Achados & Perdidos (4)

Sobre o cadáver do Herói

O argumento é velho: nossa falta de auto-estima. O fato é ancião: morrem os homens e morrem os acima da média.

A diferença é que pessoas acima da média, deixam um traço de luz quando falecem.

Há muito tempo atrás, li sobre um sargento morto no Zoológico de Brasília em meio ao ocaso da regime autocrático dos militares. Um texto de um jornalista comum: Lourenço Diaféria – de quem não me lembro ter lido senão este texto antológico, levantando fatos incomuns para a época. “Herói. Morto. Nós” é uma crônica antológica que a Folha preservou em seu acervo com as virtudes e até os erros de ortografia (a grafia da época, 1977). É uma crônica datada?

– Talvez, mas útil para o diálogo que pretendo nesta nota.

Veja a crônica no site da Folha.

Agora que perdemos o diplomata brasileiro Vieira de Mello, querem alguns que pensemos na perda de um herói.

E há os que comparam esta perda à da vida de Ayrton Senna. Diferentes scripts para desempenhos extraordinários. A grande imprensa (como dizíamos nos tardios ´70), se apressou a traçar o perfil do ilustre Sérgio Vieira de Mello.

Quando se conhece um pouco mais sobre a sua vida, vê-se que ele é feito de um barro um pouquinho melhor do que o nosso (como diz meu amigo César Falcão, o outro César. É. Sou amigo dos Césares).

Coube apenas pelo destino tornar-se emblemático do momento que vivemos. É homenageado em todo o mundo. Não vejo porque não nos unirmos às homenagens. Se o Brasil tivesse uma chance (não esta de homenagens póstumas), definitivamente rídicula esta chance única (e perdida) de termos um novo Oswaldo Aranha – a morte de um profissional com o perfil do diplomata Vieira de Mello.

Por ser meu filósofo predileto um humorista de plantão, deve ele ter a fórmula certa para dizer: todas as nações em todos os tempos precisaram de heróis, pela simples razão de que esta carência não é brasileira – é humana.

Só não posso concordar com uma certa linha de argumento que coloca no mesmo saco ou baú de ossos, os restos mortais desses dois brasileiros, sob a ótica do pobre-país-que-precisa-de-heróis. Os humanos, precisamos de heróis para despertar em nós o que temos de deuses (ver a nota final de autoria de José Nivaldo Cordeiro).

Mas o que vejo nestes dois brasileiros de fibra, diferenciação, grandeza, vejo em brasileiros vivos: em Amyr Klink e José Midlin, para ficar em poucos exemplos de tantos outros que não vou nomear pela emoção ao correr do teclado.

Por certo, são eles de um barro bem melhor do que o meu e desses críticos de primeira hora, que subestimam a importância dos heróis (penso agora mesmo numa carta do sargento que deu o último socorro ao diplomata sob os escombros e afirmou que ele até o último momento de sua vida foi um gentleman,um homem que se preocupou com os Outros – o tal gênero humano, do que Brecht provavelmente entendia apenas na dimensão do cômico).

 

O que mais me chama a atenção na biografia destes brasileiros e que chamo de coincidências é a incrível vocação para a excelência: busca de boa formação, destino para fazer melhor etc. etc. Tudo que me inspira a viver um dia-a-dia mediano com a cabeça nas estrelas. Meus pés de barro me põem na devida dimensão do homem comum, mas não tenho a miopia dos que não enxergam (ou cuja soberba não permite ver) a grandeza dessas pessoas. Há muitas; soube de operários simples que foram capazes de grandezas (lembro-me sobretudo do incêndio do Edifício Joelma em SP, na década de 70).

 

– Observem o olho direito dos dois personagens. A testa franzida. A tristeza do sorriso à la Mona Lisa. Traços que mostram um pouco de sua vontade de realizar algo acima da média. É tudo. Pense e dê sua opinião.

 

Vieira de Mello, a foto oficial no website da ONU e Ayrton Senna, um herói nacional.

Sérgio Vieira de Mello homens com perfil acima da média.

 

Post Post:

Interessante refletir sobre o arquétipo descrito por José Nivaldo Cordeiro sobre o herói brasileiro típico e faltante no antológico “Em Berço Esplêndido“, de Meira Penna sob o caráter brasileiro. Veja:

Miguel de Unamuno dizia que o Cristo espanhol é moribundo, em agonia no limiar da morte. Como será o nosso?

