Bem, esta é uma longa história, que tem a ver com minha conversão ao catolicismo… passa pela descoberta do Corção, Alceu, Jackson, Dom Vital, os escritores católicos franceses, daí a Bernanos, um pulo, tamanho o número de referências que fui encontrando pelo caminho.

Em “Bernanos no Brasil: Testemunhos Vividos” , org. de Hubert Sarrazin, (Vozes, 1968), publicado no 20º aniversário de sua morte, encontramos mais filiados à amizade bernanosiana, ao estudo de sua obra, à apreciação de seu caráter.

O pesquisador que organizou a dita coletânea no que diz ser a pré-historiografia de Bernanos, encontrou o “entretom entre o testemunho e a homenagem“, apenas com depoimentos de pessoas que conviveram com Bernanos em sua temporada brasileira (1938-45), fugindo de compor uma “hagiografia” …

O livro é composto por 15 textos que dão a exata dimensão da filiação que a amizade do ´coxo veloz` rapidamente conquistou em seu exílio tropical. Sarrazin anota entre os amigos e admiradores de Bernanos acadêmicos, embaixadores, escritores, professores, médicos, políticos, jornalistas e pessoas humildes do campo (em Pirapora e Barbacena) que frequentavam “o sítio dos franceses” – sua casinha no Botafogo, nos  arredores de Barbacena, no lugar que internacionalizou e eternizou como “Cruz das Almas” (onde ainda hoje brasileiros de escol tentam manter viva – mais 64 anos depois, a memória de Bernanos, mantendo sua “moradazinha” – feita não para desafiar os séculos por certo, como afirmou o próprio Bernanos mas como testemunho vivo do exílio do grande escritor: o Museu Bernanos em Barbacena – carente de recursos, mas objeto de viva dedicação de sua diretora, Mirian Rossi, neste Ano da França no Brasil!).

Bem, são estes os nomes que testemunham sobre a vida e obra, mas principalmente sobre a amizade Bernanos, no volume citado: Jorge de Lima, Alceu Amoroso Lima, H.J. Hargreaves, Maria Magdalena Ribeiro de Oliveira, Michel Ahouagi, Jean-Bénier, Virgílio de Mello Franco, Augusto F. Schmidt, Álvaro Lins (o crítico), Geraldo França de Lima, Fernand Jouteux, Hélio Pellegrino, padre Paulus Gordan, Edgar da Mata-Machado, J. Fernando Carneiro e Pedro Octávio Carneiro da Cunha. São amostras da filiação de Bernanos na cultura brasileira…

No texto que abre o volume,  Alceu confessa que, mesmo que suas relações com Bernanos tenham “sempre se colocado num plano de tensão, de hostilidade, de discussão e de muita escuta porque Bernanos era “homem torrencial que falava sozinho por horas…” reconhece que GB era capaz de se emocionar apenas com a lembrança da morte de um amigo de Alceu (Jackson de Figueiredo), com ternura notável “entre atitudes discordantes e idéias comuns“.

É justamente para a filha de Alceu, Maria Helena, que o grande Georges se expõe como a criança que sempre foi e como o grande cruzado que nunca abandonou a cólera sagrada. Escrevendo no álbum de Maria Helena, Bernanos presenteia a então garota (e a todos nós que temos chance de ler sua carta) com “tesouros da mais autêntica poesia” (Alceu).
Confiram a tradução de Olavo de Carvalho e depois o original.

No Álbum de Maria Helena Amoroso Lima

Senhorita,

Cinco minutos atrás, eu me perguntava o que iria escrever no seu álbum, porque sou naturalmente preguiçoso. Depois, pensei de repente que essa idéia de ter um álbum era, no fundo, bem tocante, bem comovente — que era uma idéia de criança. E, como todas as idéias de criança, ela é geralmente ridicularizada. Porque o mundo não compreende nada da infância. Não digo que o mundo odeie a infância, mas ela o incomoda, e o mundo, que tolera tudo, não suporta que o incomodem.

