O ruído do século

Faz bastante tempo que o sr. H. Taine, de L´Academie Française escreveu palavras sábias sobre livros, viagens e pessoas.
Relendo um volume da 3a. edição de 1903, da editora Hachette (“Derniers Essais/De C|ritique et D´Histoire), encontro esta pérola sobre os franceses (mas podemos dizer o mesmo de nós, brasileiros, sem o charme dos que vivem (viveram) na Cidade-Luz):

Artificiels et agités” ; il a raison, c´est bien ansi que nous sommes. Les rues sont trop pleines, les visages trop affairés. Au soir, le boulevard fourmillant et lumineux, les théatres étincelants et malsains, partouts le luxe, le plaisir et l´esprit outrés aboutissent à la sensation excessive et apprêtée. La machine nerveuse est à la fois surmenée et insatiable. (…)

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Post-Post, em 30.01.13. Na sequência do texto, vem uma citação aos estrangeiros ricos (les étrangers riches) – un Brésilien, un Moldave, un Américain qui ont fait fortune ou qui s’ennuient de vivre parmi leurs esclaves ou leurs paysans, viennent à Paris pour jouir de la vie. (…)
Depois, Taine cita os franceses endinheirados e continua com a descrição do “mal” et du bien que agitava a Cidade-Luz, à época, para concluir: “je me sui dit le mal tout bas; à présent disons le bien tout haut”. Imagine se o crítico do séc. XIX ressuscitasse em pleno XXIème? O que não diria hoje dos hábitos e das artes e costumes da Paris dos dias de hoje…

“Grande Sertão: Veredas” visto (e relido) na França*

Com este título, o único romance publicado por João Guimarães Rosa há 54 anos, o livro brasileiro continua apaixonando e desafiando leitores ao redor do mundo. Além do mérito de “superar o isolamento das literaturas ditas ‘pequenas’, como sublinha Otto Maria Carpeaux (1), este livro de J.G. Rosa (com todos os adjetivos, que inclui grandioso) vem sendo traduzido em diversos idiomas, sempre desafiando tradutores – como destaca Marie-Hélène Catherine Torres (2) e leitores (como reforça o crítico francês Juan Asensio).

O crítico francês Juan Asensio nos faz voltar à estante Guimarães Rosa_Estante (3) e de lá retirar esta obra-prima (no meu caso, lida no final da década de 70, e desde lá encadernada e não mais revisitada, senão para citações, p.ex. sobre as poucas referências a Goiás), pois que de fato o desejo criado pela leitura pode ser mesmo musical, como se aquele que se (re)aproxima deste livro-rio, ouvisse uma sinfonia.
E falar de “Grande Sertão:Veredas” parece mesmo ser falar de música – como quer Vargas Llosa no prefácio da edição francesa (Vargas Llosa sobre Grande Sertão:Veredas) : “…como os sons ganham numa peça de música uma natureza autônoma, neste romance a linguagem conquistou sua independência, ela basta a si mesma, é seu próprio começo e seu próprio fim. Uma tal leitura, que se deixasse submeter a um encantamento fonético, sucumbindo à magia verbal, faria aparecer o romance de Guimarães Rosa como uma torre de Babel miraculosamente suspensa acima da realidade humana, separada dela e entretanto viva, um edifício mais próximo da música (ou de uma certa poesia) que da literatura”. Ou, para Asensio é como falar de uma “imensa sinfonia… que é urgente escutar de novo, e reler, como todo grande romance deve ser relido não uma ou duas vezes, mas várias vezes, e não apenas para saborear um pouco mais as sutilezas do texto ou compreender de que maneira o autor ocultou eruditamente o segredo de Diadorim ou como o homem se constitui…será preciso reler Grande Sertão enquanto nos sobrar o alento desse «homem humano» tão efêmero quanto infinito.”

