Um chicote em cada frase

Um chicote a estalar em cada frase…Não é o meu caso, estou certo.
Mas há pelo menos 3 dos meus escritores prediletos que o fazem estalar.
1 León Bloy,
2 Gustavo Corção e
3 Gilberto K Chesterton.

A seguir, um chicotinho (em 2 tempos) que estala com bom som.

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O PROGRESSO E CHESTERTON

Gustavo Corção

Léon Bloy fez na “Exégèse des lieux communs” a perseguição impiedosa dessas expressões amoedadas que andam por aí, nas ruas e nas cátedras, como restos ensebados duma sabedoria que a preguiça e a conveniência prostituíram. Bloy não escolhia muito, nem perdia muito tempo em olhar mais de perto os frangalhos que impetuosamente desbaratava.

Numa linguagem viva e desesperada, sem medida, sem precauções, ele fazia um chicote estalar em cada frase…

Chesterton não foi menos inimigo do lugar comum, nem menos tenaz, mas especializou-se numa certa espécie, naqueles que contém verdades de pernas para o ar.

Passou a vida invertendo os quadros que o jornalismo moderno pendura com o Céu para baixo. Fez isso escrupulosamente e corretamente, com a satisfação que um bom inglês deve ter em corrigir as desordens de seu interior.

Foi um D. Quixote gentleman e conseguiu sempre inscrever uma ardorosa combatividade no recato britânico, no horror ao impróprio; mas foi sempre, fundamentalmente, um “redresseur des torts“.

Por isso, a cada instante, o leitor comum, habituado às sentenças de Carrel e ao jornalismo moderno, estaca desconfiado na Ortodoxia ou em A Esfera e a Cruz.

Mas um sorriso vagamente divertido resolve a dificuldade daquele leitor que acha afinal uma saída, ainda e sempre por um lugar comum, decretando que aquilo tudo que o Chesterton diz é paradoxo.

Já ouvi essa apreciação em meia dúzia de tentativas que fiz de tornar lido um daqueles livros por diversos amigos, engenheiros, negociantes, dentistas, todos homens de boas roupas e ótimas familias. Dizem que é paradoxo, assim como que diz que certo indivíduo cego de nascença, com escamas nos olhos, ficou vendo de repente, por sugestão.

Dizendo assim uma palavra ávida de definição, sedenta de exegese, parece que o assunto está definitivamente encerrado e que é melhor falar noutra coisa.

Paradoxo tem dois sentidos, muito diferentes.

Pode ser o sinal de crucificação, o emblema da dialética divina que criou as coisas atravessadas pelas coisas, pode ser a vida da inteligência, pode ser todo o cristianismo. Mas para aqueles leitores o paradoxo é um truc de salão, uma escamoteação engraçada, um tirar ovos do nariz, e seguramente pensam que Chesterton escreveu a Ortodoxiafor fun“.

Para responder a essa opinião é preciso buscar inspiração no próprio Chesterton e dizer que, naquele sentido, não há um só paradoxo em todos os seus livros, e que o riso da ortodoxia é extremamente sério.

Por isso tudo e principalmente pensando nos leitores católicos, tive a idéia de tentar aqui uma modesta propaganda.

Recomendo o Chesterton como se recomenda o quinino, principalmente para aqueles que por dever de ofício freqüentam os mangues da inteligência, as paragens encharcadas de lugares comuns, as baixadas do pensamento: para aqueles que possam confundir catolicismo com sisudez e cultura com academias.

Quando por exemplo, em roda de intelectuais, um senhor bem vestido dissesse pausadamente que a Igreja tem feito resistência ao Progresso, algum de nós, católico, antigo aluno distinto de apologética, seria capaz de aceitar uma educada controvérsia, tentando improvisar uma advocacia da Igreja, toda ela miudamente construída com fatos e interpretações.

Iria discutir o caso de Galileu, citar Copérnico, lembrar que também a revolução se opôs a Lavoisier, e que Einstein foi desterrado pela cruz gamada. Ficaria tudo cristalizado num ambiente acadêmico, tudo impregnado da mais educada idiotia. Seria uma marcação de pontos como no bridge, a saber: quem tinha encarcerado mais astrônomos ou queimado mais químicos.

