Que venha 2013!

Republicação de zarpante:

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Zarpante deseja um ótimo ano novo a todos os nossos amigos, parceiros e leitores!

O que importa não é a virada, e nem como passaremos essa noite, mas sim o que iremos fazer realmente para ter um ano melhor que o que passou!

Vejam abaixo um poema de Carlos Drummond De Andrade sobre o tema:

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo…

Leia mais… 233 mais palavras

Que a travessia seja sem turbulência. Só numa coisa, discordo do Drummond, vou ali no "Canto do Beto", ver meu quintal iluminado por amigos e crianças das famílias Amaral Corrêa, Queiroz & Foust e tomar umas 'biritas'. Avoé, jovens talentos. Que a travessia seja com o mínimo de turbulências. Saúde, Paz & Bem.

Meditação libertadora ou la douce pitié de Dieu

A AMIGA ‘virtual’ MEG me fez pensar com seu post A consciência da finitude – Sein zum Tode. E se me deixo pautar pela amiga é porque seus textos em geral são magistrais do jeito mais simples que o majestoso se mostra a quem sabe ver.
Como profissional venho me dedicando ao mundo da tecnologia nos últimos vinte anos, e assim, naturalmente, eu me toquei com a morte de Steve Jobs, naturalmente deixei-me inundar pela “meditação da morte” que, segundo A.C. Villaça, “nos liberta de nós mesmos, perecíveis…”

E a confissão de minha amiga me leva a pensar (e mesmo a reler o texto completo do famoso discurso de Jobs a universitários numa formatura em Stanford). E continuo pensando no fecho confessional do post da MEG:

“Para os meus amigos, devo confessar que somente há pouco tempo chegou em mim, para-mim, com uma razoável dose de desencanto –  e em absoluto não deveria ser assim – a consciência da finitude. Penso que em todas as vezes em que falei sobre isso (as Ekstases, para meus alunos, or whoever),  jamais falei pensando nisso objetivamente.  Hoje, penso sem falar. “Sein zum Tode”. 

Lembrei-me de uma nota biográfica de Georges Bernanos, em sua meditação libertadora, transcrita pelo filho Jean-Loup: “Lui qui avait tant médité sur la mort; avec crainte: ‘Si vous saviez comme j’en ai peur de la camarde…’, avec doucer et espérance: ‘Ô mort si fraîche! ô seul matin!’ , c’est en murmurant “À nous deux maintenant” qu’il mourut le 5 juillet 1948 à l’hôpital américain de Neuilly”, conclui Jean Loup. E assim se cumpria a profecia que um depoimento antigo do pai registrara que “nous mourion vides, que nous mourions comme de nouveau-nés (…) avant de se réveiller, le seuil franchi, dans da douce pitié de Dieu, comme dans un aube fraîche et profonde…”

E foi assim, que quase ao acaso, abri meu volumezinho de “Os Saltimbancos da Porciúncula”, donde retirei o texto que vos deixo para iluminar a  meditação sobre essa consciência da finitude:

Requiem por Mim (A.C.Villaça*)
“Soube, hoje, da morte de Miguel Torga, em Coimbra, aos 87 anos. Nunca vi Torga. Fui a Coimbra e pude ver a placa singela, Adolfo Rocha. Ele era otorrinolaringologista. Não bati. Não lhe falei. Tinha fama de ser esquivo, reservado.
“Nunca o vi. Mas a confraria literária tem esse privilégio de uma união profunda, uma comunhão, que nos emociona e está para além do espaço e tempo. Sentimo-nos, sim, unidos. Unidos na literatura, no amor da literatura.
“Ele escreveu Requiem por mim. Agora, tenho vontade de escrever o meu Requiem por mim, em memória dele. A meditação da morte nos dilata. Ela nos liberta de nós mesmo, perecíveis.
“A morte não me assusta, não me espanta. Creio que convivo bem com a morte. A morte é fraternal. A morte é nossa amiga íntima. Ela convive conosco. Vai indo conosco no mais profundo de nós como uma companheira cotidiana, amável.
“Vi minha mãe morta. Vi meu pai morto. Não os vi morrer. Mas, diante deles mortos, não senti nada. Fiquei numa grande paz. era evidente que eles já não estavam mais ali. Já não eram eles. Tinham partido, sem dúvida. Ali, estavam simplesmente uns restos, os despojos precaríssimos. Estavam longe dali. Já se haviam libertado. Senti uma paz infinita. Uma doçura. A morte é doce. A morte é pacificadora.
Nossa Senhora da Ternura. Gosto tanto desta invocação. A ternura de Deus. Tudo se resolve em termos de ternura. E em termos de perdão. A compaixão é o segredo que recria tudo, que renova tudo. Que torna tudo novo, inaugural.
“A primeira morte da minha vida foi a da minha avó, que era Antônia e fora amiga de Machado de Assis, desde menina. Morava em Friburgo e tinha apenas 56 anos. Morreu de repente, tão sozinha na serra. E meu pai chorou perdidamente, ao desligar o telefone.
“Não fui a Friburgo. Eram cinco horas de trem. Mas não senti emoção nenhuma com a morte distante daquela avó gorducha, que gostava de comer bem e tinha sempre a mesa cheia de convidados. Senti que ela viajara. Deixei-a em paz. Não me impressionou que ela tivesse partido. Achei aquilo tão natural, tão esperável. Não sinto saudades dos mortos.
“A irmãzinha morte. Franciscanamente. Di Cavalcanti louvara a Deus por ter criado o azul e as mulheres plácidas. E por ter criado o perdão. Louvo a Deus por haver fundado a morte, essa grande invenção misteriora. Aceito a morte.
“Ela está dentro de nós. Caminha conosco. Vai indo pelas ruas do mundo, tão humilde, tão invisível, tão escondida. Ela se constrói lentamente, dentro de nós. Dialoga silenciosamente conosco. E, súbito, aparece, numa curva do caminho, como um canto de aleluia.
“Convivo bem com a morte. Contemplo-a, quietamente. Espero-a com uma paz tão serena, a nossa mortezinha particular, a nossa pequena morte, humílima, salvação, libertação, abertura. Morte implica logo a ideia de vida, exige a presença fortíssima, soberana, da vida. Creio na vida.
“A morte não existe. Eis a grande descoberta que fazemos, ao longo da vida. A morte não existe. O que existe é a vida. A vida é boa, lá disse – ao morrer – o nosso Machado de Assis.”

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Fontes: BERNANOS, George. “Romans”. Edit. Omnibus/PLON, 1994, apud Jean-Loup Bernanos, em “Notice Biographique”, pág. 1433. (*)VILLAÇA, Antonio Carlos. “Os Saltimbancos da Porciúncula”, Rio de Janeiro, Ed. Record, 1996, pág. 56-58.




Grand Canyon

Aos que me perguntam sobre a foto do banner de meu blog aqui no WordPress, a resposta é positiva: sim, a foto é minha. Adiciono agora reflexões antigas sobre o meu primeiro encontro com o Canyon (chance de fazer a foto do banner deste blog, porque  elas continuam válidas:

Lições de Abismo

Diante do monumento que é o Grand Canyon, a primeira atitude que tive foi respirar fundo e rezar. Rezei silencioso um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, em meio ao burburinho dos turistas, ecoando para sempre na distância.

E o título do livro de Júlio Verne, que serviu de inspiração à história de Gustavo Corção, agora me ampara como a legenda da grandiosidade do Cannyon. Vejo homens e mulheres que descem às profundidades e que são na encosta pouco mais do que formigas no cenário.