Tendo a pensar que está na nossa psiquê o Senhor morto e crucificado. Se nos debruçarmos sobre a religiosidade popular como, por exemplo, Antonio Conselheiro em Canudos e Tiradentes, veremos que essas personalidades são uma forma de projeção de Cristo. O sacrifício do Conselheiro era prefigurado desde o início da sua jornada, na medida em que o povo o via como o próprio Messias encarnado. Aqui importava o cadáver do herói sacrificado.

Tiradentes não seria um mito político tão importante se não tivesse a associação do seu sacrifício com o de Cristo.

A sua representação quase sempre mal disfarça a sua imagem como um Cristo substituto. A história do Padre Cícero de Juazeiro vai na mesma direção. O seu santuário sagrado de adoração dos fiéis é o seu túmulo e o morro onde está a sua estátua tem o sugestivo nome de Horto…” (José Nivaldo Cordeiro).

Walt Whitman (1)

Pensei em transcrever dois poemas do escritor norte-americano W. Whitman em homenagem a um jovem amigo que estuda a língua inglesa e, como a maioria dos jovens brasileiros da atualidade, lê mais prosa do que poesia. Aliás este amigo de bom-gosto é apreciador da escrita de P. G. Woodhouse e teve a generosidade de me presentear com um inesquecível volume de “Obrigado, Jeeves“. Espero que comece a gostar de Cather e Whitman.

A conversa que tivemos – e que está na origem desta transcrição – era, na verdade, sobre outro ícone da literatura feita nos EUA – falava sobre Willa Cather, que continuo lendo com muito entusiasmo, e falava desse entusiasmo porque agora estou lendo em inglês – o que duplica o prazer do leitor diante de um(a) grande escritor(a).

Lembram-se quando falei aqui sobre o prazer da leitura de “A Morte vem Buscar o Arcebispo“?

No momento estou concluindo a leitura iniciada nas férias, há mais de um mês, de “Oh, Piooners” (W.Cather) e dizia ao meu amigo como me impressionou o fato de que a decisão de escrever o livro tinha sido a leitura que Cather fizera do poema de W. Whitman. Na verdade, durante a viagem que fazíamos de carro, meu amigo e eu, não consegui me lembrar, dirigindo a 120 km/h qual o nome de Whitman. Lembrava de minhas leituras e declamações há mais de 15 anos, lembrava da capa do livro adquirido na Barnes & Noble, lembrava inclusive da surpresa de uma semana atrás quando aberto ao acaso o livro me sorteou o poeminha (quase nota de cartão de boas festas) em que o poeta escreve para um amigo brasileiro… mas o nome do poeta mesmo, nada!
Foi uma agonia solucionada com um torpedo ao meu F1 que atende pelo nome de César Miranda.

“Quizz literário” – eu perguntei: o nome do poeta de “As Folhas da Relva”? e menos de um minuto depois, na tela do meu velho Nokia: “Walt Whitman”. Fiquei em paz com meus neurônios cansados.
Vai o poema e a promessa de que, em breve, ao final da leitura escreverei sobre “Oh! Pioneers” de Cather.

Bom week-end a todos.

A Christmas Greeting
(From a Northern Star-Groupo to a Shoutern, 1889-90)
by Walt Whitman*
(1819-1892)

Welcome, Brazilian brother – thy ample place is ready;
A loving hand – a smile from the north – a sunny instant hall!
(Let the future care for itself, where it reveals its troubles,impedimentas,
Ours, ours the present throe, the democratic aim, the acceptance and
the faith)

To thee to-day our reaching arm, our turning neck – to thee from us
the expectant eye,

Thou cluster free! thou brilliant lustrous one! thou, learning well,

The true lesson of a nation’s light in the sky,
(More shining than the Cross, more than the Crown,)
The height to be superb humanity.

+++++

Fonte: Poemas extraídos de “Leaves of Grass” (1891-92), in “Complete Poetry and Collected Prose”, pág. 646. Ed. The Library of America, 1984. Num próximo post trascreverei Oh Pioneers! (AQ).

Achados & Perdidos (3)

A baliza da sílaba (G.M.M)
Saudades de um amigo que se expressa em palíndromas.
Saudades de muitos amigos, que fiz neste “mar de conhecimento compartilhado” que é a Web.

