poesia católica

De Murilo a S.Domingos

São Domingos

Antes mesmo de nasceres
Já o fogo te formava,
Já o fogo te anunciava:
Sereis a vida toda
Trabalhado pelo Verbo,
Atacando o lado oposto.

Assim tua força lúcida
Concentrara-se no Cristo.
Soubeste a linguagen macha
Que mostra o ser todo inteiro;
Enquanto a escrita do herege
Divide o Verbo Castiço,
Ferido na sua essência.
Quiseste comunicar-nos
Teu fogo de alta linhagem.S.DomingosMeditandoMas hoje te rejeitamos,
Duro Domingos domado
Espanhol – intolerante – ,
Considera nosso não:
Que a dimensão atual,
Contrária ao rigor antigo
E à purgação pelo fogo,
Aceita o limite humano
Inscrito no racional.
+++++
Fonte: MENDES, Murilo. Poesia Completa & Prosa, R.Janeiro, Nova Aguilar, 1995, pág.578/9. Para rezar com S. Domingos. Festa celebrada no dia 27.Julho.

Murilo Mendes revisitado

REGINA PACIS

Nossa Senhora de Nazare
Rosa branca do universo, desejada dos povos,
À tua passagem os elementos confabulam.
Através das gerações teu poder se ampliou,
Maria anunciada muito antes de nasceres,

Anunciada pelo homem, pelas aves do campo,
Pela estrela da manhã, pelo sopro de Deus.
Ó tu que percorreste vales e montanhas
Pra estreitar Isabel naquele abraço humano,

Atravessa este mundo mineral e de luta,
Ó Maria admirável, nossa glória, nosso ímã.
Ubíqua Maria, visita o universo de ponta a ponta
E une todos os homens, num abraço elétrico.

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Fonte: MENDES, Murilo. Poesia e Prosa Completa, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1995. P.325 – “As Metamorfoses”.
Este post é dedicado a minha Amiga MEG. Minha prece é que “Deus te proteja, dileta amiga, pois como dizia S. Bento: “de dei misericordia nunquam desperare”.

Rezando com os poetas (1)

  • VEM DE FRANKLIN DE OLIVEIRA as citações que me inspiram nessa tarde quente de início de feriadão:S.DomingosMeditando.jpg

“Louvado seja N.S. Jesus Cristo

E a mãe dele – Nossa Senhora, minha madrinha.

Louvado seja o que é d’Ele e d’Ela vem:

ritos, omitos, benditos, são beneditos !

Louvadas sejam suas palavras tão bonitas:

Gloria Patri, Aleluia, Salve Rainha

e também suas palavras misteriosas:
per omnia secula, vita eterna, amen.

Louvado seja este louvado em nome d’Ele
E mais louvado que este “louvado” – Jesus Cristo
mais  a mãe d’Ele – Nossa Senhora, minha madrinha.

Louvadas sejam as virtudes teologais
e entre elas três seja louvada a Fé.

Louvados sejam os santos nacionais

martirizados pelos caetés.

Louvadas sejam as coisas religiosas:
santas missões e procissões, sermões.

Louvado seja o meu país cristão
pelo tempo da Páscoa descoberto
todo enfeitado como um céu aberto.

Louvado seja esse Jesus d’aqui.
Jesus camarada, Cristo bonzão,
a quem todo brasileiro ofende tanto
contando sempre com o seu perdão.”

(Jorge de Lima, Novos Poemas , in Obra Completa, p.306-7, Ed. Aguilar, 1958).
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Oração a Teresinha do Menino Jesus
(Manuel Bandeira)

Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa, não, Teresinha…
Teresinha, Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.

Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No Pelo Sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!…
Santa Teresa, não, Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.

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(*) Fontes: OLIVEIRA, Franklin de. “A Fantasia Exata”, Zahar Editores, RJ, 1959, p.130-1;
BANDEIRA, Manuel. “Poemas Religiosos e alguns libertinos”. Seleção e posfácio de Edson Ney da Fonseca. S.Paulo. CosacNaif, 2007, p.50.
post-Post:
Como não me contentava com o final do poema, como transcrito por Franklin de Oliveira, fui à antologia da Aguilar e completei a transcrição que dá sentido ao “Cristo bonzão” rima fácil para Perdão. O que se estende a são Jorge, da trindade sagrada dos poetas católicos do Brasil (junto com Murilo Mendes e A.F.Schmidt). E tenho dito, por hoje.
Fraternellement à vous,
Beto.

Minhas Leituras da Quaresma (3)

Confissões, Lamentações e Esperança
a Caminho de Damasco*

O MUNDO precisava de amor:
na véspera de Vossa Morte nos deixastes um legado:
a Hóstia para matar fome e sede.
E vossa Missão terminada subistes para a direita do Pai
e lhe mostrastes as cicatrizes que Vos deixamos no corpo.
Pai Amado, eu que sou a realização de Vosso Pensamento,
dai-me complacências.
Senhor, minha Fé é diminuta: aumentai-a.
Dai-me olhos de contemplação,
dai-me respostas,
dai-me um cavalo de Vosso Reino
que tomando as rédeas de minha mão me leve para Damasco.
Pai Amado, sou cego, aleijado e paralítico:
meus membros não darão na Cruz.
Estou calejado de perenes quedas:
Curai-me todo.
Transformai-me como transformastes o vinho.
Não me abandoneis em interrogação permanente.
Dei-vos uma costela para fazerdes Eva
e as 23 restantes a Satã para corrompê-la.
Sou colono e amicíssimo de Lúcifer.
Sou da primeira serpente, sou um prisioneiro da primeira guerra.
Dai-me um cavalo de Vosso Reino para ir a Damasco!
Sou fornecedor de armas para os filisteus.
Sou o que torpedeia a Arca e a Barca.
Sou reconstrutor de Babel.
Sou bombeiro do incêndio de Sodoma.
Fui demitido da Vida,
e Vós me enviastes outra vez.
Demiti-me de novo que errei mais!
Sou o assassino de Lázaro,
sou o plantador do joio:

Dai-me um cavalo para eu fugir!
Quis afogar São Cristóvão,
transformei as algas em micróbios
e as asas em aviões de guerra!
Deus Amado, Vós que tendes sido meu pára-quedas,
meu ascensor, minha escada, minha ponte,
segurai-me para que eu não me precipite dos arranha-céus!
Dai-me um cavalo para eu fugir!
Dai-me um cavalo de Vosso Reino
e que eu sem querer vá para Damasco
Pai Amado, no caminho de Damasco
basta uma sílaba para eu enxergar de novo,
ou um coice de Vosso cavalo para eu despertar na Luz!

++++

* Fonte: LIMA, Jorge. Obra Completa/Vol.I, Rio de Janeiro, Aguilar, 1958, pág. 441/2.