Ora, quem tivesse o Chesterton na mão, como um vidro de sais, poderia simplesmente responder que, pensando bem, a Igreja é a única coisa que realmente tem progredido. A maior parte dos católicos presentes a tal reunião, ficaria assustada, a tal ponto nós os católicos nos educamos no hábito de defender, de justificar, de desculpar a Igreja, e a tal ponto receamos espantar o adversário com palavras cristãs demais.

Parece que numa discussão inteligente é preciso calar o amor ao Pai para não ficar como testemunha suspeita, e por isso às vezes se nos afigura, a nós católicos, preferível adotar um tom mais mundano do que cristão. Já ouvi turbulentas gritarias cosmogônicas em que cada um tem sua idéia para as origens e para as leis, e numa dessas gritarias lembro-me que um transbordante católico, no auge do entusiasmo, tão fácil lhe pareceu atacar o darwinismo que chegou a gritar: — Para isso nem preciso de Deus…

Esses católicos costumam praticar a contabilidade da Verdade.

Julgam meio caminho andado quando os seus oponentes acabam concordando que são a favor de Jesus. Julgam que a Igreja cresce subitamente e o Cristo ressuscita quando se consegue apurar uma safadeza de Rousseau; julgam que é um verdadeiro apostolado contar que Diderot ensinava o pelo-sinal à filha como se toda a Verdade, todo o Cristo, estivesse à espera de Diderot.

Preferem em presença dos adversários e dos indiferentes não cheirar demais a incenso, e, sempre que possível, se colocar no próprio plano fazendo um miúdo inventário de fatos e anedotas a favor dos Papas. Têm satisfação em citar Psichiari, não por ele mesmo, mas especificamente porque Psichiari responde a Renan e assim, numa espécie de intriga em família, desfaz a má impressão da vida desregrada do avô.

Por isso tudo Chesterton aparece um pouco bruscamente perturbando a diplomacia filandrosa que julgam necessária para salvar os restos da Igreja. É como se na mais solene sessão de Júri alguém se lembrasse de se perguntar ao réu se o Juiz era culpado.

Depois do susto vem o alívio, o sorriso e a classificação de paradoxo. E o julgamento do Cristo pelos jornalistas continua para a delícia das galerias…

Será preciso ler algumas páginas da Ortodoxia para mostrar que aquele aparente paradoxo não foi feito com propósito. O autor vinha perseguindo a idéia de progresso, vinha cercando o conceito, invertendo aqui e ali os lugares comuns que são os monumentos da cultura moderna, quando subitamente a apologia da Igreja apareceu, sozinha, explodiu por assim dizer, sem ser preparada, como chave de ouro de soneto.

Prefiro citar aqui algumas passagens mais características:

O Progresso deveria significar que estamos sempre querendo mudar o mundo para adaptar a uma visão definida. Realmente, hoje, significa que estamos mudando constantemente de visão. Deveria significar que conseguimos devagar, mas de modo seguro, a justiça e a piedade entre os homens: significa na verdade que estamos prontos a duvidar se a justiça e a piedade são desejáveis; uma página louca de um sofista prussiano qualquer faz os homens duvidarem.

O Progresso significaria talvez que estamos sempre em marcha para a nova Jerusalém. Significa que é a nova Jerusalém que está em marcha longe de nós. Não modificamos o real para o adaptar ao Ideal, modificamos o Ideal: é mais fácil.

Exemplos vulgares são sempre mais simples. Suponhamos que um homem queira um certo mundo, digamos um mundo azul. Não teria nenhuma razão de se queixar da lentidão ou rapidez da tarefa; poderia se fatigar nessa transformação, poderia se esgotar até que tudo ficasse azul; passaria por aventuras heróicas, nos últimos retoques de azul sobre um tigre. Haveria sonhos feericos de um lugar azul… Mas se ele trabalhasse com afinco, esse reformador cheio de altas idéias deixaria, segundo seu ponto de vista, um mundo melhor e mais azul do que tinha encontrado.