Lembro-me do professor Lindenbrock e seu sobrinho Axel no rigoroso treinamento contra as vertigens: “antes de descer às profundezas, ele ensinava a galgar as alturas”, subindo uma estreita escada de uma antiga torre de igreja, em cima de um abrupto penhasco. A esses salutares exercícios o professor dava o nome de lições de abismo.

- E a nós, turistas embevecidos, quem dará as lições de abismo?gcanyon_2006
Eis que soam em meu coração, as palavras de Ecos Eternos, trocando a paisagem do oeste da Irlanda de O´Donohue pela paisagem única deste pedaço do Arizona:

Quando encontramos um lugar na Natureza em que a mente e o coração encontram sossego, então descobrimos um santuário para a nossa alma.

“Não se verá nada dos vinte séculos. Há somente a escultura sutil que a chuva e o vento entalharam na pedra. Quando a luz surge, a pedra fica branca e lembramos que essa é pedra viva do fundo de um oceano antigo. (…)

Nosso anseio purifica-se e ganhamos força para voltar reanimados à vida e refinar nossas maneiras de nos integrarmos ao mundo. A Natureza nos chama para a tranquilidade e o ritmo.”

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Post-post: concordo com Paulo Hecker Filho (não na mesma intensidade) que Lições de Abismo não é um grande romance, nem está à altura de “A Descoberta do Outro“, no conjunto da obra de Gustavo Corção.

Das coisas como entidades sentimentais (2)

A rotina diária deste dezembro tão célere me aconselha a não continuar derramando migalhas de tartines e gotas de Bordeaux sobre o teclado de meus seis leitores. Abandono temporário das crônicas com seu sabor de andívias e com cheiros das boas cozinhas da Douce France por onde circulei neste outono passado. Dedico-me, pois, a dizer-lhes duas ou três palavras sobre as coisas da viagem e uma específica sobre os chapéus.

Não vai longe o dia em que um senhor comprava verduras na mesma banca que eu, usando begala e me transmitiu aquele sentimento inominável que começa pela observação visual e vai ganhando as fímbrias do espírito para ali se debruçar com o nome de saudade. Sim, senti, como dois dos meus seis leitores seriam capazes se lembrar: saudades de um chapéu panamá que jamais usei. Na verdade, deveria nomear o sentimento como saudade do que não fui.

Longe vai o dia em que olhava com respeito um senador da República pousando no Salgado Filho, com um belo chapéu e um sobretudo. Era o Senador Brossard (seria mesmo senador àquela época do início dos anos 70?) que me chamava a atenção pela elegância de seus ternos, pela redondilha maior de seus discursos e por uma certa dignidade que o chapéu parecia conferir ao polítido. Longe me parece o dia em que sob o chapéu se carregava decência e dignidade na vida dita pública, pois que, pra mim a vida é única.

Mas deixemos de lado o vestuário e nos ocupemos com o espírito. Saímos de Aix-en-Provence na manhã de uma segunda-feira, depois de sermos surpreendidos com o anúncio de nossa hotelier, na hora do check-out, de os amigos já haviam quitado nossa conta de hotel, no belo balneário de Sausset-les-Pins. No domingo, havíamos almoçado com os amigos Jean e Marie na varanda de uma casa em obras, a metros do Mediterrâneo, próxima a uma grande usina da EDF. Na segunda, surpreenderam-nos com o presente da estadia e um chapéu.

Brindados com um céu de um azul sem nuvens, ali ficamos horas em torno de um Vaqueyras, entre amigos e nossas esposas, em fraterna amizade. E foi por amar os chapéus que deixei aflorar na conversação meu sonho de ter um panamá… À saída, Jean Madar me presenteou com seu velho panamá, que passei a orgulhosamente usar desde logo.