Eu, o incapaz de encontrar uma só e completa dessas pérolas chamandas palíndromas.
Eu, o que ficou na gare, à espera do comboio.
Eu e a estrada empoeirada de meu desconforto.

O mar e minha espera angustiada por naves que me tragam a inspiração de um navio de Pessoa.
Nuvens em minha tarde comercial que anunciam chuvas…eu o Real.
A incapacidade de encontrar um livro autógrafo de outro amigo que me lembra, por seu senso do trágico, um escritor francês de quem gosto muito.

A ponta do iceberg da violência em potencial, que me afronta, com os pequenos atos de descortesia e com seus veios de sangue sobre o asfalto, mais do que a absoluta falta de gentileza no mundo e na cidade.

O poema de um personagem de ficção que diz ser possível um ditado mental de poesia, em meio à luta pela sobrevivência. Um jornal que deixo de ler e um livro ao encontro de que(m) corro pra casa, a fim de encontrá-lo.

Eis a história do que encontra paz lendo e fazendo amigos enquanto lê. Gerardo, Bernanos, Hermilo, Mauriac, Mann, Jorge de Lima, Fiodor, Auster, Marcel, Pamuk, Antonio de Moura, Miranda, Nazim Hikmet, Ulanin, Byron, Balzac, Murilo e Bruno … [ó lista interminável] dos meus amados amigos que me espreitam, anônimos e entanto presentes, intensos e lado a lado como estátuas de gesso: como desejaria conhecer todos os seus personagens, eles escritores amados que vêem de lugares tão distantes. D´alhures vem a mágica da imaginação criadora.

Divirto-me habitando esta gerardiana “cabana da sílaba” onde só há letras a cobrir-me da chuva do real. A imaginação é mesmo o lugar onde chove… letras.

A Oração (1)

Uma confissão de Santa Teresa d’Ávila, doutora da Igreja, na abertura de um de seus mais belos livros me chamou a atenção quando pensei em escrever este post:

De todas as ordens recebidas, poucas se me afiguraram tão difíceis como a de escrever sobre assuntos de oração”.

Ter sido uma grande orante ajudou, certamente, a que Santa Teresa vencesse um tamanho desafio. De minha parte – eu, sinto muitas vezes que preciso muito rezar, encaro a dificuldade multiplicada por mil rezando, seja diante de dificuldades comezinhas como escrever no blog, seja diante de desafios mais significativos da vida. Fica evidente porque a sabedoria popular cunhou a velha máxima popular se aplica tão bem. diante disso, “só rezando…

Por considerar o texto de Santa Teresa como mandato bem cumprido, apego-me a ele como um bom começo desta estrada. Tenho lido muitos textos de outros orantes famosos (como o místico San Juan de la Cruz, ou o padre-professor irlandês John O’Donohue), que muito me ensinam sobre a oração, mas só eu mesmo posso praticá-la.

Santa Teresa tinha propósito claro e nos indica de pronto, ao falar sobre a prece:

“Quem me mandou escrever disse que essas monjas dos nossos mosteiros de Nossa Senhora do Carmo têm necessidade de que lhes esclareçam algumas dúvidas em matéria de Oração”.

Talvez por espelhar-se na necessidade do Outro é que Santa Teresa tenha aceitado tal mandato com humildade e dele se saído bem. Sinto que Teresa era como um físico de experimentos que deixasse o laboratório para teorizar, na penumbra, sobre um aspecto de seu estudo sobre a luz.

Nosso Senhor não me fará pequena mercê se isto servir a alguma delas, para louvá-lo um pouquinho mais…”, diz Teresa ao receber de Deus a inspiração necessária e o magnífico presente da metáfora cristalina, ao considerar poeticamente uma mirada privilegiada da alma do cristão – a alma do orante, sintetizado nessa frase:

Nossa alma (é) como um castelo, feito de um só diamante ou limpíssimo cristal” (cfme. pág. 19 de Castelo Interior e Moradas).

E ao imaginar uma porta para adentrar a esse ‘castelo interior’, ela encontra a chave:
A porta para entrar neste castelo é a Oração e a Meditação…

(pág. 23, Castelo Interior e Moradas).