Se cada dia ele pintasse uma folha de erva, avançaria lentamente. Mas se cada dia modificasse sua cor favorita, então não adiantaria absolutamente. Se, depois de ter lido um novo filósofo, ele se pusesse a pintar tudo de amarelo, então o seu trabalho estaria perdido: nada teria a mostrar senão aqui e ali algum tigre azul, lembrança desagradável de sua primitiva maneira […]

[…] senti mais uma vez que uma coisa estava presente na discussão: como um homem ouve um sino de Igreja dominar o tumulto da rua. Alguma coisa me dizia: — Meu ideal está fixado, ele foi fixado antes da fundação do mundo. Vocês todos podem mudar o lugar para onde querem ir, mas não aquele de onde vieram. Para o ortodoxo deve existir sempre um motivo para revolução, porque no coração dos homens Deus está sempre sob os pés de Satã. No mundo do alto o Inferno se revoltou contra o céu, mas neste mundo o céu se revolta contra o inferno. Para o ortodoxo pode sempre haver uma revolução que é uma restauração. A cada instante podemos fazer para a perfeição um progresso tal que nenhum homem viu, desde Adão.”

É muito fácil falar em progresso quando se pensa unicamente, com uma concentração demente, num modelo de escarradeira, fazendo uma momentânea abstração de todo o Universo e toda a história. Vê-se nitidamente um progresso de escarradeiras, mas quando se torna a admitir a presença de tudo, do universo e dos homens, é preciso convir que a escarradeira é insuficiente, é forçoso convir também que, falando em Progresso, subentende-se um mundo ora mais azul ora mais amarelo. É fácil gritar que é paradoxo, mas realmente só pode progredir o que permanece, o que é fiel a si mesmo, o que não se destrói. Só vale a pena usar esse termo, pensar nele, como um equivalente de crescer. E somente em cima de um chão que permanece, que fica, que é desde o princípio et semper et nunc, poder realmente crescer a árvore da Igreja.

E cresce. Cresce em torno d’O que não muda, d’O que era antes de Abraão ser. Cresce na vertical da liturgia e na fronde do apostolado. Está em todos os tempos. Preocupa-se com Marx ou Nietzche nas cartas paternais de Pio XI que previnem os povos contra os excessos de azul ou de amarelo, e guarda na Missa o grito de um soldado romano. Vem de sempre. Já era desde o princípio. Traz todos os profetas e todos os salmos; surge de repente na Encarnação emergindo de um oceano de prefigurações e promessas; absorve tudo na passagem: a palavra do soldado, uma impaciência de Marta. Dá flores prodigiosas de aroma e suco para um vinho que há de correr por todos os séculos. É a árvore do pão e do vinho; o tronco se simplifica; os galhos se simplificam; um se atravessa no outro e o pão e o vinho se prendem na cruz. E a Igreja cresce conosco, apesar de nós, espalha em torno, quando floresce, as auréolas dos eleitos, sofre todos os golpes, todos os doutores, todos os Papas. E cresce, e progride, porque é sempre a mesma.

(A Ordem, Janeiro de 1940)

A Beleza da Dádiva da Prece*

Um texto do padre irlandês John O´Donohue
Quando uma pessoa ora por nós, é uma dádiva encantadora. Um dos maiores abrigos de nossa vida é o círculo de prece imperceptível que é formado ao nosso redor pelos nossos amigos aqui e no mundo invisível. É uma bela dádiva atrair alguém para o abrigo do nosso círculo de prece. Quando passamos por períodos difíceis ou ficamos isolados em uma situação crítica da nossa vida, é com freqüência a prece dos amigos que nos salva. Quando a nossa alma se transforma num deserto, é a prece dos outros que nos traz de volta ao lar da cordialidade. Conheço pessoas que estiveram muito doentes, desamparadas e prejudicadas.
Os viajantes santos que são os que oram lhes estenderam a mão e fizeram com que elas se restabelecessem. A prece de restabelecimento contém sabedoria, discernimento e poder. Ignora-se o que a prece pode efetivamente realizar.

