Minhas leituras em 2008

Mes chers amis,
Vejo que essa pagina esta a ponto de ser virada e como ha estatisticas e revisoes pra todo lado, resolvi fazer a minha sobre livros.
Como meus 3 leitores podem constatar, nao sigo o credo dos criticos da hora, minha lista nada tem de atual no sentido de ‘ moda’  mas pode ter alguma coisa que lhe interesse pra 2009.
Desejo a todos que 2009 seja um Ano Bom, como se espera de um bom vinhedo e como desejamos nós bebedores de vinho e de letras.
Amities,
Beto
P.S.: Estou passando o fim-de-ano no Arizona, curtindo minha familia; a pouca disponibilidade de tempo para internet e esse teclado americano nao me permitem usar a extensao de comentarios e a ortografia que eu gosto (plena de acentos) nao importa que novas regras ortograficas nos imponham. (AQ).

1. A Morte Vem Buscar o Arcebispo, Willa Cather.

Comentado aqui.

2. Reflexões Autobiográficas, Eric Voegelin. (Prefácio e notas de Ellis Sandoz).
Comentado aqui.

3. Le Procés-Verbal, J-M.G. Le Clézio
Comentado aqui.

4. Mont-Cinère, Julien Green. Eis um livro de Green que merecia uma boa resenha. Nao a encontrei nos meus melhores mestres. A historia dessa casa americana, dessa mae sovina e dessa filha que cai em pecado mortal e fatal para toda a familia me parece um drama bem escrito e cativante.

Um comentário mal-humorado aqui, mas confesso que preciso rever. Eu me deixei influenciar por um certo mal-estar do mestre Carpeaux a respeito de Green. Hoje, pensando sobre a força de Mont-Cinère, dos personagens que não me deixam nunca, nos quais penso intensamente quando os temas são avareza e egoísmo.
Talvez a cadeira de Mauriac tenha sido muito bem ocupada (e depois abandonada!) por Green na Academie Française.

5. Leviathan, Julien Green.
http://betoqueiroz.wordpress.com/2008/01/17/green-light/

6. L´Imposture, Georges Bernanos.
Eis um romance do mau-humorado e brasileiramente francês G. Bernanos que merecia um grande comentário. História de um padre que perde a Fé! Confesso despreparado para ser o autor de tal comentário, mas quem há-de fazê-lo hoje no Brasil que esqueceu os maravilhosos escritores franceses católicos de cette belle époque?

7. La Joie, Georges Bernanos.

coletânea georges-bernanosEis-nos diante de um grande romance, apesar de se mostrar iniciamente de difícil compreensão. Ou seja é um desses livros pra se ler e se reler…

É o típico romance que suplico que alguém de um nível de leitura elevado e, de preferência, um católico conservador me ajude a compreendê-lo em seu sentido mais profundo.

Ha uma passagem bíblica em que a chave do romance pode levar o leitor à compreensão do romance (em breve, prometo escrever sobre isso) :  a entrada de uma judia num reino estrangeiro: trata-se de Ester 15:9 – “ingressa igitur cuncta per ordinem ostia…passou, pois, todas as portas e se apresentou diante do Rei”…
Um dia hei de entender a grandeza desse romance, apenas vislumbrada nessa primeira leitura, mas só o contentamento de se debruçar sobre um grande texto já é de pronto imensa diante de La Joie, asseguro.

8. O Caso Saint-Fiacre, Simenon.
De uma dezena de livros lidos e relidos. Puro entretenimento, mas é preciso lembrar que Simenon tem o livro mais cruel sobre a guerra, que tentei reler e abandonei porque o ano já teve suas crueldades próprias que dispensam ficção: Sangue na Neve, tido por Carpeaux como obra-prima do mestre do romance policial franco-belga.

