Lua sobre o meu jardim (2)

Jules Laforgue  – A primeira referência a Laforgue de que me lembro como “marcante” foi mesmo em um livro do melhor novo ficcionista jovem (!) do Brasil – Sr. Alexandre Soares Silva, também conhecido como Lord Ass. Como sou francófono desde a adolescência, a minha curiosidade poética por JL prosseguiu – até porque não me lembro de nenhum verso dele apresentado por meus prof’s na Alliance Française – , e essa curiosidade virou uma busca só resolvida em Google Livros. Complainte de la Lune_Laforgue(Já adquiri o meu volume de Litanias pela Estante Virtual, pois a edição está esgotada em livrarias).
Eu me pergunto como é que que um jovem nascido na América Latina (Montevidéo, Uruguai – como Isidore Ducasse, “Comte de Lautréamont”), em 1860, expressando-se na língua de Molière (com espanholismos aqui e ali – vide ensaio de Lisa Block de Bear, “JL Uma Figura Uruguaia”) conseguiu influenciar tanta gente?

Leia a 2a. parte de “Lamento da Lua na Província”, trad. de Régis Bonvicino, antes de continuar para o post:


Complainte Part2


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Yves Bonnefoy (I)

DOUVE PARLE

O poeta que leva a Poesia a serio
O poeta que leva a Poesia a serio

Quelle parole a surgi près de moi,
Quel cri se fait sur une bouche absente?
A peine si j´entends crier contre moi,
A peine si je sens ce souffle qui me nomme.


Pourtant ce cri sur moi vient de moi,
Je suis muré dans mon extravagance.
Quelle divine ou quelle étrange voix
Eût consenti d´habiter mon silence?

DOUVE FALA

Que palavra surgiu perto de mim,
Que grito nasce numa boca ausente?
Mal posso ouvir o grito contra mim,
Mal sinto o hálito que me nomeia.

No entanto o grito em mim vem de mim mesmo,
Estou murado em minha extravagância.
Que voz divina ou que estranha voz

Consentira em habitar o meu silêncio?

Fonte: Bonnefoy, Yves. “Poèmes“. Mercure de France, 1978, p.57.  Tradução e organização de Mário Laranjeira publicado pela Editora Iluminuras em 1998. Transcrita deste Site

La Beauté, Baudelaire

La Beauté (C. Baudelaire)

Je suis belle, ô mortels ! comme un rêve de pierre,
Et mon sein, où chacun s’est meurtri tour à tour,
Est fait pour inspirer au poète un amour
Eternel et muet ainsi que la matière.

Je trône dans l’azur comme un sphinx incompris ;
J’unis un coeur de neige à la blancheur des cygnes ;
Je hais le mouvement qui déplace les lignes,
Et jamais je ne pleure et jamais je ne ris.

Les poètes, devant mes grandes attitudes,
Que j’ai l’air d’emprunter aux plus fiers monuments,
Consumeront leurs jours en d’austères études ;

Car j’ai, pour fasciner ces dociles amants,
De purs miroirs qui font toutes choses plus belles :
Mes yeux, mes larges yeux aux clartés éternelles !

A Beleza (Baudelaire)*Trad.:Jamil Almansur Haddad.

Eu sou bela, ó mortais! Como um sonho de pedra,
E meu seio, em que sempre o homem absorve a dor,
Feito é para inspirar aos poetas este amor
Mudo e eterno que na matéria medra.

Eu impero no azul, esfinge singular;
Sou coração de neve e branco cisne lento;
Porque desloca a linha, odeio o movimento,
E nem sei o que é rir, nem sei o que é chorar.

Sempre o poeta, porém a esta grande atitude
Que eu pareço copiar de uma estátua distante,
Força é que, dia a dia, austero o ser, me estude.

Tenho para encantar este dócil amante,
Pondo a beleza em tudo, os mais puros cristais:
Meu olhar, largo olhar de clarões eternais.
—–
*Trad.:Jamil Almansur Haddad, em “As Flores do Mal“, C. Baudelaire, Clássicos Garnier, Difel, S.Paulo, 1958, pág. 117.