Sabe-se que o “Grande sertão…” foi traduzido pela primeira vez em França, em 1965, por Jean-Jacques Villard en 1965, sob o título de “Diadorim“, e de novo sob o mesmo título em 1991, por Maryvonne Lapouge-Pettorelli, tradução reeditada em 1995 et 1997 (cfme. Torres 2009). Concordo com Asensio que : “Diadorim é um título enganoso [para a tradução francesa], pois o original evoca, mais que a personagem de olhos verdes envolta em pesada fragrância erótica, o sertão…” Com vocês, mais uma leitura interessantes e que nos deixa orgulhosos como leitores lusófonos (e de tantos amigos francófonos): mes amis, je vous présente “cette melodie infinie” (Cândido-Torres) : uma releitura francesa deste monólogo infinito e apaixonante do mais fundo Brésil profond : le Sertão.
Guimaraes Rosa_Estante

Por tudo isso, tenho a alegria de republicar hoje o texto deste ilustre amigo virtual Juan Asensio em duas versões.
1 – Asensio sur Guimaraes Rosa en Français; 2 – Artigo sobre Grande Sertão: Veredas, Asensio em Português.

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Fontes: (*) Citações de Juan Asensio do site http://stalker.hautetfort.com/
(1) CARPEAUX, Otto Maria. “História da Literatura Ocidental”, vol.8, pág. 2280.
(2) O desafio de traduzir Guimarães Rosa, TORRES, Marie-Hélène Catherine «Le défi de traduire Guimarães Rosa», Plural Pluriel – revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 4-5, automne-hiver 2009.

Rezando com os poetas (1)

  • VEM DE FRANKLIN DE OLIVEIRA as citações que me inspiram nessa tarde quente de início de feriadão:

“Louvado seja N.S. Jesus Cristo
E a mãe dele – Nossa Senhora, minha madrinha.

Louvado seja o que é d’Ele e d’Ela vem:
ritos, omitos, benditos, são beneditos !

Louvadas sejam suas palavras tão bonitas:
Gloria Patri, Aleluia, Salve Rainha

e também suas palavras misteriosas:
per omnia secula, vita eterna, amen.

Louvado seja este louvado em nome d’Ele
E mais louvado que este “louvado” – Jesus Cristo
mais  a mãe d’Ele – Nossa Senhora, minha madrinha.

Louvadas sejam as virtudes teologais
e entre elas três seja louvada a Fé.

Louvados sejam os santos nacionais
martirizados pelos caetés.

Louvadas sejam as coisas religiosas:
santas missões e procissões, sermões.

Louvado seja o meu país cristão
pelo tempo da Páscoa descoberto
todo enfeitado como um céu aberto.

Louvado seja esse Jesus d’aqui.
Jesus camarada, Cristo bonzão,
a quem todo brasileiro ofende tanto
contando sempre com o seu perdão.”

(Jorge de Lima, Novos Poemas , in Obra Completa, p.306-7, Ed. Aguilar, 1958).
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Oração a Teresinha do Menino Jesus
(Manuel Bandeira)

Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa, não, Teresinha…
Teresinha, Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.

Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No Pelo Sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!…
Santa Teresa, não, Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.

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(*) Fontes: OLIVEIRA, Franklin de. “A Fantasia Exata”, Zahar Editores, RJ, 1959, p.130-1;
BANDEIRA, Manuel. “Poemas Religiosos e alguns libertinos”. Seleção e posfácio de Edson Ney da Fonseca. S.Paulo. CosacNaif, 2007, p.50.
post-Post:
Como não me contentava com o final do poema, como transcrito por Franklin de Oliveira, fui à antologia da Aguilar e completei a transcrição que dá sentido ao “Cristo bonzão” rima fácil para Perdão. O que se estende a são Jorge, da trindade sagrada dos poetas católicos do Brasil (junto com Murilo Mendes e A.F.Schmidt). E tenho dito, por hoje.
Fraternellement à vous,
Beto.

