Mais que140 toques…não é twitter!

É mais fácil publicar músicas ou 140 caracteres. A preguiça me impede de vir mais vezes aqui mostrar a voz do dono do blog.  O mais das vezes, orquestro vozes e tons.

César Miranda, sim, publica originais e inovadores 2000 toques.

Isso me faz lembrar de meu tempo de estágio em jornalismo em que havia laudas e laudas para preencher e se exigia cumprir uma pauta. Éramos os filhos da pauta… Agora, somos filhos do pluto: latindo a 140 toques, numa verdadeira conversa de malucos.

Quando jovem eu amava as manchetes, mas imagino que o mancheteiro de O Globo deva ser uma pessoa infeliz, obrigado que é a se expressar em um texto blocado de uma ou duas linhas e x (poucos, pouquíssimos?) toques.

Não me sinto confortável com 140 toques, mas também não me sinto confortável com a pletora moderna de (des)informação: escrever, escrever, de vez em sempre mentir…

Caetano tem a certa aproximação: “quem lê tanta notícia?” Ou seria: quem mente em tanta (des)notícia?

O fato é que aqui em meu espaço de flâneur internet me permito variar do minimalismo da citação ao espaço pensador da resenha de livro, não mais que isso: não há filosofia ou pensamento que me faça perder em variações.

Trazidas por Nivaldo Cordeiro ou Fal Azevedo, as pessoas que aqui chegam podem migrar para Voegelin ou Cesar Miranda (ou vice-versa). O normal é continuarem vindo por conta de Françoise Hardy e Piero Della Francesca…Eric Voegelin, Emily Dickinson etc.

Ou, pessoas chegam por conta da respeitável aproximação com  SS. o Papa Bento xvi que cita Hoederlin  ( e sem fazer referência à inscrição no túmulo de Pascal ), onde se lê:  non coerceri maximo, contineri tamen a minimo, divinum est – não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino!

Sinto também que as pessoas que me visitam chegam até aqui movidas por um assunto e depois se movem para outros: dia dos avós, eric voegelin, aznavour etc. etc. toda a francofonia e todo o catolicismo incluso…

Aos pacientes que continuam me visitando, prometo mais ânimo para escrever 200 toques or more… além do Twitter e do Blip.fm.

Post-post: Lembrei-me de um texto antigo do professor Olavo de Carvalho que tem a ver com isso. (Re)Leiam, vale a pena (post original de 12.julho.2004,sob o título “Uma Conversa de Maluco Foi”):

Foi pensando sobre o avassalador crescimento do Orkut – que é uma iniciativa do oráculo pós-moderno (Google) -, sobre a multiplicidade de opiniões e a profusão das “comunidades virtuais” que ali se hospedam, quando me veio à mente este texto do filósofo Olavo de Carvalho em sua Aula 4, “Aristóteles”:

É preciso uma certa homogeneidade do imaginário para que as pessoas consigam opinar diferentemente sobre as mesmas coisas. Uma certa unidade do mundo imaginativo, simbólico, artístico etc. é condição sine qua non para que possam surgir correntes de opinião que de fato reflitam os conflitos e as diferenças nascidas da experiência real daquela comunidade.
(…)
Quando falo do imaginário organizado, estou tomando como exemplo alguma sociedade bem simples, uma tribo de índios que vive numa paisagem mais ou menos estável, conhecida de todos, e onde os elementos básicos da experiência humana também acabam sendo conhecidos de todos. Desde que o sujeito nasce até ele ficar adulto, ele mais ou menos teve experiências parecidas com as dos outros membros da tribo e sabe como expressá-las. Este seria o caso mais simples, portanto, o caso ideal. Quando dois índios dessa tribo imaginária divrgem, eles sabem sobre o que estão divergindo, porque o fundo de experiência é comum e a linguagem simbólica na quala experiência se expressa também é comum. (…)

À medida que a sociedade humana se integra em comunidades maiores, integrando também elementos de proveniências culturais diferentes – como, por exemplo, todos os grandes impérios da Antiguidade, que se formam por agregação de pequenas culturas -, então, aí se instaura a Torre de Babel. A partir desse momento surge a necessidade de novas formas artísticas que consigam expressar a experiência comum. Às vezes o artista consegue fazer isso, às vezes não consegue. Na situação brasileira atual, por exemplo, creio que há mais de 30 anos eu não vejo uma obra de arte literária, teatral, cinematográfica que tenha algo a ver com a experiência real brasileira. Tudo me parece repetição do que foi dito numa outra etapa. Nós estamos no ano 2002, e as formas artísticas são exatamente as mesmas dos anos 60, com tudo o que aconteceu depois. Então isto aqui ficou enormemente complicado, mas parece que que a imaginação artística não está conseguindo abarcar e dizer o que a gente vivencia no dia-a-dia.

