A glória de Deus (I)

The glory of God is the human person fully alive”
A citação em inglês lida alhures num livro de John O´Donohue é a legenda desta manhã de sábado plena de sol, em que a centelha divina se expõe de forma silenciosa, somente com a retórica do vento sob a superfície do lago (como a Sabedoria sempre se expressou).
O sonho lembrado entre o cuscuz e café-com-leite da manhã, os pássaros, as nuvens, notas de Chopin que parecem ressaltar o cheiro da grama recentemente cortada no lote vizinho, o verde intenso desta manhã de abril, em que a natureza parece nos contar segredos.
Tudo faz-me lembrar o texto de John O´Donohue, lido em contexto diverso:
”We are so privileged to still have time. We have but one life, and it is a shame to limit it by fear and false barriers.”
Assim, a calma economia de demonstrações da presença divina me faz enxergar a beleza, a unidade e a criatividade possíveis (devido ao autor de Anam Cara) de ser recuperadas mesmo no meio do turbilhão das dúvidas, das sombras e do claro-escuro da vida que parece nebulosa em tantos momentos. Sentir-se e Ser na essência, abrindo os olhos para o ritmo interior e a riqueza da vida em família, atento às coisas mais simples, às pequenas alegrias, eis a fórmula recuperada.
Esta manhã de sol testemunha a glória de Deus.
E Santo Irineu salta da estante para lembrar a legenda de O´Donohue:
”Deus se torna visível por meio de muitas economias, para que o homem privado totalmente de Deus não deixe de existir. A Glória de Deus é o homem que vive (inteiramente) e a vida do homem consiste na visão de Deus. Se a manifestação de Deus por meio da criação dá a vida a todos os seres que vivem na terra, com maior razão a manifestação do Pai pelo Verbo dá a vida aos que vêem a Deus.”
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Fonte: O´Donohue, John. “Anam Cara: A Book of Celtic Wisdom”, Harper-Perennial, 1997, p.124; Santo Irineu de Lyon. “Contra as Heresias”, Ed.Paulus, 2a.ed., 1995, liv.IV-20, p.433.

O código da vida

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  1. A vida humana é um código”, alerta o poeta Murilo Mendes ( “O Discípulo de Emaús” – 1945 ).
    E como os códigos e sua forma única (?) de decifrá-los está na moda, a frase 96, me salta aos olhos no meio da manhã, em que volto a ver o sol.
  2. Dificuldades de compreensão de tudo podem ser resolvidas em sonhos, mas é provável que exijam mais de nossa emoção do que de toda a razão humana.
  3. Decifrar começa por decifrar-se.
  4. Que elementos – feito as lesmas no romance do poeta de minha terra – nos convidam a imaginar o mundo como um código, desde que tão cedo começamos a pensar o mundo?
  5. Melancolia a do que não se permite decifrar-se. Será a melancolia o estado anterior à pesquisa de si mesmo?!
  6. “…mas Deus nos fornece elementos para decifrá-lo”.
    O código está em nossas mentes. E parece disponível a todos. Basta a disposição de nos comunicarmos com o Divino Pai Eterno. E eis que o algoritmo se expõe.

 

Dúvida e fé (3)

Uma citação do Papa Bento xvi, neste contexto

Extraída do Cap.1-I, do livro Introdução ao Cristianismo(*)

“A essa altura talvez convenha voltar a nossa atenção para uma história judaica registrada por Martin Buber, porque nela manifesta-se com toda evidência o dilema da condição humana que acabamos de descrever:
um dos iluministas, um homem culto, tinha ouvido falar de Berditshever. Então o procurou para discutir com ele, como era seu costume, para refutar os argumentos atrasados que ele usava para provar a verdade de sua fé. Quando entrou na sala do Zadique, viu-o andar de um lado para o outro, com um livro na mão, refletindo com todo fervor. Nem reparou no recém-chegado. Depois de algum tempo parou, olhou distraidamente para ele e disse: ´Mas talvez seja verdade`. Em vão o erudito juntou toda a sua auto-estima; as pernas começaram a tremer-lhe, porque a visão do Zadique era terrível, assim como foi terrível a sua sentença singela. O Rabi Levi Itsaque voltou então toda a sua atenção para ele e disse serenamente: ´Meu filho, os grandes da Torá, com os quais você discutiu, gastaram as suas palavras em vão, porque quando você foi embora, riu-se deles. Eles não foram capazes de colocar Deus e o seu Reino na mesa diante de você, nem eu posso fazer isso. Mas pense, meu filho, talvez seja verdade`. O iluminista juntou todas as suas forças interiores para dar uma resposta à altura, mas o terrível ´talvez` que lhe ressou nos ouvidos quebrou toda a sua resistência” (1).