“Quando encontramos uma pessoa no plano da prece, nós a encontramos no terreno da eternidade. Esse é o cerne de toda semelhança e afinidade. Quando viajamos até lá para encontrar alguém, uma grande intimidade pode despertar entre nós. Imagino que os mortos que vivem no mundo oculto nunca nos esquecem. Eles estão sempre orando por nós. Talvez essa seja uma das maneiras como permanecem perto do nosso coração. Eles estendem a luz e o calor da prece na nossa direção. A prece é a atividade do mundo invisível, porém o seu efeito é real e poderoso. Diz-se que, se orarmos ao lado de uma flor, ela cresce mais depressa. Quando levamos a presença da prece às coisas que fazemos, nós as fazemos com mais perfeição.”

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Fonte: *Ecos Eternos, John O´Donohue, Ed. Rocco, RJ, 2001, p.239.

Terapia da palavra

Tomo de empréstimo a expressão-título deste post à Alma, médica e amiga de primeira hora (na Web) que dá a receita apropriada a esta hora. Achei na receita de Alma um bem parecido ao da vasta teoria do psiquiatra judeu Victor Frankl (que meu amigo CM me emprestou há alguns anos atrás e que foi de grande valia!) – penso, mas o cansado e insone digitador na madrugada não pensa mais, só quer alguém com quem conversar, mesmo que virtualmente, ou alguém que possa ouvi-lo.
Nesse mês de cachorro louco, cá estou de novo insone pensando nas agruras do comércio e nas adversidades que o país e o mundo sofrem neste início de século.
Tenho eu anotados em minha agenda, nem sempre seguida à risca, deveres de posts que são verdadeira logoterapia: 100 anos de René Char, mais Bruno Tolentino e este post pensado antes sobre o gigante das Ipueiras. E antes que o fósforo que emana dessas 14 polegadas queime minhas retinas cansadas, deixo as citações do poeta Gerardo Mello Mourão, a quem presto uma singela homenagem em meu espaço. Registro minha gratidão ao meu amigo Fabio Ulanin, responsável pela aparição deste maravilhoso católico-poeta em minha vida.
Mello Mourão surgiu, pois, de um artigo de Ulanin para o saudoso 8 Colunas.
A partir de então, parti a garimpar os livros do poeta, e os achei principalmente neste site, onde os pedidos são quase sempre muito bem atendidos (aí adquiri Invenção do Mar, Os peãs e o Cânon & Fuga).
Crendo que está certo o velho Frankl, persisto com os olhos cheios de areia, a crer que a manhã de que está prenhe a negra cama de nuvens sobre a nossa casa também está carregada de esperanças e promissões: pois “se você tem um porquê , então pode suportar todos os comos“.

E assim dou a palavra ao Poeta:

Conheci para sempre a castidade e o amor das Musas, a que sou fiel, “ego scriptor” — como se qualificava Ezra Pound, diante dos juizes ignorantes e dos carcereiros broncos do exército de seu país. Aqui estou também eu: “ego poeta”. Pois, poeta sum”. Eu sou o poeta do país dos Mourões, e como na frase humilde e soberba do testamento de Keats — “I think I shall be among the english poets, after my deathl” — também creio que estarei entre os poetas de meu país, depois de minha morte. Perdoai-me essas divagações bibliográficas, quando o que pareceria adequado, nesta aula de claustro pleno, seria uma confissão de fé no pensamento e no espírito em que se fundou o trabalho de um homem, que é apenas um poeta e não pretende ser senão um poeta, em cada palavra que se aventurou a escrever.

