Apostas para 2013

Virando a folhinha, um ano novinho em folha, como se espera, como disse o poeta Drummond em crônica recém republicada aqui:

…novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha…

Então, começo a me perguntar: O que devo fazer? O que desejo fazer?
Achar um
Plano prático para ler a Bíblia Católica em um ano, pareceu-me bem aceitável. Um amigo me enviou uma planilha onde posso facilmente acompanhar minha evolução, lendo em inglês na edição da Oxford University Press, Revised Standard Version, Catholic Edition) e conferindo online (ou em papel) na Bíblia Católica, da ed. Ave Maria.
Como me conheço, sei que sempre começo com entusiasmo, mas hei de precisar de muita persitência para chegar ao final deste novo ano com pelo menos este plano realizado. Santo Tomás de Aquino me ajude nessa jornada.
Talvez também seja uma boa iniciativa voltar a estudar (formalmente). Pesar em uma extensão para 2013 pode ser boa ideia. E, por fim, quem sabe, voltar à terapia…?!
Em tudo, nunca esquecer de unir trabalho e celebração, estudo e diversão. Bons vinhos (com moderação, wow, sempre desejada!), bom papo em boa companhia.

Enfim, desejo um excelente 2013 a todos os leitores deste blog e do diário Sonatas & Cafeína.
Amitiés,
BetoQ.

Artigo para a Revista Banas Qualidade (1)

Líderes colaborativos e construtores de pontes

Caríssimo leitor, Machado de Assis cunhou o vocativo “a meus seis leitores” e este tornou-se jargão copiado pelos cronistas miúdos que falam a bem poucos e com bem menos talento que o bruxo do Cosme Velho. Começo, pois, dirigindo-me a você leitor, o primeiro e único que possa vir a ler este texto até o fim, esperando que se sinta inspirado a compartilhar opiniões, indicar direções e dar feedback sobre os rumos que devemos seguir a partir desta estréia.
Este novo desafio me proporciona muita alegria e também responsabilidade. Estou diante da possibilidade de comunicar-me com um leitor inteligente, que respeito muito, numa mídia da qual não apenas sou assinante mas que se tornou leitura sistemática para o profissional da Qualidade no Brasil.

Neste espaço, gostaria de refletir sobre temas diversos como uma crônica do dia-a-dia do trabalho numa economia em mutação, falando do que gosto, do que podemos gostar no trabalho para fazer deste espaço um cantinho onde se possa buscar inspiração, ideias para obter mais satisfação no trabalho e colaboração no meio em que atuamos.
A proposição não é de todo maluca quando se sabe que as pessoas em geral gostam ou querem gostar do que estão fazendo e, com isso, podem arrebanhar outros para entender porque se gosta disso ou daquilo, dirigindo melhor as escolhas que fazemos; e também se descobrir que é muito positivo compartilhar aquilo de que gostamos com quem nos rodeia. Basta para isso que as pessoas estejam focadas nos seus pontos positivos.

Eis um aprendizado recente, que agradeço a um insight de minha mulher, depois do HSM Management 2011 – o livro “Empenhe-se” (Buckingham 2008) . Mais do que rótulos da “gerência eficaz” que “constrói com base em pontos fortes – seus, dos seus superiores, de seus colegas, subordinados e, também, dos pontos fortes da situação”, tenho aplicado o foco nos pontos positivos como uma dinâmica de um ser humano comum que quer ser feliz e tirar proveito do seu tempo no trabalho ou com a família, lendo os melhores livros, apreciando os melhores quadros, realizando o melhor possível com seu talento (explorando mais meus pontos fortes).
Explorar o poder da colaboração é outro e prioritário desafio. Por longo tempo em minha vida discuti, comentei e conquistei a adesão de muitas pessoas e organizações que adotaram a colaboração e as ferramentas eletrônicas que facilitam um ambiente de trabalho colaborativo. Estou há mais de 15 anos no mercado fazendo isso, especificamente com as equipes de Qualidade e Certificações, que tem desafios enormes e precisam compartilhar metas e tarefas com os colegas e superiores, convencendo pessoas sobre a importância de prazos e realizações. Neste cenário, tenho aprendido sempre e posso afirmar que as ferramentas de T.I. podem ser importantes aliadas para o sucesso desse tipo de projeto, mas o centro do jogo é o ser humano que conduz e participa do projeto.
Em 2011, conheci e me surpreendi com o livro do professor Morten T. Hansen (“Collaboration” 2009), da Universidade da Califórnia, Berkeley. Ao resenhar o livro de Hansen, aprendi mais sobre o poder da colaboração no trabalho e repercuti as ideias em algumas palestras na Câmara Americana de Comércio (AMCHAM), em comitês que se interessam pelo tema. Voltarei com certeza a explorar as linhas de força do conceito de “colaboração disciplinada” forjado por Hansen e que pode ser útil demais em nossas organizações.

