W.B. Yeats (2)

To The Rose Upon The Rood Of Time

Red Rose, proud Rose, sad Rose of all my days!w.b.yeats
Come near me, while I sing the ancient ways:
Chuchulain battling with the bitter tide;
The Druid, grey, wood-nurtured, quiet-eyed,
Who cast round Fergus dreams, and ruin untold;
And thine own sadness, whereof of stars, grown old
In dancing silver-sandalled on the sea,
Sing in their high and lonely melody.
Come near, that no more blinded by man’s fate,
I find under the boughs of love and hate,
In all poor foolish things that live a day,
Eternal beauty wandering on her way.

Come near, come near, come near – Ah, leave me still
A little space for the rose – breath to fill!
Lest I no more hear common things that crave;
The weak worm hiding down in its small cave,
The field-mouse running by me in the grass,
And heavy mortal hopes that toil and pass;
But seek alone to hear the strange things said
By God to the bright hearts of those long dead,
And learn to chaunt a tongue men do not know.
Come near; I would, before my time to go,
Sing of old Eire and the ancient ways:
Red Rose, proud Rose, sad Rose of all my days.

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A Rosa Na Cruz do Tempo
[Tradução de José Agostinho Baptista*]

Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias!
Aproxima-te, vem até mim, enquanto de outrora os tempos canto:
O de Cuchulain, em luta com a maré inclemente;

O do Druida sombrio, filho dos bosques, de olhos calmos,

Esse que alimentou os sonhos de Fergus e a indizível ruína;
É a tua tristeza o que antiqüíssimas estrelas

Dançando com sandálias de prata sobre o mar,

Cantam em sua alta e solitária melodia.
Aproxima-te pois, agora que já não me cega o destino do homem,

E posso encontrar sob os ramos do amor e do ódio,

E nas mais simples coisas que vivem apenas um dia,

A eterna beleza errante, errando ainda.
Aproxima-te, vem até mim, vem – Ah, deixa-me algum espaço
Que de seu hálito a rosa encha!

Que não seja eu quem não ouve o que implora;
O verme indefeso e oculto em seu pequeno esconderijo,

A ratazana que entre as ervas de mim foge,

E a terrível esperança mortal que labuta e morre;

Que seja eu quem ouve as estranhas coisas ditas
Por Deus aos luminosos corações dos mortos antigos.
E aprende essa língua que os homens ignoram.

Vem até mim; antes de partir queria o

Velho Eire cantar e cantar de outrora os tempos:
Rosa Vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias.

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Fonte: “W.B.Yeats, Uma Antologia“, Ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 1996.

Da série `Post Perdidos´(1): Thomas Merton

Publiquei este post originalmente, em 2006, no ex-Blog Zadig, na comunidade blogs Verbeat.

O livro “A Vida Silenciosa” foi escrito por Thomas Merton uma década após ele ter se licenciado de sua vida num mosteiro trapista. Ele próprio descreve a obra como “uma meditação sobre a vida monástica feita por alguém que, sem nenhum mérito próprio, teve o privilégio de conhecer essa vida por dentro. Se há nestas páginas, insiste o autor, algo de valor, vem, não de algum talento especial do autor (e ele o possui), mas de ter sido porta-voz de uma tradição milenar ou multissecular, como diz Merton “indigno descendente de São Bento e dos primeiros apóstolos” a quem os monges consideram como seus Pais Espirituais.

Qual o interesse de um livro assim no mundo conturbado de hoje, onde a televisão e a Internet definem padrões?

O esboço de uma resposta começaria por examinar a realidade das vida monástica por oposição à vida no mundo atual. Goleada para o mundo atual, diriam os apressados, principalmente se se dirigem aos moços, que se apegam aos padrões do mundo contemporâneo, e a quem mal sobra um tempinho para entender o que pode ser uma vida silenciosa.