9. Uma Centena de Poemas: Emily Dickinson. Trad. Aíla Oliveira.
Um leitor irado me envia um email sugerindo publicação de poemas mais ´masculinos`… insisto até chegar aos 100 poemas de Emily, tant-pis se alguém não compreende que a poesia não argui sobre gênero!

10. Ensaios vol.I, Carpeaux.
O mestre merecia uma edição assim. E ha de merecer minha atenta leitura em 2009.

11. Quem de Nós (Uma História de Amor), Mario Benedetti.
Uma novelazinha interessante de um bom poeta. Vale um fim-de-semana sem muito assunto de amor.

12. O Relógio e o Quadrante, Álvaro Lins. Fundamental e livro de referencia para quem pretende ter ou emitir algum juizo critico sobre a literatura. Era o tempo em que um critico tinha criterios e uma formacao profunda antes de se aventurar a fazer ‘resenhas’ …

13. Oh, Pioneers, Willa Cather. Fica a figura gigantesca dessa mulher Alexandra e o drama dessa familia catolica que cai na dificuldade de relacionamento que so eu bem sei em minha propria vida.

14. O Sal da Terra, Joseph Ratzinger.

15. Introdução ao Cristianismo, Joseph Ratzinger.livro-bento-xvi_intr-cristianismo

16. Aimez-vous Brahms… Françoise Sagan.

17. La Gloire de Mon Père, Marcel Pagnol.

18. Malagar, Mauriac fils.

19. Hitler e os Alemães (leitura em andamento).

20. Neve, A. Pamuk- talvez minha unica concessao ao mainstream mas valeu a pena. Um bom escritor com um bom tema e uma referencia europeia em seu gosto literario. Talvez se livre das influencias e vire um grande escritor um dia, nao pra mim, porque ja me livrei da chamada literatura fantastica.

21. História da Igreja, Pierre Pierrard (leitura em andamento).

22. O Misterio dos Frontenac. F. Mauriac. Lido nas ferias, reflexoes em andamento…
See you, guys!

Ratzinger e Holderlin II

Gostaria de reabilitar nesse post-citação o contexto da citação de Holderlin por Bento XVI:

Extraída do Cap.3 do livro citado (Introdução ao Cristianismo – cap. “O Deus da fé e o Deus dos filósofos”), esse trecho, conquanto belíssimo é mesmo um desafio. Pretendo ao situá-lo, agora, no contexto do livro, de modo a que meus poucos leitores – amigos possam apreciá-la como eu a apreciei, inclusive na sua dificuldade de compreensão.

No Cap. I, o então Cardeal Ratzinger trata de explicar como a Igreja primitiva resolveu o problema de esclarecer qual era o Deus da fé cristã. Pregando e vivendo a fé num “ambiente saturado de deuses”, os cristãos primitivos viam-se diante da pergunta: “a qual deus corresponde o Deus cristão, se a Júpiter, a Hermes, a Dioniso ou a um outro qualquer?”
E a resposta era sempre:

“a nenhum dos deuses que vocês adoram, mas única e exclusivamente àquele Deus que vocês não adoram, ou seja àquele ser supremo do qual falam os filósofos…”

Essa foi a opção pelo “logos” contra o mito, assinala Ratzinger. Opção acertada para aquela época e para hoje, como se vê na conclusão de um longo exame que o então Cardeal faz entre a oposição entre fé e razão:

– “ A fé cristã optou não pelos deuses das religiões e sim pelo Deus dos filósofos, isto é, decidiu-se contra o mito do habitual e exlusivamente a favor da verdade do ser mesmo”.

O passo seguinte está descrito em
2. – A transformação do Deus dos filósofos.

Ao decidir-se por esse Deus dos filósofos, a fé cristã entendeu também que o ser humano pode e deve dirigir-se a ele em suas orações, assinala Ratzinger, ressaltando que esse passo significa dar a Deus a face humana, o Deus dos homens que não é apenas o pensamento do filósofo nem só “a matemática eterna do universo” mas também, e sobretudo, “ágape e poder do amor criativo”.