Em artigo recente, o professor Hansen publicou, em co-autoria com Herminia Ibarra, ( Harvard Business Review ) provoca os líderes com uma pergunta: “Are You a Collaborative Leader?”. “Num mundo de negócios hiperconectado, estimulado pelas mídias sociais e pela globalização, um novo estilo de liderança pode tirar proveito do poder das conexões”.  Esses novos líderes, ressaltam os autores, “precisam abandonar o velho estilo ‘controlar-e-comandar’ e passar a buscar o consenso em favor da liderança colaborativa.

A pesquisa conduzida por Hansen e Ibarra mostrou que esses novos líderes colaborativos obtêm resultados porque fazem bem quatro coisas: 1) promovem conexões globais que os ajudam a identificar oportunidades ao invés de ficar presos às conexões internas da empresa; 2)Contratam talentos heterogêneos, de diferentes lugares para alcançar resultados,no lugar de apoiar-se em equipes homogêneas em busca de novas idéias; 3)Colaboram a partir da alta Direção para alcançar as expectativas do grupo, ao invés de trabalhar apenas nas políticas corporativas presos a Normas e a agendas ‘paroquiais’; 4)Mostram pulso firme ao acelerar as decisões e asseguram agilidade no processo, ao invés de deixar as equipes atoladas em conflitos internos ou esperando um consenso que não vem.

Diante do cenário em que a colaboração nos processos é requisito de sucesso, cabe perguntar: Qual o novo papel do profissional da Qualidade ? Quais são os requisitos para se tornar um RD estratégico ?  Seria a colaboração crucial para o bom desempenho desse papel ? Seguramente, alavancar a colaboração nas organizações será um requisito fundamental neste cenário.

Hansen e Ibarra citam “O Ponto da Virada” (“The Tipping Point”, 2000), best-seller publicado no Brasil em 2009 , onde Malcolm Gladwell usou o termo “connector” para descrever pessoas que mantêm muitos vínculos e criam laços de relacionamentos com diferentes mundos sociais. Para Gladwell, não é a quantidade de pessoas que faz do “connector” uma pessoa importante; ao contrário, o decisivo é a habilidade deste em criar ‘links’ entre as pessoas, as ideias e as fontes de informação, que em condições normais não aconteceriam por mero acaso. No mundo dos negócios estes conectores tornam-se facilitadores chaves para o processo de colaboração. São construtores de pontesentre as pessoas e as empresas.

Para alegria do renovado capitalismo brasileiro, o CEO da Natura Cosméticos, Alessandro Carlucci é citado por Hansen/Ibarra como um exemplo de quem instituiu um processo de seleção que privilegia uma postura colaborativa, em todos os níveis da organização, ressaltando que essa atitude foi decisiva para que a empresa ganhasse seu lugar no topo da lista da revista Fortune das melhores empresas formadoras de lideranças.
Mas não são apenas os Presidentes de grandes empresas ou CEO’s de grandes multinacionais que podem e estão fazendo esse papel de “construtores de pontes” entre organizações e pessoas (interna e externamente ao universo organizacional em que atuam e que usam a colaboração como ferramenta decisiva para seu sucesso. Pessoas comuns, às vezes usando ferramentas simples – como um blog – podem se tornar conectores e bons e aprendizes da colaboração disciplinada.
Recentemente, conhecemos um jovem que mudou o negócio de distribuição de vinhos da família com um blog bem humorado (Gary Vaynerchuk), entre vários outros exemplos bem próximos de nós.
Até a próxima, esperando que possamos construir pontes sólidas através deste espaço e percorrer juntos muitos caminhos rumo ao melhor ambiente de colaboração disciplinada no trabalho e nos espaços de nossa atuação comunitária.(c)
+++++
Adalberto Queiroz, jornalista e empresário, diretor do Grupo Multidata. (betoq55@gmail.com blog http://betoqueiroz.com  Tweet @betoq)
Post-post: este era o artigo original que na Revista Banas Qualidade saiu resumido (e de certa forma truncado, não por conta dos editores, mas por questão de espaço).