A oração foi considerada por Alceu Amoroso Lima como a 4ª. dimensão de nosso mundo interior. A oração é considerada como vital ao desenvolvimento desse edifício interior que todo cristão está chamado a construir. Ao lado da oração, vem a evocação do passado, a antecipação do futuro (que nem de longe é adivinhação!) e a profundidade (ou meditação). Há, segundo Alceu, duas formas de oração: a oração implícita e a oração explícita.

A oração implícita é o espírito com que vivemos em todos os sentidos, tanto em nossa vida interior, em qualquer das dimensões, como em nossa vida operativa (exterior). Tudo o que sentimos, tudo o que pensamos, tudo o que fazemos, deve ser sentido, pensado, e feito em espírito de oração. Tudo o que é sentido, pensado ou feito com perfeição é uma prece, é um meio implícito de união com Deus. E só nos unimos a Deus pela oração…

Reforça citar a carta apostólica sobre meditação cristã (1989) que define: “a oração é dom de Deus e requer a mobilização das faculdades do homem, o silêncio, o recolhimento, a leitura dos livros sagrados…”

Essa talvez a razão de muitas vezes se encontrar o sentido mais expandido da oração, considerada por muitos como um trabalho (e vice-versa): “laborare est orare…

A oração explícita, por sua vez, é a forma de falarmos com Deus, como ressalta Alceu em seu livro “Meditação Sobre o Mundo Interior” e a prece coletiva sua expressão mais clara de praticar a oração explícita.

Se para bem cumprirmos os mandamentos da Lei de Deus e os preceitos da Igreja, necessitamos do auxílio e graça de Deus, seria a oração um dos exercícios mais importantes, pois é por meio dos Sacramentos e da Oração que evoluímos como cristãos. De todas, a mais excelente oração que podemos dirigir a Deus é a que se chama Oração Dominical ou o “Pai Nosso”.

Ao lado do “Pai Nosso”, rezo também a “Ave Maria”. Aprendemos na Doutrina que “cumpre venerar todos os santos que estão no céu, como a servos e amigos de Deus; porém, invocando-os e venerando-os, não os adoramos, e fazemos sempre grande diferença entre Deus e as criaturas. Rogando aos santos não os olhamos nem consideramos senão como nossos intercessores para com Jesus Cristo, que é o Medianeiro que nos remiu com seu sangue, e por quem podemos ser ouvidos e alcançar a salvação.

“É mais racional e mais útil ser a nossa devoção de preferência entre todos os santos, com a Virgem Santíssima, Mãe de Jesus Cristo; por isso que a devemos considerar como Mãe nossa. A mais excelente oração que podemos dirigir à Virgem Santíssima é a que se chama Saudação Angélica ou Ave Maria.

Afora as orações particulares, devemos assistir as orações públicas da Igreja, principalmente na nossa paróquia. A mais excelente destas orações é o santo sacrifício da Missa, a qual devemos assistir com respeito e atenção, e unir-nos ao sacerdote que preside a Missa, porque oferece este santo sacrifício em nome de toda a Igreja

(Manual Portuguez da Brevíssima Instrução Religiosa – Doutrina da Igreja Católica, Lisboa, 1858).

Para finalizar este post, destaco que em seu “Comentário ao Pai Nosso”, Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, ensina que:

Entre todas as orações, o Pai-Nosso ocupa manifestamente o principal lugar, pois contém as 5 qualidades mais importantes requeridas para toda oração, que deve ser: confiante, conveniente, ordenada, devota e humilde”.

A fórmula Tomista, sintetizada do estudo acima, é absolutamente perfeita para uma meditação sobre a Oração.

Anoto algumas leituras e meditações que Tomás enrique com a simples fórmula “C-C-O-De-Humi” (não pude deixar de me lembrar dos velhos tempos de vestibular). A oração deve ser:

Confiante – Hb. 4, 16 – Tiago 1, 6 – Cl. 2,3 – Sl.91,15.

Conveniente – Tg. 4,3 – Rm. 8,26 – Lc.11,1.

Ordenada – Mt. 6,33 –

Devota – Sl.63,5 – Mt.6,7.

Humilde – Sl.101,18 – Lc.18,9-15 – Jd.9,16.