Th. Merton não está interessado em propaganda fácil mas em estudo até porque “nada há de mais detestável do que a tentativa de fazer propaganda da vida monástica” e, no entanto, ele cumpre seu apostolado de divulgador com a esperança de poder tornar mais conhecido o mistério íntimo de uma vida tão rica da misericórdia e bondade de Deus como é a vida monástica.

E, no entanto, em sua negatividade construtiva, este livro é importante porque combina uma lúcida e informativa descrição da natureza e das formas de monaquismo – do comunitário ao solitário -, com uma apaixonada defesa do anseio humano de contemplar a Deus. A intensa beleza da meditação irradia desse pequeno volume com benefícios que emanan da sua calma superfície, fazendo deste livro um clássico sobre o monaquismo.

Dom Basílio Penido no prefácio do livro acentua que: Vivemos num mundo não somente de ação mas de agitação. O rádio, a TV, a incrível facilidade das comunicações, os divertimentos e as comodidades que nos proporcionaram o desenvolvimento da técnica, conquanto sejam coisas fundamentalmente boas, não deixam entretanto de facilitar uma certa preguiça da inteligência e da boa vontade que dificultam extremamente a vida interior.

E, no entanto, muitos jovens continuam se interessando pela vida monástica. Por quê?

– Hugo de São Vitor afirma em um opúsculo intitulado Sobre o modo de Aprender e de Meditar” que “há três operações básicas da alma racional” – lembra-nos a “Educação segundo a Filosofia Perene” – a primeira é o pensamento, a segunda, a meditação e a terceira, a contemplação. O que os monges fazem como dever e ofício é a contemplação de Deus, vocação última do ser humano, esquecida por todos os artifícios do mundo agitado de nossos dias. E a contemplação, afirma-nos o humilde (e anônimo) sintetizador da “Educação…” é “o fim último do homem”. O homem, diz o autor, por natureza, tende para a contemplação.

O homem é um ser tal que a sua realização, a sua suprema felicidade, se encontra na contemplação.”

Merton repassa a vida dos diversos mosteiros, ressaltando que a contemplação cristã nada é se não se alimenta da revelação de Deus, de Sua Sabedoria, no Mistério de Cristo. Ela seria, segundo Merton “estéril se não fosse nutrida pelos sacramentos e pela teologia da Igreja”.

Se na primeira parte do livro, Merton se ocupa dos fundamentos da Pax Monástica, na segunda ele detalha a situação atual da vida dita cenobítica em oposição à vida eremítica (cartuxos e camaldulenses) [conforme a Regra, cap. 1 dos gêneros de monges]. São Bento, patrono da Europa e inspirador de nosso atual Papa Bento XVI, é também o inspirador da vocação dos monges. Aprendemos com Th. Merton que a Regra de São Bento descreve os 12 degraus da humildade interior e exterior (cada qual sendo participação no mistério da obediência de Cristo), declara “quando todos esses degraus tiverem sido galgados, alcançará logo o monge a perfeita caridade que expele todo temor” (p.33).

Os monges, nos ensina Merton, procuram glorificar a Deus e salvar suas almas, abraçando a vida contemplativa em conformidade com a Regra de São Bento e guiados por seu espírito”. Se há variantes na forma de observar essa Regra isso depende, em larga medida, da importância que cada família monástica dá a este ou àquele aspecto da regra beneditina. (p.65).

Assim, não deve haver conflito entre um monge cenobita ou eremita, entre uma abadia e outra, ou mesmo entre os membros de um mosteiro. No entanto, é de seres humanos que são feitos os conventos e, portanto, com a rude realidade de nossas limitações, eis de que os mosteiros são feitos. São Bernardo já clamava há séculos atrás da rivalidade entre Cister e Cluny. “Se há cistercienses que tentaram menosprezar a observância de Cluny como sendo ´mole` e relaxada, devem ser muito lastimados, declara o santo” (p.106).