Logo, as meninas estendem seu álbum às pessoas grandes como os pobres estendem a mão. E saem geralmente decepcionados, elas e eles, pois jamais houve verdadeiros decepcionados no universo senão os privilegiados das Beatitudes, isto é, os pobres e as crianças.

A maior parte dessas grandes pessoas às quais você estendeu a mão — cardeais, teólogos, historiadores, ensaístas, romancistas — lhe deram nem mais nem menos que uma assinatura. A assinatura é aqui o equivalente da moedinha que se dá aos pobres. Entre parênteses: se o regime totalitário triunfa, eles não terão mais sequer necessidade de escrever o nome; escreverão somente um número de matrícula, como os militares e os presidiários.

Mas você não estendeu a mão somente às pessoas grandes, você a estendeu também aos poetas. E vejo que os poetas — ó milagre! — lhe deram sem medir despesas, porque os poetas são por natureza liberais e magnifícos. Doravante não se esqueça de que este mundo horroroso não se sustém ainda senão pela doce cumplicidade — sempre combatida, sempre renascente — dos poetas e das crianças.

Seja fiel aos poetas, permaneça fiel à infância! Não se torne jamais uma pessoa grande. Há um complô das pessoas grandes contra a infância, e basta ler o Evangelho para se dar conta disso. O bom Deus disse aos cardeais, teólogos, ensaístas, historiadores, romancistas, enfim a todos: “Tornem-se semelhantes às crianças”. E os cardeais, teólogos, historiadores, ensaístas, romancistas, repetem de século em século à infância traída: “Tornem-se semelhantes a nós!”.

Quando você reler estas linhas, daqui a muitos anos, faça um pensamento e uma prece pelo velho escritor que acredita cada vez mais na impotência dos Poderosos, na ignorância dos Doutores, na papalvice dos Maquiavéis, na incurável frivolidade das pessoas sérias. Tudo o que há de belo no mundo foi feito, sem que elas soubessem, pelo misterioso acordo da humilde e ardente paciência do homem com a doce Piedade de Deus.

Coragem e boa sorte! Precisamos, todos, superar a vida. Mas a única maneira de superar a vida é amá-la. E a única maneira de amá-la é esbanjá-la sem medida. Todos os pecados capitais juntos danam menos gente do que a Avareza e o Tédio.

Outubro de 1940.

(traduzido por O.de Carvalho, de “Essais et Écris de Combat, vol II. Paris: Gallimard, 1995. pp 765-766″).

Agora, o texto original (tirado da pág. 29 de “Bernanos no Brasil”):

Mademoiselle,

Il y a cinq minutes, je me demandais ce que j´allais écrire sur votre album parce que je suis naturellement paresseux. Et puis j´ai pensé tout à coup que cette idée d´avoir un album était, au fond, bien touchante, bien émouvante – que c´était une idée d´enfant. Et comme toutes les idées d´enfant, elle est généralement bafouée, parce que le monde ne compren rien à l´enfance. Je ne dis pas que le monde hait l´enfance, mais elle lémbête, et le monde, qui tolère tout, ne suporte pas qu´on l´embête.

Bref, les jeunes filles tendent leur album aux ´grandes personnes`comme les pauvres tendent la main. Et ils sont généralement déçus l´un et l´autre, car il n´y a jamais eu de réellement déçus dans l´univers que les privilégiés des béatitudes, c´est-à-dire les pauvres et les enfants.

La plupart de ces grandes personnes auxquelles vous avez tendu la main – cardinaux, théologiens, historiens, essayistes, romanciers – vous ont donné tou juste une signature. La signature est ici l´équivalent du petit sou qu´on donne aux pauvres. entre parenthèses, si le régime totalitaire triomphe, ils n´auront même plus besoin d´écrire  leur nom, ils inscriront seulement leur numéro matricule, comme les militaires et les forçats.

Mais vous n´avez pas tendu la main qu´aux grandes personnes, vous l´avez aussi tendue aux poètes. Et je crois que les poètes – ô miracle! – vous ont donné sans compter, parce que les poètes sont par nature libéraux et magnifiques. N´oubliez plus désormais que ce monde hideux ne se soutient encore que par la douce complicité – toujours combattue, toujours renaissante – des poètes et des enfants.