“Toda a lírica e toda a épica de que fui capaz, se algum mérito tiver, será o da fidelidade às raízes populares de meu país de serranos e sertanejos, onde todas as mulheres são belas e todos os homens são valentes. Toda poesia é cosmogônica. Entre as trezentas maneiras de fazer versos referidas por Elliot, e as trezentas definições de poesia alinhadas pelos culturalistas vadios, um único verso de Hoelderlin nos situa diante da mera face da Musa: — “Was bleibet aber, stiften die Dichter”. Tudo o que permanece, a única coisa que permanece é aquilo que é fundado pelos poetas. Talvez por isso, por ter tentado fundar aquele rude país dos Mourões, com o cheiro da pólvora de seus heróis, ao clarão da lâmina das parnaíbas pontudas e ao trom dos mosquetões, é que O País dos Mourões mereceu a exclamação comovida de Carlos Drummond de Andrade: “— Esta poesia — escreveu ele — foi tudo quanto sempre desejei escrever na vida, e nunca tive força. Gerardo Mello Mourão teve”

E Ezra Pound, diante de quem me curvo, como a maior presença poética dos últimos séculos, desde o Dante, contemplando nosso país da Ibiapaba, onde os homens sabiam cantar à viola, no mesmo tom, o amor e a morte, escrevia: — “Toda a minha obra foi uma tentativa de escrever a epopéia da América. Não o consegui. Ela foi escrita no poema espantoso do poeta do País dos Mourões”. Relevai-me a impropriedade e a imodéstia dessas evocações. Mas é que elas não lembram propriamente este pobre cantor das coisas, dos lugares e das pessoas, de nossa terra, mas consagram, isto sim, a mais bela, a mais generosa, a mais sofrida e a mais heróica região deste país — este Ceará ao mesmo tempo primitivo e civilizado, de onde saiu um dia, como um centauro equatorial, meio-terra meio homem, o bárbaro profeta de Canudos que, como ensina Euclides da Cunha, ensinou o Brasil ao Brasil. Talvez seja este o lugar onde o Brasil encontre um dia aquilo a que Max Scheler chamava o posto do homem no cosmos. Pois em nenhuma parte do mundo o ser humano é capaz como aqui, de alcançar a medula do conhecimento das coisas, pelo milagre e pela mágica da intuição…”
(Trechos do discurso na Universidade Federal do Ceará, ao receber o grau de Doutor Honoris Causa, em 25 de maio de 1993).

Antes que eu transcreva outros poemas de Mello Mourão, leia esta entrevista deliciosa.

Em outra ocasião, pretendo transcrever outros poemas deste brasileiro que nos legou tanta poesia, que tão bem navegou a língua de Camões com maestria e que deixou como inventário a nós pobres mortais e admiradores da poesia:

o rio desta língua
em sílabas de vinho e mel e sua graça

de trovar ao sol e à lua e ferir
nas mesmas cordas da lira e da viola
matina e serenata:

a língua nossa
boa de cantar no mesmo tom amor e morte.

Poema de Gerardo Mello Mourão

ENDEREÇO*

O poeta não tem endereço
senhor de senhorio
e usufruto do tempo
mora na cabana da sílaba
onde anoitece o verso – ali
onde triunfa algum dissílabo
funda a morada.
Mora nas cidreiras de Catarina
depois nas touceiras de violeta de Marina – mora
no anel de topázio de Joana
– ó virilhas de Joana!
no punho do punhal de ouro de Cellini – mora
no sermão de Bacio della Porta, Edi,
no sermão de Madalena
no sopro de Melpômene e Afrodite
no assobio de Ganimedes:
estes e outros são
seu endereço certo incerto:
ruas sem nome, memórias de Polymnia,
labirintos de Tegucigalpa, onde andava Dolores.

Mora na vida e na morte
sua pátria não tem chão
mora morto – em vida morto
mora noite e madrugada
nalguma constelação.
Rio de Janeiro, 1997.

+++++
Fonte “Cânon & Fuga”, Ed. Record, RJ, 1999.

Um post à procura de uma velha senhora

Não pretendo falar de Dürrenmatt, de Pirandello, nem de Bachelard, le pauvre: um simples carteiro com texto de grande beleza, mas fogo fátuo; penso em Pascal, um texto às vezes árido, mas de grande verdade.

Não era ele o tipo que diz (como eu penso agora): bem, agora vou escrever um post, ou como se dizia no seu tempo “une pensée” (com todo respeito, só um francês para pensar que o mar e o pensamento possam ser femininos!). A verdade é que ninguém hoje pensa para escrever um post. Eu mesmo, confesso, sacrifiquei por muitas vezes, essa ilustre senhora ao cometer um post.