Eu tenho uma coleção de bonés e só um chapéu, por coincidência um chapéu que um amigo músico me presenteou em meio à militância de meu esquerdismo juvenil. Este outro vinha, pois, na idade da razão e das mãos também de um ex-quadro comunista francês, hoje aos 60, empresário e avô cioso de seus afetos e seus relacionamentos – que são, como ele mesmo diz “contas de adição, jamais de diminuição…”

Enquanto não cedo à tentação de alivanhar uns versos sem rima, as idéias esvoaçavam sobre a minha cabeça como se fossem “livros, esses insetos vegetais” corro para o meu Ortega e graciosas idéias afloram sobre o sentimento que só os falantes da língua portuguesa podem nomear.
“La vida es un viaje, decian los ascetas, y corrigiendo la puntería disparaban sus armas como dardos hacia la eterna posada…
- Por que eleger a viagem como metáfora substancial da vida inteira? – indaga o mestre espanhol, para responder sobre a fugacidade, caráter essencial que é próprio de nossa relação com as coisas. Ao mesmo em que dizemos a uma paisagem, a um acontecimento ou uma amizade, já vêm, já vêm… temos logo que preparar nossos lábios para pronunciar: “ya se van, ya se van…

Das coisas como entidades sentimentais (1)

Algum leitor remanescente, de minha temporada no Verbeat, deve se perguntar porquê dessa republicação.
- Ocorre que perdi o backup que me foi gentilmente cedido pelos Verbeaters e assim só me restam alguns post daquele período, que vou tentar recuperar pouco a pouco, em meu velho computador. Portanto, ao republicar esses artigos, faço um acerto de contas rilkeano que faz justiça à memória de meus velhor posts perdidos, que são como o caderno de poemas perdidos do passado, esquecido alhures, n´algum canto ou num banco de ônibus, ou n´alguma gare distante…

Esvazio meus bolsos após um dia de fadiga comercial e, lentamente, descalço os pés dos sapatos e conquisto meus chinelos, enquanto o boné me espia do armário (à espera de um fim-de-semana, tão carente quanto meu cão). Sobre a escrivaninha as moedas – essas mesmas que me acompanharam ao longo do dia, e me “escolheram” entre milhões de pessoas a quem poderiam ter acompanhado, entre mil bolsos pelos quais passarão, depois de mim; sobre a escrivaninha repousam a gravata e o cinto, a carteirinha, os papeizinhos de lembrete (sempre carreguei dezenas de papeizinhos e listas que inventariam meu dia com a memória das frutas), o talão de cheques, os documentos do carro, o telefone móvel (que já ninguém põe a tocar para me dar um afeto)
- “As coisas são tão intensas“.

Ainda hoje um senhor usava bengala comprava verduras na mesma banca que eu e senti saudades de um chapéu panamá que jamais usei. Saudades do que não fui.
A escova de dente que daqui a pouco usarei, estou certo mexerá com o nervo sensitivo de minha alma, mas me dará certa paz na higiene diária, só superada pela água quente descendo sobre meu corpo que envelhece (é preciso lembrar-se da advertência da esposa: “água quente demais estraga o cabelo, mas minhas juntas cansadas não reclamam de nada”). Hoje queria ter tomado o bonde número 5 e andando sem destino, chegado alhures, passado pelas coisas como elas passaram por mim.

Enquanto tento conciliar sono e repouso, as idéias esvoaçavam sobre a minha cabeça (“livros, esses insetos vegetais“, decreta o poeta-amigo, C.M.) e concluo que é impossível dormir…
Sobre a cômoda outra infinidade de coisas me espiam esperando calor e toque: o rosário, a pena antiga e estilizada, as flores de madeira e ao lado delas os lápis (árvores desencarnadas e, no entanto, cheias da vida do negro grafite), o papel da caderneta entreaberta (e essa minha letra irreconhecível amanhã), o sonífero em estado de deleição.

O copo d´água cristalina brilha, quando acendo o abajur que deita luz sobre o meu cansaço da jornada. Espero insone que o dia estenda seu lençol branquíssimo sobre minhas angústias. Por ora, apenas observo todas essas coisas como entidades sentimentais e a elas me apego como mamífero às tetas da mamãe noite.