Mostrando a dificuldade da vida monástica em países dominados pela sociedade de consumo, Merton nos dá esperança ao indicar os rumos do movimento monástico nos EUA e no Canadá, que por orientação dos beneditinos europeus deram grande impulso à cristianização da América do Norte e do México. Também o Brasil, asseguram as tradutoras (elas também pessoas que vivem no claustro) nós, católicos, podemos nos alegrar com o crescente número e a qualidade dos mosteiros beneditinos fundados recentemente. Elas destacam o mosteiro de Santa Maria de Serra Clara, nas montanhas do sul de Minas, próximo de Itajubá como exemplo de vida monástica. Uma rápida busca no Google nos dá a saber que há outros.

Dia desses, uma dileta amiga protestante manifestou sua vontade de ser monja, o que é uma contradição no mundo luterano que não privilegia a vida monástica, mas me deu a pensar que, não fossem as vocações de pai, marido, profissional etc. também este blogueiro estaria habilitado ao convento.

Como ousei dizer isso numa reunião com amigos, e o dizia enquanto saboreava um cálice de vinho, minha mulher caiu em riso, porque, segundo ela, eu não passaria nunca dos capítulos 39 e 40 [“Da medida da comida, da medida da bebida”, neste caso específico, a determinação Beneditina de “uma hêmina de vinho por dia” – algo em torno de 1,5 cálice]. Humor à parte, o mundo do monastério é por demais atraente como regra de disciplina, humildade e busca da maturidade espiritual. Isso tem atraído milhares de jovens em todo o mundo, apesar do ruído atraente do mundo cá fora.

Conheça a fundação Merton.

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Fonte: “A Vida Silenciosa”, Thomas Merton. Ed. Vozes, Petrópolis, 2002.

Oração do Amanhecer

Senhor!
No silêncio deste dia que amanhece, venho pedir-te a Paz, a Sabedoria e a Força.
Quero olhar, hoje, o mundo com os olhos cheios de amor; ser paciente, compreensivo, manso e prudente.
Quero ver os meus irmãos além das aparências, quero vê-los como Tu mesmo os vês e, assim, não ver senão o Bem em cada um.
Cerra, Senhor, os meus ouvidos a toda calúnia. Guarda a minha língua de toda a maldade.
Que só de bênçãos se encha o meu espírito.
Que eu seja tão bondoso e alegre, que todos os que se aproximarem de mim sintam a Tua presença. Reveste-me de tua beleza, Senhor.
E que, no decurso deste dia, eu Te revele a todos.

Amém!
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Fonte: “Diálogo com Deus”, Ed.Paulinas, SP, 1988.

Quinta-Feira Santa

Le Christ et Cybele (F.Mauriac)

“Triste Jeudi-Saint dans les montagnes: des ténèbres couvrent toute la terre et le ciel semble voilé de boue. Les torrents ne sont plus qu’une écume blanchâtre, une triste salive. C’était un vrai troupeau, ce matin, qui piétinait dans l’église du village. Tous les petits garçons mis à part dans le choeur, comme les agneaux entre des claies, se battaient, se heurtaient du front, sans qu’on leur dise rien. Le curé hurlait sur un mode inconnu l’épitre et l’évangile.

“Mais la dérision de toute liturgie, tant de laideur et de misère donnaient plus de prix à la tendresse de ce peuple lorsque le Saint-Sacrement fut d’eposé dans le tombeau. En dépit de ce qui aurait dû faire rire, la présence réelle du Christ nous fut attesté avec une puissance inconnue. Ce n’est plus ici la voix des bénédictines qui précipite les battements de notre couer; il n’y a plus ici que Vous et que l’amour de ces brebis piétinantes et que l’innocence de ces petits enfants qui rient et se bouscoulent devant votre face.

“Le Christ n’a pas seulement vaincu la mort, il a vaincu la solitude humaine. En vain accuserez-vous la croix d’avoir enténébré la vie, l’Église vous répond, avec une joie mêlée de larmes, le jour du Vendredi-Saint:

Ecce enim propter lignum venit gaudium in universo mundo…” (*)

“Ce soir du Vendredi-Saint, dans la montagne, les nuages floconneux se défirent, découvrant l’azur. Le Chemin de la Croix nous avait attendris et nous montions vers les sapins enchantés. Les animaux flairaient, autour des chaumières muettes, le mystère de la sainte nuit. Etouffés par la distance, des chants d’oiseaux venaient de ce bois éloigné, comme d’un autre monde. Les lambeaux de neige sur la terre étaient le linceul déchiré du Seigneur. Cybèle sentait son corps pénétré par les racines d’un Arbre inconnue, couvert de sang.

