Livro também é alimento

Penso no livro como fruto
Penso no fruto qual vinha.
Como livro e bebo vinho.

– Livro alimento único: raro:
Ébrio de livro caminho…
Eu: un ivre plus un livre
😮 leitor bebim de livro

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©Poemas do Autor, Adalberto de Queiroz, 2007.

Aznavour em Goiânia

Agora é oficial. O site do produtor dos shows de Charles Aznavour no Brasil, Sr Poladian, anuncia a nova agenda do cantor franco-armênio em seu retorno ao Brasil, num roteiro que inclui Goiânia.

Aguardo com ansiedade a concretização desse sonho. Como nesta minha feliz jornada – vivendo ma cinquentaine – já fui brindado com a turnê de despedida de B.B.King em Phoenix (AZ), agora posso ter a chance de ver Aznavour em minha própria terra.
Lembro-me com carinho de ter matado a sede na seca Phoenix, com o blog molhado do César Miranda, quando falava da emoção de ter visto Aznavour em Brasília…eu que no último abril perdi o show do Aznavour mas ganhei a companhia de outro tão grande personagem: meu neto Lucas.
Enquanto aguardo a minha própria chance desse encontro, convido você leitor a aproveitar essa velha apresentação, com todo o frescor da voz de Charles interpretando Ma Jeneusse e Hier Encore.

W.B.Yeats (3)

A Coat

I made my song a coat

Covered whith embroideries

Out of old mythologies

From heel to throat;

But the fools caught it,

Wore it in the world’s eyes

As though they’d wrought it.

Song, let them take it,

For there’s more enterprise

In walking naked.

Uma Capa

Uma capa fiz do meu canto

De baixo a cima

Bordada

De antigas mitologias;

Mas tomaram-na os tolos

Para exibi-la ao mundo

Como se por eles fora lavrada.

Deixa, canto, que a tomem,

Pois maior feito existe

Em andar nu.

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Fonte: W.B. Yeats, Uma Antologia, Assírio & Alvim, Lisboa, 1996, pág. 70-71, Tradução José Agostinho Baptista.
A poesia nesta manhã de sábado pode fazer enorme bem à alma (como faz à minh’alma) sedenta de algo acima do meio-fio da rotina diária.
Mantenho com a poesia uma relação apaixonada, na qual uma importante tensão é, confesso, a do desejo de ter escrito versos que amo.
Transcrever poemas é, pois, uma maneira de dizê-los (declamá-los, como se dizia antigamente) em voz baixa aos amigos mais distantes, como quem mandasse um recado, sussurando:
Ei, camarada, a poesia diz um pouco das saudades que sinto de mim mesmo (do menino antigo) e de você cuja voz talvez não ouvi, mas cuja articulação textual foi presente e importante para mim, outrora.

A Capa, tomada de empréstimo a W.B. Yeats é uma maneira de dizer-lhe:
– Venha ver que tolice cometo, escancaradamente, ao transcrever poemas.

A poesia vista assim tem algo de naïf, mas pode ser uma armadilha ao leitor apressado. Lendo com vagar e atenção talvez mistérios se descortinem…
– Ponha a capa ou ande nu com o poeta.

Adeus a Solzhenitsyn

Uma citação de Eric Voegelin*, para dizer Adeus a Solzhenitsyn:

“NÃO PODE HAVER comunidade lingüística com os próceres das ideologias dominantes. Por isso, a comunidade lingüística necessária para criticar os que lançam mão da linguagem ideológica precisa antes ser descoberta e, se necessário, criada.

Não é a primeira vez na história em que a peculiar situação acima descrita é a sina do filósofo. Mais de uma vez, a linguagem se degenerou e corrompeu a ponto de não poder mais ser usada para expressar a verdade da existência. Tal era, por exemplo, a situação de Sir Francis Bacon quando escreveu seu Novum Organum. Bacon chamou os lugares-comuns não depurados correntes em sua época de ´ídolos`: os ídolos da caverna, os ídolos do mercado, os ídolos da especulação pseudoteórica. Para resistir à dominação dos ídolos – isto é, dos símbolos de linguagem que perderam contato com a realidade –, é preciso redescobrir as experiências da realidade, bem como uma linguagem que as possa exprimir de modo adequado. A situação, hoje, não é muito diferente. Para reconhecer a persistência do problema, basta lembrar Alexander Solzhenitsyn e seu capítulo sobre os “ídolos do mercado” em Cancer Ward (“Pavilhão de Cancerosos”), Solzhenitsyn teve de recorrer a Bacon e sua concepção dos ídolos para defender, contra o impacto do dogma comunista, a realidade da Razão em sua própria vida. Gosto de mencionar Solzhenitsyn, com sua consciência do problema e a competência filosófica patenteada na referência a Bacon, pois seu exemplo, se imitado, poderia transformar radicalmente a atmosfera intelectual de nossos meios acadêmicos. A situação do filósofo nos Estados Unidos em face do clima dominante nas ciências sociais corresponde, em grande medida, à de Solzhenitsyn em relação à União dos Escritores Soviéticos (com a importante diferença, é claro, de que nossa UES não pode se valer da força política do governo para suprimir um literato). No Ocidente, há sempre enclaves em que o trabalho científico pode continuar, em mesmo florescer, a despeito do terrorismo intelectual exercido por instituições como a grande mídia, os departamentos universitários, as fundações e as casas editoriais.”
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*Fonte: pág. 140, “Reflexões Autobiográficas”, E. Voegelin, by Ellis Sandoz, É Editorial, S. Paulo, 2008).