Soyez fidèle aux poètes, restez fidèle à l´enfance! Ne devenez jamais une grande personne! Il y a un complot des grandes personnes contre l´enfance, et il suffit de lire l´Evangile pour s´en rendre compte. Le Bon Dieu a dit aux cardinaux, théologiens, essayestes, historiens, romanciers, à tous enfin: “Devenez semblables aux enfants”. Et les cardinaux, théologiens, historiens, essayistes, romanciers répètent de siècle en siècle à l´enfance trahie: “Devenez semblable à nous”.

Lorsque vous relirez ces lignes, dans bien des années, donnez un souvenir et une prière au viel écrivain qui croit de plus en plus à l´impuissance des Puissants, à l´ignorance des Docteurs, à la naisairie des Machiavels, à l´incurable frivolité des gens sérieux. Tout ce qu´il y a de beau dans l´histoire du monde s´est fait à l´insu de nous par le mystérieux accord de l´humble et ardente patience de l´homme avec la douce Pitié de Dieu.

Bon courage et bonne chance! Il nous faut tous rumonter la vie. Mais la seule manière de surmonter la vie, c´est de l´aimer. Et la seule manière de l´aimer, c´est de la prodiguer sans mesure. Tous les péchés capitaux ensemble damnent mois d´hommes que l´Avarice et l´Ennui.

G. Bernanos.

Manset (1)

Solitude des Latitudes, Gérard Manset
Seu mais recente lançamento é “manitobe ne répond pas“.
Não acredito que mais este amigo do Brasil queira doar (ao mundo) a Amazônia e seus recursos naturais. Nunca se sabe…de qualquer forma, conheça u´a amostra do talento de Manset no link abaixo, antes que o Lula doe a Amazônia ao Manitoba…
Assista o vídeo Ô, Amazonie!

Sob o domínio da Esperança

Ces prophètes de malheur [Bloy et Bernanos] écrivent sous la dictée de la petite fille Espérance (Pierre-Robert Leclerq, d´après Juan Asensio).

Minhas Leituras da Quaresma (3)

Confissões, Lamentações e Esperança
a Caminho de Damasco*

O MUNDO precisava de amor:
na véspera de Vossa Morte nos deixastes um legado:
a Hóstia para matar fome e sede.
E vossa Missão terminada subistes para a direita do Pai
e lhe mostrastes as cicatrizes que Vos deixamos no corpo.
Pai Amado, eu que sou a realização de Vosso Pensamento,
dai-me complacências.
Senhor, minha Fé é diminuta: aumentai-a.
Dai-me olhos de contemplação,
dai-me respostas,
dai-me um cavalo de Vosso Reino
que tomando as rédeas de minha mão me leve para Damasco.
Pai Amado, sou cego, aleijado e paralítico:
meus membros não darão na Cruz.
Estou calejado de perenes quedas:
Curai-me todo.
Transformai-me como transformastes o vinho.
Não me abandoneis em interrogação permanente.
Dei-vos uma costela para fazerdes Eva
e as 23 restantes a Satã para corrompê-la.
Sou colono e amicíssimo de Lúcifer.
Sou da primeira serpente, sou um prisioneiro da primeira guerra.
Dai-me um cavalo de Vosso Reino para ir a Damasco!
Sou fornecedor de armas para os filisteus.
Sou o que torpedeia a Arca e a Barca.
Sou reconstrutor de Babel.
Sou bombeiro do incêndio de Sodoma.
Fui demitido da Vida,
e Vós me enviastes outra vez.
Demiti-me de novo que errei mais!
Sou o assassino de Lázaro,
sou o plantador do joio:

Dai-me um cavalo para eu fugir!
Quis afogar São Cristóvão,
transformei as algas em micróbios
e as asas em aviões de guerra!
Deus Amado, Vós que tendes sido meu pára-quedas,
meu ascensor, minha escada, minha ponte,
segurai-me para que eu não me precipite dos arranha-céus!
Dai-me um cavalo para eu fugir!
Dai-me um cavalo de Vosso Reino
e que eu sem querer vá para Damasco
Pai Amado, no caminho de Damasco
basta uma sílaba para eu enxergar de novo,
ou um coice de Vosso cavalo para eu despertar na Luz!