Na medida em que acontece isso, as discussões públicas, que são evidentemente a confrontação dos discursos retóricos, começam a parecer uma conversa de maluco, porque o indivíduo acredita que está expressando uma coisa que tem validade coletiva, que é a experiência coletiva, mas não é; às vezes é experiência só dele, do grupo dele, aquilo é muito subjetivo. O interlocutor, por sua vez, às vezes não percebe que aquilo é subjetivo, não percebe que o indivíduo está falando somente dele mesmo; acredita que está falando dele e responde. Daí, é totalmente inviável essa discussão – é por isso que nenhuma discussão sobre nada a chega a conclusão alguma.
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Fonte: “Aristóteles: Aula 4″ por Olavo de Carvalho, Coleção História Essencial da Filosofia, Ed. É Realizações, S. Paulo, 2003.

Ano da França no Brasil (2)

A França oficial e o Brasil corporativo agem para divulgar a cultura francesa.MARC CHAGALL NA CASA FIAT
Pessoalmente, essa é uma exposição que gostaria de (re)ver:
Marc Chagall na Casa Fiat de Cultura em Bh.

A exposição está em cartaz na capital mineira até o dia 4/10, na Casa Fiat de Cultura.

São mais de 300 obras entre pinturas, guaches, esculturas e gravuras, todas expostas gratuitamente ao público.
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Crédito das Fotos: Pedro Silveira/Entrelinhas data:03.08.2009.

Yves Bonnefoy (I)

DOUVE PARLE

O poeta que leva a Poesia a serio
O poeta que leva a Poesia a serio

Quelle parole a surgi près de moi,
Quel cri se fait sur une bouche absente?
A peine si j´entends crier contre moi,
A peine si je sens ce souffle qui me nomme.


Pourtant ce cri sur moi vient de moi,
Je suis muré dans mon extravagance.
Quelle divine ou quelle étrange voix
Eût consenti d´habiter mon silence?

DOUVE FALA

Que palavra surgiu perto de mim,
Que grito nasce numa boca ausente?
Mal posso ouvir o grito contra mim,
Mal sinto o hálito que me nomeia.

No entanto o grito em mim vem de mim mesmo,
Estou murado em minha extravagância.
Que voz divina ou que estranha voz

Consentira em habitar o meu silêncio?

Fonte: Bonnefoy, Yves. “Poèmes“. Mercure de France, 1978, p.57.  Tradução e organização de Mário Laranjeira publicado pela Editora Iluminuras em 1998. Transcrita deste Site

Emily Dickinson, 23/100*

Nature rarer uses Yellow
Than another Hue.
Saves she all of that for Sunsets
Prodigal of Blue.


Spending Scarlet, like a woman
Yellow she affords
Only scantly and selectly
Like a Lover´s Words.

A Natureza raro usa o amarelo,
Antes prefere outros tons;
Reserva-o todo para o pôr-do-sol
Azul, gasta aos borbotões.


Como a mulher abusa do carmim,
Mas o amarelo, esta cor
Com parcimônia a seleciona, – assim
Como palavras de Amor.

Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de poemas“. Tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes. Ed. T.A.Queiroz/USP, S.Paulo, 1985, p.128-129.
Merecia neste agosto goiano – seco e pleno de amarelos – tal qual os trigais VanGoghianos, deixar outra leitura para a comparação do paciente leitor: um texto de SherazadeH.

Sábio conselho…

“Ora, pois, come alegremente teu pão e bebe contente teu vinho, porque Deus já apreciou teus trabalhos. (…)
Desfruta da vida com a mulher que amas, durante todos os dias da fugitiva e vã existência que Deus te concede debaixo do sol. Esta é tua parte na vida, o prêmio do labor a que te entregas debaixo do sol.”