(François Mauriac – “Souffrance et Bonheur du chrétien“, pp. 179-182, citado por Eva Kushner, em Mauriac, edit. Desclée De Brouwer, 1972, pág. 140-1).

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“Triste Quinta-Feira Santa nas montanhas: as trevas cobrem toda a terra e o céu parece coberto de lama. As chuvas não são nada além da espuma branca, uma saliva triste. Era uma espécie de rebanho que hoje cedo batia os cascos, entrando na igreja do vilarejo.

“Todos aqueles meninos separados, no coro, como se fossem ovelhas no meio da sebe brigavam e discutiam sem que ninguém os corrigisse. O pároco gritava estranhamente a epístola e o evangelho. Mas o que poderia parecer o escárnio de toda a liturgia – tanta sujeira e miséria, trouxe ainda mais valor à ternura desse povo quando o Santíssimo Sacramento foi colocado no seu lugar. Apesar de tudo que provocava riso, a presença real do Cristo ficou provada com um imenso poder. Não é por causa do som que vem dos cantos beneditinos que nosso coração bate mais forte. Não há nada além de Vós, Senhor, e o Amor a essas ovelhas barulhentas e à inocência dessas crianças que sorriem e se agitam diante de Vossa Face.

“O Cristo não venceu apenas a Morte, Ele venceu também a solidão humana. Em vão acusam a Cruz de fazer sombra à vida. A Igreja nos responde, com uma alegria cheia de lágrimas, na Quinta-feira Santa:
Ecce enim propter lignum venit gaudium in universo mundo…“(*)

“Na noite da Sexta-Feira Santa, na montanha, as nuvens em flocos se desfazem, deixando lugar ao azul. A Via Sacra nos esperou e nos levou até os pinheiros encantados. Os animais farejam (pressentem), em volta das palhoças silenciosas, no mistério da Noite Sagrada. Abafados pela distância, ouvíamos o canto dos pássaros do bosque distante, vindos de outro mundo. Os flocos de neve sobre a terra eram como o sudário rasgado do Senhor. Cybèle sentiu seu corpo penetrado pelas raízes de uma Árvore desconhecida, coberta de sangue”.

(François Mauriac – “Sofrimento e Felicidade do Cristão”, pp. 179-182).
Assim traduzi – com erros e sem citar o contexto, mas como exercício nesta 6ª-feira Santa, 21-03-2008, peço aos amigo(a)s francófono(a)s: s.v.p. corrigez mes fautes!

(*)Adoração da Santa Cruz, Liturgia da Sexta-Feira Santa:Crucem tuam adoramus, Domine, et sanctam ressurrectionem tuam laudamus et glorificamus: ecce enim propter lignum venit gaudium in universo mundo” : adoramos, Senhor, a tua Cruz, e louvamos e glorificamos a tua santa ressurreição: por causa do lenho da Cruz vem a todo o mundo o gozo (Antífona1ª para ser cantada enquanto se adora a Santa Cruz).

W.B. Yeats (I)

W.B.Yeats
The Coming of Wisdow with Time

Though leaves are many, the root is one;

Through all the lying days of my youth

I swayed my leaves and flowers in the sun;

Now I may wither into the truth.

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Com o Tempo a Sabedoria

Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;

Ao longo dos enganadores dias da mocidade,

Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;

Agora posso murchar no coração da verdade.

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Fonte: W.B.Yeats, Uma Antologia, Ed. Assirio & Alvim, 1996, Trad. José Agostinho Batista

Willa Cather (1)

Dias atrás, uma dileta amiga (virtual) me sugere entusiasmada, a leitura de Willa Cather.