Essa experiência magistralmente exposta por São Paulo em Romanos 1, 18-31 não pode ser compreendida pelos gentios e a compreensão é uma experiência única e, às vezes, dolorosa. Eis o caso de Pascal que, acostumado e identificado com o pensamento matemático, passa uma noite pela experiência que lhe dá o entendimento de Deus e escreveu num bilhete uma frase que passou a carregar sempre costurado à sua roupa:

– “Fogo, o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó não o Deus dos filósofos e sábios”.

Pascal compreende que o “Deus que é a geometria eterna do universo só pode sê-lo por ser o amor criador”.

Outro magistral exemplo, Ratzinger o encontra em Lucas 15, 1-10, na parábola da ovelha extraviada e da moeda perdida. Nela, Jesus justifica e descreve a sua atuação e a sua missão como enviado de Deus e a relação entre Deus e o ser humano. O resultado é a compreensão de um Deus cristão “extremamente antropomorfo” – ressalta Ratzinger. O Deus que encontramos ali, como em numerosos textos do Antigo Testamento é um Deus que “tem as paixões de um ser humano, ele se alegra, procura, espera, vai ao encontro…Ele não é a geometria insensível do universo, não é a justiça neutra que paira acima das coisas, insensível ao coração e seus afetos. Esse Deus tem um coração, ele ama com toda a excentricidade típica de uma pessoa que ama.”

Mas o entendimento da realidade cristã pode fracassar se o leitor não apreender essa humanidade do Deus Cristão. De fato, “a grande maioria dos seres humanos de hoje crêem que deve existir algo parecido com um “ser supremo” só que acham absurdo que esse ser se preocupe com os seres humanos”. Esse temor a uma espécie de antropomorfismo de Deus, destaca Ratzinger, é ainda mais real e palpável hoje do que no início do cristianismo.

– Ah, quando que Deus se preocupar comigo, com meu mundo miserável, com meus pecados ou virtudes, com minhas escolhas, enfim com minha vida?!

Eis, pois, onde se situa o poeta Holderlin que, nos chama a fugir da estreiteza de raciocínio e nos convida a pensar num Deus como espírito ilimitado: o teólogo e o homem de fé nos convida a pensar que, ao pensar em Deus como o poeta resumiu em seu aforismo, devemos imaginar que “os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande”. È, justamente nesse ponto, que a mensagem do Evangelho e a imagem cristã de Deus corrigem a filosofia, ensina Ratzinger:

“… mostrando que o amor é mais sublime do que o mero pensamento.
O pensamento absoluto é amar;
ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor.”

Encerro com esse trecho que me parece mesmo ser a origem da primeira encíclica de Bento XVI: “Deus é Amor.

Emily Dickinson, Poema 7/100*

SUCCESS.
[Published in “A Masque of Poets”
at the request of “H.H.,” the author’s
fellow-townswoman and friend.]

Success is counted sweetest
By those who ne’er succeed.
To comprehend a nectar
Requires sorest need.

Not one of all the purple host
Who took the flag to-day
Can tell the definition,
So clear, of victory,

As he, defeated – dying –
On whose forbidden ear
The distant strains of triumph
Break, agonized and clear!

Tradução de Dona Aíla Oliveira:

Vencer parece mais doce
Àqueles que nunca vencem
Melhor saboream um néctar
Os que na sede esmorecem.

Nenhuma das purpúreas hostes
Que hoje empunharam o pendão
Poderá dar da vitória
Mais clara definição

Que o vencido moribundo:
Em ouvidos proibidos
Os sons distantes do triunfo
Irrompem agônicos, nítidos.

+++
Fonte: Dickinson, Emily. “Emily Dickinson: Uma Centena de Poemas“, Ed.T.A.Queiroz/USP, SP, 1984. Tradução: Aíla de Oliveira Gomes. Pág. 38/39.
Esta semana mais uma alegria com Emily: descobri esse mar de poemas no projeto Gutenberg. Crédito para essa descoberta ao meu amigo virtual Flamarion.