Eclesiastes 9: 7.

Livros: montanhas e brisas

Na literatura há também montanhas e brisas. Os livros que encontramos são, na maior parte, como as correntes de ar; e sua leitura tem a brevidade e o enfado de uma gripe. Leu-se, sofreu-se, acabou-se…
(G. Corção)

Pensando nisso (como um Twitt estendido), ao lembrar o dia em que fechei a leitura deste autor admirável e um livro doloroso (un tissu pas legère), que me deixam a pensar na frase do Corção e em muito mais, sofrimento que persiste. Léon Bloy é, certamente, mais do que uma corrente de ar.

Emily Dickinson, 22/100*

Hoje o poema de Emily que sempre transcrevo aos sábados vem acompanhado das observações da tradutora Aíla de Oliveira Gomes, retiradas do prefácio de Uma Centena de Poemas. Essas notas são a melhor resposta para o açodamento de alguns críticos que não entenderam a religiosidade na poesia de Emily.

***
“A respeito da religiosidade de Emily Dickinson já se tem dito quase tudo, inclusive se a tem negado, pois alguns poucos críticos a consideram livre pensadora. Em termos latos, Louis Martz a inclui entre os poetas da meditação, como o Keats das Odes, o Wallace Stevens da última fase; e assemelha a natureza de sua poesia à de cunho religioso, não ortodoxo, de Wordsworth e Yeats (1).

“O certo é que sua independência em relação aos cultos protestantes tradicionais da Nova Inglaterra, ou mesmo sua aversão a algumas práticas deles, nunca implicou, para Emily, em afastamento de uma doutrina cristã, de Deus transcendente, Pai, que talvez ela mesma não supusesse tão arraigada em sua alma. Não lhe custou absorver os aspectos não-sectários do próprio calvinismo, fortalecendo com eles sua atitude de renúncia e de aceitação de sofrimento, da qual nunca veio a arrepender-se. Em positivo ou negativo – muitas vezes em negativo – despontam artigos de fé, do princípio ao fim de sua produção poética. De vários poemas, não se sabe bem dizer se são simplesmente de amor secular ou se disfarçam um momentâneo desejo de místico noivado. E a respeito de alguns poucos nem cabem dúvidas (2).

“A fé religiosa que guardou se firmava no primado absoluto do espiritual; na renúncia do transitório em favor do eterno; no sofrimento como viático para o céu. Paixão, morte e ressurreição de Cristo eram dados de sua crença, principalmente depois de seu encontro com o Rev. Wadsworth. Vezes sem conta fala em paraíso.

“Imortalidade, eternidade e céu eram quase sempre entendidos ou desejados como reatamento de laços afetivos humanos e como continuidade da consciência individual – iluminada e iluminante como luz do meio-dia (Consciousness is noon). (3)
“Sem a vocação da vida unitiva e da mística dissolução da personalidade no amor divino, em que pesem seus instantes místicos, parece natural, em Emily Dickinson, como em fiéis cristãos em geral, o conceito, ou, pelo menos, o desejo de Ressurreição em termos de vida humana oitava acima – Éden sem serpente e sem queda, país do reencontro para sempre.

Forever is composed of Nows -
´Tis not a different time
Except for Infiniteness -
And Latitudes of  Home  -

O Para-Sempre é feito de Agoras
Não é um tempo diferente
Senão pela Infinitude -
E Latitudes do Lar.

“Por mais que ela flutue em formulações de céu e imortalidade, apega-se, antes de tudo, à idéia de fim da separação e fim da saudade (a consciência avivada, registrando a surpresa): Eden a´n´t so lonesome / As New England used to be. (4)

“Num poema da mocidade, ela se imagina numa simbólica ao lar e à família, que um dia se afligiu à sua espera:

Tho´I get home how late – how late
So I get home – twill compensate -
Better will be the Ectasy
That they have done, expecting me
When Night descending – dumb – and dark
They hear my unexpected knock -
Transporting must be moment be -
Brewed from decades of Agony.
Embora eu chegue à casa tarde, tarde
Chegar à casa já compensa tudo
Melhor será para eles a Alegria
Do que a que por me esperar têm entretido
-
Quando a noite caindo, escura e muda
Ouvirem o meu súbito batido

Que êxtase vai ser es momento
-
No fermento de décadas de Agonia .