Mirada da Janela de esquina do meu primo

Num desses dias de insônia, provavelmente causada pelo desassossego que me traz a campanha política 2010 no Brasil, eis que reencontro o livrinho de E.T.A. Hoffmann.
[Agradeço ao amigo que tenta corrigir a fórmula que adotei por "EIS QUE NUMA NOITE DESSAS, de insônia, ..." etc. Nada mal, mas fica o "erro original" para provar minha teimosia, dado que a insônia persiste pelo(s) dia(s) que a segue(m).]

A alta popularidade deste E.T. em França já me causara interesse pelo livro, antes de vê-lo na estante virtual da Cosac Naïf e não hesitar nem um pouquinho em comandá-lo pela internet (by the way, quase não vejo livros  da CN nas prateleiras de nossas livrarias, e você?). Bem, aí está que o livro aporta em minha casa junto com outro que logo passa na frente, por conta de minha alegria com a poesia brasileira e, em especial, com o poeta da Estrela da vida inteira – como já comentei, de resto, em outro blog (e nem é assunto que deveria aportar aqui, agora com E.T. na cabeça). Enfim, eis-me às 2h00 a.m. em meio à insônia e com o volumezinho caprichado de Hoffmann em mãos – “A JANELA de esquina do meu Primo”.

Editora Cosac Naify
Eu já havia pensado em um ensaio possível sobre janelas de minha casa, d’onde vejo poucas coisas e alguns bichos. Eu que moro numa verdadeira chácara hoje (apesar de ser um sujeito urbano, incluindo os medos ancestrais de que todo bicho urbano é presa fácil). Eu que não vejo um primo sequer neste século e há muito tempo, diria: há séculos, vi-me (wow! acho que isso existe) diante de meus primos queridos – uma sucessão de Betos… todos falando sobre olhares pela janela. Eu, um aprendiz de olhares, aproveitei tanto naquela noite que até esqueci a política para me concentrar em olhares.
Meus neurônios  cansados me trouxeram de pronto memórias de leituras e o primeiro professor de memória de fato foi o velho Honoré De Balzac, para quem não haveria escritor (provavelmente falava de romancista, não vou reabilitar citação ao pé-da-letra, pois que não me interessam agora e sim o fluir da memória do insone – coisa em que Marcel Proust seria melhor citação exata) sem a capacidade do olhar. Lembro-me que, desde logo, quando me acudiu a ilusão de ser escritor– coisa que fustiguei de minha vida a long time ago –, (pois) o pré-requisito não preenchido faltava-me essa capacidade de olhar. Enxergava razoavelmente bem até que o oculista me segredou que as dores de cabeça que me fustigavam nas aulas e no cinema seriam pela ausência de foco, decretando-me o uso dos óculos, coisa que nunca mais abandonei ( eu uso óculos pela miopia, mas não pela cegueira política, penso agora enquanto rabisco essas linhas – lembrando-me claramente de como abominei o posfácio desse livrinho pela leitura dispensável do sr. Mazzari. Depois do que, eu preferi ter passado a noite na taberna Lutter & Wegner do que ter gasto preciosos  minutos de meu sono – de novo quase perdido com esse posfácio que logo abandonei para não me agastar…).
