Adeus a Solzhenitsyn

Uma citação de Eric Voegelin*, para dizer Adeus a Solzhenitsyn:

“NÃO PODE HAVER comunidade lingüística com os próceres das ideologias dominantes. Por isso, a comunidade lingüística necessária para criticar os que lançam mão da linguagem ideológica precisa antes ser descoberta e, se necessário, criada.

Não é a primeira vez na história em que a peculiar situação acima descrita é a sina do filósofo. Mais de uma vez, a linguagem se degenerou e corrompeu a ponto de não poder mais ser usada para expressar a verdade da existência. Tal era, por exemplo, a situação de Sir Francis Bacon quando escreveu seu Novum Organum. Bacon chamou os lugares-comuns não depurados correntes em sua época de ´ídolos`: os ídolos da caverna, os ídolos do mercado, os ídolos da especulação pseudoteórica. Para resistir à dominação dos ídolos – isto é, dos símbolos de linguagem que perderam contato com a realidade –, é preciso redescobrir as experiências da realidade, bem como uma linguagem que as possa exprimir de modo adequado. A situação, hoje, não é muito diferente. Para reconhecer a persistência do problema, basta lembrar Alexander Solzhenitsyn e seu capítulo sobre os “ídolos do mercado” em Cancer Ward (“Pavilhão de Cancerosos”), Solzhenitsyn teve de recorrer a Bacon e sua concepção dos ídolos para defender, contra o impacto do dogma comunista, a realidade da Razão em sua própria vida. Gosto de mencionar Solzhenitsyn, com sua consciência do problema e a competência filosófica patenteada na referência a Bacon, pois seu exemplo, se imitado, poderia transformar radicalmente a atmosfera intelectual de nossos meios acadêmicos. A situação do filósofo nos Estados Unidos em face do clima dominante nas ciências sociais corresponde, em grande medida, à de Solzhenitsyn em relação à União dos Escritores Soviéticos (com a importante diferença, é claro, de que nossa UES não pode se valer da força política do governo para suprimir um literato). No Ocidente, há sempre enclaves em que o trabalho científico pode continuar, em mesmo florescer, a despeito do terrorismo intelectual exercido por instituições como a grande mídia, os departamentos universitários, as fundações e as casas editoriais.”
+++++
*Fonte: pág. 140, “Reflexões Autobiográficas”, E. Voegelin, by Ellis Sandoz, É Editorial, S. Paulo, 2008).

Esta entrada foi publicada em Filosofia, Literatura e marcada com a tag , , . Adicione o link permanenteaos seus favoritos.

Uma resposta a Adeus a Solzhenitsyn

  1. Pingback: volta à realidade «

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>