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Fontes: Catecismo da Igreja Católica – ”A Oração na Vida Cristã”, Sta. Teresa d’Ávila “Castelo Interior e Moradas”, Alceu Amoroso Lima “Meditação Sobre o Mundo Interior”, Santo Tomás de Aquino “Comentário ao Pai Nosso”.
Post-post: Passado algum tempo, volto aqui por circunstâncias deste período de Quaresma – em que tanto necessitado estou da Oração. E eis que encontrei este texto no Formspring de um ex-Blogueiro dos mais inspirados – Felipe Ortiz, ex-Wunderblogs. Vale a pena ler.

Oração para os Estudos (São Tomás de Aquino)

Infalível Criador, que dos tesouros da Vossa sabedoria, tirastes as hierarquias dos Anjos colocando-as com ordem admirável no céu; distribuístes o universo com encantável harmonia. Vós, que sois a verdadeira fonte da luz e o princípio supremo da sabedoria, difundi sobre as trevas da minha mente o raio do esplendor, removendo as duplas trevas nas quais nasci: o pecado e a ignorância.

Vós, que tornaste fecunda a língua das crianças, tornai erudita a minha língua e espalhai sobre meus lábios a vossa bênção. Concede-me a acuracidade para entender, a capacidade de reter, a sutileza de relevar, a facilidade de aprender, a graça abundante de falar e de escrever. Ensina-me a começar, rege-me a continuar e perseverar até o término. Vós que sois verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

Autor: São Tomás de Aquino

Achados & Perdidos (2) – Jackson de Figueiredo

Meu querido A.

O privilégio da alegria, que tem sido de alguns santos, não será talvez o maior dos privilégios de que gozam, em cada ordem, as almas mais vivas e, portanto, mais amadas de Deus. Eu, por exemplo, meu amigo (e talvez seja o amor de mim próprio o que me leve a falar assim), eu, por exemplo, nem antes nem depois de ter entrado os umbraes da Igreja, jamais deixei de sofrer, e sofrer tremendamente, sobretudo da luta comigo mesmo, inclusive com a minha miserável capacidade de criar e matar entusiasmos. Sou um homem, já lhe disse, em quem a consciência só procede bem quando procede tiranicamente, quando traz sob o guante das mais rudes indignações os surtos líricos do espírito, os vôos passionais do coração, as nuanças poéticas da sensibilidade. E V. sabe que não há julgos tirânicos sem interrupções, o que quer dizer: sem lutas temíveis. Sim, meu caro A., jamais foi a fé, para mim, essa iluminação, ou essa plenitude de paz que V., em luta com os segredos da sua alma, parece julgar característicos da existência de quem encontrou a verdade. Não e não. Principalmente para nós, os filhos da revolução e da anarquia, não da revolução e da anarquia na ordem política somente, mas desta, bem mais larga e mais profunda, da intimidade das consciências e dos corações.

Note que esta revolução já se verificava antes do Cristianismo. Ela já era, como é hoje, a tendência do homem para substituir a hierarquia que Deus imprimiu às coisas do mundo, o vago ou o tumultuoso domínio das paixões, de que a mais forte é, justamente, a liberdade: a expressão puramente natural de um favor divino e que jamais deverá mover-se senão em perfectibilidade, isto é, em busca da sua perfeição, que só está em Deus. Daí não haver contradição quando certos filósofos ousaram dizer que não há nem pode haver liberdade para o mal.
É evidente que só o mistério da queda aclara tudo isto. E a sugestiva imagem de Chesterton – a única luz que não podemos fitar é a luz pela qual tudo vemos – mais uma vez acha aplicação no mundo moral.

Mas seja como for, após a revelação de Jesus Cristo, isto é, após ter-se tornado, e para sempre, possível a reconciliação, em base de sacrifício, do homem com a sua primitiva ou verdadeira natureza – se a liberdade ganhou em força para o bem, a sua ´figura` instintiva, a sua contrafação pelo orgulho e a sensualidade se fez, ao mesmo tempo, mais violenta e imperiosa.