++++

* Fonte: LIMA, Jorge. Obra Completa/Vol.I, Rio de Janeiro, Aguilar, 1958, pág. 441/2.

Piero della Francesca ou: “o companheiro da argila deste mundo”

ELE devia se chamar Piero dei Franceschi, mas quis a história sobrepor-lhe o nome da mãe (que se chamava Romana de Monterchi)… Ignora-se porque o mestre de Arezzo seja “della Francesca”. Sobre os dados corretos de registro – incluindo seu nome de pia –  pouco se sabe, dizem os especialistas, porque perdidos nas brumas da história. Dos poucos dados existentes sobre a vida (do ano 1410 a 20-1492), uma certeza: era já reconhecido em vida como um mestre, um grande entre os grandes da pintura italiana e continuou influenciando gerações seguintes; frequentador das cortes de Ferrara a Rímini, de Urbino à Roma papal, é no pequeno burgo natal que mais lhe agradava pintar e viver e influenciar… o Borgo San Sepolcro, onde participa da vida política e social e é sepultado.

O que o mantem vivo são seus afrescos do Ciclo de Arezzo, pois continuam a ser objeto de extensa literatura crítica e eterna admiração. O olhar deste pobre fiel, vivendo os desastrados anos do vigésimo século e do início deste XXI, querem expressar o deslumbramento de quem mendiga fé e luz – como na voz do poeta Bruno Tolentino, que expressou tão bem o que essa prosa seca e murcha falha ao tentar o mesmo, no cair dessa noite do 3º. domingo da Quaresma `09:

24
Deixai-me celebrar tudo o que morre
abraçado a precários estilhaços,
o mundo de Piero entre pedaços
de cal arruinada, mundo-córrego,
livre, de gestos amplos como torres
erguendo-se sozinhas, como braços
pesados, suplicantes nos espaços
do real…Essa esmola ainda socorre
os mendigos que somos neste beco
curto, obscuro, estreito e sem saída,
o beco dos desastres desta vida.
Deixai-me celebrar aquele seco,
alto, argiloso e duro como esterco,
velho resto leproso, de ferida.

A parede caiada que vai se apagando com as marcas do tempo ainda testemunha a grandeza da oferta que nos dá o toscano, testemunhando até hoje o valor moral de sua arte, a religiosidade popular das cenas eleitas para ser eternizadas pelo artista. Na Construção e Prova da Cruz, revivemos a procissão antiga em torno da cruz.

E eis que do meio da multidão um homem me anuncia com suas mãos postas em prece,historias-da-santa-cruz_piero_detalhe o sentido inteiro dessa fase do ano litúrgico. Basta vê-lo para entender os versos do poeta Bruno e intimidado me nego a rabiscar outros no futuro:

25
Entre o instante e a argila vai passando

a doce mão da luz que esfuma e tece
o real outra vez; de vez em quando,
a velha tecelã, quando parece
ceder a sombras e penumbras, desce
pelo outro lado do visível dando-

lhe os laços pelas costas: surge o bando
de vaga-lumes que ela fez, ou fez-se

em torno dela. É assim o claro-escuro
natural às colinas da Toscana,

combinações do puro com o impuro,
e o olhar de Piero é seu grafismo:

nele a equação da luz é quase humana,
grave como o salgueiro sobre o abismo.

E se ao final da vida os olhos do pintor não pudesse captar a luz e as cores da terra natal, sua mente claramente continuava a dizer-lhe o caminho da pintura: “porque o dia/em seus olhos tremia como estrelarezasanta-cruz_piero_detalhe2

E assim, olhos trêmulos e úmidos, cá nos encontramos séculos depois,  aprendendo o caminho da prece comovida e silenciosa…
Ah, claro como a cor
da cinza que ele amava,
o companheiro da argila deste mundo…

+++

Fontes:
Quadro: Histórias da Santa Cruz – afresco do coro da igreja São Francisco, Arezzo, (detalhes e parte do texto ext. de Mestres da Pintura, Abril Cultural, 1978). Poema cit. Tolentino, Bruno. “O Mundo como Idéia“. Ed.Globo, 2001, pág.401.
Mais sobre a história preliminar ao quadro, aqui!