Segundo o Robert, La pensée, n.f., em primeira acepção é: “ce qui affecte la conscience; ce qqn pense, sent, veut. Ou em 2.Activité de l´esprit, faculté ayant pour l´objet la connaissance … esprit, intellingence, raison; entendement…*

Então, devo pensar no post como uma possibilidade de conhecimento. No que se dá a conhecer (EU) e no que busca conhecimento do Outro (TU). Mas, eis-nos, aqui, em pleno ´mar do conhecimento compartilhado`, digitando bobagens quando um Universo inteiro espera que atuemos como agentes de La Pensée.

Não que não goste de me divertir.
E até mesmo assim, La Pensée pode ajudar. É figurinha carimbada quando o leitor quer se divertir intensamente. Está provado pela Associação dos Humoristas Ingleses que as melhores piadas cobram um pedágio interessante (e com bônus de devolução) a La Pensée do leitor (e do escritor). Há casos registrados que César Miranda, Alexandre Soares Silva e Nélson da Praia, apesar de não confessarem a mesma crença, sempre pagaram pedágio à ilustre senhora.

O tempo todo me exaspero quando textos religiosos em cultos, missas e encontros de casais são externados (quase dizia expelidos, mas “há quem ouça o sermão assim como ouve as vésperas”) sem um requisito completo de Madame La Pensée. Ao ler blogs, então, escolho com um filtro enorme os que prestam devoção ou pelo menos têm uma irmandade com esta ilustre senhora (Pascal diz: “Formam-se o espírito e o sentimento pelas conversas. Estragam-se o espírito e o sentimento pelas conversas” – ou pelos blogs que se freqüenta… diria eu).

E eu, me pergunto: o que tenho feito para salvar esta senhora da agressão em praça pública. Como naquele filme famoso dos que adoravam um apedrejamento, às vezes freqüento blogs em que só me sinto no papel do espectador culpado, torcendo para que o bloguerro seja apedrejado – um tipo comum que se vê em muitas filas dos bancos públicos – afinal, votaram no presidente e se sentem obrigados a manter a conta – e ali vou eu, como um judeu na alfândega, um árabe na fila do vendedor de armas, como um mau poeta atrás de metáforas… um frequentador da Sociedade da Libertinagem do Espírito. Sem chances, pois, para Mme. La Pensée.

Por herança, não tenho eu nenhuma chance avec cette dame.

Mas, eis, que ao ler, ao transcrever, talvez consiga um mérito de imaginá-la bem próximo de mim e de meus amigos e essa confraria pode, talvez, salvar-me da mesmice dos que a ofendem em praça pública. A fé há de tornar essa senhora em nossa aliada para provar pelo menos que nossa Fé não é vã e que a Esperança pode durar um minuto apenas mas pode ser moto de salvação.

Afinal, acho que até meu amigo CM concordaria que “zombar da filosofia é, em verdade, filosofar“.
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Fonte: Pensamentos, Blaise Pascal, Abril Cultural, 1984.
* Pensamento, s.m.,1. aquilo que afeta à consciência; aquilo que alguém pensa, sente, deseja. 2. atividade do espírito, faculdade que tem por objeto o conhecimento…espírito, inteligência, razão, entendimento…etc.

Das coisas como entidades sentimentais (3)

Vai longe o tempo em que minha consciência me aconselhava a não continuar deitando migalhas de tartines e gotas de Bordeaux sobre o teclado de meus seis leitores e me dedicar a outros temas, menos gastronômicos.

Há quase um ano atrás, eu e minha mulher nos demos o direito de viajar para a França (num roteiro que incluia Paris, Provence – Aix e arredores, Bordeaux e de novo Paris, donde fomos a Roma por dois dias). Esqueci, pois, por alguns dias as agruras do comércio e me entreguei somente a me deleitar com a paisagem francesa, visitando amigos, saciando-me com o sabor de andívias e os cheiros inesquecíveis das boas cozinhas de la Douce France, sob um delicioso clima do outono francês. A memória da viagem rendendo, ao fim e ao cabo, apenas dois ou três posts e uma série de fotos publicadas por minha mulher no Multiply.