O livro inteiro do E.T. Hoffmann E.T.A.Hoffmantem os pés no chão do romantismo alemão – apesar de nascido num andar elevado (física e espiritualmente), lança as bases do realismo que se avizinha. Talvez por isso Balzac o tenha lido com tamanho interesse. Afinal, a França que não demonstra especial gosto pelos vinhos do vizinho (alemão) nem tampouco por sua política expansionista (e econômica), parece ser devota de sua literatura. É, através da contra-capa escrita por Modesto Carone, que fico sabendo que “a prosa do ultrarromântico” Hoffmann foi considerada “superlativa” na terra de Balzac (e alhures). E quem ler vai gostar (promete Carone – e estou tendente a confirmá-lo), mesmo que não esteja habilitado a enxergar como o criador da psicanálise (Sr. Freud) ao “desentranhar questões do duplo e do grotesco” num dos contos do E.T. (O homem de areia).
Confesso preferir a verdade proustiana que substitui o olhar e o anotar pela “radiografia” dos seres humanos (matéria essencial , mas isso já não era matéria daquela insônia, pois que o sr. Marcel Proust em suas mais de 3 mil páginas e mais de um milhão de palavras talvez tergiverse quando diz que não tomava notas etc. etc. – o que tinha, sim, era uma enorme capacidade de ser um observador privilegiado para “estender o Olhar” na tradução literária do que observava. Foi uma espécie similar à do “pobre primo doente” a quem só restava a janela. E assim no meio do madrugada, lembrei-me da biografia de Proust elaborada por William Sansom e o detalhe perdido sobre a importância da janela a esse “outro enfermo” que encontra alegria especial em escrever sobre o que vê e do que não pode participar ativamente).
Foi assim que ele passou a contar-me toda sorte de histórias elegantes, que ia inventando a despeito das muitas dores”.
Sob “um teto baixo em um andar elevado”, o Primo da história de E.T.Hoffmann produz uma obra que é “a fantasia (que) acende e constrói para si uma abóbada alta e divertida, adentrando o céu azul e brilhante”.
Do interior do quarto, a vista da JanelaE eis, para finalizar esse post, duas observações nada literárias mas afetivas sobre a leitura do insone.
Um grande amigo – que em vida tenha, talvez, me dado as melhores lições e que, ausente, continua o mais presente em minha vida de empresário. Pois bem, esse amigo querido (já convivendo as delícias do “andar bem elevado”), usava duas expresões traduzidas ao jargão mineiro (e popular) que vejo reabilitadas no E.T. Hoffmann e descubro citações do poeta Horácio. Ei-las:
Et si male nunc, non olim sic erit” (“E se por ora o mal se faz sentir, não será sempre assim”, citação das Odes de Horácio – livro 2, X, verso 17).
Parturiunt montes nascetur ridiculus mus”, ou seja: “Os montes estarão com as dores do parto, (mas) nascerá (apenas) um camundongo ridículo” (trad. de Paulo Rónai, cit. na edição da Cosac Naïf).O que em boa linguagem (mineira) de meu saudoso mestre Alfredo Talarico Filho foi traduzido como:
“Não há Bem que sempre dure, nem Mal que nunca se acabe”.
E eis que “a montanha pariu um rato”.
Essa última, então, a tradução perfeita dessa fuga de minha insônia que aqui deixo registrada, como minha leitura dessa rápida alegoria, dessa “imagem fiel da vida eternamente mutável” feita por um doce E.T.(*)
- “Pobre blogueiro!”
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Fonte: “HOFFMANN, E.T.A.(1776-1822). “A Janela de esquina de meu Primo”. Tradução Maria Aparecida Barbosa. Ilustr. Daniel Bueno. Posfácio: M. Mazzari. Cosac Naïf, S.Paulo, 2010. © Todos os Direitos reservados – Ilustrações do site da Editora cit.).