Minhas leituras da Quaresma (2)

San Juan de La Cruz, o Doutor Místico (Fontiveros, Ávila, 1542 – Úbeda, 1591) – Poeta e místico espanhol, doutor da Igreja.
Nascido Juan de Yepes, frade carmelita, foi discípulo e amigo de Santa Teresa d´Ávila. Este homem de grande cultura humanística e com um perfeito domínio da linguagem, fundamentou sua vida numa busca mística e na Oração. Toda a sua obra, em prosa e em verso, é de caráter ascético-místico. Na sua escassa obra poética, destacam-se três poemas excepcionais: “Noche oscura del alma“, “Llama de amor viva” e, o mais importante, “Cántico espiritual“.

Em minhas leituras desta Quaresma, reencontro esta referência em meio a um estudo de apoio espiritual, que tem Santo Ignacio de Loyola (Exercícios) como referência principal. O que mais valida a experiência da travessia desse período é o apoio de mestres como esses dois: um místico e um disciplnador.

La susceptibilidad a las tentaciones me parece un rasgo valioso de las personas: indica sensibilidad, atención a lo real, interés por ello, percepción de los valores, vitalidad interna.La ausencia de tentaciones revela sequedad,pobreza, pusilanimidad, falta de generosidad, cobardía“.

Nas tentações estejamos certos – como nos lembra Santo Ignácio de Loyola que “el auxilio divino […] siempre le queda, aunque claramente no lo sienta“.

Poema da Fonte (São João da Cruz)

CANTAR DA ALMA QUE GOZA
POR CONHECER A DEUS PELA FÉ

Que sei bem eu a fonte que mana e corre
mesmo de noite.
Aquela eterna fonte está escondida,
mas eu bem sei onde tem sua guarida,
mesmo de noite.

Sua origem não a sei, pois não a tem,
mas sei que toda a origem dela vem,
mesmo de noite.

Sei que não pode haver coisa tão bela,
e que os céus e a terra bebem dela,
mesmo de noite.

Eu sei que nela o fundo não se pode achar,
e que ninguém pode nela a vau passar,
mesmo de noite.

Sua claridade nunca é obscurecida,
e sei que toda luz dela é nascida,
mesmo de noite.

Sei que tão cautelosas são suas correntes,
que céus e infernos regam, e as gentes,
mesmo de noite.

A corrente que desta vem
é forte e poderosa, eu o sei bem,
mesmo de noite.

A corrente que destas duas procede,
sei que nenhuma delas procede,
mesmo de noite.

Aquela eterna fonte está escondida,
neste pão vivo para dar-nos vida,
mesmo de noite.

De lá está chamando as criaturas,
que nela se saciam às escuras,
porque é de noite.

Aquela viva fonte que desejo,
neste pão de vida já a vejo,
mesmo de noite.

[A canção no original]

Cantar del alma que se goza
de conocer a Dios por fe

Que bien sé yo la fuente que mana y corre,
aunque es de noche.
Aquella Eterna fuente está escondida,
que bien sé yo dó tiene su manida,
aunque es de noche.

Su origen no lo sé que pues no le tiene,
mas sé que todo origen della viene,
aunque es de noche.

Sé que no puede ser cosa tan bella
y que cielos y tierra beben della,
aunque es de noche.

Bien sé que suelo en ella no se halla
y que ninguno puede vadealla,
aunque es de noche.

Su claridad nunca es oscurecida
y sé que toda luz de ella es venida,
aunque es de noche.

Sé ser tan caudalosas sus corrientes
que infiernos cielos riegan y a las gentes,
aunque es de noche.

El corriente que nace desta fuente
bien sé que es tan capaz y tan potente,
aunque es de noche.

Aquesta Eterna fuente está escondida
en este vivo pan por darnos vida,
aunque es de noche.

Aquí se está llamando a las criaturas
porque desta agua se harten aunque a oscuras,
porque es de noche.