O Chicote do Chico ou: Na Quaresma, riso e tristeza

Meus caros amigos:

NÃO HÁ HUMORISTA brasileiro que tenha me feito rir mais do que Chico Anysio.
Havia o Mazzaropi da minha infância, mas era cinema e raro. Chico frequentou a sala de minha casa durante muitos anos me fazendo sempre rir e descontrair-me. Diria mesmo que nos fez rir e descontrairmo-nos, pois sempre foi um programa para os Amaral Queiroz, em família.
Revi no Jornal Nacional e na Globo News de hoje à noite toda a história composta de estórias de nossas vidas.
É verdade que diante do frio da morte trememos (pois morte não deve ter nenhum calor, a não ser que o sujeito tenha sido queimado). Todos dirão a mesma coisa, principalmente diante das câmeras (e estas não as tenho aqui) esbanjando elogios a Chico Anysio. Não o faço de forma espalhafatosa nem gratuita, pois ele sempre me fez rir e sempre me deu orgulho de tê-lo como concidadão.
(Constato que é bem raro que tenha-me ou tenha-nos irritado – o que é bem comum em outros humoristas).
Verdade é que o criador de mais de duas centenas de personagens de riso aberto e generoso não tem senão calor humano para nos transmitir. Seus tantos personagens fizeram parte de nosso cotidiano e estão na nossa memória afetiva do Riso.

Vou ao pai da matéria para entender o riso – se é que precisamos, pois rir é tão simples como começar a fazê-lo (como se coçar) e faz muito bem.

O x da questão é que o Riso já foi assunto de filosofia (e das boas).  Quando comecei a me irritar com o esgar do (mal/mau) humor atual de certas pessoas na websphere, chegou-me em salvação um anjo chamado MEG e me enviou pelos Correios “O Riso”, de Henri Bergson.
É, pois, do mestre Bergson que garimpo essas pérolas (o riso como “gesto social”) para lembrar-me com afeto do humorista de minha vida, curtindo Chico Anysio:

“O riso não é da alçada da estética pura, pois persegue (de modo inconsciente e até imoral em muitos casos particulares) um objetivo útil de aperfeiçoamento geral. Tem algo de estético, todavia, visto que a comicidade nasce no momento preciso em que a sociedade e a pessoa, libertas do zelo da conservação, começam a tratar-se como obras de arte. Em suma, se traçarmos um círculo em torno das ações e disposições que comprometem a vida individual ou social e que punem a si mesmas através de suas consequências naturais, fica fora desse terreno de emoção e de luta, numa zona neutra em que o homem serve simplesmente de espetáculo ao homem, uma certa rigidez do corpo, do espírito e do caráter, que a sociedade gostaria ainda de eliminar para obter de seus membros a maior elasticidade e a mais elevada sociabilidade possíveis. Essa rigidez é a comicidade, e o riso é seu castigo”.

O chicote de Chico era tanto para a sociedade brasileira e seus maus costumes quanto para seus dirigentes.

Tiro meu chapéu para Chico Anysio, que me fez rir e me deu muito mais elasticidade como cidadão. Embora nunca tenha, mesmo com o charme e a flexibilidade dele, aprendido a contar piadas – o que é um defeito de fábrica em minha formação.

Ave, Chico Anysio! 23.03.2012.
++++
Fonte: BERGSON, Henri. “O Riso”. Edit. Martins Fontes, SP, 2004. pág.15.
Post-Post: Soube da cobertura da morte de Chico Anysio: o de que mais gostei foi saber que ele com 6 esposas e um mundo de filhos e netos, se dava bem com todos.Confira neste link> http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2012/03/corpo-de-chico-anysio-e-cremado-no-rio.html

A minha 1ª. Remington

UMA FOTO INUSITADA  me anima muito e me provoca a este post.
Retirada de um site alemão esta foi o toque bastante para dar um clique em minha memória.
É como se voltasse ao curso de datilografia, nos anos 60, usando uma velha Remington, batendo nas teclas, repetitivamente, até à quase perfeição (ainda não havia o papel corretor, imagine o liquid paper).
Era um interminável “asdfg çlkjh qwert poiuy alsldkfjgh” etc e tal, sob o olhar atento de minha irmã Dora, nossa professora de datilografia.