Post-post (I) – Não preciso dizer o quanto fiquei honrado com a visita de Meg para comentar esse post. Provocativa no melhor sentido do pensamento, a amiga lembra-se de seu tempo de professora e me leva a pesquisar sobre “Doppelgänger”. Essa primeira nota vem de Otto Maria Carpeaux, para falar do ‘duplo’ de Hoffmann. Eis a citação, tirada d’A História da Literatura Ocidental, vol. 5):
Excelente crítico musical – o primeiro a reconhecer a grandeza e a significação de Beethoven, Hoffman foi ao mesmo tempo um compositor genial …Literatura e música não esgotaram os talentos desses sujeito extraordinário, pintor muto bem dotado, caricaturista, diretor de teatro … boêmio dissoluto, bebedor apaixonado – o protótipo do artista romântico. Esse mesmo Hofmann, artista, visionário e bêbedo de noite, era de dia um funcionário modelar, um dos juízes mais honrados e – em tempos difíceis de reação política – dos mais independentes que houve jamais na Prússia. Levou verdadeira existência dupla, como o dr. Jekyll e Mr. Hyde da novela de Stevenson; e transfigurou essa sua condição humana na composição singular do romance ‘Kater Murr’, em que as páginas são escritas, alternadamente, uma pelo fantástico maestro Kreisler e a outra pelo gato Murr, encarnação do prosaísmo burguês.
Bem, é isso, por ora, até porque nunca havia lido sobre “Doppelgänger” antes e pretendo retornar ao tema proposto pela mestra Meg, em outro(s) post-Posts.
Fraternellement à vous,
Beto.

Paulo Hecker Filho (2)

“Sei que os fatos nos atravessam como a água aos campos – sumindo… Mas deixam atrás uma verde novidade, delícia dum momento, embora! delícia.

“Cadernetas [em viagens]… são ladras da vida.
“[se]só restar da vida o que ficou nas cadernetas, ou muito pouco, sensações esparsas surgindo súbito em recordações que as desfiguram, manchando-as da emoção de as termos tido nalgum dia irrecuperável.

“Só me consolava a frase de Ciro dos Anjos:  `Carlota, a vida é um tecido de equívocos`…

“Sinto-me em estado de prece, isto é, cansado. Menos corporalmente que no tempo.

“A cidade está cheia de gente. Pela primeira vez [viagem a B.Aires]. Dizer que está cheia de gente, que chuva de êxtases! Sou capaz de ser Buenos Aires inteira; e como te agradeço a sensação, meu ilimite.

“A amizade também amanhece com o dia.
“Agora no avião não há mais nada; Buenos Aires cada vez mais longe, mais longe… Enxuga-se meu lirismo da noite de ontem, hoje de madrugada, assobiando aquele blue pelas ruas frias, apalpando sôfrego as paredes, espetada na garganta a angústia de deixar tudo aquilo, de partir…Ah, não estar mais ali, nunca mais, ainda que volte outra vez e espalme de novo a mão numa das janelas da Confiteria Cabildo – essa mesma em que escrevi que ia ver “Las Burlas Veras” de Lope [de Vega], todo trêmulo da emoção de conhecer – e recolha a mão cheia de pó, bendito pó de saudade e distância, estrangeiro e noite, e a deixe sem limpar imediatamente, sentindo-a pesada dum querido resquício da cidade que ia me escapar, que me escapava…
“Balbuciava “Buenos Aires… Buenos Aires…” entre os gritos que o blue plantava em minha alma. E nas lágrimas que eu não vertia se concentrava um amor que alguns dos teus filhos, cidade, terão tido por ti. Alguns dos teus filhos…
“E eu ia me embora, já estava indo, algumas horas, instantes nos enlaçavam! E tudo que eu não mordera em ti, cidade, tudo que não soubera ver e nem sequer tive tempo de olhar, parecia se transformar nos olhos úmidos das tuas lâmpada num último apelo de amante sequiosa, num desnudar-te, num ferir em mim a fraqueza destes braços que impossivelmente te abraçariam! (…)
ψ
“Ficção é exemplo, e a razão do romance exemplificar com a verdade. Um Madame Bovary é uma encruzilhada de caminhos heróicos, em que os próprios Homais o são até o heroísmo, até a arte. Por que escrever romances senão para transcender a realidade numa atmosfera respiravelmente heróica? Para que escrevê-los senão para ensinar aos homens um modo de respirá-la?
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Fonte:
HECKER Filho, Paulo. A Alguma Verdade: Crítica e autocrítica, Porto Alegre, Ed. do Autor, 1952.