“Na estrofe seguinte se lê, desse reencontro, que ele compensa “séculos de caminho“. O lar, considerava-o sagrado:
Home is a holy thing – nothing of doubt or mistrust can enter its blessed portals…Home is definition of God“(5).
“Por isso, o próprio paraíso havia de ser um Lar em outra vida, onde e quando lhe seriam restituídos os seus “deuses confiscados”, – não mais o lar em que a morte torna “longe do lar” (Home is so far from home, since my Father died, 1875).

The “life that is to be”, to me
A residence too plain
Unless in my Redeemer´s Face
I recognize your own.
…………………………………………
If  “All is possible with” him,
As he besides concedes
He will refund us finally
Our confiscated Gods.

(…)
A outra vida, para mim
Vai ser Morada sem belezas
Se eu não reconhecer a tua face
Na de meu Redentor
Se nada para Ele é impossível
Como Ele próprio admite
Então há de, afinal, restituir-me
Os meus Deuses confiscados.

“Houve momentos em que, esquecida da terra, se sonhou a dileta do Rei – preferida, não por minúcias de observância piedosa, ou por temor de castigo, mas por sua escolha do melor à custa de renúncias, toda a vida.
…………………………………………..
My second Rank – too small the first -
Crowned – Crowing – on my Father´s breast -
A half unconscious Queen -
But this time – Adequate – Erect
With will to choose, or to reject,
And I choose – just a Crown
.

“Jamais aceitou a fé bem instalada e ritualística de sua gente, mas tampouco cessou jamais de bater à porta de Deus e provocá-lo a ocupar-se dela. Se a busca falha e Deus silencia, a dúvida se instala, maldosa, e certos críticos se açodam a flagar esses desvios. Bem mais que eles, porém, ela sabia que a dúvida era quase como um corolário da fé:
………………………………………….
What merit had Goal
Except there intervene
Faint Doubt – and far Competitor
To jeopardize the gain?

…………………………………………..

“Além de poemas de dúvida, e de desesperança, o seu Deus lhe provoca também outros de queixas, recriminações e protestos, em tom desabusado, desafiador ou pungente. Mas não há um só momento de acomodado ceticismo, ou de deliberado abandono do problema religioso, que a absorve sem trégua. Mais para o fim da vida, em 1882, em versos de um coloquialismo muito moderno para a época (disciplina da emoção?), parece sentir-se deslocada, numa humanidade diminuída, porque em fé. Transparece, então, uma incofessada saudade dos ancestrais puritanos:

Those dying then,
Knew where they went -
They went to God´s Right Hand -
Tha Hand is amputeted now
And God cannot be found -

The Abdication of Belief
Makes Behaviour small -
Better an ´ignis fatuus`
Than no illume at all.

Os moribundos, outrora
Sabiam para onde iam -
Iam para a Mão direita de Deus
Essa mão está amputada agora
E não se encontra Deus

A abdicação da crença
Torna a conduta mesquinha -
Vale mais um fogo fátuo
Que nenhum meio de iluminação

(…)

+++++
Fontes e referências:
Dickinson, Emily. “Uma Centena de poemas“. Trad., introd. e notas de Aíla de Oliveira Gomes. Ed. T.A.Queiroz/USP, S.Paulo, 1985, p. 6-9
(1) Louis L. Martz, The Poetry of meditation. New Haven, Londres, Yale Univ. Press, 1954. p.324
(2) Em There is a Zone whose even Years / No Solstice interrupts, 1056 (“Há uma Região cujos Anos iguais / Nenhum Solstício interrompe”)
(3) O Para-sempre é feito de Agoras.
Não é um tempo diferente
Senão pela Infinitude e Latitudes do Lar
.
(4) (…) “O Éden não há de ser tão solitário como New England costuma, às vezes, ser” (em What is the Paradise? (215)
(5) Em Albert J. Gelpi, Emily Dickinson, the mind of the poet. New York, W.W.Norton, 1971, p. 164: “O Lar é coisa Sagrada – nem dúvidas nem suspeitas, transpassam seus benditos portais (…) O lar é a definição de Deus