Quem me socorreu num desses posts foi Jose Ortega y Gasset, pois, de um de seus volumes antigos me surgiram graciosas idéias sobre a saudade de coisas passadas (sentimento que só os falantes da língua portuguesa nomearam tão especificamente):

– “La vida es un viaje, decian los ascetas, y corrigiendo la puntería disparaban sus armas como dardos hacia la eterna posada…”

Por que eleger a viagem como metáfora substancial da vida inteira? – indaga o mestre espanhol, levando-nos a considerações sobre a fugacidade, caráter essencial da vida e próprio também de nossa relação com as coisas. Ao mesmo tempo em que dizemos a uma paisagem, a um acontecimento ou ao convívio com um amigo dileto: ah, que bom, já é hora, aí está… pensando: meu Deus, como tais coisas são agradáveis, prazeirosas. Ou no planejamento da viagem, dizemos: daqui a 2 dias viajaremos, em breve estaremos em Paris (ou Roma)… também assim, logo, logo, temos que preparar os lábios para pronunciar “ya se van, ya se van…” – tudo já se foi… como passou rápido o tempo dessa viagem.

E o coração também, passado um ou muitos anos, há de estar preparado para lembrar de coisas que se foram, dos anéis que se perderam, com o que se deleita ou se reconforta.

Uma carta de Van Gogh para seu amado irmão, Theo, lida alhures e que tanto me impressionou sobre o tema da viagem e especialmente da viagem para a Provence (região de minha viagem no outono passado), nesta hora exata em que decido escrever sobre o que passou, é poeira de neurônios perdidos com o tempo que se (es)vai…

A passagem de Ortega com as férias em outra província (suas sonhadas férias nas Astúrias, fugindo à correria de Madrid) – essa sim, ao alcance da mão na estante abarrotada de livros fora do lugar (situação que mais incomoda a minha mulher e à empregada do que a este leitor):

(….)

Nem tão simples como pensava: os dois velhos e amassados volumes de Ortega se perderam na desordem das estantes.

E só me resta a memória, como a pletora do sentimento que n´alma despertam as coisas vistas: as coisas simples que me rodeiam, esses mapas em que a rota vem marcada com um lápis de cor vermelha, ou este rosário em metal (será de prata?) que me lembra Roma (e doado por um amigo agnóstico), ou essa miniatura de um músico de rua em New Orleans, ou esse livrinho com o título Malagar, de onde exalam tantas lembranças do filho e do pai Mauriac e da propriedade hoje transformada em museu… ou um pensamento sobre um texto, um sabor, um cheiro que vem à mente quando fumamos um charuto em nosso pátio sob um céu azul de Matisse em pleno sol do cerrado goyano… ah! as coisas são entidades sentimentais que nos prendem ao círculo mais íntimo do que somos. Viagens não são senão fazendas no ar, no mais denso ar que é o que se respira dentro da gente.

Malagar, Maison Mauriac

Malagar: lugar de cultura situado a quatro dezenas de km. de Bordeaux, França, perto de Langon (Saint-Maixant), é desde 1843 propriedade da família Mauriac, cujo filho mais ilustre foi o prêmio Nobel de Literatura François MAURIAC (em 1952). Hoje, a propriedade se transformou numa casa-museu por iniciativa do governo da Région Aquitaine, que segundo a feliz frase de Jean Mauriac “a sauvé Malagar et l’a ressuscité“.

Mas o que realmente um verbete como este diz à emoção?
– Devo, pois, contar a você como tudo começou…

Era eu apenas um moço sonhador e sem dinheiro no bolso, sonhando com a França e vivendo na mais bela cidade do sul do Brasil: a gloriosa séde do G.F.Porto-Alegrense – nos tardios 70, quando estudante da A.F. (Aliance Française) ganhei um livrinho como o melhor aluno do N-3 – 9h/12h (“avec les compliments de l’Alliance Française de Porto Alegre“).

Seu título – Thèrese DesQueyroux – o nome da personagem que até parecia com meu nome de família (Queiroz), mas não o li de pronto, confesso!
Era uma questão de oportunidade e de domínio da lingua, só no prefácio sublinhei mais de 50 palavras e expressões, antes de desistir da leitura, que só dominei uns dez anos depois.