“Penso que esse episódio, apesar de sua linguagem estranha, descreve com precisão a situação do ser humano diante da questão de Deus. Ninguém é capaz de colocar Deus e seu Reino na mesa diante do outro, nem o próprio fiel é capaz disso. Mas, por mais que o incrédulo se sinta com a razão, resta-lhe o assombro desse `talvez seja verdade mesmo assim´. O ´talvez´é a grande tentação da qual ele não consegue fugir e na qual também ele precisa experimentar a irrecusabilidade da fé dentro da própria recusa. Em outras palavras: tanto o fiel como o incrédulo participam, cada um à sua maneira, da dúvida e da fé, desde que não se escondam de sii mesmos e da verdade de seu ser. Nenhum consegue fugir totalmente da dúvida, nem da fé; para um, a fé marca presença contra a dúvida, para o outro, a fé está presente pela dúvida e na forma da dúvida. Faz parte da configuração fundamental do destino humano poder encontrar o caráter definitivo de sua existência tão somente na rivalidade interminável entre a dúvida e a fé, entre a tentação e a certeza. Talvez seja justamente a dúvida, que preserva ambos da reclusão exclusiva em seu próprio eu, o lugar em que a comunicação poderá realizar-se. É ela que impede ambos de se fecharem completamente em si próprios, é ela que quebra a casca de quem tem fé, abrindo-o para aquele que duvida, e abre a casca de quem duvida para aquele que tem fé; para um, a dúvida é a sua maneira de participar do destino do incrédulo, para o outro é a forma que a fé encontra para continuar sendo um desafio para ele.”

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(*)RATZINGER, J. “Introdução ao Cristianismo”, Ed.Loyola, 2005, trad. Alfred J. Keller, p.36.

(1)BUBER, Martin. “Werke III”, Munique e Heildeberg, 1963, p.348.

Escritos antigos: achados & perdidos

Estavas aqui há pouco e brincávamos de caça-palavras.
Estavas aqui e, há pouco ainda, via tuas mãos alvíssimas.
Sim, eu estava ao teu lado de torso nu, colhendo conchas na praia.
Era como se só me interessassem as conchas e pedrinhas perfeitas.
Cioso as escolhia, sob seu olhar terno, e as guardava no embornal que eu trazia ao ombro.

Estavas aqui há pouco e eu comia doce de leite e toda a mais funda lembrança da infância no mais fundo dos Brasis ainda vivendo em paz.
Ah, e tomava leite de cabra e nadava no riacho e a tudo assistias.

E tudo era como se eu me arrumasse para ir à escola, a escola mais distante no mais distante pasto a se atravessar. E nem medo nenhum eu tinha de vaca doida e boi da cara-preta…

Estavas aqui há pouco e não havia mistério nas matemáticas que não decifrássemos num átimo.

Estavas aqui há pouco. Entre as palavras me divertia: jade, rocio, tez, altar, pistilo, éter, riacho, sanga, jã-de-louçã, jaez, adestro, terrina, absoluto, devido, lápis lazuli…
E lembrei-me do amigo, o caçador de palíndromos.
Dentre mil imagens, a da catedral agora visível, donde provêem sons de um órgão que jamais ouvi. E uma cornucópia de frutas e moedas que valiam o ouro de pensamentos mais cristalinos.

Estavas aqui há pouco e o mais ditoso era falar em lí­nguas.
Eu dizia sem entender:
eudamoní­a, tu dizias: makarí­a, makariótes…makarí­zein.
E eu:
mákar o que é?
- Tu respondias: beatitude.Bem-aventurança e lias o evangelho de Mateus e eu me sentia
heureux qui comme Ulisse…
Tu dizias:
felix, venturus, felicitas. Eu solfejava de mansinho, lembrando-me da melodia:
-
“Beatus, beatus, beatus vir…”
Tu dizias em resposta: ventura, ventura.

Essa palavra à liberdade atada: “Tu mesmo forjaste tua ventura”, repetias, cantando a admirável palavra cervantina”.
- Ventura, venturoso, venturança, o bom amigo e o Sancho Pança…
Eu dizia e sorria…

Tu nomeavas, eu repetia: felicità é ventura, é bonheur.
- Ah, essa eu já a conhecia, dizia todo feliz. E lembrava-me de todas as manhãs de quando o orvalho luzia sobre o cerrado goyano (o capim meloso) ou sobre o campo de alfazema, en Provence. E entanto
Glück é novo pra mim, eu repetia:
- Ah,
happiness e também luck, a “sorte” grande (só pode ser boa) e não é loteria. Há Glück, tu dizias e há também Seligkeit, ou uma conjunção dessas duas: Glückseligkeit (eu me atropelava, mas repetia; e lograva entender: Glück-Selig-Keit, que era pra mim um latino aprendendo a lí­ngua de Goethe e Silesius e Schiller).

Oh, Princesa de todas as princesas; oh, Mãe de todas as mães, tu estavas aqui…

Agora, no albor da alvorada, ao me deixares, fiquei com a surpresa e a ventura de mais um dia que recebo de presente.

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(*) Este texto foi inspirado na leitura do livro de Julián Marí­as, “A Felicidade Humana“, Livraria Duas Cidades, 1989.