Aquesta viva fuente que deseo
en este pan de vida yo la veo,
aunque es de noche.
+++

(1)rasgo: característica.
(2)sequedad:brevidade; pequenez; deficiência.

Minhas leituras da Quaresma

Murilo Mendes:
SANTORO*

  • A ética da exatidão.
  • Um lucano que se tornou grego. Hipótese perigosa, talvez falsa; mas fascinante. De qualquer maneira, um certo Santoro definitivamente tornado Santoro. Henrique IV pelo avesso, cheque-mate a Pirandello. Transportamo-nos à Sicília.
  • As coisas têm raízes e ramos“: portanto cada um tem a sua terra e o seu céu. O verdadeiro artista possui uma terra e um céu portáteis que tem de explorar diariamente.
  • Há sonho na poesia, na música, na pintura, no cinema; até na filosofia, nas propostas ideológicas e políticas. Não há sonho nestas esculturas. Freud e o daemon do inconsciente nada têm a ver aqui. Arte diurna, rigorosa.
  • As esculturas olham-nos; devemos ser dignos desse olhar.

(…)

  • Se Deus frequentasse a Universidade estudaria somente geometria.
  • Confúcio: `Pura luz sem contornos´.
  • Confúcio: ´Olha direito dentro dos teus pensamentos`.

(…)

Roma, 1971. *Extraído de “Murilo Mendes. Poesia Completa e Prosa” (vol. único), Org. Luciana Stegagno Picchio, Edit. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1995. Pág. 1333.

Origem da Quaresma

“…Assinalar com festas e preces o ano, o mês e a semana é fazer passar para a imortalidade aquilo que a nossa vida tem de mais perecível; é, de alguma forma, estabelecer uma relação imediata entre a nossa natureza, ligada ao efêmero, e a ordem sobrenatural da Eternidade divina. É preciso consagrar o tempo, como é preciso consagrar a vida, como é preciso dar tudo ao Senhor!
“A semana ordena-se então em volta do domingo, dia da Ressurreição, que se torna o seu ponto de partida. Da mesma maneira, retomando a tradição judaica dos jejuns(1), mas deslocando-os para evitar confusões, a quarta e a sexta-feira lembram aos fiéis a necessidade da penitência, e o sábado, conservando alguma coisa do antigo Sabbath, é um dia de preparação para a glória do domingo. Pouco a pouco, o ano inteiro é organizado dentro de um ciclo litúrgico que consagra a Deus todos os meses, todas as estações, todos os dias. No começo, parece existir apenas uma grande festa: a da Páscoa, para a qual converge o tempo, que culmina com a Ressurreição; mas bem depressa, antes do séc. IV, outros episódios da vida de Cristo impõem comemorações particulares. Tais são sobretudo o nascimento divino, que será celebrado desde época muito recuada, em datas variáveis; e o Pentecostes, a antiga festa judaica tornada cristã, comemorando a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos.”
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Fonte – Daniel-Rops, “A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires”, ed.Quadrante, S.Paulo, 1988, p. 220/221.
(1) “O jejum consistia na abstenção de todo o alimento e de toda a bebida até a hora nona, isto é, até o meio da tarde. O jejum da sexta-feira assinalava a comemoração da morte de Cristo; o da quarta-feira talvez expiasse a traição de Judas.  Aos jejuns da semana acrescentraram-se jejuns anuais que precediam a Páscoa; foram fixados em quarenta dias, em memória do jejum que Cristo fez no deserto. Esta é a origem – que data do séc. I – da nossa Quaresma. (Cfrm. par. “Não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos” (cap. 1).

Post-Post:O jejum no Cristianismo se distingue desta prática em outras religiões, pois tem por objetivo descobrir Deus, e não descobrir a si mesmo. Ao contrário do budismo e do islamismo, tem outro sentido”. É o que afirma o cardealPaul Josef Cordes, presidente do conselho Pontifício ´Cor Unum`. E conclui: “para o cristão o desejo místico não é nunca o descenso em si mesmo, mas sim o descenso na profundidade da fé, onde encontra Deus“.