Depois, veio a 1ª. máquina que usei como escrivão – uma Olivetti (recuperada em estilo de época por minha mulher que a mantém em nossa biblioteca como um troféu). Enfim, uma série de toques na memória afetiva de um escrivão de polícia que nunca viria a realizar o sonho de ser Escritor.
Deixo ao leitor a apreciação da inusitada foto do Taz.De , enquanto elaboro sobre o tema desta Memorabilia, pensando em quanto foi `o barco agitado de minha vida´ (obrigado, Paulinho).

Minha Olivetti 1TINHA EU 14 anos de idade”, diria repetindo o sambista Paulinho da Viola, quando exerci minha primeira ocupação não-remunerada, mas que terminava me dando algumas recompensas e muitas alegrias.

Era eu o escritor de cartas para meus irmãos adotivos do orfanato onde éramos criados. Eles me contavam o que queriam escrever aos padrinhos nos EUA e eu colocava em bom português o que depois seria traduzido pelo patrocinador dessa inusitada aliança de generosos mantenedores norte-americanos, ajudando um orfanato no Brasil do final dos anos 60, início dos 70.
Naturalmente, uma carta bem feita poderia garantir ao remetente (era o que imaginávamos!) um bom presente no Natal ou no aniversário (e esses sempre chegavam, independente do mérito do texto que eu produzisse. Eu sempre dizia a mim mesmo, ao ver os presentes dos outros, que não havia caprichado na minha própria carta ao padrinho…). O que era mesmo certo é que eu recebia uma atenção especial neste ofício de ghost-writer: havia um local mágico onde  eu “ trabalhava” (a biblioteca). Era a distância perfeita para outro local de onde queria ficar longe: o eito, a lida real de cabo-de-enxada, a roça, a capina. Não que tenha feito alguma coisa a mais para receber a designação pejorativa de ´preguiçoso` –  creio hoje, com muita firmeza, que nunca me me adaptaria ao trabalho rude da roça e ponto parágrafo.

O que fiz para me distanciar do eito, me levou ao mundo das letras. Tinha predileção por bibliotecas, no orfanato e no Colégio particular, onde estudávamos (nós, os do Abrigo), como bolsistas, e tínhamos a obrigação de obter boas notas. A biblioteca era, então, meu refúgio onde passavas os recreios a ler as coleções inteiras a que tive acesso, uma a uma, sob a orientação sempre correta de dona Delfina, nossa zelosa bibliotecária.

Hoje fiquei pensando nas frases de um filósofo que encontrei recentemente sobre lembranças. Eric Voegelin reabilita lembranças profundas, desde a mais tenra infância (adoro o termo, pois é como se fôssemos frutas frescas e vulneráveis, o que de resto é a definição da infância).
Lembrei-me também de Mario Vargas Llosa e suas memórias de infância. Não que a infância seja imprescindível. Eu penso: A infância é apenas de onde viemos e, provavelmente, de onde nunca sairemos.
Eric Voegelin nos alerta sobre a importância da memória:
“Experiências impelem à reflexão e estas excitam a consciência para a ‘dor’ da existência”.

Diga aí, Betinho! Ah, o diminutivo `que me devolve à calça curta´ (como em Vargas Llosa, “Tia Júlia e o Escrivinhador`). E eis que há uma Remignton na capa e no conteúdo do livro de Vargas Llosa:
Uma carroça funerária sobre a qual não agiam os anos (…) e quando sob ameaça: “mas para levá-la teria que passar pelo cadáver de Pascual… , dizia o Marito de `Tia Júlia e o Escrevinhador`.
Há uma máquina de escrever aí e um escritor de cartas no `Batismo de Fogo’, mas estou com preguiça de procurar (hum, acho que sou mesmo um preguiçoso!).
(…)
A verdade é que penso, seriamente, em transformar minha velha Olivetti numa máquina retrô IT num kit retrô-TI . Ela, a minha inesquecível máquina de escrever do tempo da PF, que tanta  experiência me deu, ao longo da minha vida de escrivão de polícia e pela vida a fora.
(Segue em post futuro…).
+++++
Fontes: Voegelin, Eric. “Anamnese”. Edit. É Realizações, Anamnese: da teoria da história e da política / Eric Voegelin, introdução David Walsh ; tradução Elpídio Mário Dantas Fonseca. – S.Paulo : É Realizações, 2009. – (Coleção Filosofia Atual)./ Vargas Llosa, Mario. Tia Julia e o Escrevinhador. Circulo do Livro, 1977.