Vou ao sebo virtual e ao cabo de alguns dias, eis-me nesta tarde que nos ameaça com uma tempestade real, finalizando a leitura de “A Morte vem Buscar o Arcebispo“.

Agradeço a dica da amiga e recomendo a leitura, ousando emendar sua frase de um texto antigo em seu ex-blog: que se inicia assim:

Tolstói diz a respeito de Dickens “Todos os personagens de Dickens são meus amigos pessoais“.
Claire dizia em 2005: “todos os meus escritores favoritos são meus amigos pessoais. Não os conheço como indivíduos, a maioria deles já faleceu. Contudo eles me falam – como amigos. Cúmplices. Como pessoas a quem amo mesmo quando discordamos. E como eu discordo de Doris Lessing, de Fernando Pessoa, de Bilac – mas meu coração se abre carinhosamente para abrigá-los…“.
Ao final dessa apaixonada leitura, posso afirmar: eu me sinto amigo desses dois personagens humaníssimos e cristãos – os Padres Vaillant e Latour, ou, simplesmente, padres Joseph e Jean, missionários franceses no Novo México, nos desertos do Arizona e nas rochosas do Colorado.

De Willa Cather, disse mestre Otto Maria Carpeaux que “o catolicismo foi elemento significativo de sua arte”, no que posso adicionar que é com sua arte que Willa aproxima o leitor de essência mesma do Cristianismo, na escolha de personagens de carne-e-osso que são capazes de entender o milagre da vida, em meio às provações do dia-a-dia, no cotidiano duro da vida de missionários.

A melhor fotografia do Padre Vaillant no romance está num trecho das páginas 170-172:

O bispo Latour (padre Jean) “embora trabalhasse com padre Joseph (Vaillant) havia já vinte e cinco anos, jamais lograra solucionar as contradições de sua natureza. Simplesmente as aceitava, e, quando Joseph se ausentava por longo tempo, dava-se conta de que as amava todas. O seu vigário era um dos homens mais verdadeiramente espirituais que jamais conhecera, embora estivesse tão apaixonadamente apegado a tantas coisas deste mundo. Por mais que gostasse de comer e beber bem, não apenas observava rigorosamente todos os jejuns da Igreja como jamais se queixava da pobreza ou escassez do passadio nas suas longas jornadas missionárias. A inclinação do padre Joseph pelo bom vinho poderia ter sido considerada falta num outro homem. Mas, de constituição franzina, ele parecia necessitar de algum forte estimulante físico que lhe suportasse os súbitos arroubos de vontade e imaginação. Repetidas vezes, o Bispo vira um bom jantar, uma garrafa de clarete, transformarem-se, a seus olhos, em energia espiritual. De um pequeno festim, que tornaria outros homens sonolentos e desejosos de repouso, o Padre Vaillant saía revigorado, e trabalhava durante dez ou doze horas com aquele ardor e absorção que davam resultados tão duradouros.”
(…)
Mas “nada do que se pudesse dizer do Padre Vaillant bastaria para explicá-lo. O homem era muito maior do que a soma de suas qualidades. Acrescentava um fulgor a qualquer espécie de comunidade humana em que lhe acontecesse ingressar. Um hogan Navajo, qualquer pequeno amontoado, abjetamente pobre, de choças mexicanas, ou a companhia de Monsenhores e Cardeais em Roma – dava tudo no mesmo“.

A paisagem recriada por Willa Cather é memorável neste livro. Os leitores viajamos com os dois padres missionários e temos o céu imenso da região por testemunha da dedicação cristã e de suas lutas às vezes inglórias contra os eventos naturais (neve, tempestades de poeira, imensas extensões desérticas, e os canyons…), de suas amizades com os Navajos e os Mexicanos da perdida Arquidiocese do Bispo Latour e das pedras de Santa Fé e a sua tão sonhada Catedral à francesa (em estilo românico do Midi France).