Bonjour, Tristesse…

Brincando com títulos de romances de Françoise Sagan, Alain Souchon consegue nessa ´colagem` musical (de títulos de livros de Françoise e seus próprios comentários poéticos) fazer uma boa homenagem à escritora, no mesmo tom melancólico de quase tudo que ele compõe.

Dans ses romans, dans ses nouvelles,
Cette dame-demoiselle mêle
De jolies mélancolies frêles

Acho mesmo que é a melancolia que os une… estou quase certo disso, se eu próprio não estivesse atraído por esse estado de espírito. E por isso mesmo me uno a Alain nesse verso:

“Et je chante ma ritournelle
A la gloire d’elle
…”

Aproveitem a canção.
Boa Semana!

Post-Post: No próximo post, prometo um poeminha de Emily (que não postei no sábado, como de costume, porque estava de pernas pro ar… porque ninguém é de ferro!).

Livro novo, páginas antigas

Um amigo já me dissera que amor demais aos livros nutre (ou seria denota?) certo desamor à leitura.

Mas há uma reflexão de Teresa d´Ávila, esquecida alhures (a reflexão, biensûr!), a ressaltar que se não houvera livro novo, a alegria diminuia… Era a pequena Teresa ainda a caminho da santificação de sua vida!
Eis-me, pois, muito contente e pleno de curiosidade com dois novos volumes adquiridos de um sebo em B.Horizonte (Páginas Antigas), estabelecimento que recomendo pela atenção do bibliófilo que dirige a casa.
O meu desejo é ler esses dois novos volumes antigos em minhas férias, que começam daqui a 16 dias.

(…)livrosantigos34
Ah, esse oráculo dos tempos modernos, me trouxe a lembrança (esfumaçada) da leitura da biografia de Santa Teresa d´Ávila que cito, pois foi com os pais que Teresa d´Avila …

descobriu o mundo da literatura de ficção, e passou
a se empolgar com as aventuras de guerreiros     cristãos e mouros por suas terras e por terras estranhas. Mais uma vez, é ela própria quem nos conta isso, em sua autobiografia: “Era aficionada a libros de cavallerías […] Yo comencé a quedarme en costumbre de leerlos […] Era tan estremo lo que
esto me embevía que, si no tenía libro nuevo, no me parece tenía contento” (Libro de la Vida, 2,1). Aliás, Teresa não se limitava a ler: teve a idéia de ser autora de uma novela de cavalaria. Chegou a começá-la, com a ajuda de seu irmão. Mas tudo não passou de uma brincadeira de criança, que não foi adiante
“.

Naturalmente, depois dessa ´brincadeira de criança`, Teresa decidiu ser santa e com o passar do tempo virou para muitos a Teresona (para distinguir de outra Santa não menor em estatura, mas em literatura, Santa Teresinha de Jesus…). E conforme prossegue o estudo citado:

“Depois de adulta, Teresa percebeu os perigos da leitura desenfreada dessas novelas, que levariam à loucura o grande Quixote. Não se pode esquecer, porém, que a leitura dos livros de cavalaria ajudou a santa a formar o gosto pelas histórias bem escritas, cheias de lances surpreendentes e imprevistos, que prendem a atenção do leitor. Uma biógrafa contemporânea, Marcelle Auclair, a denomina “a dama errante de Deus”. E não é difícil reconhecer nas peripécias da reforma carmelita, contadas por Teresa no Libro de las Fundaciones, algo da vivacidade narrativa que ela aprendera a apreciar, na juventude, ao ler as histórias de cavaleiros andantes. Podemos também supor que algumas imagens nupciais da obra teresiana fossem recordações dos romances de cavalaria, dos famosos cavaleiros andantes apaixonados, como Dom Quixote por sua Dulcinéia.”
Se eu fosse você, ia logo pra lá!