Esta hora é a dos resultados fatais de uma sublevação geral dessas forças negativas, no império do homem. E ante o número dos males, perturba-se-nos a consciência, pois que também é quase fatal em nós o esquecermos que um só ato bom tem mais significação e valia do que todos os maus, pois que, para os lados de Deus, é o infinito da vida, e para os lados do mal, tudo se resolve em nada. Mas, realmente, se é assim possível fazer frente filosoficamente a tantas agonias do espírito, não é possível deixar de senti-las, de temê-las, e lastimar a cada passo, a cada momento da vida vivida, que se vai vivendo…

E não é V. só, meu caro A., quem sofre destas oposições entre a consciência, que lhe impõe o valor da Fé, e a sensibilidade, cansada ou demasiadamente trepidante, que a distância dessa sensação de conforto, que verá corresponder à posse da verdade.
Mas basta imaginar que só intuitivamente limitamos ou sentimos o geral, ao passo que o particular (e o erro, e a dor estão sempre neste caso), esse, nos toca diretamente. Não é a vida normal aquela de que melhor temos consciência. É das moléstias, das falhas, do que externa e internamente nos perturba.

Ah! meu caro A., se eu lhe contasse a minha vida, mas a contasse em seus detalhes – caso V. entrasse em meus subterrâneos, descesse às minhas furnas, contornasse as minhas geleiras, atravessasse as minhas dunas espirituais, pudesse dar-lhe uma representação mais viva da minha paisagem interior – certo V. veria que tenho bem mais do que V. o que esconder e sepultar, e que o meu orgulho tem tido mais vezes do que o seu, ocasiões de curvar-se em atitudes bem menos dignas que a da prece.

Mas nada disto invalida a força da Fé, a força da verdade da consciência. Não é verdade que Jesus Cristo tivesse prometido a felicidade aos povos e aos indivíduos. A salvação é coisa muito diversa do que geralmente ideamos como felicidade. Não, Ele, o que veio atestar foi o valor das almas no espantosos horror deste mundo decaído. Ele, o que veio atestar foi a existência de uma saída para a luz, de dentro destes muros de treva. Ele, o que veio foi mostrar que o difícil caminho da humildade e do sacrifício é o caminho certo para a glória da ressurreição na vida real. Não; não é preciso ser feliz para sentir o valor da fé, isto é, o valor da existência como coisa que tem sentido, é conforme à nossa limitada razão.

A hora em que vivemos ambos é, além disso, uma hora terrível, ainda mais desorientadora que as horas em que o mal parecia dominar tudo. O que vemos é como uma cheia, uma inundação, cobrindo, aplanando, confundindo tudo, límpidos rios de doutrina e córregos de infâmia, amazonas de hipocrisia e sofismas, caudalosos rios da dúvida e puros mananciais da verdade.
(…)
Você não avalia como ando adoentado e incapaz. Só para esta correspondência com V. é que me sinto com coragem, pois cada vez lhe quero mais bem, e a consciência, não menos que o coração, me diz que V. tem sido, desde que o encontrei, uma das mais altas provas da bondade de Deus para comigo. Pois é raro, meu caro A., é raro, no acidentado terreno da vida, uma sombra tão larga e tão carinhosa de confiança e amizade.
Seu
Jackson.

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Fonte: Correspondência, Jackson de Figueiredo, Ed. ABC, carta de 9-8-1927, pág.89-96. (A. é de Alceu Amoroso Lima).

Chega de viver só de memória, Fluminense

Num texto de 2002, eu perguntava:

Flu … viver de Memória?

Desejava muito que o Fluminense avançasse num certo campeonato, à época e ontem, vibrei com a sua chegada à condição de finalista da Libertadores 2008. É uma alegria enorme para um torcedor cinquentão que vibra (e, sobretudo, sofre) com o Flu desde os 14 anos…Aliás, ontem à noite, sofremos todos, tendo como co-participantes de sofrimento (e alegria) futebolística: Chico e Lulu Santos aqui; Vinicius e Nélson, lá em cima.

Sofrer assim “pode parecer ridículo”, como ao cronista parecia ridículo desejar o bi-campeonato em 1960.

– Não faz mal. Eu me perdôo: ainda relembrando Nélson Rodrigues:

“Ai daquele que não consegue ser jamais ridículo…”

Nesta noite, no Maracanã, o Fluminense nos fez de novo sonhar, sem ter vergonha do ridículo. E dá até para repetir à exaustão o velho tricolor, quando se viam as bandeiras e os panos tremulando com as nossas cores, somadas à da cor laranja – que lembra o bairro de origem do esquadrão, decorando a arquibancada do maior do mundo, e provando que “a torcida do Fluminense é a mais doce, a mais iluminada de todas as torcidas do Brasil e do mundo!“.

Além de ser a torcida com maior senso estético quando se distribui na arena do espetáculo qual um óleo de Paul Klee.