Esse livrinho quase de bolso haveria de fazer parte de toda a compreensão que tive nos meus cinquent’anos por artimanhas do destino ou por galicismos d’alma (o pecado, a culpa, a ilusão da santidade) que só Santa Teresa D’Ávila (ou S. João da Cruz) pode(m) explicar. Mudei-me de casa umas tantas vezes, segui um catecismo gramsciano antes de estudar (e adotar) o Catecismo da Igreja Católica, desde então vivi em algumas cidades, fui tentado em duas universidades, bebi bons vinhos, lutei, fiquei irado muitas vezes, votei e pedi votos, revoltei-me, e me entusiasmei, desisti de algumas causas, perdoei, esqueci, vivi…

Fiz de meu melhor refúgio o celeiro de livros em minha casa au-rez de chausseux, onde cuido da meu jardim. Assim que deparei novamente com Mauriac pela pena de um escritor notável que me levou a encarar o desafio de ler não só Mauriac, como todos os escritores ditos Católicos Franceses dos anos 50 (como reporta em sua história o sr. Otto Maria Carpeaux – designando o movimento da chamada “nova literatura católica na França como “bloco impressionante, embora não homogêneo”).

Pois bem, literatices à parte, fui no ano passado a Malagar. Por obra e mão de uma amiga francesa que conheci na Internet, estávamos no comboio de Bordeaux rumo a Malagar eu e minha Sherazade, com o casal francês amigo (Maité et Jacky).

Há uma série de fotos no Multiply para os amigos dos meus amigos e de minha mulher que podem ser vistas como registro desta visita, mas em minha mente, trago as recordações de visitar esta casa-museu como um príncipe em Bordeaux.

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Respeitado, mimado, un vrai enfant gaté, ali estava eu no automóvel de meus amigos em direção à propriedade da família Mauriac como se sentia Jean M. respondendo à segunda pergunta da importante enquete que compõe este livro:
– La nature des liens? C’était de l’amour.
Seu pai havia escrito sobre Malagar:
– “Malagar é uma pessoa para mim.”

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Mas esse amor por Malagar que veio tarde na vida de François Mauriac (pois que Saint-Symphorien foi o primeiro amor de sua vida em termos de propriedade) e veio intenso, como as paixões tardias. Ali escreveu menos, mas se apegou à propriedade de forma a que hoje tenha sido escolhida como o museu Mauriac. O visitante ali pode assistir a videos, participar de uma visita guiada, comprar livros e vinhos (não tão surpreendentes!) e viver momentos do grande romancista.

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Em Malagar, depois de pisar citações e folhas sobre a relva, foi como se reencontrasse meu chapéu de palha, que fora recebido como presente em Aix-en-Provence e perdido na viagem da Provence a Bordeaux. Esquecido alhures, eu o revi numa estante da casa-museu em que o chapéu das caminhadas de François Mauriac era como se me devolvesse (sem direito a fotos) a alegria do presente de um amigo. O escritor católico e o judeu amigo se juntam na minha melhor lembrança – 0 que me presenteara nos arredores de Aix-en-Provence com um chapéu que este cristão havia de esquecer ao longo da curta viagem de carro até Bordeaux e o escritor católico que tem sua memória guardada numa casa-museu, respeitado seu panamá em um nicho que não pode ser fotografado.

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Se Mauriac possui um museu porta aberta ao mundo, como é esta propriedade de Malagar, outro escritor do mesmo período e de igual qualidade (G. Bernanos) não possui senão a memória desordenada em Barbacena, mas seu lugar cultural e afetivo está nos corações e mentes dos leitores de todo o mundo, mas este é um post sobre Malagar e Mauriac e isso é outra estória.
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Fontes:
Fotos do Multiply de Maité Ladrat , textos de “Malagar”, de Jean Mauriac, Ed. Sables, 1998. (Entrevista com Eric des Garets).
Para saber Mais: Faça uma Visita virtual ao Domaine de Malagar.