A viagem de volta a Santa Fé era coisa de umas quatrocentas milhas. O tempo alternava entre tempestades de areia enceguecedoras e sol brilhante. O céu estava cheio de movimento e mudança, ao passo que o deserto abaixo dele se estendia monótono e parado; e havia muito céu, mais do que no mar, mais do que em qualquer lugar do mundo. A planície ali estava, sob os pés do viandante, mas quando se olhava em derredor, só se via um brilhante mundo azul de ar ardente e nuvens movediças. Alhures, o céu era o teto do mundo, mas ali a terra era o chão do céu. A paisagem por que o viandante ansiava quando estava muito distante, a coisa que o cercava de todos os lados, o mundo em que na realidade vivia era o céu, o céu!

Cavalgando pela estrada de Albuquerque a Santa Fé, o jovem bispo Jean-Marie Latour se perde em meio a árida região do Novo México central, perde-se, tem sede e se inspira na Paixão de Cristo (no grito arrancado ao Salvador na cruz: “J’ai soif!“) para prosseguir em busca de seu vicariato e de sua missão. Ao final do livro, o arcebispo Latour contempla o pôr-de-sol, nas proximidades de sua catedral firmada na pedra de Santa Fé, deixando a imaginação às recordações de toda uma vida dedicada à causa da Igreja numa missão distante de sua França (distante do seu Puy-de-Dôme), sem perspectiva nas lembranças, desligado do tempo, do calendário e assim resume Cather:

– “Não tardaria que se desligasse do tempo marcado no calendário, que já deixara de contar para ele. Estava postado no meio de sua própria consciência; nenhum dos seus estados de espírito pregressos se perdera ou fora esquecido. Estavam todos ao alcance da mão, e eram todos compreensíveis.”

Como imagino, compreensível era também a idéia de que um dos pensamentos de Pascal que fizera o Bispo construir (incentivando os novos padres de seu vicariato a plantarem árvores) tantos jardins em meio à aridez, era uma luz em sua vida: “o Homem se perdera e fora salvo num jardim“(*).

Foram assim os últimos dias do padre Latour, sob o poder das lembranças, as leituras de Santo Agostinho, Madame de Sevigné e de seu conterrâneo Auvergnais, Pascal, seu favorito… Sob o ar do Novo México, o mesmo ar que por tantos anos lhe fora tão necessário, pois, “aliviava o coração e, de mansinho, bem de mansinho, abria o ferrolho, corria os trincos e libertava o espírito do homem para o vento, o azul dourado, para a manhã, a manhã!

***
Estou diante de um belo livro, constato. E de uma grande escritora da qual desejo ler mais livros.
– Se a pergunta de minha amiga há quase três anos atrás era: “E a cada vez que apanho um ‘novo’ para ler, inédito para mim, existe a possibilidade, a pergunta: será que vou fazer mais um amigo?“, hoje a minha resposta é com certeza:
– Willa Cather é amiga deste leitor apressado e desatento, mas amorável.

A tempestade que se anunciava se esvai e a tarde cai em meu jardim à espera da enchente de São José, neste nosso país com o verão mais chuvoso de que tenho notícia. Posso me sentir só mas o sinete do anel do padre Vaillant (valente, bravo, não por acaso!) vem me lembrar porquê: “Auspice Maria” (lat. que significa “Sob a proteção de Maria”).

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Fonte: “A Morte vem Buscar o Arcebispo”, Edit. Guanabara, trad. do poeta José Paulo Paes, 1985; “História da Lit. Ocidental”, O.M. Carpeaux, pág.1969, vol. 7′; (*)”Pensamentos”, Pascal, pág. 168, 553 – “Jesus está em um jardim, não de delícias como o primeiro Adão, onde este se perdeu e com ele todo o gênero humano, mas num jardim de suplícios, de onde se salvou e com ele todo o gênero humano.”
(Vinhos) Clarete, como se diz hoje, é a forma usada para descrever os vinhos tintos de Bordeaux. Em geral, grafado com o “t” mudo: Claret.
A citação ao ex-Blog da Claire.